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O tratamento às pessoas com deficiência foi marcado pelo estigma,22 pois a deficiência representa uma marca que o homem sempre apresentou dificuldades em tolerar. O que nos chama a atenção é que a intolerância não se restringe à deficiência, mas se estende às pessoas que a possuem, resultando em exclusão e segregação de pessoas pelo simples fato de possuírem algum tipo de deficiência. As primeiras instituições especializadas cumpriram a função dúbia de afastar estas pessoas do meio social e ao mesmo tempo criar um espaço limitado e específico para elas. Especialização, palavra que vem do latim, espécie que indica gênero, qualidade, natureza (Cf. Cunha, 2007), indica a necessidade de se definir a natureza de uma instituição com um serviço específico.

O vocábulo segregação vem do latim segregare, quer dizer separar, por de lado. (Cf. Ibid.) No século XIV, na Europa, segregar assume o significado de separar uma besta, um animal do rebanho. (Cf. Leguil, 1998) Após o século XVI, passou a se referir à raça humana, e a realizar a separação pela cor, o

apartheid. Mais precisamente, é com a escravidão na modernidade, diferente

da escravidão encontrada na Roma antiga, que a segregação passa a se aplicar não só aos animais, mas também aos seres humanos. Um significante que acompanha a colonização e surge historicamente como segregação racial. Segundo Leguil, foi na civilização moderna que a segregação foi ampliada e se estendeu a determinados grupos de pessoas. (Ibid.) A segregação passou a

21 Poema escrito por uma turma de Atendimento Educacional Especializado, em Junho de

2009.

22 Goffman define o estigma como um atributo que torna a pessoa que nos é estranha diferente

dos outros, e que a coloca numa categoria em que pudesse ser incluído em uma espécie menos desejada. (Cf. Goffman, 1988, p.12)

40 ser utilizada para significar todos os procedimentos de classificação e separação das pessoas, segundo o nível de cultura, de instrução, de riqueza, a ou a partir de qualquer outro atributo que distingue determinado grupo de pessoas de maneira depreciativa, como possuir uma deficiência.

Pessoti (1984), em sua pesquisa, ressalta que o cristianismo representou uma mudança significativa na história da assistência às pessoas com deficiência. Segundo ele, com o cristianismo tornou-se inaceitável a prática de abandono à inanição ou “exposição” dos “sub-humanos"23 como forma de eliminação, comumente utilizada na Grécia Antiga, e em outras civilizações consideradas primitivas. (Cf. Batista, 2002) As pessoas que possuíam alguma deficiência são, a partir de então, consideradas pessoas portadoras de uma alma e, portanto, filhos de Deus. “Com a propagação do

cristianismo na Europa, eles passam de coisa a pessoa”. (Cf. Pessoti,

1984, p. 4)

Na Idade Média, as crianças que tinham alguma deficiência tornam-se “les enfants du bon Dieu”, e são acolhidas em conventos ou igrejas. Pessoti denuncia o paradoxo contido nessa expressão e nesse tipo de acolhimento que “tanto implica a tolerância e a aceitação caritativa quanto encobre a omissão e

o desencanto de quem delega à divindade a responsabilidade de prover e manter suas criaturas deficitárias”. (Ibid.) Desde essa época, atitudes

contraditórias são mantidas diante da deficiência mental, considerado às vezes como eleito de Deus, ou como uma espécie de expiador, um para-raios da cólera divina. A ética cristã reprime a tendência a livrar-se da pessoa com alguma deficiência através do assassínio ou do abandono, mas introduz uma ambivalência entre caridade e castigo. Possuir uma deficiência, na lógica do cristianismo, poderia significar um castigo divino pelos seus pecados ou de seus ascendentes e, portanto, essas pessoas mereciam ser castigadas; a solução desse dilema se deu pela segregação: “[...] atenua-se o castigo

transformando-o em confinamento”. (Ibid., p. 6)

23 Sub-humano ou disforme eram as nomenclaturas utilizadas para se referir às pessoas com

deficiência na Grécia Antiga, termo que se encontra tanto em República, de Platão, como em A

41 O confinamento era uma prática que abarcava várias categorias de pessoas e tornou-se comum desde esse período. Foucault (1926-1984, filósofo francês), em História da Loucura (1961), ressalta que o classicismo foi a época em que se instituiu a categoria do internamento como resultado de um acordo entre monarquia, burguesia e igreja para “colocar em ordem o mundo da

miséria”. “A prática do internamento designa uma nova reação à miséria, um novo patético – de modo mais amplo, um outro relacionamento do homem com aquilo que pode haver de inumano em sua existência”. (Foucault, 2008, p. 56)

A primeira instituição especializada para pessoas com deficiência surgiu na Bélgica, no séc. XIII, como uma colônia agrícola. Em 1325, Eduardo II da Inglaterra institui a primeira legislação, conhecida como De Praerogativa Regis, sobre os cuidados a se tomar com relação à sobrevivência e aos bens dos “idiotas”. (Cf. Pessoti, 1984, p.5) O direito dos “idiotas” à herança mudou o tipo de assistência, mas a preocupação maior ao se definir os direitos estava correlacionada aos bens, e, a partir de então, são os possíveis herdeiros de algum bem que obtiveram o direito a determinadas assistências.

