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Jürgen Habermas em A Transformação Estrutural da Esfera Pública nos dá o panorama da formação da esfera pública burguesa, sua ascendência e transformação.

Habermas (1984) identifica o surgimento da era moderna com a vigência de um espaço livre para o exercício da crítica e da discussão. Assim, ele argumenta que esse pode ser o meio para a legitimação do político com uma esfera pública aterrada em um compromisso comum na racionalidade e a fé na publicidade. Onde a economia liberal sob o capitalismo do livre-mercado esconde a invariável da desigualdade estrutural fundamental entre as classes, a esfera pública, como concebida por Habermas, sujeitaria esta ao um re-exame. Além disso, ele aceita o cultural e lingüístico ao esforçar-se para repensar as potencialidades imanentes na razão e a verdade na qual as práticas dominantes poderiam ser criticadas.

Assim, Habermas tentou historica e sociologicamente elucidar a possibilidade para a liberdade humana com base na comunicação. Dos salons, cafés e o mundo das letras emergiu uma esfera pública entre uma elite que, em um primeiro momento, conversavam sobre literatura e arte e, em um segundo momento, passaram a discutir matérias do econômico e político.

Três "critérios” foram escolhidos como características da esfera pública habermasiana: primeiro, na idéia de uso público da razão estabelecendo um princípio de igualdade entre os indivíduos: “A igualdade que funda a autoridade do melhor argumento pode se contrapor à

autoridade da hierarquia social e no final, prevalecer, significando no pensamento daquele momento a igualdade da comunalidade humana” (pg 36). Segundo, na ampliação do “domínio

público” que implica na possibilidade de se discutir, a partir de argumentos racionais, questões antes debatidas por monopólios de interpretação. E terceiro, o princípio de inclusão que atua associado ao de ampliação, de duas formas: as ampliações dos temas de debate e dos participantes do processo de discussão.

Dessa forma, teríamos uma visão abrangente dosignificado de democracia em Habermas. Avtrizer (1999), fazendo um balanço da obra de Habermas, coloca que ao associar a democracia à idéia de livre debate, à ampliação das áreas passíveis de politização e livre acesso a grupos e questões, Habermas oferece um marco alternativo à oposição massas / elites.

Avtrizer(1999) ainda expõe que tal análise mostra que a democracia está vinculada a um processo societário de discussão e de organização de fluxos de poder entre Estado, mercado e sociedade. A democracia, na concepção de habermasiana está conectada à institucionalização de procedimentos e de condições de comunicação capazes de apontar a sociedade como o local da origem do poder e da criação da legitimidade.

No entanto, o próprio Habermas afirma que aquele era um estado ideal, no qual a comunicação prosperou. Mas com a emergência da sociedade de massa, - em outras palavras,

com a chegada das classes trabalhadoras na cena política liberal – ocorre a transformação "estrutural" da chamada esfera pública burguesa e com ela, nosso autor coloca que houve a “opressão do que poderia ter emergido como a democracia deliberativa genuína”.(p.177) Quando houve a penetração de mais esferas da sociedade, ela perdeu simultaneamente sua função

política (..)O princípio da esfera pública, isto é, a publicidade crítica, parecia perder sua força na

medida que expandiu como uma esfera " (Habermas p.140)

As tendências gerais identificadas por Habermas no liberalismo e organização de capitalismo - a burocratização da maquinaria do Estado de Bem-Estar Social, a transformação de democracia dentro de uma "plataforma de publicidade", movidos por uma "cultura de debate” para uma “cultura de consumo público", via mídia de massa - combinadas produziram uma esfera

pública forjada.

No século XVIII, o modelo burguês de espaço público contava com uma configuração distinta de interesses econômicos e sociais liberais que não puderam, segundo Habermas, viavelmente (ou desejavelmente) transpor para nossa sociedade moderna, o formulário dado como ideal naquele tempo e formar o modelo deliberativo de espaço público. Em contraste com liberalismo, no qual, há uma competição para o uso do espaço público, como uma negociação de mercado.

Diferentemente da idealização burguesa de Habermas, a preocupação de Hannah Arendt deriva das mudanças na modernidade em relação ao modelo clássico utilizado na polis. A demarcação do espaço público e privado no mundo grego se fazia pelas atividades que lá se realizavam. Enquanto o produto realizado na vida privada era um artefato ou bem de consumo, a atividade da vida pública produz o humano. Essa humanidade produzida na Ágora era a plenitude de si-mesmo, condição que os homens tinham de cumprir para atingir a imortalidade e se diferenciarem.

A vida pública era o espaço onde o homem podia atingir a imortalidade por meio de seus feitos construídos pela ação — seus gestos e palavras, pois esses feitos seriam testemunhados por muitos e se transformariam em história. A ação busca exibir, para (e entre) o público, a plenitude da existência humana, demandando o testemunho e a presença dos outros. No público, todos os homens são iguais sem a necessidade de comando e de violência, o que lhes possibilita o exercício de sua liberdade e espontaneidade, ou seja, de sua cidadania.

A modernidade, para Arendt, passou a invadir a política com matérias de administração, técnica e burocracia, o colapso da distinção entre privado e público e a perda de liberdade pública, em resumo, a destruição do espaço público. A inabilidade dos cidadãos ao institucionalizarem estruturas de pequena-escala populares de participação direta, a grande identificação da liberdade com a capacidade para acumular riqueza pessoal, e a vitória do arquétipo de liberdade liberal de política sinalizam dessa forma a deformação do espaço político.

Nos Estados Unidos, dos anos 50, Arendt observou no modelo de sociedade de massa, que o espírito republicano encontrado na revolução não poderia se sustentar. A esfera privada da vida sofria sempre a interferência do Estado, assim Arendt discute que vida pública poderia se tornar mera administração técnica da economia.

Podemos pensar assim que a formação do espaço público na modernidade acaba por acentuar a força de uma classe e um gênero e uma civilização acima de outros discursos públicos globais, e isto pode ser, em termos arendtianos como um certo tipo de racionalização de violência.

Benzer Belgeler