2.4. BİLİŞİM SUÇLARININ TASNİFİ
2.4.2. Bilişim Yoluyla İşlenen Suçlar
2.4.2.8. Bilişim Sistemleri Üzerinden Kumar Oynama
Tanto as mulheres fotografadas por Cohen, quanto as pessoas que hoje estão passando dos 60 anos no Brasil e no mundo, vivenciaram, tiveram notícia, passaram ou protagonizaram muitas mudanças de costumes nas sociedades. Entre elas, a pílula anticoncepcional, a contracultura, o divórcio, os novos modelos de família, a liberação sexual, o movimento feminista, e, em consequência a abertura do mercado de trabalho para elas, as mulheres na universidade, as novas relações familiares, o individualismo. Vivenciaram uma sociedade oposta à de seus pais e vivem uma velhice diferente da que eles viveram. Percebe-se então que, como nos diz Goldenberg:
O sentimento de envelhecer não vem apenas de fora, não é apenas um produto do olhar do outro, mas envolve também uma percepção e uma interpretação de sinais corporais que se inscrevem nos diferentes registros do corpo orgânico, da aparência e da energia. (2011, p 40).
Os padrões culturais não são imutáveis, a vontade individual, a energia que ainda se encontra latente no indivíduo é responsável pela quebra do que seria considerado inevitável se acompanhássemos somente as grades de idade determinadas pela sociedade.
A atriz Fernanda Montenegro, de 84 anos, consciente do passar do tempo, aponta que quando chegamos à quarta idade (expressão dela) não há como negar: "queira ou não, é uma planta fenecendo. Você vê menos, ouve menos, seu paladar diminui. Mas apesar disso trabalho como se tivesse 30 anos. E não é que faça um esforço histriônico; é algo meu" (NEGREIROS, 2012, p. 165).
O envelhecer é individual, ímpar, vivido de uma forma muito pessoal. Portanto, "não pode ser reduzido à idade cronológica e, muito menos, à diminuição de determinadas funções orgânicas" (MUCIDA, 2006, p.40). De tal forma que, apesar dos exemplos citados de velhice bem sucedida, encontramos um número expressivo de brasileiros em idade avançada que não tem amigos, família ou trabalho.
Para alguns desses, moradores da cidade de Santos em São Paulo e que se encontram em estado de vulnerabilidade, a Prefeitura encontrou de forma pioneira no Brasil, uma alternativa de residência para idosos sozinhos que ainda mantêm
certa independência e possuem renda de um a dois salários mínimos, as "repúblicas para idosos”. São moradias subsidiadas para idosos em situação de risco pessoal e social, sem ou com vínculos familiares (rompidos ou fragilizados). Na casa, a autonomia e convivência comunitária são preservadas, são os próprios moradores que gerenciam as atividades e despesas. Cada morador paga uma taxa de menos de cem reais, referente ao aluguel simbólico, e rateia despesas de água e luz. Assim, os idosos se sentem em casa e se mantêm autossuficientes e capazes de pagar suas contas, com o restante de sua aposentadoria livre para que façam uso como lhes convier. São eles que cuidam da limpeza e organização de tarefas, feitas por todos em sistema de revezamento. As decisões são tomadas em grupo, de acordo com regulamentos e estatutos decididos pelos idosos, modificados conforme a decisão da maioria. Interessante salientar que essa forma de residência propicia a liberação de vagas asilares que podem ser redirecionadas a pessoas em maior situação de risco, além de possibilitar aos idosos residentes o estabelecimento de redes de apoio social, cultural, de saúde e de afeto, numa estrutura mais próxima à familiar do que nos asilos.
A propósito das repúblicas para idosos, o filme "E Se Vivêssemos Todos Juntos?" (Título original: Et si on vivait tous ensemble?), comédia francesa de 201241, conta a história de cinco idosos ligados por uma forte amizade que já dura mais de 40 anos. Quando eles começam a sentir a memória falhar e a velhice chegando, o fantasma da casa de repouso vem assombrá-los, então decidem viver juntos. A convivência traz velhas lembranças, novas perspectivas e o novo desafio de viver em república com mais de 75 anos. Claro que o filme é uma representação romanceada de uma comunidade de idosos, mas leva a pensar sobre a existência de vida, paixão e força interior por trás das rugas e cabelos brancos, e, principalmente quando uma personagem diz: "a gente planeja tudo, mas nunca pensa no que fazer nos últimos anos da vida".
Em "O amor nos tempos do cólera", Urbino Daza, em conversa com Florentino Ariza, faz algumas considerações sobre a velhice:
Previa um futuro mais humanitário, e por isso mesmo mais civilizado, de seres humanos isolados em cidades marginais a partir do momento em que não pudessem mais cuidar de si mesmos, para
41 Com direção de Stéphane Robelin, roteiro de Nacy Rivas e Stéphane Robelin e um elenco formado
lhes poupar a vergonha, os sofrimentos, a solidão espantosa da velhice. Do ponto de vista médico, segundo ele, o limite poderia ser o dos sessenta anos. Mas enquanto se chegava a esse grau de caridade, a única solução eram os asilos, onde os anciãos se consolavam uns aos outros, se identificavam em seus gostos e suas aversões, em suas mágoas e tristezas, a salvo das discórdias naturais com as gerações seguintes. Disse: Os velhos entre os velhos são menos velhos. (MÁRQUEZ, 2010, p.385).
