1.4. TÜRKİYE’DE UYGULANAN EMEKLİLİK SİSTEMLERİ
1.4.3. Bireysel Emeklilik Sistemi
1.4.3.1. Bireysel Emeklilik Sistemi Tanımı Kapsamı ve Amaçları
Há, de todas formas, um tom exaltado e comovedor nas palavras de Nietzsche. Desde A gaia ciência ele prevê grandes desabamentos, terríveis quedas, profundas depressões e intensos conl itos que abalariam a Europaέ Conforme a sua ótica, trataάse dos estertores do deus morto. O Ocidente se defronta com a morte do ideal, com o vácuo deixado pelo esvaziamento da quimera me- tafísica. Nesse sentido, o diagnóstico nietzschiano parece certeiro e visionário. Ele anunciou que a cultura entraria em um perío- do de declínio, que teria como principal consequência o avanço progressivo no pessimismo e no niilismo. Parece que até agora o seu vaticínio está se coni rmandoμ a crise é grave e corrosivaέ A humanidade parece perdida, os valores já não têm mais peso; as grandes guerras que o i lósofo profetizou aconteceramν o τciά dente parece sobreviver sem expectativas, sem forças, sem rumo. Esse panorama marcou o século passado. E, como já podemos perceber em pouco mais de uma década, estamos, neste século XXI, tomados pelo mesmo sentimento de desencanto e desola- ção. As religiões, as metafísicas, as ideologias políticas periclita- ram, já não dão sustento às crenças, já não são suporte aos valores nem fomentam as expectativas da humanidade.
Se o diagnóstico nietzschiano se apresenta claro e visio- nário, descrevendo com precisão o processo niilista padecido pelo Ocidente na modernidade, o seu prognóstico ainda parece difuso, impreciso e até improvável. Nesse clima pessimista e de- cadente, impõe-se levantar algumas questões: como retornaria o páthos trágico? Não estaríamos muito longe da aceitação dio- nisíaca da vida tal qual ela é? É preciso esclarecer, aos efeitos de elucidarmos estas questões, que o prognóstico nietzschiano ao anunciar a retomada do espírito trágico não diz que aqui e ago-
ra essa nova era chegaria. Essa constatação é dura, cruel mesmo
declínio, de pessimismo e niilismo, e se sua previsão é correta, ainda habitaremos uma época crepuscular. Sem tentar realizar- mos um improvável exercício de futurologia, admitamos que suas previsões também podem ser plausíveis.
A grande idade da retomada do trágico, então, ainda está muito longe de nós. Essa constatação não se nos impõe como algo lamentável e decepcionante? Como aceitar que a que épo- ca na qual vivemos ainda seria uma transição, uma ponte, uma preparação para a retomada do futuro dionisíaco? Isso não nos tornaria ansiosos, céticos, desesperados? É importante tentar es- clarecer essas dúvidas.
Para tanto, inicialmente, é importante ressaltar que, mes- mo com esse panorama, também se imporia uma aceitação trágica da vida; mesmo que nossa época talvez não nos leve à grande po- lítica ou à retomada do páthos trágico, é a época que nos pertence, é a nossa época, portanto, devemos assumi-la. A atitude trágica, então, mesmo em uma época antitrágica e niilista, é a da ai rmaά ção, da celebração do existente. Até no meio da decadência, a vida permanece exuberante, intensa. Lembremos que o próprio σietzsche se autorrotulou como o “primeiro niilista perfeito”ν ele sabia que não veria outra época, que habitaria uma era decadente; portanto, ele se assumiu como niilista, como habitante de uma época crepuscularέ Essa assunção, essa ai rmação de um momenά to histórico declinante, evidencia a possibilidade de colocar-se para além das rejeições e do ressentimento. Ao compreender que fatalmente a sua vida transcorreria num momento cultural de fra- queza, de doença, o i lósofo se colocou tragicamente para além das rejeições. A atitude trágica, numa era antitrágica, consiste não em negar, mas em aprofundar, em radicalizar a decadência, para enxergar as forças que conduzirão justamente para além dessa épocaέ σesse sentido, o “primeiro niilista perfeito” também pode considerarάse um “alegre mensageiro”έ
E nós? Nós, contemporâneos da decadência, rejeitaremos a nossa época? Padeceremos tédio e angústia por transitar em um tempo crepuscular? Ou, ao contrário, no meio do declínio, assu- miremos esta era que é a nossa? Aqui e agora é o nosso tempo,
é o nosso lugar: vivemos a era do niilismo. Assumir essa condi- ção não é sonhar com um amanhã trágico que, com certeza, não veremos, mas acender faróis durante o dia, como o desvairado, de A gaia ciência, para denunciar a decadência.16 É importante perceber que viver numa era sem ilusões não é desolador. Saber que não vamos a nenhuma parte, que não melhoramos, que não melhoraremos, não nos torna ressentidos nem pessimistas. A pro- posta nietzschiana de colocar-se para além da moral, da metafísi- ca e da religião consiste na corajosa adesão a uma época em que o “sonho acabou”, em que não há mais fantasias nem ilusõesέ Isso não impede o jogo e a celebração. Viver artisticamente consiste em celebrar o instante e a vida na sua totalidade, sem ter saudades de um amanhã perfeito e redentor.
