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3. BULGULAR ve YORUM

3.2 Bilimsel Bilginin Olgusal Doğası

3.2.3 Bilimsel Bilginin GeliĢimi ve Deneyler

Como o caso Bentinho agrega componentes relacionados à esfera jurídica, não foram poucas vezes que a Justiça nos acionou para dar segmento ao inquérito policial e subsequente abertura do processo judicial.

Em compensação, após inúmeras discussões ampliadas sobre o caso, supervisões clínicas, dentre outras, também acionávamos a Justiça visando a compartilhar o caso junto à Promotoria Pública, além de solicitarmos as orientações jurídicas necessárias para compor estratégias de cuidado na condução do tratamento. Segundo a promotora pública M27, que assumiu o processo, o caso de Bentinho chegou até ela assim:

Foi um ofício lá do Cândido assinado pela psiquiatra indagando sobre algum impedimento à alta hospitalar do paciente, porque, na verdade, ele já tava lá há uns dois ou três anos como internação voluntária e ele tava mostrando interesse em sair. Então, a internação teria de se tornar involuntária mas não tinha razão para tanto. Então, eu cheguei a ter uma entrevista pessoal com ela pra discutir o que tinha acontecido e ela me explicou exatamente como foi o caso: o paciente nunca havia apresentado nenhum tipo de sintoma, e que, talvez engatilhado por uso de entorpecente ele teve um surto ouvindo vozes e as vozes pediam dele sangue, sangue, sangue e com isso ele chegou a matar os cachorros dele, falou que não era suficiente, teria matado a mãe e não era suficiente ainda e ele cortou a mão e o pênis. (Promotora Pública M, 2015)

Porém, dentre várias indagações configuradas para nossa equipe no transcorrer do tratamento, duas questões nos jogavam numa encruzilhada.

Uma se referia à vontade manifesta de Bentinho em responder pelo suposto crime. A outra era a questão da alta hospitalar, em virtude da nossa dúvida em como conduzir o tratamento mediante nosso não-saber gerado por todo o histórico envolvido. Afinal de contas, embora lidemos com pessoas em situação de crise, ponderamos que não é todo dia que atendemos casos como este.

Em vista disso, em 17 de Agosto de 2010, realizamos consulta com a Promotoria Pública.

Ao chegarmos (cuidadores e gestão local), fomos recepcionados pela promotora M em tom de espanto e reconhecimento: “Êta caso difícil ein!? Quando vocês da Saúde Mental me solicitam, eu sei que a coisa é séria! E aí, o que vamos fazer?”

Num clima afável, parceiro e descontraído, que beirava a informalidade, nos colocamos a discutir o caso Bentinho desde a sua chegada, passeando pelo contexto de sua

evolução até aquele momento. É importante destacar a tranquilidade pela qual desenvolvemos essa discussão, mesmo com o peso e a intensidade que o caso abarcava, pois, em muitas situações de discussão de caso no campo da saúde, infelizmente, constatamos a falta de solidariedade e respeito para com o outro, mesmo sendo companheiros profissionais.

M traduzia a linguagem do direito de forma objetiva e clara, nos atualizando perspectivas para Bentinho, como, por exemplo, a possibilidade da interdição judicial, sendo designado o irmão como provável responsável legal. Entretanto, colocamos sobre a mesa as duas questões cruciais para nós até então, conforme já mencionadas: dele responder sobre um suposto crime e a alta hospitalar.

Inesperadamente, a promotora lança a pergunta num misto de dúvida e perseverança: - E se eu chama-se Bentinho para uma conversa aqui, vocês acham que ele aceitaria? Sem pestanejar, respondemos:

- Ôpa! Temos quase certeza que sim. Ele tem um bom vínculo conosco, tem condições de falar e de se manifestar por conta própria.

- Então, por favor, tragam ele aqui. Vamos conversar primeiro antes de tomar alguma decisão precipitada. Um contato pessoal vale muito mais do que mil ofícios e relatórios, né?! Vamos ver o que ele tem pra dizer.

