Analisar o currículo na EPE pressupõe uma reflexão sobre “que mais-valias trouxe ao desenvolvimento de cada criança pequena o facto de ter partilhado um espaço construído a pensar nela, em contacto com outras crianças e com profissionais especializados, durante determinado período de tempo” (Serra, 2004, p. 34).
Da afirmação transcrita anteriormente, depreende-se, então, que o currículo na EPE abrange as atividades desenvolvidas, planificadas ou não, o currículo oculto e as ligações afetivas criadas pelas crianças no ambiente educativo (Ibidem). Portanto, sempre que se refere ao currículo na EPE, no sentido lato, associa-se o seu significado a uma estrada em que as crianças viajam, conduzidas e orientadas por um companheiro especializado, que irá planificar, organizar e avaliar cada passo, com o intuito de o recriar (Kliebard, 1990, citado por Serra, 2004).
Ao longo dos anos, têm surgido diversas alterações na EPE, tendo o seu primeiro reconhecimento ocorrido em 1986 com a Lei n.º 46/86, de 14 de outubro, conhecida como a Lei de Bases do Sistema Educativo (LBSE). Todavia, apenas na Lei n.º 49/2005, de 30 de agosto, intitulada 2.ª alteração à Lei de Bases do Sistema Educativo, é que foram enumerados os objetivos da EPE, os quais se passa a expor:
a) Estimular as capacidades de cada criança e favorecer a sua formação e o desenvolvimento equilibrado de todas as suas potencialidades; b) Contribuir para a estabilidade e a segurança afectivas da criança; c) Favorecer a observação e a compreensão do meio natural e humano para melhor integração e participação da criança; d) Desenvolver a formação moral da criança e o sentido da responsabilidade, associado ao da liberdade; e) Fomentar a integração da criança em grupos sociais diversos, complementares da família, tendo em vista o desenvolvimento da sociabilidade; f) Desenvolver as capacidades de expressão e comunicação da criança, assim como a imaginação criativa, e estimular a actividade lúdica; g) Incutir hábitos de higiene e de defesa da saúde pessoal e colectiva; h) Proceder à despistagem de inadaptações, deficiências ou precocidades e promover a melhor orientação e encaminhamento da criança (Lei n.º 49/2005, de 30 de agosto, capítulo II, artigo 5.º).
Apesar disto, a LBSE para a EPE não apresenta referências curriculares. Desta forma, o primeiro passo para demonstrar a importância do desenvolvimento curricular na EPE foi dado em 1997 com a Lei n.º 5/97, de 10 de fevereiro, designada Lei-Quadro da Educação Pré-Escolar. Neste âmbito, a EPE emerge como a primeira fase da educação no desenrolar da vida, visando prestar apoio às famílias na educação das crianças, ao promover o seu desenvolvimento e formação, assim como a integração na vida em comunidade como indivíduo independente e solidário (Lei n.º 5/97, de 10 de fevereiro). Como resultado da lei anteriormente referida, igualmente em 1997, aprovou-se o documento denominado Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar (OCEPE), através da publicação do Despacho n.º 5220/97, de 10 de julho. O documento define-se como uma panóplia de fundamentos gerais de apoio ao EI, para facilitar a sua intervenção nas instituições pré-escolares. Desta forma, fundamenta-se no pressuposto que a criança é a protagonista do processo educativo, havendo a necessidade de articular as diversas áreas de maneira globalizante e integrante, promover uma pedagogia diferenciada fundamentada em cooperação com os pares e, ainda, de se valorizar os seus
conhecimentos prévios, tornando-os no ponto de partida às atividades desenvolvidas (ME, 1997).
Com vista a clarificar a questão do currículo na EPE, a mesma referência define que o desenvolvimento curricular é da responsabilidade do EI, onde deverá ter em consideração os objetivos gerais assentes na Lei-Quadro da EPE. É também da sua obrigação garantir a organização do ambiente educativo (organização do grupo, do espaço e do tempo e a relação com a comunidade educativa), considerar as áreas de conteúdo, que estabelecem as referências gerais a ponderar na planificação e avaliação das condições e oportunidades de aprendizagem, prezar pela continuidade educativa enquanto processo que assegura o êxito nas aprendizagens seguintes e, por fim, promover a intencionalidade educativa, que sucede do processo reflexivo de observação, de planificação, de ação e de avaliação do EI, de maneira a adaptar a sua prática às necessidades educativas das crianças (Ibidem).
No que se prende às áreas de conteúdo, refere-se que são "âmbitos de saber, com uma estrutura própria e com pertinência sócio-cultural, que incluem diferentes tipos de aprendizagem, não apenas conhecimentos, mas também atitudes e saber-fazer" (Ibidem, p. 47). Assim sendo, distinguem-se três áreas de conteúdo: área de Formação Pessoal e Social, a área de Conhecimento do Mundo e a área de Expressão e Comunicação. Esta última área incorpora o domínio da Expressão Dramática, da Expressão Motora, da Expressão Musical, da Expressão Plástica, da Matemática e da Linguagem Oral e Abordagem à Escrita. Como um referencial comum útil aos EI na promoção de uma abordagem integrada das diferentes áreas, surgiram, em 2010, as Metas de Aprendizagem para a Educação Pré-Escolar, tendo por base as OCEPE.
Note-se que, também, se concebeu a Circular n.º 17/DSDC/DEPEB/2007, de 10 de outubro, intitulada Gestão do Currículo na Educação Pré-Escolar – Contributos para a sua Operacionalização, para se estabelecer orientações sobre a gestão do currículo na EPE. Com efeito, a Circular designa a necessidade da continuidade educativa e instaura a existência do Projeto Curricular da Estabelecimento/Escola e do Projeto Curricular de Grupo/Turma, que visa uma intencionalidade educativa e uma resposta específica às necessidades de cada grupo (Marchão, 2012). O Projeto Curricular de Estabelecimento/Escola, por ser abrangente, é da responsabilidade de todos, e o Projeto Curricular de Grupo/Turma é realizado pelo EI (Circular n.º 17/DSDC/DEPEB/2007). Por isto é fundamental um diagnóstico preciso de cada criança, para alicerçar as opções educativas e metodologias empregadas e a organização do ambiente educativo (Marchão,
2012). Importa ainda referir que no projeto deverão estar contemplados os métodos de avaliação, a planificação das atividades e a relação com a comunidade educativa (Ibidem).
Desta visão, advém o reconhecimento que o currículo na EPE é de cariz flexível, pressupondo uma dinâmica curricular interligada, integrada, transversal e contextualizada, afirmando a curiosidade natural das crianças, o seu espírito crítico e a competência para aprender (Ibidem).
Em traços gerais, declara-se que o EI é organizador e gestor do currículo, e a criança é um indivíduo ativo no processo educativo (ME, 1997). Seguindo esta linha de pensamento, o currículo não pode ser encarado isoladamente, requerendo, portanto, que os educadores compreendam a forma como a criança se desenvolve e aprende, facilitando a inserção e inclusão social (Marchão, 2012).