2.3 DERNEKLER
2.3.3 Hüseyin Gazi Derneği
Para além da discussão sobre a natureza jurídica da Federação também nos interessa a abordagem sobre a deflagração do modelo federativo no âmbito do Estado nacional.43 Noutras palavras, urge que se estabeleça uma análise sobre a
existência de um pacto enquanto ponto inaugural da Federação pátria.
Faz-se necessário identificar o momento da conflagração do pacto federativo brasileiro.
Cabe investigar essa hipótese por ocasião da Proclamação da República e posteriormente durante os trabalhos da Assembleia Constituinte pela qual surgiu a primeira Constituição republicana,44 para então se determinar em que medida houve de fato um pacto federativo nos moldes daquele estabelecido na construção da matriz federalista norte-americana.
Bom, sem que seja necessário muito esforço, é possível constatar que o surgimento do Estado brasileiro não foi resultado de um pacto nos moldes daquele que se produziu nos Estados Unidos da América, onde a necessidade de unir entes confederados, libertos do julgo do Império Britânico, fez nascer um acordo pelo qual
43 “Historicamente verifica-se, que a Federação pôde ter origem de dous modos differentes: — ella
pôde effèctuar-se, sem que preceda tratado algum entre os Estados particulares nesse intuito ; — ou pôde originar-se de tratados ou convenções concluídas por Estados soberanos, preexistentes â Federação. Dà-se o primeiro modo de formação do Estado-federal: a) quando, ou pelo acto pacifico de uma revisão constitucional, ou por effeito de uma revolução, as províncias de um Estado unitário passam a constituir outros tantos Estados federados, do que temos exemplo nos Estados- Unidos do
México, e nos Estados-Unidos do Brasil-, b) quando, em consequência de um movimento nacional, pacifico ou revolucionário, os Estados soberanos existentes são levados a transformarem-se em um Estado-federal, sem haver tratado dos mesmos a este respeito. E' o que succedeu na Suissa, —onde
a transformação de 1848 effectuou-se, sem contrariar a vontade dos cantões, — o movimento se tendo operado de uma maneira pacifica, — os poderes públicos dos antigos Estados subsistiam de facto e de direito, e o seu assentimento á nova oxdem de cousas fora necessário, — mas,
Exclusivamente delles (en dehors d'eux), pela vontade da nação inteira, sem que os mesmos cantões
tivessem cooperado para isso, a não ser pela acceitação da nova constituição; e ainda, semelhante acceitação fora, apenas, tacita por parte decerto numero delles, os quaes, ao principio, se tinham opposto á revisão — O segundo modo de formação do Estaão-feãerãl é igualmente comprovado por factos históricos conhecidos, e referentes és actuaes federações, dos Estados- Unidos da Norte- America, da Republica-Argentina, e da Confederação da Allemanha do Norte (1866), depois, convertida no actual Império Allemão.” CAVALCANTI, Amaro. Op. Cit., p. 65/66.
44 “Historicamente verifica-se, que a Federação pôde ter origem de dous modos differentes: — ella
pôde effèctuar-se, sem que preceda tratado algum entre os Estados particulares nesse intuito ; — ou pôde originar-se de tratados ou convenções concluídas por Estados soberanos, preexistentes â Federação.”HAURIOU, André. Op. Cit., p 143.
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as unidades abririam mão de sua independência em favor de uma associação para formação de um só Estado nacional de natureza federativa.
No caso brasileiro não foi isso o que aconteceu, pois a independência não trouxe consigo a forma federativa, apesar dessa hipótese ter sido aventada no período que antecedeu à feitura da Constituição de 1824, ideia que não prosperou.45
Miriam Dolhnikoff46 discorre sobre os embates políticos travados em torno dos
interesses provinciais:
“A diversidade entre as províncias exigia demandas distintas, e a monarquia federativa seria capaz de acomodá-las, ao mesmo tempo que serviria aos interesses comuns, como a preservação da ordem excludente. Mesmo que isso significasse a impossibilidade de atender a todas as demandas de cada uma das elites provinciais. Como não desejavam uma reforma profunda na sociedade, e como consideravam prioritária a autonomia e a participação política, concentraram-se na defesa da federação.”
André Ramos Tavares47 faz alusão à discussão política havida em torno da
possibilidade de adoção de uma Monarquia federativa48 no Brasil:
“A proposta federativa chegou a ser discutida na efêmera existência da assembleia constituinte, dissolvida pelo Imperador em 1823. A Confederação do Equador de 1824 e a revolução Farroupilha (1835) apresentavam a nota do Federalismo.”
