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Uma vez que a pesquisa é baseada na abordagem foucaultiana, um dos primeiros pontos a ser questionado tem a ver com a delimitação das fronteiras, ou seja, a determinação do universo da pesquisa e a amostra. Esses conceitos não são apropriados para a abordagem aqui proposta, uma vez que ela assume um caráter indutivo. Portanto, como será argumentado, existem limites a serem enfrentados,.

Conforme já destacado, o foco desta pesquisa recai na permeabilidade de fronteiras; sendo meu maior interesse o estudo da circularidade de discursos entre diversos campos e seu papel na emergência de campos organizacionais. Como em qualquer outra pesquisa, este estudo realizará análises fragmentárias e transformáveis (MACHADO, 1979). No entanto, um importante diferencial deste tipo de investigação é não considerar pertinente a distinção entre ciência e ideologia (especificado em Foucault) ou conhecimento científico e prático

(explicitado no pragmatismo de James); ou melhor, não partir dos critérios de demarcação entre uma e outra.

O objetivo é neutralizar a idéia que faz da ciência um conhecimento em que o sujeito vence as limitações de suas condições particulares de existência. Todo conhecimento, seja ele científico ou ideológico, só pode existir a partir de condições políticas que são as condições para que se formem tanto o sujeito quanto os domínios de saber (MACHADO, 1979, p.XXI).

A investigação recai nas relações de poder que constituem, ou melhor, (trans)formam campos discursivos e organizacionais. No entanto, quando se lida com análise discursiva desse tipo, corre-se o risco de deixar passar despercebido outros domínios discursivos que talvez tenham influenciado a formação do campo da biotecnologia.

Como confirmado no decorrer desta pesquisa, as limitações existem em mim como pesquisadora da área de estudos organizacionais. Como pesquisadora também estou inserida em domínios discursivos cujas redes de poder posso considerar como dadas ou familiares, a ponto de se tornarem inquestionáveis. Entretanto, isso foi um risco que assumi, considerando inacabada a análise que apresento nesta pesquisa. Lembro que, para Foucault:

toda teoria é provisória, acidental, dependente de um estado de desenvolvimento da pesquisa que aceita seus limites, seu inacabado, sua parcialidade, formulando conceitos que clarificam os dados – organizando-os, explicitando suas inter-relações, desenvolvendo implicações – mas que, em seguida, são revistos, reformulados, substituídos a partir de novo material trabalhado

(MACHADO, 1979, p.XI).

Paralelamente, o problema está sendo delimitado em relação ao tempo e espaço – categorias também unificadas na análise foucaultiana, a partir do conceito de campo discursivo. A própria definição do objeto de pesquisa é um fator delimitador – o estudo de campos discursivos e organizacionais. Como se verá no decorrer deste texto, uma de suas conclusões é exatamente o questionamento do problema da pesquisa. A qualificação do

campo organizacional revelou apenas os limites disciplinadores do campo do qual, eu, como membro/pesquisadora, faço parte e o alimento na sua busca de legitimidade. O campo encontrado depois dessa longa jornada encontra apenas numa das suas dimensões a qualificação organizacional, revelando-se muito mais de que isso.

O recorte temporal desta pesquisa abrange o período que vem do início do século XX a este início do século XXI. Não se trata de buscar as origens do campo da biotecnologia no âmbito da genética, mas de reconhecer relações existentes no processo de formação discursiva do campo científico da genética e a emergência da biotecnologia. A partir de uma visão mais rigorosa, o estudo retrata processos de formação de outros campos, como a genética. No entanto, essa abordagem histórica revelou-se necessária para compreender a dinâmica do campo da biotecnologia, porque, novamente, a comparação se revelou necessária para apreender deslocamentos discursivos, por meio do contraste.

O recorte espacial refere-se ao foco na experiência americana. O trabalho empírico ficou limitado à análise do segmento de biofarmacêuticos. O projeto Genoma Humano também foi abordado na ultima formação discursiva; embora, tenha sido talvez um processo muito demorado encará-lo a partir da ótica da metáfora reticular de Boltanski e Chiapelo (1999).

Contudo, esses segmentos não foram selecionados aleatoriamente. Depois de ampla pesquisa bibliográfica, acompanhamento da mídia e conversas informais durante o estágio de doutorado nos EUA, percebeu-se o interesse que tais segmentos despertam, bem como a polêmica causada pela discussão sobre as aplicações da biotecnologia em vários grupos da sociedade.14 De fato, a grande maioria dos entrevistados referem-se à biotecnologia como segmento dos biofarmaceúticos. Considerando que aqui não estou interessada apenas em aspectos econômicos do setor, mas principalmente nas manifestações discursivas, optei por focar a análise nesses segmentos.

14 Assim como em grande parte da Europa continental, talvez, o segmento escolhido fosse a agricultura, o que

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FORMAÇÃO DISCURSIVA: A ORGANIZAÇÃO

Não procuramos, pois, passar do texto ao pensamento, da conversa ao silêncio, do exterior ao interior, da dispersão espacial ao puro recolhimento do instante, da multiplicidade superficial à unidade profunda. Permanecemos na dimensão do discurso (FOUCAULT, 1972, p.95).

Neste capítulo, tentei analisar a formação do campo científico da genética, nos EUA, entre fins do século XIX e o início do século XX. O principal argumento é o de que a genética, como um novo campo científico, encontra as condições de surgimento na densa rede de relações de poder dos discursos prevalecentes na época. De uma perspectiva histórica, baseada na análise discursiva, é possível descobrir parte dessa rede que origina, forma, transforma e modifica não apenas os objetos da pesquisa científica, mas também a forma e a maneira de pensar, fazer e falar sobre ciência.

Inicialmente, analiso o processo de formação discursiva em questão, qualificando-o com base na metáfora organizacional. No decorrer do estudo, tento salientar a importância do discurso eugênico, das relações de classe e gênero, do poder econômico e ideológico das fundações filantrópicas na formação do novo campo da genética nos EUA. Em seguida, será destacada a relevância dessas relações de poder na formação do campo. Por fim, será analisado como essas densas redes de poder foram traduzidas em termos de visão científica e discursos da nova disciplina, discutindo-se, especificamente, o poder da metáfora da “ação genética” no âmbito do campo científico da genética.