2.2.1 O espaço físico e o espaço urbano, conceituação de
“cidade”
RANOYA (2003) define espaço como algo morto, inanimado e estático, completando que o que dá vida ao espaço depende da atividade a que ele se destina, ou seja, após a interferência do homem.
Na sociedade capitalista atual, conforme cita FRANCISCO (2002), tudo que se produz é espaço direta ou indiretamente, para isso se remete a Lefèbvre que coloca: “Produzir, afinal de contas, hoje, não é produzir isto ou aquilo, coisas ou obras, é produzir espaço [...]. A mercadoria (o mercado mundial) ocupará o espaço inteiro”. Assim, o espaço se torna a grande mercadoria.
FRANCISCO (2002), ainda apresenta em seu trabalho, o homem em seu processo de evolução, quando passa a andar ereto, portanto com as mãos “[...] inaugura a grande caminhada, cada vez mais presente, da "construção", ao mesmo tempo, do humano e do espaço”, iniciando, também, o processo de desconstrução do espaço natural.
SOUZA (1997) discorre sobre o conceito de cidade colocando que “A cidade é uma obra humana”. Define que a cidade é regida por intencionalidades de um mundo de objetos, produzidos segundo procedimentos, determinados por materialidades. É uma negação da natureza, daquilo que é físico. Tudo em decorrência da técnica, que é um saber prático, proveniente do trabalho que vem do grego tekné. A cidade que abriga a maior população do planeta significa nestes últimos séculos e especialmente neste século XX, a efetiva realização do projeto humano. Segundo o autor “A cidade é para Hegel uma etapa histórica, constituindo, depois da organização da família, o momento da sociedade civil, onde se afrontam os interesses egoístas, mas opera uma racionalidade, anunciando a vinda do Estado como idéia de moralidade”. Coloca ainda que a cidade constitui-se no espaço do encontro da diferença, da liberdade e da igualdade. Define que: “A cidade é o lugar, a geografia da existência [...] copresença densa do complexo técnico-científico, das instâncias e dos campos da cultura, da política e da produção econômica”.
SANTOS (2002) trata a cidade como meio ambiente construído dizendo: “[...] constitui um patrimônio que não se pode deixar de levar em conta, já que tem um papel na localização dos eventos atuais [...]. Esses conjuntos de formas ali estão à espera, prontos para eventualmente exercer funções, ainda que limitadas por sua própria estrutura.” Segundo o autor: “Um evento é o resultado de um feixe de vetores, conduzido por um processo, levando uma nova função ao meio preexistente. Mas o evento só é identificável quando ele é percebido, isto é, quando se perfaz e se completa. E o evento somente se completa quando integrado no meio. Somente aí há o evento”.
TOLEDO (2002) apresenta em seu texto que a cidade é o documento implacável de uma sociedade: “Sua cultura está ali impressa; seus valores, ali registrados. Há edifícios que contam o passado ao presente, constatou Alexandre Herculano, e, com os edifícios, todo o patrimônio urbano, poderíamos acrescentar”.
FRANCISCO (2002) coloca que:
“[...] A fixação de grupos em pontos escolhidos do espaço dá origem a vilas, e posteriormente a cidades, como manifestações inequívocas da manualidade consciente na paisagem. Em termos físico-espaciais, a cidade é o grande trabalho do homem. [...] A fixação em pontos do território, a divisão do trabalho, a produção de excedente e a estruturação em classes sociais são as causas da formação e caracterização das aglomerações humanas” (FRANCISCO, 2002, p. 5).
2.2.2 A desconstrução no processo de renovação do espaço
urbano e seus limites
A desconstrução como processo completo da intervenção espacial e das implicações decorrentes das modificações no espaço previamente existente, pode vir a ser desastroso ou não, na medida em que registra na transformação seus impactos atuais e futuros. Decorre do conceito de que não existe construção, mas sim a desconstrução espacial.
A questão está na dialética do construir sem destruir. Quando há a consciência de que a ação antrópica quanto interferência no espaço deve levar em consideração a preservação desse espaço, pode-se estabelecer a relação do equilíbrio espacial. Assim, a renovação do espaço desejado tem seu limite na desconstrução do mesmo.
Segundo FRANCISCO (2002), conceitua que:
“É necessário, portanto, conscientizar-se da destruição dos espaços, não se omitindo de responsabilidades. Ao se falar de construção deve se falar de desconstrução, para resgatar e explicitar a totalidade destruição-construção da ação antrópica com todas as suas vicissitudes. O novo conhecimento espacial que se deseja através do conceito de desconstrução impõe uma nova consciência social. E essa nova consciência pode começar a vir através de uma nova prática espacial. [...] suscitada, por sua vez, por uma nova desconstrução com mais eqüidade, ética e responsabilidade social. [...] A desconstrução é o processo completo entre o antigo e o novo espaço; é o resgate da consciência da destruição que viabiliza a construção; é o resgate dialético da identidade destruição-construção” (FRANCISCO, 2002, p. 14-20).
FRANCISCO (2002) estabelece ainda um critério mínimo de desconstrução:
“Acreditamos que a desconstrução mínima2
, isto é, aquela que preserva ao máximo o espaço existente - sobretudo o natural - dando suporte à vida que aí se desenrola, numa perspectiva de animação da história social, pode ser entendida como equilíbrio do movimento espacial” (FRANCISCO, 2002, p. 23).
