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4. GEREÇ VE YÖNTEM

4.2. Verilerin Elde Edilmesi

4.2.2. Benlik Saygısı Ölçeği

Chamei de mau gosto o que vi de mau gosto o mau gosto

é que Narciso acha feio o que não é espelho...

CAETANO VELOSO

Possíveis fundamentos à crise da metafísica, da razão e do sujeito, que vincam os séculos XX e XXI, vêm sendo em geral tributados a Marx, a Nietzsche e a Freud, os “mestres da suspeita”. A postura de colocar em dúvida, inclusive aos “profetas” do incredulismo, atinge tanto as humanidades quanto as ciências físicas. Da ocorrência de situações que desafiam verdades fixadas como inquestionáveis, oferecem exemplos, por suas próprias existências, a bioética, a biomedicina e a biotecnologia genética.

Métodos e técnicas de efeitos provocativos, como a clonagem, até de seres humanos, parecem derivar dos embates contra as tradições hegeliana e iluminista. No campo literário,

tais contraposições deram acesso, entre outras coisas, ao re-debate da mimese. No presente momento da tese, interessa-me a revisão desse conceito, no âmbito das reflexões de Luiz Costa Lima (1988). Daí sublinhar o complexo identificatório por ele detectado em Nietzsche, Heidegger, Derrida, Gilles Deleuze, Lyotard e Borges (COSTA LIMA, 1980, p. 229-258).

As presenças de Husserl e Heidegger impunham-se aos estudos literários. Reflexões de tais filósofos confluíam dos círculos fenomenológicos e da poética gerativa de Noam Chomsky à escola de Zurich, representada por Emil Staiger, e à crítica ontológico- hermenêutica, defendida no Brasil por Eduardo Portela. A poética desviava-se à “categoria do

poético, noção que, sem se confinar à especificidade da Literatura, assimila as instâncias do

literário e do existencial” (SOUZA, 1987, p. 52).

A teoria literária haveria de marcar suas diferenças em relação à teoria da literatura, pois essa última constitui um braço da literatura geral e do comparatismo. Um teórico da literatura reflete sobre as condições da literatura em si, da crítica literária e da história literária, assumindo papel de crítico da crítica, ou seja, de metacrítico. Por sua vez, o teórico literário demonstra caráter de maior opositividade, identificando-se mais com a crítica à ideologia, dentro dessa, à teoria da literatura.

Em tais marcos, a teoria literária era colocada em prática desde os formalistas russos: passa a existir quando a abordagem dos textos literários não é mais fundada em considerações não lingüísticas, considerações, por exemplo, históricas ou estéticas; quando o objeto da discussão não é mais o sentido ou o valor, mas modalidades de produção de sentido ou de valor. Essas duas descrições da teoria literária (crítica da ideologia, análise lingüística), se fortalecem mutuamente, pois a crítica da ideologia é uma denúncia da ilusão lingüística (da idéia de que a língua e a literatura são evidentes em si mesmas): a teoria literária expõe o código e a convenção ali onde a teoria postulava a natureza (COMPAGNON, 2006, p. 24).

A partir de Bakhtin, Julia Kristeva elaborava o conceito de intertextualidade, figurado e a refigurar-se nas pesquisas narratológicas de Gérard Genette. As formalizações da teoria literária, em particular, o estabelecimento do referido mecanismo intertextual, convergiam às teorias receptivas e do efeito. A dívida de certas obras para com as antecessoras se livraria do estigma da minoração, fazendo-se entender como procedimento corriqueiro.

O feixe textualista dos estudos literários vivia estado de apogeu nos anos 60-70, encorpado pelas produções de Claude Brémond a Claude Lévi-Strauss; desde Algirdas Greimas, a Barthes e Todorov. A sociologia era atingida pelo estruturalismo, no reaproveitamento que dele fez Louis Althusser, chegando aos Aparelhos ideológicos de

Estado. O intelectual argelino igualmente notava que o trabalho de Gramsci, ao interpretar o

materialismo histórico sob a forma de um historicismo,

apesar dos perigos de fetichização dos diversos gêneros que implica — é destruído pela sua concepção da ciência como infra-estrutura. A história — confundidos os dois sentidos da palavra — torna-se também ‘orgânica’, expressão e instrumento do grupo dirigente. A filosofia da história é elevada ao seu expoente máximo: história e filosofia confundem-se, formam também um outro tipo de ‘bloco histórico’ (LE GOFF, 2003, p. 101).

