Ao apresentar estratégias para a pesquisa social, Morgan (1983) assegura que os cientistas se engajam num objeto de estudo por meio de uma base particular de referência. O que é observado e descoberto num objeto é produto tanto da interação com técnicas e formas de operacionalização, quanto das características do próprio objeto. Contudo, raramente os pressupostos nos quais baseiam-se as diversas perspectivas de análise e pesquisa são assumidos explicitamente. O argumento é o de que é impossível julgar a validade ou a contribuição de perspectivas diferentes de pesquisa em termos de tais pressupostos, sendo que o processo é autojustificável. Morgan oferece uma base para analisar a lógica de diferentes estratégias de pesquisa. Essa lógica pode ser fundamentada em pressupostos constitutivos, na postura epistemológica ou na metodologia favorita do pesquisador, conforme detalhado no quadro 5:
Quadro 5 - Estratégias de pesquisa
Pressupostos constitutivos (PARADIGMAS)
A racionalidade de uma estratégia particular de pesquisa é baseada numa rede de pressupostos implícitos ou explícitos, relativos à ontologia e à natureza humana, e que definem o ponto de vista do pesquisador sobre o mundo social. Tais pressupostos fundamentam a pesquisa, levando o pesquisador a interpretar o mundo a partir de uma determinada perspectiva. Identificando tais pressupostos, podemos saber quais os paradigmas básicos que fundamentam a investigação.
Postura epistemológica (METÁFORAS)
O conhecimento científico é moldado a partir da maneira pela qual os pesquisadores tentam estabelecer os pressupostos básicos do seu trabalho. Imagens do fenômeno social, usualmente expressas em termos de metáfora favorita, dirigem a atenção de várias maneiras. A imagem favorece uma certa postura epistemológica, sugerindo que alguns tipos de insights, compreensão e explanação podem ser mais apropriados que outros. Pressupostos básicos diversos e as imagens relacionadas e desenvolvidas a partir destes resultam em diferentes bases de conhecimento sobre o mundo social.
Metodologia favorita (SOLUÇÃO DE QUEBRA-CABEÇA)
A imagem de um fenômeno a ser investigado oferece a base para a pesquisa científica detalhada, preocupada com o exame, a operacionalização e a medição, na medida em que aspectos detalhados da imagem caracterizam o fenômeno. A imagem gera conceitos específicos e métodos de estudo por meio das quais o fenômeno possa ser compreendido. Metodologias são esquemas de resolução de problemas que diminuem a distância entre a imagem sobre o fenômeno e o próprio fenômeno. Metodologias relacionam o pesquisador com a situação estudada em termos de regras, procedimentos e protocolos gerais que operacionalizam a rede de pressupostos incorporados nos paradigmas do pesquisador e a postura favorita em termos epistemológicos.
A lógica da estratégia de pesquisa se insere nas relações entre todos os fatores aqui analisados
Fonte: Morgan (1983, p.21)
Desde o estudo de Burrell e Morgan (1982), o leque de possibilidades de escolhas metodológicas vem aumentando. Contudo, isso acarreta maior responsabilidade diante dessas
escolhas, demandando clareza diante dos fundamentos epistemológicos que as embasam e a necessária identificação com esses fundamentos.
A breve trajetória histórica dos estudos organizacionais que apresentei no capítulo anterior tinha como principal objetivo mostrar que uma característica marcante desses estudos é o seu posicionamento unilateral em termos da dicotomia objetividade/subjetividade. Argumentei também que essa característica não é exclusividade do campo dos estudos organizacionais. Ao contrário, este apenas incorpora o debate maior acerca dessa dicotomia que permeia as diferentes correntes filosóficas e sociais.
De tal incômodo, nasce o primeiro impulso na construção do objeto de estudo desta pesquisa, que é o de desconstruir a base referencial da própria pesquisadora; uma tentativa de ver o mundo – no caso, o objeto de estudo – sem o olhar baseado no senso comum, sem a propensão objetivista própria do ser humano (MORENTE, 1980) e da disciplina da qual faço parte; uma oportunidade de reconstruir um novo referencial que vai dirigir as escolhas metodológicas que guiarão a aproximação com o objeto da pesquisa.
Para isso, o primeiro passo na construção do referencial teórico foi a apresentação dos pressupostos básicos que vão nortear esta reflexão, assim como o trabalho de pesquisa: a rejeição da dicotomia objetividade/subjetividade. Neste estudo, viso contribuir para o fortalecimento de um arcabouço teórico, ao mesmo tempo em que busco, por meio do trabalho empírico, descrever processos, confirmar esquemas teóricos, explorar outros conceitos, reconstruindo e reformulando esse mesmo arcabouço teórico. Busquei refletir essa opção na construção do referencial teórico, assim como no delineamento metodológico da pesquisa realizada, como tentarei mostrar.