Pausa: a título de informe, no dia 13 de setembro de 2010, foi realizada uma discussão de caso ampliada na câmara técnica municipal, que é um fórum de gestão da rede de saúde mental campineira. Mesmo sendo uma iniciativa interessante, articulada entre gestão local e a esfera de gestão municipal, com participação de nossa equipe de referência como convidada, não houve avanços que favorecessem desdobramentos no tratamento de Bentinho. No entanto, fica registrado que, embora seja fundamental a ampliação de diálogo entre a diversidade de serviços da rede de saúde mental em suas ofertas, não basta apenas contar por si só com a existência dessa rede formal de estabelecimentos e seus espaços formais de gestão, como, por exemplo, se compõe um olhar mais guiado pela macropolítica, pelo mapa instituído, pelo “olho retínico” (Rolnik, 2011). Muito além, é preciso torná-la rede ativa, quente, viva em seu processo de produção na micropolítica do cuidado. Nessa linha, Merhy coloca:

Entretanto, as Redes Vivas são fragmentárias e em acontecimento, hipertextuais, ou seja, às vezes são circunstanciais, montam e desmontam, e às vezes elas se tornam mais estáveis, mas comportam-se mais como lógicas de redes digitais, que podem emergir em qualquer ponto sem ter que obedecer um ordenamento lógico das redes analógicas, como um hipertexto.

Além disso, essa rede pode ser a disparadora, mas o usuário pode estar sendo acompanhado por outros serviços ou ofertas de ações não do campo da saúde,

devido às características do problema, que vai pedindo outras conexões. Neste sentido, é um processo vivo, inclusive porque a própria conexão entre as redes – hipertextuais (digitais), existenciais e institucionais, que ocorrem sem que tenhamos controle absoluto sobre elas – não deixa de ser uma questão para as apostas em um território de cuidado específico. Esse é um ponto que precisa ser levado em consideração. (2014, p. 157)

Em 01 de outubro de 2010, Bentinho vai, acompanhado por nós, até audiência marcada pela promotora M do Ministério Público.

Com a cordialidade de sempre, M inicia a conversa contextualizando o momento do seu pedido de audiência. A seguir, pede para ele dizer, com suas próprias palavras, o que havia acontecido e como estava seu tratamento.

Bentinho resume sua história até a chegada à internação, coloca em evidência sua incompreensão por ainda estar internado: “O que aconteceu, aconteceu. Agora eu quero viver minha vida porque eu não sou louco. Lá é um lugar para quem precisa se cuidar.” Desgastado, demonstra claramente e de maneira coerente o seu descontentamento com o seu tratamento, que se desenrolara ali no hospital psiquiátrico por aproximadamente dois anos, afirmando que precisaria ter alta para ir embora.

Acompanhando esse raciocínio, M pergunta: - Embora pra onde?

- Pra Jundiaí.

- Como assim, o que tem lá em Jundiaí?

- Parece que é uma cidade legal. Lá, eu vou alugar algum quarto, comprar um rádio ou vídeo game e eu vou ficar na minha, quieto. Lá, ninguém daqui vai desconfiar, ninguém vai me achar.

O diálogo prossegue e M questiona sobre as dificuldades que ela soube em relação ao seu tratamento, em especial ao uso de SPAs (substâncias psicoativas). Daí, ele diz:

- Não adianta, eu uso e não tenho vontade de parar de usar. Posso até ficar sem usar um pouco agora que eu tô internado, mas eu gosto e vou continuar usando, só quero a minha alta.

Surpreendentemente, como uma experiente trabalhadora de saúde mental, M intervém: - Olha, eu sei que você está passando por um momento difícil, que as coisas às vezes não ocorrem do jeito que gostaríamos, mas eu acho que ainda tem muita coisa pra você cuidar. Eu conheço o trabalho do Cândido Ferreira e sei que são pessoas comprometidas com aquilo que fazem. Também conheço muita coisa importante no tratamento que é oferecido.

Por exemplo, lá no NOT [Núcleo de Oficinas de Trabalho], tem várias oficinas pra participar e eu acho que pode ser muito importante no seu tratamento.