Se o estruturalismo definiu-se como escola, Jacques Lacan, Michel Foucault e Roland Barthes marcavam suas independências em relação ao movimento. No ano de 1967, o último veiculava sua bombástica inferência quanto ao “efeito de real”, a ocorrer quando os significados fossem extraídos dos discursos, permitindo, em aparência, confrontar a realidade com sua expressão. A “estrutura da narrativa, elaborada no cadinho das ficções (através dos mitos e das epopéias), torna-se, a uma só vez, signo e prova da realidade” (BARTHES, 2004, p. 157).

No mesmo ano, e numa década marcada pelo predomínio da lingüística estrutural sobre as humanidades, Hans Robert Jauss inaugurava outra forma de estudar o literário, em conferência editada posteriormente, com os respectivos títulos de História da literatura como

provocação à ciência da literatura e, mais tarde, História da literatura como provocação:

A ruptura com a idéia de que a obra de arte é invariável e intocável, resíduo do idealismo vigente na estética desde seus inícios, bastaria para assegurar a Jauss cadeira cativa entre os notáveis da Teoria da Literatura, campo de reflexão que, para ele, deságua na história da literatura. Eis por que uma conferência bastaria para perenizar seu nome. É claro que não foi só assim: ele escreveu vários livros, lecionou por muito tempo em Constança, foi convidado para atuar em outras universidades e colaborou em congressos e simpósios internacionais (ZILBERMAN, p. 3, 1997).

A “estética da recepção” havia tomado por base os ensinamentos hermenêuticos de Gadamer, ex-professor de Jauss em Heidelberg. Com os aportes de Wolfgang Iser (1979, 1996a, 1996b), a teoria se incrementava em seus objetivos de conceder maior importância ao leitor no circuito das obras literárias. Deslocou-se um trajeto que, do autor, se concentrara no texto e passava a levar em conta a interação entre os três agentes.71

71 A teoria de Jauss caracteriza-se por uma refutação aos métodos tradicionais da historiografia literária, particularmente,

no que tangem à narração amarrada, e cronologicamente alinhada, de acontecimentos artísticos aos fatos de uma época ou sociedade. Compreendendo a obra literária em sua história mesma, como se fosse um organismo vivo, em diálogo permanente com as diversas sociedades. Conforme o teórico, ainda que o texto seja uno, transforma-se em outro, ao responder diferentes questões, provocadas por leitores os mais variados. Cf. ZILBERMAN, 1989.

Ainda em 1967, Derrida trouxe a conhecimento suas obras A escritura e a diferença e

Gramatologia, nas quais cintilam “operadores textuais” característicos de sua produção:

“suplemento”, “rastro”, phármakon, dissémination etc. Qualificado estudioso do pensamento derridiano em nosso país, Evando Nascimento chama atenção, no texto do pensador francês, ao “Pé de página, desvio ou margem, as notas formam um ‘perigoso suplemento’ de leitura, aberto em seu próprio espaço, exigindo uma nova ciência do texto. Elas inferem uma ‘dobra’, o pli que marca o tempo e o lugar da escrita” (NASCIMENTO, 2001, p. 34).

A nota derridiana equipara-se a uma epígrafe: “para quem sabe ler, importam às vezes mais do que o texto dito principal ou capital” (DERRIDA, 1972, p. 230). Unido a esse filósofo pelo “princípio do prazer”, Deleuze publicava Diferença e repetição (1968), A lógica do

sentido (1969) e textos a respeito de filósofos ou escritores, tais como Alfred Jarry, Foucault,

Francis Bacon, Kafka, Kant, Nietzsche, Proust, Sacher-Masoch e Espinosa. O autor se acompanharia do psicanalista Félix Guattari, numa produtiva cumplicidade intelectual.

Ao limiar dos anos 60, Edward Thompson, Raymond Williams e Richard Hoggart dialogaram com o sociólogo da literatura Lucien Goldmann, divisando o literário como potente arma na efetivação de políticas orientadas ao social. Sem abdicar do debate, nem excluir a cultura do combate, organizaram-se na New Left Review, periódico que expressava idéias dessa “nova esquerda” inglesa. Junto ao intelectual jamaicano Stuart Hall, ao historiador Perry Anderson e a outros nomes, os “pais fundadores” dos Estudos Culturais integravam o processo de abertura do então restrito meio acadêmico da Inglaterra.