No Rio Grande do Sul e em Pernambuco movimentos ideológicos (Revolução Farroupilha e a Confederação do Equador) defendiam a adoção do modelo federalista ainda que de forma heterogênea, diante da resistência unitarista no seio
45
TAVARES, André Ramos. Curso de direito constitucional. – 9ª. ed. rev. e atual. – São Paulo: Saraiva, 2011, p. 1110.
46 DOLHNIKOF, Miriam O pacto imperial. Origens do federalismo no Brasil do século XIX. São Paulo,
Globo, 2005, p.41.
47
TAVARES, André Ramos. Op.cit., p. 1110.
48
“O regime federativo era uma aspiração antiga, o debate em torno do tema antecede até mesmo a ocorrência dos fatores que levaram ao “7 de abril de 1831”, quando o Imperador D. Pedro I foi forçado a abdicar da Coroa. Com efeito, instituída a Regência, houve as primeiras tentativas de se criar uma espécie de monarquia federativa, por meio de medidas descentralizantes (...).”GOMES, Lucivanda Serpa, MONTEIRO, Patrícia Moura. Federalismo republicano e tributação: A contribuição de Amaro Cavalcanti para o pensamento constitucional brasileiro. In: Programa de Pós-graduação em Direito da Universidade Federal de Uberlândia. (Org.). Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Direito. 21ª ed.Florianópolis: Fundação Boiteaux, 2012, v. 1, p. 11442-11461.
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das referidas Províncias. Portanto, inexistia naquele momento uma coesão ideológica em torno da proposta federativa.49
Naquela ocasião, o Federalismo apresentava-se como um mecanismo plausível, a ponto de se cogitar adaptá-lo à Monarquia. Entretanto, o regime monárquico não nutria qualquer simpatia pela teoria federalista, pelo fato de estar ela - no discurso dos liberais - atrelada à forma de Estado republicana, em alusão ao modelo norte-americano que lhes servia de paradigma.50
Nos Estados Unidos o acordo que criou a Federação resultou - após uma breve experiência confederativa - de consenso das treze colônias, maturado na fase de reconhecimento de sua independência, logo após a Guerra travada com a Inglaterra, para então em 1787 constar da Convenção de Filadélfia e materializar-se no texto da Constituição Federal.51
Enquanto os Estados Unidos se originaram de um acordo entre entes independentes e soberanos, no Brasil as Capitanias formavam uma só estrutura colonial sob o domínio do Império de Portugal.
A preexistência de um Estado unitário é um fator que nos distancia da matriz federativa criada pelos EUA, como esclarece Severini: 52
“Nesse sentido, a conversão, desde o Decreto nº 1, do governo provisório – do Estado unitário sob égide imperial – em uma sequência federativa, revela-se grande medida para a construção do federalismo brasileiro, ao apontar para a criação de poderes locais autônomos, que passariam a conviver como o governo central preexistente, distanciando-se, assim, do modelo norte-americano que decorreu de pacto de unificação de entes soberanos confederados.”
49
DOLHNIKOF, Miriam. Op. Cit., p. 45, 46.
50 “Insta observar que, o projeto federalista no Brasil, em grande medida, quase sempre esteve de
mãos dadas com os ideais republicanos, como uma contraposição ideológica ao velho regime. Após o arrefecimento das revoltas nas províncias6, algumas de cunho separatista, houve no Rio de Janeiro a primeira contestação pública ao regime monárquico com a publicação do Manifesto Republicano de 18707, no qual seus adeptos exigiam a implantação da Federação inspirada no modelo norte- americano. A centralização passou a ser vista como um obstáculo para o desenvolvimento do País.” GOMES, Lucivanda Serpa, MONTEIRO, Patrícia Moura. Op.cit., p. 11447.
51 “Na verdade, o processo de formação centrípeta do Estado federal norte-americano começou em
1775 – ocasião da revolta dos colonos contra as políticas financeiras do Reino Unido, sob o comando de Jorge III – e terminou em 1787 com a Convenção de Filadélfia, cujo desfecho foi a promulgação da Constituição dos Estados Unidos da América do Norte.” GÓES, Guilherme Sandoval. O pacto federativo brasileiro: gênese, óbices e núcleo essencial, 2008. http://www.direitopositivo.com.br/modules.php?name=Artigos&file=display&jid=161
52
SEVERINI, Tiago. O pacto federativo brasileiro e os limites à reforma fiscal. Revista SJRJ, Rio de Janeiro, v.18, n.31, ago/2011, p.197.
