Segundo Epstein (1986, p.21) as interligações peculiares a um sistema podem ocorrer tanto entre objetos físicos (o sistema solar, órgãos de um corpo, peças de uma máquina, etc.), quanto entre objetos abstratos (uma equação matemática, conceitos articulados e uma teoria científica ou sistema filosófico). Tais interligações podem ocorrer tanto entre os objetos ou alguns de seus atributos - de um planeta do sistema solar, por exemplo - como massa, velocidade e posições relativas. Conforme Epstein, “a partir da conexão entre as partes do sistema emergem graus de “sistematicidade” de acordo com a riqueza das conexões entre as partes.” (idem, p.21). Nesse sentido, a alta qualificação “sistêmica” de um formigueiro o diferencia da baixa taxa de conexões de um monte de areia. Além dessas interligações os sistemas possuem aspectos gerais que os constrangem a assumirem determinadas formas, mas num processo mais ou menos dinâmico, os sistemas também interagem com o meio.
Uma primeira característica dos sistemas em geral, é que eles são circunscritos ao ambiente. A esse respeito, Fagen e Hall (1972) apud Epstein, declaram o seguinte: “Para um dado sistema, o ambiente é o conjunto de todos os objetos cuja mudança em seus atributos afeta o sistema, mas que também são modificados pelo comportamento do mesmo.” (1986, p.22).
Epstein ressalta ainda que outro aspecto de um sistema é que ele exibe determinadas coerções, ou seja, suas partes são ligadas de certo modo e sob algumas regras, e não aleatoriamente (como vimos, algo análogo acontece no fluxo informacional, sendo inclusive pressuposto por Dretske no contexto das regularidades nômicas). Para Epstein, “as coerções ou constrições medem o grau de organização do sistema ou sua negentropia.77” (idem, p.22).
77 Enquanto a entropia pode ser entendida “num sistema termodinâmico bem definido e reversível, função de
estado cuja variação infinitesimal é igual à razão entre o calor infinitesimal trocado com meio externo e a temperatura absoluta do sistema”, em outros termos trata-se da “medida da variação ou desordem em um sistema.”(Houassis, 2009). A negentropia explora o outro lado desses fenômenos, procurando ressaltar os graus de organização - ainda que em alguns casos momentâneo - dos sistemas.
De modo oposto, “a entropia equivale a um conjunto de partes totalmente aleatória, representando uma antítese do conceito de sistema.”(ibidem, p.22).
Emergem assim evidentes relações entre as noções de sistema e a de informação como explorada na MTC por Dretske. Reconhece-se que a informação enquanto existente ocorre sob certa sistematicidade. A informação nesse caso seria potencial de negentropia, opondo-se a entropia. Mas consideramos que a própria entropia pode ser tomada como informativa, na medida em que seja possível notar em sua redundância determinados padrões.
Sendo que os sistemas e a informação comungam dessas semelhanças, consideramos que o estudo das propriedades informativas dos sistemas termodinâmicos abertos, fechados e isolados, no que diz respeito à troca de energia e matéria em seu relacionamento com o meio, (aspectos que podem ser vistos como troca de informação) podem ajudar na explicação de algumas questões tais como: por que por um lado pode-se atribuir alta confiança a um fluxo informacional, tomá-lo como confiável, verdadeiro? Por que em outras situações é necessário que se leve em conta a perda de informação inerente ao sistema, recomendando-se assim cautela quanto à quantidade de informação recebida, bem como as influências na geração de conhecimento daí decorrente? Em que medida fatores naturais e linguísticos interferem na constituição de nossas certezas? Essas questões acarretam implicações sobre as noções de verdade e do conhecimento?
Como veremos logo mais, de acordo com Kauffman (1997), é possível abordar os referidos sistemas em termos informacionais. Na abordagem de Kauffman, isto implica que os fluxos termodinâmicos podem ser entendidos em termos de troca de informação ou fluxo de informação, na medida em que observamos suas características de constituição, suas trocas ou não de energia e matéria com o ambiente. Por exemplo, os sistemas de comunicação telefônicos, quanto às suas propriedades de transmissão, podem ser entendidos como um sistema fechado, uma vez que nesses sistemas os equipamentos são meros condutores do sinal inserido na fonte. A interferência do ambiente/externa é baixa e, dadas as condições normais dos canais, 100% da informação inserida na fonte poderá ser recebida no destino. Quer dizer, nesse exemplo, as condições físicas do sistema garantem o fluxo. Por outro lado, a percepção de um veículo por meio de retrovisores a certa distância pode ser entendida como um sistema de informação aberto, uma vez que os muitos fatores que constituem a composição da percepção neste caso podem variar. A luminosidade, a definição da imagem do tipo de carro, limites de visão, etc, são fatores que podem interferir na constituição e definição do objeto percebido e do conhecimento que se obtém desse cenário. É evidente que nos dois fluxos de
informação desses exemplos são pressupostas certas regularidades e é possível concordar sem prejuízo, sobre a existência de tais regularidades como constituintes desses processos. Tanto é assim que frequentemente nos consideramos autorizados/justificados em lançar mão das informações obtidas de tais percepções para ação imediata e ou planejamento de ações futuras.
Uma vez admitidas essas semelhanças entre a informação e os sistemas, bem como as implicações para a constituição da percepção e do conhecimento, podemos investigar melhor as relações entre a noção de sistema e a informação. É o que se explora a seguir.