O local de sua atuação – Centro de Estudos Culturais Contemporâneos de Birmingham – rompeu com a hegemonia das tradicionais “universidades pedra gris”, a exemplo de Oxford e Cambridge. Durante a expansão do sistema universitário britânico, no período de 1964 a 1980, os culturalistas levariam a cabo uma efervescência produtiva; seus textos seriam traduzidos e suas reflexões, discutidas, quando não adotadas, nos departamentos universitários ou fora deles. Os estudos culturais,

portanto, nascem de uma insuficiência da teoria literária nos anos 50/60, que, preocupada com a explicação imanente dos textos, herança do Formalismo Russo e do New Criticism, esquecia sua inserção sócio-cultural e a materialidade de seus processos de produção e recepção, em favor de uma essencialização universalista de suas formas e de seus sentidos. Formados nos princípios da crítica formal- psicologista de I. A. Richards, os expoentes da Escola de Birmingham, egressos das classes operárias, perceberam que a valorização das manifestações populares, a investigação dos processos materiais de formação do público leitor, a defesa ao direito de acesso aos bens da alta cultura pelos grupos minoritários, exigiam que se considerasse não apenas a literatura, mas a cultura em que esta se produzia como novo campo de discussão teórica (BORDINI, 2006, p. 14-15).

Os Cultural Studies viriam ao encontro dos problemas de definição, síntese e métodos, enfrentados pela historiografia e a teoria literárias. Alargavam-se os objetos de pesquisa da história e da literatura, contemplando até mesmo suas inter-relações auto-questionadas. Os estudos culturais preenchiam o sentimento de vazio, causado pelo fracasso dos britânicos em não terem desenvolvido uma corrente marxista ou uma crítica sociológica dotadas de identidade própria.

Embora marcassem diferenças em relação ao marxismo vulgar e ao materialismo histórico, os culturalistas entenderiam os atos humanos em sociedade como balizas interpretativas das formações sócio-históricas anteriores. Nesse ponto, juntavam-se à concepção materialista da história, em seus vínculos com o meio-ambiente e outros seres, bem como na visada à infinidade dos movimentos contraditórios que integram o mundo concreto. Para o materialista histórico, há somente uma ciência — a histórica — da qual a ideologia constitui apenas um, dentre tantos aspectos.

Alianças entre práxis e processo reflexivo, nos estudos culturais e na literatura comparada, se renovaram pelas investiduras da hermenêutica, da teoria crítica e do pós- estruturalismo. Além de se intercomunicarem, no que concerne a suas zonas de atuação, esses campos teoréticos entrecruzavam-se a outras esferas do conhecimento. Estabeleciam-se novos conceitos, demarcando áreas de contato da história e da literatura com a filosofia e a lingüística.

Os domínios da literatura comparada se dilatavam para outras áreas do conhecimento. Novos olhares comparativistas se ampliaram aos elementos sócio-político-culturais, que predominariam até meados da década de 80, não só na França e nos Estados Unidos, mas também na União Soviética e na Alemanha. Conforme Tânia Carvalhal (1999, p. 9-12), a articulação entre culturas, as linhas de contraste e coincidência, alargariam questões em torno de temas como disseminação espacial, hibridismo e interpenetração cultural.

Passagens, migrações e trocas ocupariam o centro dos debates, encontrando fertilidade na “contextualização identitária”. Teoria da literatura e teoria literária, entre si e por si mesmas, revelavam intertextualidades, ao conviverem com antropologia, economia, ideologia, psicanálise e outras áreas do saber. A futura alegação de Bourdieu (1996) sobre a imanência dos significados de uma biografia, configurando-se do princípio ao fim, já era debatida nos anos 70 por Barthes, que propôs “fragmentar o texto antigo da cultura, da ciência, da literatura e disseminar-lhe os traços segundo fórmulas irreconhecíveis, da mesma maneira que se disfarça uma mercadoria roubada” (1990, p. 13).

Os historiadores da literatura passariam a considerar a “vida literária”72 em seus estudos ou, de maneira mais elaborada, o “sistema literário”.73 As universidades pareciam ver ao revés, enxergando os avessos do avesso: “povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas, da força da grana que ergue e destrói coisas belas, da feia fumaça que sobe apagando as estrelas...” (VELOSO, 2007). A história da literatura tentava responder às provocações da estética da recepção, assinaladas pela hermenêutica, não seria demais recordar.

Benzer Belgeler