Fato é que as pessoas almejam viver o máximo de forma digna e sem sofrimento, querem participar dos assuntos e das decisões da comunidade em que estão inseridos, estender direitos sociais e encontrar ajuda para quando suas capacidades entrarem em declínio. A atriz Fernanda Montenegro refletindo dobre a velhice, acredita que:
A extrema velhice é uma hora complicada, porque o final está perto. Por mais que se cuide, as coisas vão, fisicamente - e às vezes psiquicamente, falhando. A pessoa envelhecida têm seu tônus e sua personalidade. Desenvolveu pela vida um temperamento, um "gostar" em todos os sentidos - o que come, o que veste, o que ouve, o que lê - e vai se confinando numa impotência física dolorosa, Há uma hora em que os que estão em volta têm de tomar ciência, por mais que isso às vezes constranja a pessoa que está na quarta idade. Porque na terceira idade, hoje, já vai se aguentando melhor. Aí tem aquele problema: o que fazer? (NEGREIROS, 2012, p.165)
Fernanda Montenegro fala em quarta idade referindo-se àquele período da vida em que as pessoas idosas passam a necessitar de ajuda para os atos da vida diária. E como bem já o vimos, esse período não corresponde a uma idade específica, visto que individualmente cada pessoa vive a sua velhice em um determinado período, ou nem chega a vivê-lo.
O ator Walmor Chagas sentiu a velhice chegar quando, fragilizado por doenças que algumas vezes acometem pessoas com mais de oitenta anos, cometeu suicídio42. Incomodava-o a presunção de dependência que se avizinhava.
O incômodo com a dependência foi representada por cineastas em filmes recentes que apresentam temáticas vinculadas a personagens maduros, o que, além de contar com público cativo, representa também questões que incomodam os próprios diretores. Os filmes representam a maturidade, por haver espectadores interessados, mercado, mas também em virtude da própria maturidade dos
cineastas. De acordo com Woodward, identificamo-nos com os outros num processo de ausência de consciência da diferença ou da separação, ou de supostas similaridades. Segundo ela, o conceito de identificação tem sido retomado na teoria do cinema pelos estudos culturais, "para explicar a forte ativação de desejos inconscientes relativamente a pessoas ou imagens, fazendo com que seja possível nos vermos na imagem ou na personagem apresentada na tela". (Woodward, 2000, p.18)
O diretor de cinema Michael Haneke, de setenta e um anos, mostra com muita sensibilidade essa fase da vida em que precisamos da ajuda do outro no filme "Amor."43 É a história de um casal, Georges e Anne, professores aposentados, ambos com mais de oitenta anos. Ao mesmo tempo em que o diretor enfatiza o amor de Georges tentando cumprir o que lhe solicitou Anne: não voltar para o hospital, apresenta também a impotência diante da velhice e da doença. Não são pessoas pobres, desprovidas de recursos, ao contrário, têm cultura e dinheiro, sinalizando que, independentemente da classe social, todos chegaremos à velhice. O filme representa o que mais tememos em relação a essa fase da vida, a cadeira de rodas, o orgulho ferido, a inabilidade para as mínimas coisas do dia a dia e a vida entre quatro paredes, apartados do exterior. É uma representação dura, que faz com que saiamos do cinema com o peito pesado, de frente para a realidade do futuro que possivelmente nos espera. Por outro lado, o filme traz nuances da amizade, do carinho, da memória. Há uma cena em que, ao perceber que estava perdendo suas lembranças, Anne pede com urgência a seu marido, o álbum de fotografias.
Percebemos uma interpretação autojustificadora na entrevista da diretora do filme "Late Bloomers – O Amor Não Tem Fim"44, que apresenta um casal maduro discutindo sobre como o peso da idade afeta a vida a dois. Julie Gavras45 (2011), diz que o filme "Não é só sobre idade, mas também sobre viver como um casal por um tempo longo, ter que lidar com diferentes etapas, morar junto, ter filhos. Acho
43 AMOR. Diretor: Michael Haneke. França, Alemanha e Áustria: Imovision, 2012. 1 filme, son., color. 44 Late Bloomers. Direção: Julie Gravas. França, Bélgica, Reino Unido: Gaumont, 2010. 1 film (95
min), son., color | 35mm.
