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BASMA YAZI VE RESİMLERİ DERLEME KANUNU DIŞINDA

V. 1.4 1980 SONRASI DÖNEM

V.2. BASMA YAZI VE RESİMLERİ DERLEME KANUNU DIŞINDA

Conforme visto no item 2.2.3 acima, um dos óbices levantados pela doutrina e jurisprudência francesas à adoção do dever de mitigar é a regra da reparação integral do dano que vige tanto na responsabilidade aquiliana quanto na contratual daquele país. Para Patrice Jourdain, esse é um princípio maior que encerra um verdadeiro dogma do direito relativo à reparação dos danos544. No mesmo sentido, observou Anne Laude:

O princípio que prevalece em direito francês da responsabilidade delitual e contratual é aquele da reparação integral do dano, que consiste em “restabelecer tão exatamente quanto possível o equilíbrio destruído pelo dano e recolocar a vítima na situação em que se encontraria se o ato danoso não tivesse tido lugar”. Esse princípio significa notadamente que deve haver uma equivalência entre a reparação pecuniária e o dano. Em uma palavra, a reparação deve se relacionar apenas com o critério objetivo do dano e se abstrair de qualquer critério subjetivo retirado da análise do comportamento ou da situação das pessoas, responsável e vítima.545

A regra da reparação integral foi utilizada como fundamento para negar-se aplicação à defesa de evitabilidade nos dois casos de 2003 da Corte de Cassação comentados no item 2.2.3 acima. Em razão de ter-se identificado essa dificuldade à aplicação da norma de minimização no direito comparado, cumpre analisar se a regra da reparação integral poderá ser um problema para a mitigação no direito brasileiro.

543

MARTINS-COSTA. A boa-fé... op. cit. p. 471.

544

Cf. JOURDAIN, Patrice. Rapport Introductoire. Petites Affiches, Paris, v. 232, p. 45-49, nov. 2002. p. 3.

545

LAUDE. L’obligation... op. cit. p. 55. A passagem entre aspas é citada pela autora como de acórdão, referido da seguinte forma: Cass. Civ. 1re, 17 juillet 1976, Bull. civ. I, n° 327.

No Brasil, em regra e tradicionalmente, a indenização mede-se pela extensão do dano546. Essa norma não constava expressamente do Código Civil de 1916, mas poderia ser extraída de seu artigo 159, que determinava que o causador do dano ficava obrigado a repará- lo. Pela própria linguagem desse dispostivo legal, havia a vinculação direta entre o montante da obrigação de indenizar e o prejuízo causado. O valor da indenização dependeria apenas dos danos sofridos pelo credor, independemente do grau de culpa do agente. Segundo lição de Pontes de Miranda:

O que há de indenizar é todo o dano. Por “todo o dano” se hão de entender o dano em si e as repercussões do dano na esfera jurídica do ofendido; portanto, tudo que o ofendido sofreu pelo fato que o sistema jurídico liga ao ofensor. Não se distinguem, na determinação do dano, graus de culpa, nem qualidade de causas que concorreram. (...)

Ao princípio da indenizabilidade de todo o dano junta-se o princípio de

limitação da reparação ao dano sofrido. Se êsse princípio não existisse, o ofendido

estaria satisfeito com a indenização e, injustamente, enriquecido com o valor a mais.547

O prejuízo a ser ressarcido no direito brasileiro é aquele que o credor efetivamente sofreu, abrangendo os danos emergentes e os lucros cessantes. Ao avaliar o montante da indenização, ter-se-á em conta o chamado dano concreto ou subjetivo – aquele prejuízo sofrido pelo credor, tendo em vista a sua particular posição – e não o dano objetivo – em que se mensuraria a perda isoladamente, sem referência à situação do credor548.

No Código Civil de 2002, a reparação integral do dano passou a ser prevista expressamente no artigo 944, embora constando no parágrafo único uma exceção à norma:

Art. 944. A indenização mede-se pela extensão do dano.

Parágrafo único. Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir, eqüitativamente, a indenização.

Introduziu-se no direito brasileiro, portanto, uma importante exceção ao princípio da reparação integral do dano. Em casos excepcionais, admite-se que o leve grau de culpa do agente interfira para reduzir o montante da indenização que será, dessa forma, menor que o prejuízo sofrido pelo credor549. Aliás, é bem possível que a formulação geral contida no caput

546

Cf. TEPEDINO, Gustavo, BARBOZA, Heloisa Helena, MORAES, Maria Celina Bodin de. Código Civil interpretado: conforme a Constituição da República. v. 2. Rio de Janeiro: Renovar, 2006. p. 859.

547

PONTES DE MIRANDA. Tratado... op. cit. t. 26. p. 43.

548

Cf. ALVIM. Da inexecução... op. cit. p.191-192. TORRES. Noções... op. cit. p. 248-249.