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Assim como se deu com as Capitanias Hereditárias em 1822, as Províncias em 1889 não se uniram para selar seu destino político, consequentemente não produziram nenhum pacto com vistas à criação da Federação. Deste modo, é que a “união perpétua e indissolúvel das antigas Províncias”, como disposto no artigo 1º da Carta de1891, se estabeleceu pela vontade daqueles que derrubaram a Monarquia e não pela vontade de entidades estatais independentes.
Sobre o assunto é preciso atentar às lições do historiador Boris Fausto: 53
“A proclamação da Repúbica correspondeu ao encontro de duas forças diversas – exército e fazendeiros de café – movidas por razões diferentes. O exército tinha motivos de ordem corporativa e ideológica para se opor à monarquia. A guerra do Paraguai favoreceu a identificação dos militares como grupo, e eles começaram a criticar a posição secundária que o Império conferia à instituição. Pouco a pouco, foram afirmando o direito de expressar abertamente suas críticas e de se organizar politicamente. A chamada ‘Questão Militar’ girou sobre esses temas. Ao mesmo tempo, um grupo minoritário mas extremamente ativo, liderado por Benjamin Constant, combinava tais críticas com uma implantação de um regime republicano e modernizador. Como se sabe, os fazendeiros paulistas, através do Partido Republicano Paulista, moviam-se por razões claramente econômicas. A República, sob forma federativa, significava o fim da centralização imperial, a autonomia dos estados e a possibilidade de impor ao país um sistema que favorecesse o núcleo agrário-exportador em expansão. Contando com o apoio deste núcleo, o exército desfechou o golpe de 15 de novembro e assumiu o controle do governo. Na luta que se seguiu, entre o grupo militar e a classe social, esta acabou por triunfar.”
Com efeito, a República - assim como ocorreu com a Monarquia brasileira – também surgiu de um movimento revolucionário patrocinado por uma conjunção de forças capitaneadas pelo Exército e pela elite cafeicultora.
Assim sendo, a Federação não foi fruto do consenso provinciano, tendo surgido na esteira de um golpe de estado, sem ostentar apoio popular maciço. “O advento da república estabeleceu porém um monismo formalista na teorização do
53
FAUSTO, Boris. Pequenos ensaios de história da república (1889-1945). In: FENELON, Dea Ribeiro. 50 textos de história do Brasil. São Paulo: Hucitec, 1983, p.117, 118.
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sistema ou do regime: já não entrava na Constituição uma vontade privilegiada desvinculada do consenso, ainda que este fosse o consenso das elites. (...)” 54
Em verdade, a forma de governo não decorreu da expressão da vontade do povo brasileiro, tampouco a forma de Estado se originou de um consenso entre a maioria das Províncias.
As Capitanias se transformaram em Províncias em consequência da Independência nacional, processo revolucionário liderado por Dom Pedro I. Urgia derrubar a Monarquia para instituição doutra forma de governo, a questão central era mesmo esta. Portanto, a preocupação referente à forma de Estado, a ser adotada no período republicano, era uma questão lateral e de menor importância.55
Há quem defenda ter havido um consenso federativo - ainda durante o regime monárquico, manifesto pela descentralização de competências em favor das Províncias - ocorrido com a edição do Ato Adicional em 1834. Esta é a opinião de Riker56 para quem no Brasil o Federalismo nasceu justamente nessa ocasião.
Tal hipótese57 não se sustenta porque na Constituição Imperial o Brasil adotou o Unitarismo como forma de Estado. Aliás, o Senado rechaçou a pretensão referente à adição da expressão “monarquia federalista” no texto da Constituição de 1824, através da emenda constitucional de 1834.
Além do mais, a vitaliciedade atribuída ao Senado minava a noção federativa de representação que ali se intentava imprimir, posto que a inexistência de processo eleitoral mostrou-se desfavorável à pressão provincial exercida sobre os senadores para que atuassem de acordo com os interesses regionais. 58
Entretanto, é preciso reconhecer que o Ato Adicional permitiu alguma autonomia legislativa às Províncias através da criação de um Legislativo próprio
54
BONAVIDES, Paulo; ANDRADE, Paes de. História constitucional do Brasil. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1991, pp. 8/9.
