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Descartes (1596-1650, filósofo, físico e matemático), ao estabelecer o seu cogito definiu uma forma de pensamento que se tornou um dogma que influenciou a estruturação da sociedade e suas organizações. O modelo da racionalização científica influenciou a criação das organizações escolares, reservadas apenas aos “normais”, e impossibilitou a relação igualitária nestes espaços, expulsando o alienado, o “simples de espírito”, ou o débil mental. Vários movimentos e transformações da sociedade, como a revolução francesa, a revolução norte-americana e o iluminismo, influenciaram a maneira de o homem construir o conhecimento científico, estabelecer os direitos dos cidadãos e suas organizações. O iluminismo foi marcante para a medicina positivista do séc. XIX (Foucault, 2008) com uma proposta política e social que postula uma unidade fundamental e uma reconciliação sempre possível sobre

44 os conflitos. A assistência dispensada a essas pessoas passa a ser uma questão de direitos e não apenas de caridade.

Pessoti afirma que a obra de Locke (1632-1704, filósofo inglês) além de trazer uma verdadeira revolução cultural e filosófica, também influenciou o modo de pensar a pedagogia e contribuiu para transformar a questão de deficiência mental. Até então, a pessoa com essa deficiência era caracterizada pela ausência completa de ideias e das operações mentais. A partir da teoria de John Locke, o “idiota” passar a ser considerado como alguém que precisaria de ensino para suprir suas carências, assim como uma tabula rasa que precisa ser preenchida. As considerações de Rousseau (1712-1778, filósofo suíço) também influenciaram todo o sistema de educação, considerando-a responsável por transformar a criança em um ser humano educável, com a educação sendo extremamente necessária por se pressupor que a sociedade é um agente corruptível do homem.

Pinel (1745-1826, médico francês, considerado pai da psiquiatria), influenciado por esta revolução científica, inaugurou na medicina uma nova proposta de atendimento, estabelecendo outra forma de relação entre médico e paciente com uma conotação terapêutica. A proposta de tratamento de Pinel era inovadora por libertar essas pessoas das prisões. Pode-se afirmar que foi o primeiro médico a tratar o louco como “ser humano”. (Cf. Mannoni, 1987) Seus estudos e reformas constituíram a primeira revolução psiquiátrica, introduzindo os conceitos de moral e liberdade na medicina. Mas, apesar de libertá-los da prisão, iniciando um novo modelo, continha o propósito de submetê-los ao confinamento da medicina moral. Na verdade, tratava-se mais de domar a loucura do que realmente conhecê-la, afirma Mannoni. (Cf. Ibid., p. 200)

No seu Tratado médico-filosófico sobre a alienação mental (1801), Pinel adotou o foco anatomofisiológico para a deficiência mental e desenvolveu uma classificação nosográfica definindo: a melancolia ou delírio parcial; a mania ou delírio generalizado; a demência ou fraqueza intelectual generalizada e o idiotismo como último grau de alienação mental. Uma definição que colocava DM e psicose como uma mesma entidade. O idiotismo passa a ser considerado como uma obliteração das faculdades intelectuais e afetivas, do conjunto, o sujeito ficando reduzido a uma vida vegetativa, com alguns resquícios de

45 manifestações psicológicas: devaneios, sons semiarticulados, crises de agitação. (Cf. Bercherie, 1992) No século XIX, essa definição de idiotismo passa a ter um valor central na discussão sobre a deficiência mental, como “um

estado particular em que as faculdades mentais jamais se desenvolveram”.

(Santiago, 2005, p.49) Desde então, a DM é considerada como uma patologia de cunho orgânico e neuropatológica.

Foucault alerta para o fato de que aquilo “que Pinel e seus

contemporâneos sentirão como uma descoberta ao mesmo tempo da filantropia e da ciência, é no fundo, apenas a reconciliação da consciência dividida do século XVIII”. (Foucault, 2008, p. 132) Segundo Foucault, o que se

passa é, na verdade, um decreto social do internamento, “uma experiência

social normativa e dicotômica da loucura”. Ainda, sob a ótica de Foucault, a

psicopatologia do séc. XIX parte do pressuposto da existência de um homem normal, o que é apenas uma criação, um fundamento que persiste no séc. XXI. A patologia, neste caso, significa a perda do estado natural que deve ser recomposto. Diante do que seria considerado um homem “normal”, a deficiência caracterizaria o déficit na normalidade.

Bercherie (1992), no seu estudo sobre o histórico da psiquiatria infantil, caracteriza esse momento como o primeiro período dentre outros três que foi marcante para a psiquiatria. O primeiro período de Bercherie constituído antes de 1820 compreende os três primeiros quartos do século XIX e a questão da psiquiatria infantil foi exclusivamente reservada à discussão do retardamento mental. O psiquiatra enfatiza que a história da loucura e da deficiência mental se confunde, assim como as nomenclaturas, diagnósticos, tratamentos e mesmo métodos de confinamentos.