549

do artigo 944 tenha sido inserida apenas para possibilitar a introdução da exceção que consta do parágrafo único. A norma do caput já era a tradição do direito brasileiro e poderia ser derivada do novo artigo 927, que determina que o causador do dano fica obrigado a repará-lo. Não havia necessidade, portanto, de constar expressamente a norma geral. O parágrafo único, por outro lado, representou uma significativa novidade no sistema de responsabilidade civil, pois permitiu considerações sobre o grau de culpa do agente na fixação da indenização, fazendo com que, na prática, o prejuízo seja repartido entre agente e vítima se a culpa do primeiro for diminuta.

Pode-se inferir daí que a regra de reparação integral do dano, embora válida no Brasil, não se constitui como um dogma como Patrice Jourdain a caracterizou para o direito francês. Parece evidente que a norma contida no caput do artigo 944 do Código Civil atual, além de ser excepcionada pelo seu parágrafo único, deve ser aplicada em conjunto com as demais normas e princípios inscritos no ordenamento jurídico brasileiro, dentre os quais o da boa-fé objetiva. Esta impõe, conforme anteriormente visto, que o devedor não tenha que indenizar o credor pelos danos que esse poderia ter evitado com esforços razoáveis. Há, portanto, um aparente conflito entre essas duas normas: a reparação integral do dano e a boa-fé objetiva.

A regra de reparação integral não pode, entretanto, ser tida como princípio absoluto e insuperável do direito brasileiro e, de fato, não é. Além de excepcionada pelo parágrafo único do artigo 944, a reparação integral é limitada pelo artigo 403, que determina que apenas os danos diretos e imediatos podem ser indenizados550. Anne Laude reconhece existir, mesmo no direito francês, temperamentos para o princípio da reparação integral551.

Diante de tal quadro, faz-se necessário realizar a ponderação entre essas duas normas, sendo de se concluir que deve prevalecer a limitação da indenização aos danos inevitáveis. A aplicação da regra de mitigação está fundada axiologicamente na busca pela cooperação das partes contratantes e, ao mesmo tempo, tem por efeito fomentar essa própria cooperação. Além disso, promove a eficiência no tráfego jurídico e no direito dos contratos, tendo como consequência evitar a perda de recursos econômica e socialmente relevantes. Por outro lado, a reparação integral – na faceta indenizabilidade de todo o dano, como chamou Pontes de

550

A tradição do direito brasileiro via, ainda, outra restrição à reparação integral, qual seja, a indenização estaria limitada aos lucros cessantes previsíveis, conforme previsto pelo parágrafo único do artigo 1.059 do Código Civil de 1916. Essa norma não foi reproduzida no Código atual.

551

Miranda – tem por fim evitar uma situação de injustiça para a vítima: receber menos do que perdeu. Na aplicação da norma de evitabilidade, entretanto, essa injustiça não se verifica, pois a parcela do prejuízo que não será indenizada ao credor é justamente aquela que ele poderia ter evitado. O credor não receberá parte dos danos sofridos porque não agiu de boa-fé, não cooperou para que tais prejuízos não ocorressem.

Portanto, na ponderação dos valores que informam a aplicação das duas regras – reparação integral do dano e limitação aos danos inevitáveis – identifica-se clara prevalência daqueles que servem de sustentáculo à norma de minimização. Conforme reconheceu Le Pautremat, “o princípio da mitigação tem justificativas morais, sociais e econômicas que têm força maior que a explicação para a compensação integral ao credor”552.

Por fim, destaca-se que o conflito entre as duas normas é apenas aparente, não apenas porque é facilmente resolvido pela ponderação dos valores que as informam, mas também pela sistemática de aplicação da boa-fé objetiva no presente caso. De acordo com a observação feita no final do item 4.3, com base na lição de Clóvis do Couto e Silva, a boa-fé objetiva poderá ter atuação defensiva, isto é, ter por efeito impedir que a pessoa que agiu de má-fé exerça certo direito ou se valha de certa posição jurídica. No caso em análise, o credor prejudicado pelo inadimplemento tem, em princípio, direito à reparação integral dos danos sofridos, sendo de se aplicar a regra do caput do artigo 944. Todavia, se não agiu de boa-fé, se não empregou esforços razoáveis para impedir que danos evitáveis ocorressem, ficará impedido de ser indenizado por essa parcela dos prejuízos que poderiam ter sido evitados. A forma e o momento lógico de aplicação das duas normas são diferentes, fazendo com que ambas possam ser aplicadas de maneira articulada para definir o quantum de indenização a que fará jus o credor.

Conclui-se, portanto, que a regra de reparação integral do dano não é óbice à aplicação da norma de mitigação dos danos no direito brasileiro.