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3. BULGULAR ve YORUM
3.1 Bilime BakıĢ
3.1.2 Bilim, Din ve Felsefe
No dia 26 de Agosto de 2010, acompanhei Bentinho em uma saída do hospital.
Recapitulando, essa proposta havia sido elaborada mediante nossa avaliação em equipe de referência como estratégia de intervenção clínica em consonância com os inúmeros pedidos de Bentinho que se dirigiam a nós, conforme descrito anteriormente. Como a minha figura se conectava singularmente com o usuário pela via das aproximações regulares nos diversos espaços-tempos-movimentos dos encontros na unidade, nossa aposta relançava a possibilidade de que, na potência do vínculo construído, poderíamos acompanhá-lo em outros meios sociais.
Também se tornou valioso o estar junto no encontro em suas produções de processos existenciais, produções de vida por onde a clínica pede carona, configura paisagens em movimento de afecções, ampliando nosso escopo e nossa relação com caso. Dito de outra forma, realizar paisagens de cuidado produzidas em ato nos encontros, a Estratégia de Atenção Psicossocial em linhas viscerais, vibráteis.
Aqui, é importante dimensionarmos um pouco nossa compreensão da relação usuário- território-clínica. Ao lançarmo-nos no uso da estratégia de cuidado de acompanhamento ao usuário fora das dependências hospitalares, agregamos diversidades agenciadas em suas múltiplas saídas: do espaço físico, das práticas clínicas tradicionais, de existências cronicizantes, para citar algumas delas. Com isso, esboçamos certa compreensão dessa composição relacional singular usuário-território-clínica nesse trecho do caso Bentinho. Nessa trilha, para Lima e Yasui:
O paciente aqui não é objeto de um saber ou de uma prática, mas um sujeito em construção em um processo de individuação complexo, que se dá no interstício dos encontros”. Abandona-se, assim, uma clínica centrada na pessoalidade e no sintoma individual, para dar lugar a processos de produção de saúde e de subjetividade, o que implica a inserção em processos de criação voltados para a construção de novas línguas, novos territórios, novos sentidos.
As relações entre clínica, território e subjetividade introduzem a noção de „território existencial‟, que envolve espaços construídos com elementos materiais e afetivos do meio, que, apropriados e agenciados de forma expressiva, findam por constituir lugares para viver. (2014, p. 599)
E, então, saímos de ônibus numa ensolarada tarde de quinta-feira rumo ao centro da cidade. Embora diferentes, nossos objetivos se encontravam: Bentinho queria realizar compras, eu queria acompanhá-lo nessa tarefa. Para isso, fizemos alguns combinados, pois, como diz o dito popular, “o combinado não sai caro”.
Pensamos no dia, horário e no meio de transporte, o ônibus, citado há pouco. No mais, retiramos seu dinheiro no setor administrativo do hospital e, aos poucos, íamos pensando juntos na forma mais racional de como gastá-lo. Enquanto Bentinho trazia uma enxurrada de encomendas por objetos pessoais, conforme já foi colocado, eu pensava em não vir com uma formatação dada, com um enquadre pronto de gastos. Estratégia de construção de cuidado atravessada pelo vetor capitalístico em transversalização na economia dos afetos.
Pausa para observar as paisagens urbanas. É interessante constatar a importância que os atos mais singelos em funcionamento na trivialidade cotidiana provocam. Que ônibus chamar, como usar nossos passes, nossa adequação ao espaço físico desse meio de transporte, nosso contato com outras pessoas, ou seja, habitar lugares em seus modos de ser e de viver em transformação. Junto a isso, observar ativamente os ritmos, sons, imagens cores, cheiros; os movimentos urbanos nos incitam e nos excitam em zonas de contato relacionais, que fervilham como pulsações explodindo em nossa pele-deserto multidões e devires do tecido- pele urbana, diferenciando-se da formatação dos ritmos hospitalares. Nesse trajeto de ida, conversamos pouco, mas contemplamos muito.
Chegamos ao centro da cidade. Imediatamente, Bentinho busca uma lanchonete próxima, pois nada como um lanche descompromissado para iniciar nossa expedição pelo centro comercial. Cordialmente, ele faz seu pedido e me presenteia com um refrigerante, pois, no momento, eu estava sem fome e fazia muito calor. Dizia: “Aproveita porque saco vazio não para em pé! [risos]”
Em seguida, fomos gastar feito “capitalistas selvagens” em seus devires consumistas sedentos por compras. No deslizar desse plano, éramos afetados os objetos a nossa volta e ludicamente nos movíamos numa busca não planejada, mas intensamente demandada. Mp4, relógio, cigarros e roupas se materializaram como um certo combo gerador de processos de subjetivações em movimentos.
O movimento Mp4, por exemplo.
Chegamos até uma loja de eletroeletrônicos. De início, me surpreendi com essa escolha de Bentinho, mas prontamente fui alertado - “Eu quero comprar o Mp4 na loja porque é original e tem garantia”. Escolheu um modelo avançado, com acessórios e dispositivos à mão. Eis que surge um impasse: para efetivar essa compra, precisaríamos realizar um cadastro, fornecer dados pessoais como endereço, telefone, etc. Bentinho estava sem endereço fixo (vamos lembrar que ele ainda estava internado, sem perspectiva de alta hospitalar).
