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3.2. İSLAM CEZA HUKUKU AÇISINDAN BİLİŞİM SUÇLARI

3.2.2.2. Bilişim Yoluyla İşlenen Dolandırıcılık Suçu

A cidadania como entendida hoje, pressupõe a consciência de seus direitos, sendo o direito à vida o maior de todos. Os direitos civis e políticos básicos como o voto, a voz, o ir e vir, foram, paulatinamente, sendo concedidos a todos. Os direitos sociais vão sendo incorporados na medida em que os civis e políticos são garantidos. É preciso primeiro ter voz, ter capacidade de pressão. Por dependerem de reconhecimento, de aporte financeiro, estruturas organizacional e burocrática, os direitos sociais estão vinculados a negociação, barganha política, convencimento. Educação e saúde, por exemplo, estão em constante demanda. Na Primeira República, a luta dos trabalhadores por benefícios que garantissem para si e sua família a sobrevivência não se configurou em um direito de cidadania pois, ao serem concedidos, o foram somente para quem comprovasse estar empregado, não era um direito para todos.

Nos primeiros anos do século vinte houve várias tentativas de criação de leis que dispusessem sobre as indenizações a operários por acidentes ocorridos durante sua jornada de trabalho. Uma das reivindicações do movimento grevista de 1917 era a aprovação do projeto sobre acidentes do trabalho, apresentado em 1915 pelo senador Adolfo Gordo. No entanto, somente em janeiro de 1919, por intermédio do Decreto Lei 3.724, foi regulamentado o seguro por acidente de trabalho.

O presidente da República Delfim Moreira na Mensagem ao Congresso Nacional (1919, p.139), congratulou-se com os membros do Congresso dizendo que "poucos países poderão vangloriar-se de ter iniciado a adoção do risco profissional mais vantajosas do que o nosso". O presidente não cita em nenhum momento o esforço envidado por trabalhadores e alguns poucos congressistas ao longo de anos para que essa lei fosse criada.

O Brasil desse período histórico vai se transformando em um caldeirão, onde ferviam inovações tecnológicas, industriais, políticas e sociais. As disputas entre os grupos aos poucos vão se decantando e a oligarquia dominante vê sua liderança balançar. Não eram somente os trabalhadores urbanos a questionar o estado de coisas, as camadas médias da população também estavam descontentes. Movimentos tenentistas, culturais, de imigração, industriais, e políticos, contribuem para a ebulição.

Jaime A. de Araújo Oliveira e Sonia M. Fleury Teixeira apontam que:

Nessas condições a "questão social", a temática operária, suas reivindicações, passam a ser vistas sob outra luz. Atacada por outros flancos, a fração dominante tem que estar atenta, agora, a estes seus antigos opositores. Dar-lhes alguma resposta além da mera repressão. Os novos contestadores por outro lado, passam a ver também na questão operária um elemento a considerar, na medida em que, aspirando ao poder, precisam buscar alianças, precisam apresentar-se como portadores de um projeto para a sociedade mais amplo do que os seus estritos interesses. (1985, p. 47)

Não seria, então, o mero reconhecimento de um problema social e a consequente mobilização para resolvê-lo, mas sim, o que esse problema social resolvido pode render em prestigio junto aos eleitores.

Em 24 de janeiro de 1923 foi editada a Lei 4.68261, criando a Caixa de Aposentadoria e Pensões em cada uma das empresas de estrada de ferro existentes no país. O presidente Artur Bernardes, em Mensagem ao Congresso Nacional, diferentemente de Delfim Moreira que festejou a lei de acidentes do trabalho, apenas citou a lei dizendo: "Esta lei constitui um capitulo novo da nossa legislação social, colocando-a ao lado das mais adiantadas". (BERNARDES, 1923).

Por ter sido o modelo previdenciário de Caixa de Aposentadorias e pensões para outras empresas e para os futuros Institutos, convém citarmos alguns artigos da lei que se mostraram importantes para nossa análise. O artigo terceiro informa de onde virão os recursos para manutenção da Caixa:

a) uma contribuição mensal dos empregados, correspondente a 3 % dos respectivos vencimentos;

b) uma contribuição anual da empresa, correspondente a 1 % de sua renda bruta:

61 A Lei 4.682/23 foi denominada Eloy Chaves, numa referência ao deputado federal que apresentou

c) a soma que produzir um aumento de 1 1/2 % sobre as tarifas da estrada do ferro;

d) as importâncias das joias pagas pelos empregados na data da criação da caixa e pelos admitidos posteriormente, equivalentes a um mês de vencimentos e pagas em 24 prestações mensais;

e) as importâncias pagas pelos empregados correspondentes á diferença no primeiro mês de vencimentos, quando promovidos ou aumentados de vencimentos, pagas também em 24 prestações mensais;

f) o importe das somas pagas a maior e não reclamadas pelo publico dentro do prazo de um ano;

g) as multas que atinjam o publico ou o pessoal;

h) as verbas sob rubrica de venda de papel velho e varreduras; i) os donativos e legados feitos à Caixa;

j) os juros dos fundos acumulados. (BRASIL, 1923).

O governo, portanto, não tinha participação na manutenção das caixas e nem tampouco na administração que era executada por patrões e empregados. As aposentadorias ordinárias eram concedidas na forma do artigo 12, atentando-se para o fato de que, segundo o IBGE62, a expectativa de vida em 1920 ao nascer era de 34,5 anos:

a) completa, ao empregado ou operário que tenha prestado, pelo menos, 30 anos de serviço e tenha 50 anos de idade;

b) com 25 % de redução, ao empregado ou operário que, tendo prestado 30 anos de serviço, tenha menos de 50 anos de idade; c) com tantos trinta avos quantos forem os anos de serviço até o máximo de 30, ao empregado ou operário que, tendo 60 ou mais anos de idade, tenha prestado 25 ou mais, até 30 anos de serviço.