Longe da resignação e do cinismo, nós, homens do cre- púsculo, “niilistas perfeitos” sabemos da dureza granítica da vida tal qual ela é. Portanto, não é necessário sonhar com eliminar os seus estigmas. Sabemos, desde Ésquilo, que diante da fatalidade da existência, diante do irreparável do nosso destino individual e coletivo, existe a leveza do “mar de inumeráveis risosέ”17 Em uma época sem qualquer utópica redenção, sem saídas, sem a ten- sa espera de Godot... não esperamos. Habitamos alegremente este universo falho, imperfeito e doloroso. Como antes, como depois, como agora, o sofrimento e a dor são apenas um outro aspecto da
vida e da alegria. Na precariedade, celebremos, canonizemos o
riso. E a arte é uma das formas de ultrapassar a seriedade imposta milenarmente pelos moralistas, pelos metafísicos, pelos religio- sos, isto é, pelos “professores de objetivo de existênciaέ”18 Viver na arte, viver em poesia consiste em saber que, mesmo sem acre- ditarmos na promessa de um futuro extraordinário, podemos estar plenos, íntegros, neste instante agora que passa. Se o celebramos no seu passar, sem ressentimento por já estar passando, teremos a alegria, como aqui e agora, nesta bela tarde ensolarada do inverno de Natal, de viver um momento intenso.
Referências
BECKETT, Samuel. Esperando Godot. In: TEATRO francês de vanguarda. Madrid: Aguilar, 1960.
FEITOSA, Charles et al (Orgs.). Assim falou Nietzsche III: para uma i losoi a do futuroέ Rio de Janeiroμ ι Letras, β001έ
NIETZSCHE, Friedrich. Sâmtliche Werke. Berlin; New York: Gruyter & Co., 1967-77.
______. Assim falou Zaratustra. Tradução Mario Silva. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.
______. Crepúsculo dos ídolos. Tradução Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000a.
______. Ecce Homo. Tradução Paulo César de Souza. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2000b.
______. A gaia ciência. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
______. O nascimento da tragédia. Tradução J. Guinsburg. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
PLATÃO. A república. Lisboa: Calouste-Gulbenkian, 1996. SHAKESPEARE, Willian. Macbeth. Rio de Janeiro: Saraiva, 2012.
Súmula curricular
Miguel Angel de Barrenecheaέ Doutor e Mestre em όilosoi a pela UόRJ/ IόCSν PósάDoutor em όilosoi a pela UERJν realiza atualmente PósάDoutorado na UσICAMP, CampinasάSPέ Licenciado em όilosoi a pela UσLPάArgentiά na. Professor Associado da UNIRIO. Docente e pesquisador dos cursos de graduação em όilosoi a e Educaçãoέ Docente e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Memória Social e do Programa de Pós-Graduação em Educação da UNIRIO. Coordenador de Disciplina de Educação à Distância, όilosoi a e Educação, no Programa CEDERJ/UσIRIτέ Autor de Nietzsche e a
liberdade (RJ: 7 Letras, 2000; 2. ed. 2008) e Nietzsche o corpo (RJ: 7 Letras,
β00λ)έ τrganizador dos seis eventos (1λλκάβ00λ) de όilosoi aμ “Assim falou σietzsche” e das seis coletâneas correspondentesν organizador de outras coά letâneas de όilosoi a e Memória Social e autor de diversos artigos cientíi cos, principalmente nas áreas de όilosoi a, Educação e Memória Socialέ
1 Este trabalho sintetiza as ideias principais da palestra apresentada no IV Colóquio
Internacional de Metafísica (Natal, agosto 2012), organizado por Fernanda Bulhões. Anteriormente, apresentamos uma primeira versão deste ensaio no livro organizado por Charles Feitosa, Miguel Angel de Barrenechea, Marco Antônio Casanova e Rosa Maria Dias Assim falou Nietzsche III: para uma fi losofi a do futuro(Rio de Janeiro: 7 Letras, 2001). Vale destacar que na presente versão do texto, apresentamos novas indagações e questões surgidas no transcurso da atual pesquisa de pós-doutorado, realizada na UNI- CAMP – questões relativas ao projeto: “Grande política: Nietzsche e o diálogo político contemporâneo”έ