Entretanto, possuía um trunfo inestimável no meio capitalista, que era o “dinheiro vivo”, em espécie. Não deu outra, ou, como diria Nelson Rodrigues: batata! Ele expõe a situação, negocia com o vendedor que acessa seu gerente na autorização da compra com garantia, nota fiscal e tudo mais, inclusive com um “volte sempre”.
No movimento relógio e cigarros, localizamos mudanças.
Ele dizia que precisava comprar um relógio porque “Ficar sem horas naquele lugar não dá”, só que, desta vez, escolheu ir até um camelô mais próximo. Nesse curto trajeto, a curiosidade me fez perguntar por que agora faríamos essa compra no camelô, e Bentinho me diz, com sorriso sorrateiro: “Como o relógio vai ficar comigo dentro do hospital, é melhor escolher um mais barato, falso. Pode quebrar, alguém estragar ou roubar”. Logo, negociou valores, escolheu um modelo e ainda combinou possíveis reparos com o vendedor, como, por exemplo, trocas de bateria. Os cigarros seguiram a mesma lógica de compra, embora comprados numa quantidade maior devido ao seu baixo valor, por serem falsificados, mas também para “presentear” outro usuário internado, cuja família não os trazia – “Ele (outro usuário) é gente boa, sempre me ajuda”.
Passamos para a compra das roupas, experiência inusitada, intensivamente sensível. Apesar de sofrer os efeitos de uma internação psiquiátrica em longo prazo, Bentinho sempre se mostrava jovial, ativo, com toda a traquinagem típica disseminada e exercida nos meios de adolescências vivazes. Costumava a vestir-se esportivamente com roupas de times de futebol e basquete, muito comuns aos jovens de hoje. Mas, em seu repertório de guarda- roupas, também havia espaço temático ampliado ao surf, ao skate e à música rap, tudo junto e misturado na teia cultural de seu habitat.
Dessa forma, nos espreitamos nos labirintos das lojas de departamento da região central em busca de nutrir seu guarda-roupas, diversificando, então, as possibilidades de Bentinho produzir-se em sua expressividade no mundo. Sabemos, quase de maneira naturalizada, que, nessa busca, alguns rituais sociais são necessários, como, por exemplo, escolher as roupas, colocá-las numa sacola e ir até os provadores para depois, se pagarmos, levá-las (lembrando que estamos numa loja de departamento).
Porém, aos poucos, eu observava o modo Bentinho de comprar roupas que, num movimento homogeneizante e voraz, se reproduzia num “nu e cru” olhava-gostava-juntava e,
pouquíssimos minutos depois, se dirigia a mim: “Vamos pagar”. E aí, cuecas de vários modelos, cores e tamanhos, agregadas a camisetas, meias, calças... todas seguindo o mesmo movimento, como uma linha de produção desconexa, disforme, incompatível com o território- corpo habitado por Bentinho. Dei um tempo, protelei, esperei mais um pouco e, num momento oportuno, lancei:
- Viu, o que acha de experimentar essas roupas que você escolheu? - Experimentar? Como assim? Eu nunca fiz isso.
- É que, geralmente, quando se compra roupas, escolhemos o modelo e experimentamos para ver como fica em nosso corpo. Se veste bem, se fica confortável...
- Ah é? É que eu nunca fiz isso, sempre comprei desse jeito. Mas eu topo, como é que faz?
E, assim, fomos até o provador, criando asas consistentes para essa nova experiência. Experimentar encontros com suas relações dissonantes, lidar com as incertezas e imprevisibilidades de um estranho outro em nós requer abertura ativada nos ensaios da vida com suas performances e devires que só se realizam na vitalidade dos encontros em ato. Bentinho se lançou em linha de fuga na experimentação de roupas, mas também, podemos dizer, numa experiência de produção de outro território existencial habitando outras linhas, malhas e redes de contorno de si em constante processo de reterritorialização da experiência em existenciação. Segundo Rolnik:
Afetos que escapam, traçando linhas de fuga – o que nada tem a ver com o fugir do mundo. Ao contrário, é o mundo que foge de si mesmo por essa linha, ele se desmancha e vai traçando um devir – devir do campo social: processos que se desencadeiam; variações infinitesimais; rupturas que se operam imperceptivelmente; mutações irremediáveis. De repente é como se nada tivesse mudado e, no entanto,
tudo mudou. O plano que essa linha cria em seu movimento é feito de um estado de fuga. (2011, pp. 49-50)
Ao crepúsculo dessa paisagem do cuidado, estamos no ponto de ônibus. Descontraídos, desembrulhamos conversas afins. Mnemicamente, Bentinho recorda dos tempos que trabalhava, quando, antes de pegar um ônibus pra casa, parava num boteco, “tomava umas cervejas e beliscava uma porção de salame”, quando, de repente, toca meu telefone. Na sequência, desligo e ele pergunta: “É sua esposa?” Digo que sim, mas o ônibus chegou, e, ao adentrarmos, encontramos e conversamos com outro usuário de um CAPS que já trabalhei, mais aí já é outra história, digo outra paisagem.