55 De acordo com Casimiro Neto no dia 20 de novembro de 1889 é expedido pelo Chefe do Governo
Provisório, Marechal Manoel Deodoro da Fonseca (AL), o Decreto nº 7, que “dissolve e extingue as assembléas provinciaes e fixa provisoriamente as attribuições dos governadores de Estados”. SILVA NETO, Casimiro Pedro da. A construção da democracia : síntese histórica dos grandes momentos da Câmara dos Deputados, das assembléias nacionais constituintes e do Congresso Nacional .../ Casimiro Neto. — Brasília : Câmara dos Deputados, Coordenação de Publicações, 2003. 751 p. – (Série temas de interesse do Legislativo ; n. 5). p. 285.
56
RIKER, William, apud ARRETCHE, Marta. Federalismo e democracia no Brasil: a visão da ciência política norte-americana. São Paulo em perspectiva, 15(4) 2001, p.23.
57
ARRETCHE, Marta. Ibdem, p. 25.
58
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(Assembleias Provinciais). Todavia, este elemento isoladamente considerado é insuficiente para fundamentar a tese de existência de uma Federação imperial no Brasil. A manifestação de resquícios de desconcentração do poder imperial, não foi suficiente para sustentar essa hipótese, visto existirem Estados unitários que concedem alguma autonomia as suas entidades administrativas.
Desta maneira, a centralização política continuou nas mãos da Monarquia, e é certo que não havia eco no Senado para que as Províncias participassem da vontade nacional. A relativa autonomia provincial foi logo sufocada pela edição da Lei de Interpretação ao ato adicional, fazendo com que o Império restabelecesse com mão forte à centralização decisória.
Aliás, é preciso esclarecer que mesmo após a Proclamação da República - já no período de construção da Constituição de 1891 - houve forte embate ideológico acerca da forma de Estado que deveria se somar à nova forma de governo republicana no plano constitucional.
O Governo Provisório nutria simpatia pelo Unitarismo, forma de Estado ideal ao exercício do controle político. Os cafeicultores, por sua vez, preferiam a forma federativa, em virtude da autonomia - favorável ao fortalecimento de oligarquias - concedida aos entes estaduais.
“A elaboração da Constituição também gerou divergências entre os republicanos: O marechal Deodoro, os positivistas e parte do exército pretendiam um regime centralizado, enquanto as oligarquias estaduais, formadas por proprietários de terras, preferiam um regime federalista, que lhes asseguraria maior participação no poder.” 59
Sob o olhar de Manuel Deodoro da Fonseca, a Constituição de 1891 foi elaborada por uma Assembleia Nacional Constituinte eleita em 1890 e encarregada pela primeira vez de traçar os termos do Federalismo pátrio.
“Proclamada a República, a legitimação do novo regime far-se-ia através de uma Assembléia Constituinte, a ser eleita pelo sufrágio universal, expressão da soberania popular. É eliminada a barreira do voto censitário, considerando-se eleitores todos os cidadãos brasileiros maiores de 21 anos que soubessem ler e escrever (Dec. 200-A, de 8.02.1890). No eleitorado da capital, isso representou um crescimento considerável em relação ao último período do Império. De 6.665 eleitores em 1881, o Rio passou a contar em
59
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1890 com 28.585 eleitores alistados. É preciso, porém, não superestimar esse crescimento: de saída, a exclusão das mulheres e dos analfabetos reduzia o eleitorado potencial da cidade a cerca de 100 mil pessoas, aproximadamente 20% da população fixa total (515.559 habitantes). Os eleitores efetivamente alistados, portanto, representavam apenas 28% dos aptos a votar, e cerca de 5,5% da população (contra cerca de 2% em 1881).” 60
É incontestável que a Carta Magna de 1891 foi promulgada, tendo sido legitimada por constituintes eleitos pelo voto popular.61 Assim, do ponto de vista
constitucional o pacto federal inaugural foi construído pelo Poder Originário,62 a partir
da noção de que precisaria legitimar-se por uma Constituição.63 Ora, se a
Assembleia Nacional Constituinte criou a Constituição e o Estado republicano de cunho democrático, certamente também teve legitimidade para estabelecer os termos do pacto federativo. 64
Assim, está claro que durante o Governo Provisório, surgido por um comando militar revolucionário (1889/1891), a Federação (forma de Estado nascida pelo
60 VENEU, Marcos Guedes. Enferrujando o sonho: partidos e eleições no Rio de Janeiro, 1889-1895.
Revista de Ciências Sociais. Rio de Janeiro, Vol. 30, n. 1, 1987, p. 45-72.
61
“23 de junho de 1890. É expedido pelo Chefe do Governo Provisório, Marechal Manoel Deodoro da Fonseca (AL), o Decreto nº 511, que “manda observar o regulamento para a eleição do primeiro Congresso Nacional”. No artigo 5º observa que: “A nomeação dos deputados e senadores será feita por Estados e por eleição directa, na qual votarão todos os cidadãos qualificados eleitores de conformidade com os decretos ns. 200-A de 8 de fevereiro, 277-D e 277-E de 22 de março de 1890”.