45 Cf: Julie Gavras faz rir para falar de temas importantes. iG São Paulo, 26 out. 2011.Entrevista
concedida a Marco Tomazzoni. Disponível em: < http://ultimosegundo.ig.com.br/mostracinemasp/julie- gavras-faz-rir-para-falar-de-temas-importantes-leia-entrevista/n1597321167670.html>. Acesso em: 22 jan. 2012.
que cada casal tem seus passos. Esse, a idade, é só mais um". Incomodada pelo fato de as comédias românticas contarem sempre a história de pessoas com 25, 30 anos, perguntou-se, "e, se eles tivessem 60 anos"? Não foi fácil encontrar o elenco, principalmente pelo fato de que as atrizes francesas não estavam dispostas a assumir a idade. Assim que liam o roteiro, desistiam do trabalho. Gravas (2011) aponta que a indústria cinematográfica tanto na França quanto nos Estados Unidos é bem dura com atrizes que passam dos quarenta anos, com sessenta só lhes resta o papel de avó. No Brasil, a dificuldade para encontrar-se uma atriz que possa representar a matriarca de uma família é expressa pela atividade incessante de Laura Cardoso, atriz de 85 anos, que vem emendando um trabalho no outro, uma vez que, como ela que nunca fez plásticas, há poucas em atividade.
A dificuldade dos artistas configura-se no que Pierre Bourdieu (2011, p. 57) nos coloca como o "processo pelo qual os indivíduos interiorizam as estruturas do mundo social, transformando-as em esquemas de classificação que orientam seus comportamentos, suas condutas, suas escolhas e seus gostos". Ainda segundo Bourdieu (2011, p.58) :
A noção de habitus tem várias propriedades. Ela é importante para lembrar que os agentes têm uma história, que são produto de uma história individual, de uma educação associada a determinado meio, além de serem o produto de uma história coletiva, e que em particular as categorias de pensamento, as categorias do juízo, os esquemas de percepção, os sistemas de valores, etc. são o produto da incorporação de estruturas sociais.
No caso das atrizes e da indústria cinematográfica, as estruturas sociais orientam comportamentos. No entanto, Bourdieu nos alerta que o habitus não é um destino, trata-se de um sistema aberto de disposições que estará submetido constantemente a experiências, ele só se revelaria em referência a uma situação, ou seja, "na relação com determinada situação que ele produz algo" (2011, p.62), assim com uma mola, seria necessário um desencadeador que, em situações diferentes, pode fazer coisas opostas.
O conhecimento da situação a que são expostos os velhos, e suas experiências de vida é que dá corpo à história do filme "O exótico Hotel Marigold"46,
baseado no romance “These Foolish Things”, de Deborah Moggach, dirigido por
John Madden, diretor inglês de sessenta e quatro anos. O filme conta a história de idosos ingleses que, insatisfeitos com o rumo que suas vidas vão tomando, e dispostos a não se renderem à obviedade do destinado a eles, deparam-se com a propaganda de um resort geriátrico na Índia. Ao chegarem lá, percebem que nada do que era oferecido no folheto está à disposição. Sem grandes dramas, aos poucos, eles acabam descobrindo motivações que tornam suportável e até feliz o período de hospedagem no hotel. O filme é recheado de clichês, no entanto o que nos interessa registrar é a mudança que aos poucos vai se configurando, visto que o cinema costuma ignorar os idosos. Geralmente são coadjuvantes prontos para a morte ou referências do tipo dos mestres do kung fu. Idosos como protagonistas em longas-metragens, não são recorrentes, daí a possibilidade de citação nominal. "Cocoon" (1985), "Antes de Partir" (2007), "Ainda adoráveis" (2008), juntam-se aos já citados, além de: "Red - aposentados e perigosos" que é um filme de ação americano, distribuído no Brasil pela Paris Filmes (2010). Foi idealizado a partir de uma história em quadrinhos elaborada por Warren Ellis e Cully Hamner, com título homônimo e publicada pela Homage da DC Comics. O roteiro apresenta ex-agentes da CIA, que voltam à ativa com muito dinamismo. No filme, um dos personagens se encontra em uma casa de idosos e, ao ser questionado se gostaria de participar de uma nova ação, responde:
- Tenho oitenta anos, o fígado tomado pelo câncer... Nunca pensei que isso ia me acontecer...
- O quê?
- Ficar velho... Vietnam, Afeganistão e agora casa de repouso... (RED, 2010).
É comum perceber-se a vinculação da velhice com fraqueza, com dependência, porém a prática se mostra diferente das representações. As pessoas, vão experimentando a passagem do tempo de forma diferente do modo como as gerações anteriores viveram. Chegar à velhice pode não ser somente esperar a chegada do fim, mas, talvez, buscar um novo começo. Um novo começo é o que procuram os casais maduros dos filmes "Simplesmente Complicado47", "Um divã
47 SIMPLESMENTE Complicado. Direção: Nancy Meyers. EUA: Universal Pictures, 2009. 1 filme
para dois48" e "Alguém tem que ceder49". São filmes em que os protagonistas, com mais de cinquenta anos, representam questões existenciais e uma sexualidade latente, que não deixou de existir em virtude do avanço da idade.