No séc. XIV, na França, Nicole Oresme já utiliza o termo debile mentale. Esta era uma época de forte crescimento do imperialismo francês, com expansão do sistema escolar e ações marcadas pela ideologia de uma missão civilizatória. Segundo Bruno, essas ações tinham visivelmente características racistas excluindo várias crianças do sistema de ensino regular, por serem consideradas inferiores de alguma forma. (Cf. Bruno, 1986)

De qualquer forma, ainda não se considerava essa deficiência propriamente como uma patologia, o que ocorreu apenas em 1534, na jurisprudência de Fitz-Herbert, com a definição da idiotia e da loucura como um tipo de enfermidade ou produto de infortúnios naturais. O critério utilizado para essa definição, na época, era a ausência ou perda da razão. (Cf. Pessoti, 1984, p. 17)

Em 1567, Paracelso (1493-1541, médico, alquimista, físico e astrólogo suíço) publica sua obra Sobre as doenças que privam os homens da razão e define a demência e amência. A partir de então, a deficiência passa a ser considerada como uma questão médica e a ter uma causa orgânica, não

42 apenas teológica. Mas essas descobertas do renomado médico não eliminaram de imediato a superstição; nota-se que a crença contida no fato de que essas doenças teriam razões sobre-humanas e cósmicas persistiram durante décadas, com vestígios nos dias atuais.

Os estudos de Vesálio (1514-1564, médico belga, considerado pai da anatomia moderna) e de Willis (1621-1675, anatomista e neurologista), realizados em 1664, praticamente 100 anos depois da descoberta de Paracelso, não chegaram a influenciar a religião e os responsáveis pelo poder a ponto de trazer mudanças consideráveis ao tipo de assistência. De qualquer modo, mesmo com a predominância da crença teológica, esses médicos inauguraram uma postura organicista para a deficiência mental. É notável a definição da época pelo fato de esta conceber a deficiência mental como algo que distanciava o homem da razão e da ausência de inteligência, e ao mesmo tempo significava uma aproximação do humano com o “animal” de forma depreciativa:

A idiotia e a estupidez dependem de uma falta de julgamento e de inteligência, que não corresponde ao pensamento racional real [...] e se a imbecilidade ou estupidez aparecem, a causa reside na região cerebral envolvida ou nos espíritos animais, ou em ambos. (Pessoti, 1984, p.18)

Na ordem médica, a deficiência mental inicialmente foi considerada como uma doença com etiologia de ordem natural, ou de uma disfunção do sistema nervoso central. Com a tese de Francesco Torti (1658-1741), passa a ser considerada também como uma doença de causas ambientais; neste sentido, acreditava-se que havia uma correlação dessa deficiência com a malária.

O termo cretino para designar algum tipo de deficiência mental foi encontrado no Observationum, de Felix Plater, de 1614. O verbete “idiot” é definido por Diderot, na Encyclopédie, em 1779, como:

[...] aquele em que uma deficiência natural dos órgãos que servem às operações do entendimento é tão grande que ele é incapaz de combinar qualquer idéia (sic), de sorte que sua condição pareceria, sob esse aspecto, mais limitada que a do animal. (Pessoti, 1984, p. 159)

43 O idiota era considerado um ser vegetativo impróprio para a vida social; o imbecil poderia ocupar na sociedade um “degrau modesto, de costume”. “A

diferença entre idiota e imbecil consiste, parece-me, em que idiota se nasce e imbecil se fica”. (Ibid.) Apesar da confusão de diagnósticos, a idiotia era

entendida como o grau máximo de inumanidade.

Apesar de se suspeitar de outras causas, a visão organicista inicial prevalece e a deficiência mental toma conotação de uma moléstia incurável com perspectiva fatalista e com forte estigma. Percebe-se que, mais uma vez, agora com o aval da ciência, se condena e ratifica a internação de forma decisiva para essas pessoas. As pessoas com DM eram aprisionadas juntamente com os ‘loucos’ e misturados às demais pessoas que também eram consideradas incuráveis socialmente ou fisicamente. Havia uma justificativa social para a internação, que foi descrita por Foucault e observada na pesquisa de Pessoti: “O apelo residual do séc. XVIII a uma noção fatalista da deficiência

parece uma desesperada tentativa de isentar a família e o poder público do dever de educar os amentes e criar instituições adequadas para isso”. (Pessoti,

1984, p. 24)