• Sonuç bulunamadı

O livro didático, ao longo do tempo, tem despertado críticas e interesse de pesquisadores, principalmente, na Alemanha, França e Brasil. Observa-se que, nos últimos anos, o Livro Didático tem se constituído em uma fonte privilegiada para estudos de natureza histórica, educacional e cultural. Os livros didáticos, em sua trajetória, passaram por sucessivas transformações e, conforme Choppin (2000, p. 13 - 37), converteram-se em

uma ferramenta “polifônica”, com várias funções atuais: avaliar a aquisição dos saberes e competências; oferecer uma documentação completa proveniente de suportes diferentes; facilitar aos alunos a apropriação de certos métodos que possam ser usados em outras situações e em outros contextos.

No Brasil, nos últimos tempos, as investigações a respeito do livro didático têm despertado o interesse de pesquisadores ligados à história e à educação. Nesse sentido, Gatti Júnior (2004, p. 31), esclarece:

No Brasil, só recentemente houve esforços de pesquisadores em constituir acervos de materiais escolares. Diferentemente da França e outros países europeus onde há algumas décadas se desenvolvem trabalhos sistemáticos de investigação histórico-educacional, tanto por meio das pesquisas de base quanto no financiamento de investigações de longo alcance e de longa duração.

Mesmo com o desenvolvimento destes projetos, persiste a tendência de identificar ausências ou silêncios de abordagens a respeito de determinados temas ou sujeitos históricos. Ao inquirirmos sobre os trabalhos, cujo enfoque temático é o livro didático, encontramos em Caimi (2001, p. 77), respaldo teórico, quando defende a idéia de que essas análises privilegiam quatro abordagens:

a) natureza do livro didático: são trabalhos que analisam os limites e possibilidades do livro didático de história do ponto de vista endógeno, ou seja, da sua natureza. Nesse sentido, evidenciam aspectos, como ênfase política, periodização cronológica, simplificação de conteúdos, conhecimento histórico apresentado como verdade única e acabada, entre outros;

b) ideologia subjacente ao livro didático: esta abordagem foi privilegiada na maioria das produções e trabalhada pela análise de conteúdos, sobretudo de história do Brasil. Foram apontadas diversas questões, como a ausência das camadas populares, o tratamento passivo dado ao povo, o escamoteamento da violência dirigida aos segmentos desprestigiados economicamente, a ênfase nos heróis da história, enfim, o livro é apresentado como um instrumento de reprodução ideológica;

c) conteúdos ausentes no livro didático: algumas produções trataram de denunciar aspectos ausentes nos livros didáticos, tais como preocupações ecológicas, o cotidiano das sociedades humanas e dos sujeitos históricos, entre outros;

d) linguagem conceitual e iconográfica do livro didático: dois trabalhos analisaram o livro didático sob o ponto de vista da linguagem – texto e imagem. A compreensão que o aluno tem do livro didático foi colocada em questão por esses autores; assim, a análise perdeu o caráter genérico e o livro refletido a partir daquele que é o seu consumidor, o aluno.

As investigações revelam que os estudos valorizam algumas temáticas em detrimento de outras, como as questões indígenas, dos afro-descendentes, da mulher, da criança, do trabalho, etc. Ao revisitarmos a bibliografia verificamos a existência de novas possibilidades de pesquisa, teorização e perspectivas. Bittencourt (2004, p. 3 e 4), quando aborda essas questões, argumenta:

No Brasil, também os livros didáticos de história têm sido os mais investigados pelos pesquisadores, e foram igualmente muito comuns análises dos conteúdos escolares em uma perspectiva ideológica. Aos poucos, as abordagens ideológicas foram acrescidas de outros aspectos referentes aos conteúdos, como defasagens ou clivagens entre a produção acadêmica e a escolar ou ausências ou estereótipos de grupos étnicos ou minoritários da sociedade brasileira.

À medida que as nossas investigações, leituras e comparações ocorrem, vamos dar buscas em Fonseca (2004, p. 52), que adverte:

Pesquisas publicadas nos últimos anos têm analisado os conteúdos veiculados pelo livro didático da história, os significados de sua ampla utilização no Brasil e as formas alternativas ao uso desse material, que muitas vezes tem se tornado o elemento definidor do processo de ensino.

O livro didático, há muito tempo, é o responsável pela sacralização dos conteúdos históricos no âmbito escolar. As pesquisas e teorizações revelam que o papel do livro didático ganhou espaço, à medida que o mesmo é responsável pela explicitação e sistematização dos conteúdos oriundos da produção historiográfica ou dos projetos de ensino.

Nos últimos tempos, inúmeras situações desafiam autores, editores e professores na busca de alternativas criativas para viabilização do livro didático como instrumental de apoio pedagógico. Os estudos realizados apontam que um dos mais graves problemas, em relação ao livro didático, é a forma como abordam os conteúdos históricos. A esse respeito, é pertinente a contribuição de Bittencourt (2004, p. 319), quando diz:

O conhecimento produzido por ele é categórico, característica perceptível pelo discurso unitário e simplificado que reproduz, sem possibilidade de ser contestado, como afirmam vários de seus críticos. Trata-se de textos que dificilmente são passíveis de contestação ou confronto, pois expressam “uma verdade” de maneira bastante impositiva.

Os livros didáticos merecem ser considerados e utilizados de acordo com suas reais possibilidades pedagógicas e cada vez mais aparece como um referencial, e não como um texto exclusivo, depositário do único conhecimento escolar posto à disposição para os alunos.

Na realidade, os livros didáticos constituem-se em lugares onde podemos investigar diferentes temáticas articuladas à educação. Os mesmos, além de novas abordagens, propiciam investigações, que vão contribuir para a elaboração de outros saberes.

A intenção é propiciar um olhar histórico-crítico que possa suscitar interesse pela contribuição do livro didático na construção/reconstrução do conhecimento sobre um determinado espaço/tempo. Nesse sentido, Choppin (2002, p. 8) esclarece:

o manual é realmente, um objeto complexo dotado de múltiplas funções, a maioria, aliás, totalmente despercebida aos olhos dos contemporâneos. É fascinante – até mesmo inquietante – constatar que cada um de nós tem um olhar parcial e parcializado sobre o manual: depende da posição que nós ocupamos, em um dado momento de nossa vida, no contexto educativo, definitivamente, nós só percebemos no livro de classe o que nosso próprio papel na sociedade (aluno, professor, pais de aluno, editor, responsável político, religioso, sindical, ou associativo, ou simples editor...), nos instiga a ali pesquisá-lo.

O livro didático tem sido objeto de análises realizadas à luz de diferentes bases teóricas e metodológicas, oriundas de trabalhos realizados por variados campos de pesquisa científica. No entendimento de Soares (1996, p. 53-4):

o que tem faltado entre nós é um olhar sobre o livro didático que se lance do lugar de uma História de ensino e de uma sociologia de ensino, ou seja, um olhar que busque uma perspectiva sócio-histórica do livro didático. É olhando desse lugar que talvez se possam entender as polêmicas em curso em nosso país: manter ou rejeitar o livro didático? Defendê-lo ou condená- lo? O que é afinal, um livro didático de “qualidade”?

As reflexões a respeito do livro didático, como objeto de pesquisa, não acabam com esta fase. Ao contrário, à medida que a sua construção ocorre, novos questionamentos, idéias e alternativas passam a ser articuladas ao processo.