Os argumentos anteriormente defendidos em termos da associação estabelecida entre o processo de formação discursiva e a institucionalização precisam afinar-se para que sejam
empiricamente manejáveis. Para isso, analiso um conjunto de estudos e pesquisas realizados no âmbito da sociologia da ciência e da tecnologia, o qual compartilha as mesmas premissas do referencial teórico proposto. Serão destacados aqui alguns conceitos relativos ao trabalho- fronteira (objetos, práticas, embalagens etc.) por meio dos quais é possível compreender o processo de circularidade de campos, ao mesmo tempo em que são demarcadas as fronteiras destes.
O artigo de Gieryn (1983), argumentando que a fronteira entre o que conta ou não como ciência não é característica inerente a esta, abriu espaço para estudos que expandem o conceito de trabalho-fronteira, incorporando as idéias do construtivismo crítico.
Star e Griesemer (1989), analisando o Museu de Zoologia Vértebra de Berkeley (EUA), destacam a padronização de métodos e o desenvolvimento dos objetos-fronteira como fatores-chave para a compreensão da dinâmica de funcionamento do museu. O conceito de objeto-fronteira é útil para o entendimento dos objetos de estrutura débil (loosely-structured), que são suficientemente plásticos para se adaptar às limitações e necessidades locais de diversos grupos que os utilizam, mas ao mesmo tempo suficientemente robustos para manter uma identidade comum, atravessando os espaços onde estes grupos estão localizados. Tais objetos-fronteira permitem aos membros de diferentes comunidades – gerentes, filantropos, colecionadores amadores, universitários e cientistas − trabalharem juntos em torno deles, mantendo, no entanto, suas distintas identidades. O trabalho de cada uma dessas comunidades é considerado como parte de uma rede que expande um número de mundos sociais que se entrecruzam. Essas comunidades apresentam comunalidades e diferenças.
Para alcançar os objetivos específicos de um museu, por exemplo, um processo de tradução era necessário. Por um lado, “o desenvolvimento, aprendizagem e o reforço de um conjunto claro de métodos para “disciplinar” a informação coletada pelos colecionadores e outras comunidades não-científicas”. Por outro lado, “gerar uma série de objetos-fronteira que possam maximizar, ao mesmo tempo, a autonomia e a comunicação entre diferentes mundos” (STAR e GRIESEMER, 1989, p.404). Enquanto os métodos são concebidos e elaborados por indivíduos ou grupos, os objetos-fronteira emergem no decorrer do processo de circularidade das diversas comunidades.
Embora os autores não trabalhem baseados em Foucault, a dupla dimensão do poder é percebida, seja pela força disciplinadora dos métodos padronizados, seja pela força produtiva
dos objetos-fronteira. De fato, os autores percebem empiricamente que parte da autoridade do cientista é exercida pela padronização dos métodos de coleta e apresentação da informação, criando assim uma “lingua franca” entre amadores e profissionais. A padronização é uma forma de conhecimento comum, e para Foucault, esses conhecimentos espúrios e comuns estão intimamente ligados ao poder. Como já visto, Foucault destaca o papel do conhecimento como útil e necessário ao exercício do poder, sendo que ele é útil por sua praticidade e não por ser falso.
Fujimura (apud Guston, 1999) transforma o conceito de objeto-fronteira em “embalagem-padrão”, usada pelos pesquisadores para definir um espaço de trabalho conceitual e técnico que é menos abstrato, menos mal estruturado, menos ambíguo e menos amorfo, combinando objetos-fronteira com métodos comuns de modo mais restritivo, mas ainda não definitivo. Diferentemente dos objetos-fronteira, as embalagens-padrão são robustas o suficiente para mudar as práticas locais. Todavia, enquanto interagem com um conjunto de atores que representam diversos mundos sociais, essas embalagens enfatizam a colaboração desses atores para “terminar o trabalho”, ao mesmo tempo em que são capazes de manter a integridade dos atores nos seus respectivos mundos sociais.