Com base na abordagem proposta, cabe ressaltar que não é possível encontrar respostas em termos de nossa ansiosa busca por explicações causais. Sem dúvida, esta pesquisa não se insere no quadro do que Spink e Menegon (2000) qualificam como “monismo metodológico” – caracterizado pela formulação e teste de hipóteses e identificado principalmente em autores influentes como Karl Popper (MILLER, 1985). Em vez de explicar o fenômeno, busco, neste estudo, compreendê-lo, aderindo à epistemologia da diferença, defendida por Spink e Menegon (2000).
A emergência de novos campos organizacionais dirigiu a reflexão teórica e empírica. Entretanto, a escolha do campo da biotecnologia (objeto do enfoque empírico) não se baseou
em tradicionais planejamentos/procedimentos metodológicos. O que propiciou a escolha da biotecnologia como foco de análise empírica foi uma certa crença − então baseada no senso comum − na novidade do campo e a simultânea percepção de um movimento de permeabilidade da biotecnologia em outros campos. As citações que se seguem visam ilustrar esse movimento de permeabilidade que aguçou minha curiosidade, influenciando a escolha do campo da biotecnologia como foco do trabalho empírico:
A primeira clonagem de um mamífero (Dolly, a ovelha) foi anunciada em fevereiro de 1997; desde então, vacas, ratos, porcos e cabras também têm sido clonados. Diversos especialistas em fertilidade humana, dentro e fora dos EUA, têm anunciado, com grande fanfarra, a intencionalidade de clonar seres humanos e seus esforços podem estar realmente se concretizando (THE PRESIDENT’S COUNCIL ON BIOETHICS, 2002).
Uma seita religiosa canadense, os raelianos, que acredita no amor livre e que a vida na Terra foi criada por extraterrestres, anunciou que o primeiro bebê clonado do mundo irá nascer em 14 dias (TERRA, 2002).
Atualmente, têm sido escritos livros como A crise de identidade de um clone (EDER, 2002), programas de televisão sobre clonagem atraem milhões de espectadores em países latino-americanos (caso da telenovela O clone, transmitida pela Rede Globo em 2002) e conceitos como “clonagem”, “transgênico”, “engenharia genética” e “biotecnologia” estão cada vez mais presentes no nosso discurso. Os “raelianos”, uma seita religiosa coincidentemente criada logo após a divulgação das primeiras técnicas que possibilitaram a clonagem humana (1973), acreditam que os seres humanos foram criados com base na clonagem. A religião − que pode ser vista como um dos maiores triunfos da ideologia modernista e um dos marcos de maior alcance ideológico do Man of reason (McSWITE, 1997) − divulga que:
a vida na Terra não é o resultado de uma evolução por acaso, nem obra de um "Deus" sobrenatural. É uma criação decididamente escolhida por um povo cientificamente
desenvolvido, que criou os humanos exatamente a sua imagem. Pode se chamar de "criação científica (RAEL, 2003).
Na figura 7 é apresentada a foto de Dolly porque ela representa muito dos avanços da área nos últimos anos e do impacto da materialização das técnicas de clonagem que caracterizam os avanços em biotecnologia.
Figura 7: Dolly - a primeira ovelha clonada
A figura 8 mostra uma representação artística de Dolly, numa exposição no International Center of Photography, Nova York, Estados Unidos.
Figura 8: Dolly na exibição How Human: Life in the Post-Genome Era
Fonte: International Center of Photography
Na quarta série das exibições chamadas Imaginando o Futuro: A Interseção da
Ciência, Tecnologia e Fotografia, o International Center of Photography dedica à “vida na era
pós-genoma” uma mostra que reuniu 34 artistas plásticos e fotógrafos, de nove países, cujos trabalhos abordam questões relacionadas à pesquisa genética e à biotecnologia.
Figura 9: PHS Cologram
Se aceitarmos a definição do relatório Spinks, publicado no Reino Unido em 1980, segundo a qual as biotecnologias “relacionam-se à exploração de organismos, sistemas ou processos biológicos pelas indústrias de produção ou serviços” (GROIS, 1989, p.61), elas teriam uma longa história, desde a Era da Pedra até nossos dias. No entanto, apenas no final do século XIX a prática empírica da biotransformação por meio da fermentação começou a ser padronizada, e produtos mais ou menos uniformes puderam ser obtidos de maneira reproduzível. O que é conhecido como biotecnologia hoje relaciona-se aos processos de engenharia genética. Foi definida pelo US Office of Technology Assessment em 1991 como sendo“o uso industrial do DNA, fusão molecular e técnicas de bioprocessamento” (OTA, 1991, p.5). Contudo, como será mostrado, o que, de fato, foi pesquisado no decorrer do estudo é apenas um segmento do campo da biotecnologia, definido conforme o relatório Spinks. A delimitação das fronteiras desse segmento (biofarmaceúticos) surgiu naturalmente no decorrer da pesquisa de campo, conforme é indicado na seção “Sobre os limites”.