2 τ percurso do denominado “erro” metafísico está claramente sintetizado em O crep-
úsculo dos ídolos (ou como fi losofar com o martelo). Em “Como o ‘mundo verdadeiro’ acabou por se tornar uma fábulaμ história de um erro”, σietzsche apresenta, de forma sintética e clara – em seis proposições –, o percurso da metafísica a partir da construção do “outro mundo”, até o esvaziamento total dessa “fábula”, no “meioάdia” da humaniά dade, em que seria retomado o espírito trágico, anunciado por Zaratustra. Esse retorno glorioso do homem às suas forças vitais originárias geralmente é expresso pela fórmu- la Incipit Tragoedia; neste, como em outros textos, Incipit Zaratustra exprime o mesmo pensamento que o “começo da tragédia”έ Sigo, em linhas gerais a versão canônica das obras completas de Nietzsche: Sâmtliche Werke (Berlin; New York: Gruyter & Co., 1967-77). Ver também, neste caso, tradução de Marco Antônio Casanova. O crepúsculo dos ídolos (Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000).
3 Nietzsche sustenta a possibilidade, propiciada pela experiência dionisíaca, da restau-
ração da unidade do indivíduo com tudo o que existe; daí que a dor e a destruição padecidas pelo homem individual sejam “redimidas”, no ritual trágico, pelo reencontro com a naturezaέ A doutrina trágica celebra a continuidade da vida, a permanente l oά ração das forças terrestres, para além da destruição e da morte individuais: “Nos pontos de vista aduzidos temos já todas as partes componentes de uma profunda e pessimista consideração do mundo e ao mesmo tempo a doutrina misteriosófi ca da tragédia: o conhecimento básico da unidade de tudo o que existe, a consideração da individuação
como causa primeira do mal, a arte como a esperança jubilosa de que possa ser rompido o feitiço da individuação, como pressentimento da unidade restabelecidaέ” (τ nasci- mento da tragédia, 10).
4 Sócrates adota uma atitude petulante, soberba, própria de um “otimismo teórico” que
acredita poder conhecer e dominar totalmente a natureza; esse racionalismo exagerado é uma “representação ilusória” ou “ilusão metafísica” que, numa tentativa escatológica, postula a existência de um “outro mundo”, depurado e corrigido dos erros próprios da terra: “Agora, junto a esse conhecimento isolado ergue-se por certo, com excesso de honradez, se não de petulância, uma profunda representação ilusória, que veio ao mundo pela primeira vez na pessoa de Sócrates – aquela inabalável fé de que o pen- sar, pelo i o condutor da causalidade, atinge até os abismos mais profundos do ser e que o pensar está em condições, não só de conhece-o, mas inclusive de corrigi-lo.” (O nascimento da tragédia, 15).
5 O homem que conseguiu se desfazer das amarras que o prendiam à caverna do mundo
sensível, na famosa alegoria de Platão e, após um grande esforço, pôde ver a luz, enxer- gando as formas perfeitas, arquetípicas do mundo ideal, não irá voltar inocentemente a ocupar o seu antigo lugar na caverna. Esse homem que contemplou a luz irá se arrogar a missão de “iluminar” os prisioneiros cegados pelas sombrasέ Essa elevada missão lhe permitirá obter os maiores poderes que o levarão a dominar, educar e conduzir todos os membros da cidadeέ Só ele poderá tornarάse o “rei i lósofo” que administrará, de forma totalmente racional, a polis, sanando os defeitos constantes daqueles acostuma- dos a conviverem nas trevas. Em resumo, esse iluminado terá poderes extraordinários e incontestáveis na cidade.