Define o quantitativo de 205 deputados e 63 senadores e diz ainda no artigo 67: “Aos cidadãos eleitos, para o primeiro Congresso entendem-se conferidos poderes especiaes para exprimir a vontade nacional ácerca da Constituição publicada pelo decreto n. 510 de 22 de junho corrente, bem como para eleger o primeiro Presidente e Vice-Presidente da Republica”. NETO, Casimiro. Op. Cit.. p.
288.
62
“Quando, porém, os Estados soberanos, que se ligam, querem dar-se uma cohesâo e
homogeneidade, renunciando em favor do poder federal a maior ou melhor parte das suas
prerogativas, a união, ora instituída, é uma federação ou Estado-federal. Este presuppõe, não, um simples pacto, mas uma constituição federal, com um governo, dotado de todos os poderes, legislativo, executivo e judiciário, cuja acção estende-se, em maior ou menor escala, sobre Os próprios negócios e interesses de cada um dos Estados federados.” CAVALCANTI, Amaro. Op. Cit., p. 14.
63
HAURIOU, André. Droit constitutionnel et institutions politiques. Paris: Montchrétien, 1966, p 143.
64
“Nesse mesmo dia é expedido o Decreto nº 78-A, que no seu artigo primeiro tratou do seguinte: “É
banido do territorio brazileiro o Sr. D. Pedro de Alcantara, e com elle sua familia”. É expedido,
também, o Decreto nº 78-B, que “trata da convocação do Congresso Nacional Constituinte”. Os seus
artigos trazem o seguinte: “Art. 1º No dia 15 de setembro de 1890 se celebrará em toda a Republica á eleição geral para a Assembléa Constituinte, a qual compor-se-há de uma só camara, cujos membros serão eleitos por escrutinio de lista em cada um dos Estados. Art. 2º A Assembléa Constituinte reunir- se-há dous mezes depois na Capital da Republica”. A esse respeito ver também o Decreto nº 510, de
27
Decreto nº 01 de 1889) 65 não gozava de lastro constitucional, tampouco resultou da vontade da maioria das Províncias.Ali importava muito mais proclamar a República do que propriamente instituir a Federação. 66
"(...) errôneo supor que a Federação no Brasil foi produzida unicamente pelo Decreto nº 1, do Governo provisório de 1889. Se o presidencialismo colhe de surpresa o País, desconhecido que era a todas as tradições de embate doutrinário em que nos havíamos empenhado durante a fase anterior à República, tal não se deu, porém, com a Federação. Esta, ou já se desejava, no sentir de monarquistas abalizados, da índole liberal de Nabuco e Rui, ou já aguardava, por solução lógica e idônea aos antagonismos e crises que desde muito dilaceravam o corpo político da Monarquia. O Decreto 1 foi apenas o coroamento vitorioso de velhas aspirações autonomistas que, não se podendo fazer nos quadros institucionais do Império por um ato reformista, se fizeram via improvisa da ação revolucionária de 15 de novembro de 1889, resultando, assim, na implantação dos sistema republicano".67
Em 1890 o Governo Provisório institui o Decreto nº 510 através do qual publicou em 22/06/1890 a “Constituição dos Estados Unidos do Brazil” que durou até o advento da Constituição de 1891. O referido Decreto, portanto, disciplinou as relações jurídicas no vácuo compreendido entre as Cartas de 1824 e 1891.
A respeito da natureza jurídica do Decreto nº 510 importa esclarecer que sua criação não adveio do Poder Constituinte Originário,68 e sim de uma manifestação das forças revolucionárias que tomaram o poder. Por esta razão, não poderia ser o
65 Cf. Decreto nº 1, de 15 de Novembro de 1889.
66 “O pacto federativo pode ser entendido como as regras de coexistência entre poderes da base
nacional e poderes da base regional. No nosso caso pioneiro, foi pouco mais do que um acerto entre setores mais tradicionais do Norte e do Nordeste e Governadores representantes de setores mais dinâmicos do Sul e do Sudeste, interessados no uso prático que poderia ser dado ao poder central, especialmente na viabilização do comércio exterior. A descentralização de ações – característica essencial de um sistema federativo – acabou confundida com uma autorização para o uso indiscriminado do Estado, em nível local, pelas elites pactuantes. A partir daí, nota-se um caráter