Essa correlação da deficiência com a loucura persistiu durante séculos e a distinção entre as duas passou a ser uma questão do uso da inteligência. Sob este aspecto, Foucault assinala que no séc. XIX se definem algumas formas de loucura como: parcial, total, contínua ou intermitente, como a definição de Pinel. A loucura parcial pode atingir a inteligência, mas não o resto do comportamento, ou o contrário. Também em História da Loucura, Foucault, levanta citações da Caridade de Senlis, que caracteriza essa confusão

46 diagnóstica: um “louco que se tornou imbecil, [...] ou um homem outrora louco,

e agora de espírito fraco e imbecil”. (Foucault, 2008, p. 130)

Neste contexto, em 1800, Jean Itard (médico francês, seguidor de Pinel) inicia o tratamento do selvagem de Aveyron,24 nomeado por ele como Victor. Itard contesta o diagnóstico elaborado por Pinel, que considerava Victor como um indivíduo desprovido de recursos intelectuais e afirmava que, sendo o garoto um idiota essencial, não havia para ele possibilidade de cura. Itard demonstrou grande avanço, inovação e certa dose de coragem ao discordar do diagnóstico de Pinel, seu mestre, que já era um médico renomado e diretor do manicômio de Bicêtre. Itard inaugurou uma forma de tratamento a partir do atendimento de Victor. Este médico foi progressista para a época; além de persistir no tratamento para alguém considerado desenganado, denunciou outros problemas cruciais para essa deficiência, que eram a questão da avaliação e do diagnóstico.

Itard contestou a teoria etiológica de Pinel e sustentou que deveriam ser considerados os fatores ambientais e a história pessoal da infância para se desenvolver um prognóstico. Segundo Itard, o idiotismo de Victor era resultado do reflexo da carência de experiências de exercício intelectual, devido ao seu isolamento. Para ele, o idiotismo surgiu como retrato do seu desenvolvimento. O médico também contesta o prognóstico de incurável para Victor.

O tratamento de Victor realizado por Itard marca o afastamento entre Pinel e Itard, e uma nova forma de tratamento para a DM. Itard desenvolve sua teoria fundamentado nas teorias do “Bom Selvagem” de Rousseau, a “Estátua” de Condillac (1715-1780, filósofo francês) e a “Tabula Rasa” de Locke, principalmente a publicação deste último de 1690, Essay. A teoria de Condillac defendia a tese de que através das sensações pode-se fazer comparação, juízo ou avaliação. Baseando-se na suposição de que qualquer conhecimento ou ideia são basicamente uma sensação, sejam eles produzidos pelos objetos externos (sensação), sejam gerados pela percepção de operações mentais (reflexão), fundou-se um método de educação infantil. Em 1749, Condillac, no

24 Tratava-se de um garoto de 12 anos que havia sido encontrado em 1798 nos bosques da

região de Aveyron, considerado surdo-mudo. Aqui também percebe-se a mistura e não distinção da DM com a surdez.

47 seu Traité des sensations, acrescentou ao Essay, de Locke um esboço da metodologia de ensino que se tornou referência para a educação especial. Essa teoria pressupõe a criação de ideias e pensamentos complexos a partir de ideias e processos simples, e foi com estes princípios que se iniciou uma prática que perdura até os dias atuais: que consiste em desenvolver atividades mais simples até se alcançar gradativamente outras mais complexas. Essa proposta manteve a convicção de que o homem não nasce como homem, mas é construído como homem e a partir de então o inatismo das ideias pode ser substituído pela história pessoal de experiência sensorial e reflexiva.

Itard publica Memoire, em 1801, mesmo ano que Pinel publicou o

Tratado médico-filosófico sobre a alienação mental. Itard acrescentou à sua

inovação na questão da deficiência e no tratamento do idiota, a fundamentação da necessidade de estímulo sensorial para se adquirir aprendizagem. Em “Memoire”, afirma que primeiro existe o despertar da estátua com a estimulação sensorial, sustentando a tese de que através de treino sensorial haveria a recuperação de funções do organismo. Para tal, utilizou como metodologia variações abruptas de sensações. Outra inovação de Itard é introduzir a necessidade da individualização do ensino, o que defendeu como o produto de uma postura filosófica ante o ser humano. (Cf. Pessoti, 1984, p. 51) O desenvolvimento era considerado progressivo e assim o tratamento partia do estímulo sensorial até atingir níveis cada vez mais complexos de aquisições e raciocínio lógico, chegando à fala, à interação social; das necessidades físicas ao domínio dos “objetos de instrução”. Apesar de Itard ter sido frustrado na tentativa de conseguir que Victor obtivesse domínio da fala, seu livro “Memoire” é considerado por Pessoti, “a pedra angular do que hoje se chama educação

especial de deficientes mentais, e nela ver um dos mais geniais relatos pedagógicos da história no que tange a metodologia de ensino”. (Ibid., 1984, p.

59-60) Mas, segundo Pessoti, apesar da riqueza metodológica e teórica, seus estudos exerceram escassa influência na teoria da deficiência dos médicos da época, e, só mais tarde teria reflexo com os trabalhos de Seguin (seguidor de Itard e convidado para trabalhar com ele em 1801) e de Montessori (1870- 1952, educadora e médica italiana).

48 No entanto, Pessoti chama a atenção para o fato de atualmente esses mesmos recursos metodológicos serem utilizados nos tratamentos clínicos, como a terapia ocupacional, fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia, principalmente na análise experimental do comportamento e com forte influência na educação especial. Ele se referia ao séc. XX, ano de 1984, período de sua tese; mas mantenho a mesma consideração e perplexidade para o séc. XXI: passados mais de 20 anos de seu trabalho acadêmico, esses mesmos recursos são utilizados nos tratamentos para pessoas com deficiência.