• Sonuç bulunamadı

Bir ktidar Arac Olarak Devlet

Belgede Foucault’da özne ve iktidar (sayfa 78-80)

B. FOUCAULT’DA KT DAR ÇÖZÜMLEMES

B.5. Bir ktidar Arac Olarak Devlet

Enquanto a maioria das propostas da literatura analisa as construções de voz exclusivamente como operações de promoção ou demoção de argumentos, Kageyama propõe abordá-las através da função semântica de “estativização”. O autor observa que, embora a análise de Shibatani (1985) tenha relacionado todas essas construções pela função de desfocalização do argumento agente, essa função não é suficiente para distingui-las. Além disso, mesmo sendo as expressões mediais descritas, para além da função de desfocalização do agente, como “eventos espontâneos” (cf. Shibatani, 1985, p. 838), essa propriedade, sozinha, também não diferencia mediais, que são estativas, de incoativas, que são eventivas.

Kageyama propõe, então, que a natureza dessas construções pode ser mais bem entendida recorrendo-se ao argumento evento de Davidson (1967 apud Kageyama, 2006), que é incluído na estrutura argumental do verbo como um argumento externo e está sujeito à supressão em alternâncias de voz (Kageyama, 2006, p. 87). Mais especificamente, o autor mostra: i) que existe um processo abstrato de mudança do tipo semântico de uma sentença de descrição de evento para descrição de propriedade;

e ii) que a mudança semântica induz a mudança de valência no verbo, tipicamente observada em passivas, mediais e construções reflexivas.

O autor explica que descrições de evento são expressões oracionais que representam a ocorrência real ou hipotética de um evento particular (processo, ação, acontecimento, etc.) em um domínio específico de espaço e tempo (Kageyama, p. 86). As descrições de evento são, portanto, compatíveis com advérbios de tempo pontuais como at that moment (naquele instante) e correspondem ao que é comumente chamado de predicações eventivas, particulares ou stage-level (cf. Carlson, 1980; Krifka et al. 1995 apud Kageyama, 2006). Descrições de propriedade, por outro lado, são expressões estativas que representam propriedades características ou inerentes do sujeito (p. 87). Esse tipo de expressão corresponde ao que se chama de predicação genérica ou individual-level. Segundo o autor, as descrições de propriedade não se limitam a um ponto particular no tempo e são concebidas como mais ou menos duradouras.

É consenso entre os autores que construções mediais descrevem propriedades mais ou menos permanentes sobre seus sujeitos, uma característica que as identifica, segundo Matsumoto e Fujita (1995 apud Kageyama, 2006, p. 95), com as predicações individual-level. Se a análise dos autores está correta, Kageyama se pergunta a que se deve esse estatuto de predicação individual-level das expressões mediais. Para responder a essa questão ele vai propor que a estrutura argumental associada às expressões eventivas contém um argumento evento, que, ao ser suprimido, muda seu tipo semântico para um estado. Kageyama assume que: i) apenas expressões de descrição de evento possuem um argumento evento; ii) estados individual-level não possuem um argumento evento; iii) o argumento evento conta como um argumento externo na estrutura argumental. Assim, além dos papéis temáticos comuns, como agente e paciente, a estrutura argumental de expressões eventivas possui um argumento evento. Segundo o autor, a estrutura argumental é projetada da informação contida na Estrutura Léxico-Conceptual. Por exemplo, atividades e estados possuem as seguintes estruturas léxico-conceptuais, respectivamente:

(76) [event X ACT]

(77) [state Y BE AT-STATE/PLACE]47

Esses esquemas ilustram como o tipo eventivo de um verbo é representado no léxico. O esquema em (76) ilustra uma atividade, em que o argumento evento encabeça a representação e é projetado como argumento externo na estrutura argumental do verbo. Já um estado, representado em (77), não apresenta esse argumento evento. Segundo o autor, isso não significa que cada verbo esteja associado a apenas uma eventualidade, na verdade, ele assume que verbos são polissêmicos e podem estar associados a mais de um tipo eventivo.

Kageyama assume que regras de mudança de valência, sejam elas sintáticas ou lexicais, podem operar sobre o argumento evento em alguns casos. Por exemplo, no caso da passiva prototípica, cuja função é a desfocalização do agente (cf. Shibatani, 1985), Kageyama assume uma operação a que ele chama de “supressão temática”, ou seja, a passiva canônica48 suprime49 o argumento agente, mas não afeta o argumento evento, representando uma descrição de evento. Segundo o autor, essa análise prevê que apenas verbos que possuem um argumento evento em sua estrutura argumental podem formar passivas canônicas, ou seja, predicações individual-level, como resemble e have blue eyes, não formam passiva. Por outro lado, se uma construção seleciona o argumento evento, e não o argumento agente como alvo da supressão, então tem-se um caso de mudança do tipo semântico da sentença de evento para estado. Essa operação é chamada de “supressão de evento” pelo autor, sendo assumida como a operação que origina expressões mediais, além de outros tipos de construção, como a chamada “passiva peculiar” (ver nota 48).

Portanto, Kageyama assume que a função principal de expressões mediais é a supressão do argumento evento. Sendo a supressão do agente e a supressão do

47

Adaptado de Kageyama, 2006, p. 98.

48

Kageyama distingue entre a passiva canônica, que descreve um evento, e passiva peculiar, que descreve uma propriedade (cf. João está preocupado).

49

argumento evento operações do mesmo tipo, a proposta de Kageyama unifica as construções passiva canônica, passiva peculiar e medial em um único processo. Esse processo é chamado pelo autor de “supressão do argumento externo”, pois tanto o argumento evento quanto o argumento agente são considerados argumentos externos. O processo de formação de expressões mediais proposto pelo autor é representado formalmente da seguinte maneira:

(78) Formação Medial na Estrutura Argumental50 (Ev (x<y>))

a. Supressão de Ev → (Ev^ (x<y>))

b. Supressão colateral do agente → (Ev^ (x^ <y>))

c. Descrição de propriedade por abstração lambda → λy (Ev^ (x^ <y>))

Na operação de formação medial, a supressão (^) do argumento evento (Ev) tem como efeito a supressão colateral do argumento agente (x). Kageyama ainda recorre às línguas românicas, como o espanhol, como evidência da supressão colateral do agente. Segundo o autor, o clítico reflexivo presente nas línguas românicas sinaliza essa operação secundária:

(79) La puerta se abrió a las ocho. (Kageyama, 2006, p. 102) ‘A porta se abriu às oito.’

(80) Esta silla se pliega (*a las ocho). (Kageyama, 2006, p. 102) ‘*Essa cadeira se dobra (às oito).’

O autor propõe que o clítico se indica que o agente foi suprimido, e é entendido como estando em correferência com o paciente na expressão incoativa em (79). Na expressão medial em (80), o autor propõe que o clítico se esteja em correferência com o argumento evento, indicando tanto a supressão do evento quanto a supressão do

50

agente. Entretanto, essa relação entre a operação de supressão do argumento evento e o clítico não fica muito clara no trabalho do autor.

A proposta de Kageyama reforça nossa hipótese de que o caráter estativo das construções mediais seja um aspecto da própria construção, e não do verbo que a integra. Isso pode ser deduzido da associação das expressões mediais às predicações estativas como um todo, e não ao verbo especificamente. Sua análise também corrobora a posição assumida nesta tese de que as construções incoativa, medial e passiva possuem em comum o fato de serem construções que servem à mudança da perspectiva canônica, ou mais especificamente à desfocalização do agente.

Belgede Foucault’da özne ve iktidar (sayfa 78-80)

Benzer Belgeler