FRANCISCO (2002), ainda classifica os espaços desconstruídos, elencados no quadro a seguir, um rol inicial de treze critérios, as respectivas tipologias articuladas aos pares e exemplos dos espaços desconstruídos. Para o autor é importante investir cada vez mais na teorização da desconstrução como forma de preservar vivo e cheio de história os espaços a serem trabalhados. Aborda que a desconstrução espacial resgata o papel do espaço na explicação do social e que a ocupação deve, em novos moldes, levar em consideração as peculiaridades locais, para que o espaço desconstruído via apelo conservacionista, possibilite a reparação dos erros cometidos no passado da evolução da ocupação e/ou utilização do espaço, tanto na reconstrução como na melhoria da solução anterior. Apresenta o espaço desconstruído aos pares, pretendendo mostrar sua essência através de valores e situações de posições extremas que caracterizam a riqueza da desconstrução. Cita que a cada intervenção cabe a descoberta consciente sobre o que mudar e de que maneira fazê-lo e a importância da conservação do espaço existente de forma organizada, continua e sem ruptura absoluta.
2 No Quadro 2.1. - “Desconstrução do espaço existente - uma tentativa de classificação” apresenta-se, aos
pares, uma tipologia da desconstrução. A desconstrução mínima é um dos diversos exemplos apresentados.
QUADRO 2.1 – Desconstrução do espaço existente – uma tentativa de classificação.
Critério Tipologia Tipologia
1
Natureza Natural Derrubada de mata ciliar ou galeria, ao lado de cursos d’água; loteamento novo; sucessão de cortes e aterros para a definição do sistema viário de área loteada;
construção de lagos artificial; qualquer tipo de canalização de córregos e rios.
Adaptada Empreendimentos de reflorestamento; reformas de edificações; demolições de
edifícios.
2 Direta Construção de enrocamento de acesso e de cais de porto.
Pertencer ou não a área objeto
de intervenção Indireta
Assoreamento à montante da corrente marítima provocado por obra à jusante; impermeabilização generalizada do solo nas cidades, embora as enchentes aconteçam em pontos determinados; “piscinões”.
3
Intensidade Mínima Aplicação de gabião em trecho de margem de corpo d’água; reforma de edificações; revitalização urbana.
Máxima Canalização de córrego; demolição de edificações; reurbanização.
4
Abrangência Parcial Destruição parcial de mata ciliar; renovação e/ou reabilitação de uma edificação ou área urbana.
Total Destruição total de mata ciliar em trecho de rio; implosão de edifício.
5 Rural Derrubada de mata; loteamento de chácaras; introdução de novos cultivos.
Localização
Urbana Remodelações de jardins/parques públicos; reforma de edifício; loteamentos habitacionais e industriais urbanos.
6
Tipificação Lote Derrubada de árvores para permitir a edificação; corte e aterro para implantação de projetos; reformas e ampliações residenciais e de plantas industriais.
Gleba Construção de arruamento / loteamento; aterros sistemáticos de pequenos cursos
d’água e suas nascentes.
7 Curta Demolição seguida de nova construção.
Duração Longa Demolição não seguida de nova construção; “verdissement”.
8 Conservada Reforma / remodelação de edificações não deterioradas.
Estado de
Conservação Deteriorada Reforma / recuperação de edificações deterioradas; intervenções em áreas degradadas (zonas portuárias, industriais, áreas aterradas).
9
Existência de Livre Vilas operárias desabitadas em fazendas; terras sem uso definido; improdutiva”; prédios industriais e residenciais desocupados; “vazios urbanos”. “terra
ocupação/uso Ocupada Remodelações / ampliações e / ou obras de conservação de espaços ocupados.
10
Existência de construída Não Obras de loteamento; implantação de parque urbano linear ao longo de corpo d’água.
Construção Construída Ampliação de edificação; execução de arborização urbana.
11
Preocupação Alienada Espaços definidos sem preocupação social e com prevalência da técnica sem controle social.
Político-social Engajada Espaços trabalhados com ética, preocupação e engajamento social.
12
Motivação Pacífica Obras espaciais necessárias em geral; o quotidiano espacial, com suas reformas e transformações constantes.
político-
ideológica Violenta Espaço destruído em atentado terrorista de Estado ou de grupo político (exemplo das guerras e do desmanche do WTC em Nova York - USA).
13 Artística Obra onde se tem a preocupação de buscar o belo seja no objeto ou pelo
julgamento do observador. Preocupação
artística Não artística Obra sem nenhuma preocupação artística, onde domina o econômico numa funcionalidade duvidosa.
Fonte: FRANCISCO, 2002, p. 24
Acredita-se que se já há algum tempo a desconstrução mínima fosse praticada, possivelmente não subsistiria locais com intensidade absurda de degradação como é o caso das áreas centrais das cidades e nem mesmo se teria de priorizá-las como espaço a serem revitalizados, principalmente os centros históricos onde geralmente concentra o maior número de edifícios significativos e emblemáticos da estrutura urbana das cidades portuárias.