- Mas e a minha alta?

- Seguinte, segundo o que a equipe especializada que te conhece, que cuida de você me falou, você ainda não tem uma indicação de alta. Mas dou minha palavra, posso te afirmar como alguém que conhece um pouco da lei, eu te oriento focar em seu tratamento, a cuidar de você, isso é o mais importante agora. Quanto a essa história com a Justiça, pode deixar que eu estou conduzindo o processo e qualquer coisa eu te chamo. Mas isso agora eu avalio que não é o mais importante, o mais importante é você com seu tratamento.

Assinalamos, aqui, a relevância fundamental do papel social desempenhado pela promotora no exercício de sua função. Arriscamos afirmar que, apesar dela possuir, em seu mandato social, a força e o peso da “mão da lei”, M optou pelo uso de uma estratégia de intervenção suave, no entre do ato do encontro, emprestando posicionamento cuidador refinado em seu agir, transversalizando em ato o agenciamento no plano do cuidado. Nas palavras de Merhy:

Sobrou-me a possibilidade de imaginar que há no campo das práticas sociais linhas de fuga que vão bem além do território da própria clínica, seja ela qual for, ou seja, a construção de relações sociais que possibilita a construção da convivência cidadã com a diferença coloca a construção do cuidado muito além do próprio campo tecnológico mais comprometido onde ele opera no campo da saúde, como que vazando esse platô de ação para outros campos das práticas sociais, como a política por exemplo. Pois, afinal, há toda uma transversalidade da política do cuidado. (2009, p. 299)

Logo após a audiência, Bentinho solicitou triagem no NOT, onde, durante um bom tempo, sustentou presença ativa nessa oficina de geração de renda de culinária. Passou a construir com a equipe do Núcleo de Retaguarda, de maneira mais ampliada, suas saídas para fazer compras, sobretudo para experimentar o exercício de autonomia na imanência do cuidado. Aos poucos, ia ressignificando os espaços, as ofertas de cuidado, o seu tratamento de maneira geral. Essa diversidade se materializava, por exemplo, nas escutas-acolhimento articulados, agora solidamente numa linha de cuidado, passando por uma mudança visível na relação com o uso da medicação, com o uso de SPAs mais ponderado, até retomar seu protagonismo nas oficinas expressivas (Rauter, 2000) de esporte e de música, que, de longa data, configuram planos de consistência em seus processos criativos de levar a vida. Construía-se um PTS (projeto terapêutico singular) em sua potência.

É também nesse período que conseguimos, junto com ele, retomar o contato e reconstrução de laço familiar com seu irmão. Este, a despeito do enfrentamento de suas dificuldades, passou por um processo de desmontagem e ressignificação de suas mágoas para aceitá-lo como um irmão de fato novamente. Chegou, inclusive, a levar sua pequena filha até o hospital para conhecer Bentinho, seu tio, o que, para nós cuidadores, foi vivenciado numa cena memorável na cantina.

Agregado a essa paisagem de cuidado, tomamos de empréstimo as palavras da promotora M:

Se não tinha criminalmente nada instaurado contra ele, se não existia nenhuma restrição na ordem penal, ele não poderia ser obrigado a continuar no Cândido, nem forçado, nem sugestionado, nem nada. A alta, se era caso de alta, era caso de alta. (Promotora Pública M, 2015)

Quanto ao encontro com Bentinho na audiência, ela disse: “Eu achei que ele era um rapaz extremamente educado, calmo. Se me contassem o que ele tinha feito, eu jamais associaria o fato à pessoa dele, nunca”. (Promotora Pública M, 2015)

Tempos depois, com alternâncias na evolução do tratamento, além de inúmeras construções outras em seu projeto de vida, que agora se direcionavam na continuidade do cuidado no CAPS (proposta bem quista pelo usuário para esse momento), ele passaria, também, a morar numa pensão. Finalmente, Bentinho receberia alta hospitalar, após três anos e um punhado de dias.

Trecho VII < ≈ > Nas batidas do rap: Desdobramentos do reencontro com Bentinho no