Pensando em alguns exemplos de Suppes (1983, p.81) com algumas ligeiras adaptações, podemos constatar que muitas informações embora não satisfaçam a probabilidade dretskiana, são usadas em nosso cotidiano. É o caso, por exemplo, quando alguém chama seu advogado para algumas consultas jurídicas urgentes, mas ele está de férias. Seu escritório informa que eles não sabem exatamente onde ele está, mas eles têm informações sobre seus planos de viagem. A implicação óbvia e implícita é que eles têm informações sobre o seu paradeiro, mas não sabem exatamente onde ele está. De posse dos seus planos de viagem do seu advogado, um auxiliar lhe informa que ele viajou ontem e que deve chegar ao ponto de partida do litoral amanhã cedo. Assim, podemos considerar que o cliente ao tomar conhecimento dos planos de férias de seu advogado poderia dizer: “Bem, ele estará certamente no ponto de partida de sua viagem amanhã cedo, uma vez que deve levar um tempo X para percorrer o trajeto”. Quer dizer, ele não está no escritório e ainda não chegou no ponto de partida de sua viagem. Você agora sabe do paradeiro por meio de uma redução de possibilidades. Nesse caso, comumente nós ficamos satisfeitos com esse tipo de conhecimento. Embora não nos diga exatamente aonde está o advogado, a informação é verdadeira e nos permite tomar decisões de modo satisfatório.
Outra situação bem corriqueira pensa Suppes (idem), é o caso em que alguém pede a uma corretora de uma agência imobiliária uma informação sobre imóveis para fazer um investimento financeiro na compra de uma casa. Podemos solicitar: "Você pode me passar informações sobre as casas para venda no munícipio de Eusébio até R$ 400.000,00 (quatrocentos mil reais)?" As informações que ela nos dará serão de um tipo estatístico e parcial, uma vez que como compõem uma lista ou catálogo atualizável, as informações que
serão transmitidas podem não incluir todas as casas disponíveis com esse perfil. Mas nenhum de nós estará chocado ou surpreso com esse estado da informação obtida. Nós a tomamos de modo situado e a usamos com razoável intercâmbio, estando conscientes que estas informações não esgotam as possibilidades sobre o que foi solicitado. Mas por outro lado, estas informações restrigem o universo dos imóveis para venda no Ceará inteiro a duas condições: Estão situadas no município de Eusébio e custam até R$ 400.000,00.
Em matéria de ciência, a situação não é menos problemática. Barry Loewer (1982, p.297) apud Suppes (1983, p.81), destaca que em relação ao contexto da ciência, a probabilidade de um raio alfa ter sido emitido dado que o contador Geiger76 registra 1, implica em que o contador carrega a informação que um raio alfa foi emitido. A questão é que, como é bem conhecido, em qualquer tipo de contagem de experimentos envolvendo partículas, sejam raios alfa ou outro elemento de estudo, a eficiência do contador é um problema. Mas parece absurdo dizer que a informação registrada no contador por meio do experimento não permita aos pesquisadores conhecerem um estado de coisas e agirem com base nesses parâmetros.
Nesse cenário de limites de medição e imprecisões, Arbib indaga: “Mas será que isso nos força a concluir que os cientistas nunca tenham conhecimento, embora em alguns casos eles possam aproximar-se do conhecimento, entendido de modo aproximativo e “mutável”? (1983, p.64. grifo nosso).
É inegável que pessoas em seu quotidiano e pesquisadores em seus campos de ação estão constantemente diante de tais informações parciais ou incompletas. Em suas atividades esses profissionais levam em conta suas referências acumuladas, fazem-se anotações, reflexões e em seguida emitem conclusões. Ao produto desses procedimentos, de um modo geral, chamamos comumente de conhecimento.
As críticas à referida exigência são de fato persuasivas. Mas isso ao nosso ver, não elimina a questão pelo tipo/taxa de certeza fornecida pela informação. Entendemos que a resposta a essa questão poderia vir por meio de alguns ajustes à exigência dretskiana. Essa revisão deveria levar inicialmente em conta as regularidades nômicas situadas em diferentes sistemas termodinâmicos. Este estudo nos levaria à compreensão de que a taxa de preservação da informação tende ser maior em sistemas fechados e isolados, mas tende a ser menor em
76 Usualmente chamado de contador Geiger ou contador G-M. Trata-se de um dos tipos de detectores de radiação
mais antigo que existe. Este instrumento de medida, cujo princípio foi imaginado por volta de 1913 por Hans Geiger, foi desenvolvido por Geiger e Walther Müller em 1928. Devido à sua simplicidade, baixo custo e facilidade de operação, esse detector continua a ser usado atualmente.1) Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Contador_Geiger, Acesso 03/07/2015.
sistemas abertos ou semi-abertos. Nos sistemas isolados, por exemplo devido as pressões das regularidades nômicas bem como de constraints a perda de informação é menos intensa do que em sistemas abertos, onde as interferências do ambiente ocasionam maior interação e perda de informação. Dado que a “informação” é de grande importância na geração do conhecimento, a compreensão do comportamento desses sistemas pode lançar luz sobre o tipo de conhecimento possível daí emergente.
Diante desse cenário, argumenta-se que uma investigação partindo das considerações dretskianas, mas que leve em conta certas características subjacentes dos sistemas termodinâmicos, na medida em que podem ser entendidos como submetidos a trocas de informação com o meio ambiente, seria útil para a uma nova conceituação dos fluxos de informação enquanto geradores de conhecimento.
A relação entre informação e os referidos sistemas não seria estranha, pois como destaca o físico Alan Wallace, “a teoria formal da informação... mede o conteúdo de informação com relação à entropia” e como é sabido, “a medição da entropia tem sido um conceito central em termodinâmica.” (2007, p.100). Outrossim, como veremos a noção de sistema aparece pressuposta por Dretske numa relação de interdependência entre regularidades nômicas e geração de conhecimento baseado em informação. Em terceiro lugar, alguns estudos consideram que as trocas de energia e matéria podem ser analisadas em termos informacionais, como por exemplo, os trabalhos de Stuart Kauffman, conhecido estudioso sobre a organização de sistemas. De fato Kauffman (1997, p.105), referiu-se a tais relações em termos de quantidade de informação que “é jogada fora ou não”, durante as trocas de energia e matéria dos sistemas abertos, fechados e isolados.