A aposentadoria por invalidez constava da lei, mas, no entanto, o direito a ela era bem restrito, já que a carência era de dez anos:

Art. 13. A aposentadoria por invalidez compete, dentro das condições do art. 11, ao empregado que, depois de 10 anos de serviço, for declarado física ou intelectualmente impossibilitado de continuar no exercício de emprego, ou de outro compatível com a sua atividade habitual ou preparo intelectual. (BRASIL, 1923)

62 Disponível em

<http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/29092003estatisticasecxxhtml.shtm>. Acesso em 17dez2013

Ou seja, se antes de dez anos de trabalho a pessoa ficasse doente e a doença não fosse decorrente do trabalho ou de acidente do trabalho, ela somente teria ajuda para os remédios e para o hospital, não teria a aposentadoria tão necessária. Caso o trabalhador fosse demitido levaria consigo as contribuições efetuadas para a Caixa. Os benefícios para quem contribuísse seriam:

Art. 9º - Os empregados ferroviários, a que se refere o art. 2º desta lei, que tenham contribuído para os fundos da caixa com os descontos referidos no art. 3º, letra a, terão direito:

1º- a socorros médicos em casos de doença em sua pessoa ou pessoa de sua família, que habite sob o mesmo teto e sob a mesma economia;

2º- a medicamentos obtidos por preço especial determinado pelo Conselho de Administração;

3º- aposentadoria;

4º- a pensão para seus herdeiros em caso de morte. (BRASIL, 1923).

As leis fazem parte da cultura de um povo. De acordo com Maria Clara Tomaz Machado (2002, p.336), "a cultura é um modo específico de ver, sentir e representar o mundo em que se vive", por esse aspecto a Lei Eloy Chaves representa bem o espírito de sua época, tanto em relação à carência exigida para a concessão da pensão por morte, quanto aos motivos para cessá-la.

Repete-se no caso da pensão a mesma carência da aposentadoria por invalidez. Se o operário falecesse com menos de dez anos de tempo de serviço por motivos que não fossem relativos a acidente do trabalho, a família não teria amparo. Era preciso trabalhar muito tempo antes de ter o direito de ficar doente ou morrer.

Art. 26. No caso de falecimento do empregado aposentado ou do ativo que contar mais de 10 anos de serviços efetivos nas respectivas empresas, poderão a viúva ou viúvo invalido, os filhos e os pais e irmãs enquanto solteiras, na ordem da sucessão legal, requerer pensão á caixa criada por esta lei. (Grifos meus).

Chamo a atenção para o artigo 33. Nele, aponta-se que, se os viúvos contraíssem novo matrimônio, deixariam de ter direito à pensão. Acredito que se considerou que a mulher ou o marido na condição de inválido seriam dependentes do novo marido ou esposa que teriam a obrigação de sustentá-los. Nesse caso o

valor pago em forma de contribuições ao longo dos anos pelo falecido e não utilizado pela (o) viúva (o) reverter-se-ia à Caixa de Aposentadorias.

Art. 33. Extingue-se o direito á pensão:

1º, para a viúva ou viúvo, ou pais, quando contraírem novas núpcias;

2º, para os filhos, desde que completarem 18 anos;

3º, para as filhas ou irmãs solteiras, desde que contraírem matrimonio;

4º, em caso de vida desonesta ou por vagabundagem do pensionista.

Parágrafo único. Não tem direito á pensão a viúva que se achar divorciada ao tempo do falecimento. (Grifos meus).

O parágrafo quarto, no entanto é o que chama mais a atenção pela sua peculiaridade: perde o direito à pensão o pensionista que tiver vida desonesta ou por

vagabundagem do pensionista. A pergunta que fica é: haveria um manual para dizer

o que se caracteriza desonestidade ou vagabundagem que justificasse a perda da pensão? Seria possível aos dirigentes da Caixa de Aposentadorias e Pensões o controle da honestidade de cada pensionista? O artigo da lei de direito à pensão refere-se a esposa e marido inválido (já incorporando as mulheres trabalhadoras). No entanto, como nesse período, de acordo com o Código Civil, a mulher, apesar de trabalhar fora de casa, ainda era submissa ao homem, é pouco provável que o artigo tivesse sido escrito pensando no marido inválido. Analisando as relações de gênero na primeira metade do século vinte à luz do código civil de 1916, Vera Lúcia Puga e Cesar Castro e Coelho demonstram que a violência sobre os corpos femininos era constante e a vontade masculina prevalecia, visto que poderiam ser utilizados meios legais e ilegais para vigiar a vontade e a liberdade da mulher:

Na medida em que o marido é o escolhido para chefiar o núcleo familiar vem a tona toda uma carga de preconceitos que subtendem que a esposa não é capaz de realizar esse tipo de "função". Tal jurisprudência reflete apenas aquilo que é aceito e determinado socialmente. E não se pode esquecer que estas leis foram feitas e discutidas por vários juristas homens; o que evidencia que a sociedade brasileira era patriarcal, paternalista e moralista por excelência. (2009, p.13).

O artigo 33, da Lei Eloy Chaves, representa a ideologia patriarcal vigente à época de sua edição, apresentando princípios similares ao Código Civil de 1916. O

homem se considerava legítimo senhor das mulheres de sua família, considerando qualquer atitude contraria aos padrões estabelecidos, como atentado à sua honra.