Moore (1996) amplia o escopo desse tipo de análise, deslocando o foco dos objetos e seus agregados para as organizações. Relaciona essas organizações aos objetos-fronteira e embalagens-padrão, na sua habilidade mútua de providenciar, simultaneamente, um “objeto de ação social e um conjunto estável de regras, mas ao mesmo tempo flexível sobre como se engajar nesse objeto” (GUSTON, 1999, p.90). Assim, enfocando organizações como o Instituto dos Cientistas para Informação Pública, Moore (1996) analisa historicamente como a ciência e sua relação com a política tornam-se o principal objeto de ação da organização. Analisa também como, simultaneamente, essas organizações permitiam aos cientistas se apresentarem como membros de uma comunidade de conhecimento e defensores de uma causa. Formava-se, assim, uma ponte entre a ciência e a política, que deixava intactas as formas tradicionais de praticar ciência e política. A organização tornava-se um objeto- fronteira.
Moore (1996) crítica e expande o conceito de fronteira. Ela destaca que o processo de demarcação não é apenas uma luta entre um grupo unificado de cientistas e não-cientistas, mas uma luta travada entre os cientistas e o papel que as organizações desempenham nesse processo de demarcação de autoridade. Entretanto, muito desse trabalho de demarcação
acontece em organizações. Estas podem ser vistas como “embalagens-padrão”, um conjunto de práticas e objetos de ação que reduzem o escopo das ações possíveis e facilitam a cooperação entre múltiplos mundos sociais.
Guston (1999) aplica esse conceito de organização-fronteira como uma forma de estabilização da fronteira ciência-política; ou seja, como uma forma das práticas sociais – nesse caso, no âmbito da ciência/política – ganharem durabilidade e tornarem-se institucionalizadas. Essas organizações internalizam o caráter contingente da fronteira ciência/política. Integrando esse esquema teórico com a teoria agent-principal, o autor afirma que negociar tais contingências torna-se o trabalho diário da organização, envolvendo o uso de objetos-fronteira e embalagens-padrão, numa colaboração entre os interesses dos
principals e os dos agentes. O sucesso da organização na execução dessas tarefas, levando à
satisfação dos agentes e principals, poderia ser considerado como estabilidade da fronteira; enquanto na prática, a fronteira continua a ser negociada nos limites da organização-fronteira.
Embora discordando dessa integração do construtivismo com a teoria agent-principal, uma vez que defendi uma conceitualização do processo de institucionalização que não se enquadra nos pressupostos teóricos dessa linha, defendo aqui a potencialidade do conceito de “trabalho-fronteira” para a compreensão de processos de formação e institucionalização, questionando as premissas do novo institucionalismo que considera as instituições como estados fixos e permanentes.
Os objetos, embalagens e organizações-fronteira possibilitam o processo de circularidade entre os diversos campos econômicos, sociais, tecnológicos, científicos e organizacionais, ou na linguagem foucauldiana, entre os elementos heterogêneos que participam da formação discursiva. Por meio desses últimos, é possível visualizar de forma mais clara os processos simultâneos de circularidade e demarcação presentes nas dinâmicas discursivas que formam os novos campos organizacionais.
Na figura 6, retomo os processos de circularidade e demarcação de campos, situando os conceitos de instituição e trabalho-fronteira, anteriormente destacados :
Figura 6: Trabalho-fronteira e instituições na dinâmica de circularidade/demarcação
Fonte: Elaborado pela autora
Como se pode perceber, as organizações participam dos/nos processos de formação discursiva. São formadas por discursos, mas também contribuem na sua (trans)formação, fazendo parte do conjunto de elementos heterogêneos das formações discursivas.
No decorrer da pesquisa de campo tento compreender a formação do campo da biotecnologia, a partir da dinâmica das formações discursivas, buscando identificar as dimensões-chave do quadro conceitual elaborado.
INTERESSES CAMPOS ORGANIZACIONAIS TENSÕES Processos econômicos Formas de comportamento (cultura) Arte Religião Cultura Técnicas Ciência Processos sociais FORMAÇÃO DISCURSIVA
Objetos-fronteira Organizações-fronteira Embalagens-padrão xxx-fronteira Outros
domínios/ elementos
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METODOLOGIA
Neste capítulo, destaco, primeiramente, algumas reflexões sobre o processo de construção do objeto da pesquisa, buscando não apenas analisar as relações entre seus pressupostos constitutivos e a postura epistemológica da pesquisadora, mas também com a metodologia de estudo. Em seguida, apresento a tese como descritiva e exploratória e destaco a perspectiva histórica, com a devida justificativa dessa classificação. Faço algumas considerações quanto ao processo de coleta e análise de dados e, finalmente, observo as limitações deste estudo em termos individuais, de espaço e de tempo.