6 Platão seria, conforme a interpretação de σietzsche, o autor da “forma mais antiga”
do erro do “mundo verdadeiro”μ “τ mundo verdadeiro passível de ser alcançado pelo sábio, pelo devoto, pelo virtuoso – ele vive no interior deste mundo, ele mesmo é este mundoέ (όorma mais antiga da ideia, relativamente inteligente, simples, convincenteέ” – transcrição da frase: “eu, Platão, sou a verdadeέ”)έ (O crepúsculo dos ídolos, “Como o ‘mundo verdadeiro’ acabou por se tornar uma fábula”, 1)έ
7 σietzsche critica a soberba pretensão – e ao mesmo tempo a “ingenuidade patética”
– dos moralistas e de todos os “melhoradores da humanidade” que tentam controlar, domesticar e mudar a natureza do homem, impondo um modelo de ser humano: “E um reles serviçal de moralista qualquer diz ‘σão! τ homem deveria ser diferenteς’έέέ Ele sabe até mesmo como ele deveria ser, este fanfarrão e este beato, ele pinta um auto- retrato na parede e lhe diz ‘Ecce homo!’έέέ Mas mesmo quando o moralista se volta simplesmente para o indivíduo e lhe dizμ ‘tu deverias ser de tal e de tal modo!’, ele não deixa de se tornar risível. [...] E, realmente, houve moralistas consequentes; eles queriam os homens diversos, mesmo virtuosos, eles os queriam a sua imagem, mesmo beatos: para tanto eles negaram o mundo! σenhuma pequena sandice! σenhum tipo modesto de imodéstiaέέέ” (Crepúsculo dos ídolos, Moral como contranatureza, 6).
8 A gaia ciência, I, 1.
10 Nietzsche prevê terríveis consequências – grandes cataclismos e desabamentos – que
se seguirão à “morte de Deus”μ “τ maior dos acontecimentos recentes – que ‘deus está morto’, que a crença no Deus cristão caiu em descrédito – já começa a lançar suas primeiras sombras sobre a Europa [...]. Esse longo acúmulo e sequência de ruptura, destruição, declínio, subversão, que agora estão em vista: quem adivinharia hoje já o bastante deles, para ter de servir de mestre prenunciador dessa descomunal lógica de pavores, de profeta de ensombrecimento e eclipse do sol, tal que nunca, provavelmente, houve ainda igual sobre a terraς” (A gaia ciência, 343).
11 Já em A gaia ciência (γκβ), σietzsche faz referência a um “novo ideal”, próprio
daqueles que denomina “novos”, “sem nome”, dos homens do futuro, daqueles que se afastarão de todas as crenças da tradição metafísico-religiosa do ocidente: “Um novo ideal corre à nossa frente, um ideal estranho, tentador, rico de perigos, ao qual não gostaríamos de persuadir ninguém, porque a ninguém concederíamos tão facilmente o direito a ele: o ideal de um espírito que joga ingenuamente, isto é, sem querer e por transbordante plenitude e potencialidade [...] o ideal de um bem-estar e bem-querer humanoάsobrehumano, que muitas vezes parecerá inumano [έέέ]έ”
12 Nietzsche, após o ano de 1886, principalmente em algumas de suas últimas obras
assim como em diversos fragmentos não publicados dessa época, alude de forma en- fática ao advento de uma “grande política”, em que uma elite de “i lósofos legisladores” dominará a humanidade, impondo novas tábuas axiológicas, transvalorando todos os valores. Para esclarecer esses conceitos, ver, por exemplo, Ecce homo, “O nascimento da tragédia”, 4 e “Por que sou uma fatalidade”, 1έ
13 “σeste escrito deixa ouvir sua voz uma imensa esperançaέ Eu não tenho, dei nitivaά
mente, motivo algum para renunciar à esperança de um futuro dionisíaco para a música. [έέέ] Eu prometo uma era trágicaμ a arte suprema na ai rmação da vida, a tragédia, renasά cerá quando a humanidade puder afrontar a consciência das guerras mais duras, porém mais necessárias guerras, sem sofrer por isso. [...] Tudo neste escrito é antecipação: a proximidade do retorno do espírito grego, a necessidade de Antialejandros que voltem a atar o nó da cultura grega, depois de que tinha sido desatadoέέέ” (Ecce homo, “O nas- cimento da tragédia”, 4)έ
14 Cf. Assim falou Zaratustra, “Das três metamorfoses”έ
15 “VLADIMIRO – Amanhã nos enforcaremos. A menos que venha Godot. /ESTRAGON.
E se ele vierς / VLADIMIRτ – Estaremos salvosέ” (BECKETT, Samuelέ Esperando Go- dot. In: TEATRO francês de vanguarda. Madrid: Aguilar, 1960, p. 52-53).
16 Cf. A gaia ciência, 125. 17 Cf. A gaia ciência, 1. 18 Cf. A gaia ciência, 1.