1. BÖLÜM
2.7. Bankacılık Sektöründe Etkinlik Ölçümüne İlişkin Literatür Taraması
Cabe ainda definir quem seriam os médicos que fariam parte do presente programa. O § 1º do artigo 13 afirma que a seleção e a ocupação das vagas ofertadas darão prioridade aos médicos que são formados em instituições de educação superior brasileiras ou com diploma revalidado no país, inclusive os aposentados. Não havendo a ocupação de todas as vagas, será dada preferência aos médicos brasileiros formados em instituições estrangeiras com habilitação para o exercício da medicina no exterior. Por fim, caso ainda não sejam ocupadas todas as vagas, serão chamados médicos estrangeiros com habilitação para o exercício da medicina no exterior.
Portanto, o projeto conta ainda com a figura de três médicos. Um deles é o chamado médico participante que, nos termos da Lei nº 12.871, consiste no médico formado em instituição de educação superior brasileira ou com diploma revalidado ou médico intercambista, e está submetido ao aperfeiçoamento profissional supervisionado.
Há, além disso, a figura do médico supervisor, que consiste no profissional médico responsável pela supervisão profissional contínua e permanente do médico participante. Por fim, existe também o tutor acadêmico que, nos termos já expostos acima, é o docente médico responsável pela orientação acadêmica. A lei limita a atuação e a responsabilidade desses profissionais, para todos os efeitos de direito, exclusivamente, à atividade de supervisão médica e à tutoria acadêmica respectivamente.
A lei ainda explica que o médico intercambista, é aquele formado em instituição de educação superior estrangeira com habilitação para exercício da Medicina no exterior. Um ato conjunto dos Ministros de Estado da Educação e da Saúde disciplinará a sua participação. Contudo, a Lei nº 12.871 deixa claro de plano que esta participação dependerá da apresentação de: a) diploma expedido por instituição de educação superior estrangeira; b) habilitação para o exercício da medicina no país de sua formação; e c) conhecimento em língua portuguesa, regras de organização do SUS e protocolos e diretrizes clínicas no âmbito da Atenção Básica.
Vale destacar que o diploma expedido por instituição de educação superior estrangeira e a habilitação para o exercício de medicina, no país, de formação, se sujeitará à legalização consular gratuita, dispensada a tradução juramentada, conforme o ato supramencionado.
Um dos pontos mais polêmicos da lei é o de que o médico intercambista ficará dispensado, nos 3 (três) primeiros anos de participação, da revalidação de seu diploma nos termos do parágrafo 2º do artigo 48 da Lei nº 9.394 de 1996. Ficará dispensado ainda de
realizar o registro no Conselho Regional de Medicina, sendo suficiente o atestado emitido pelo projeto “Mais Médicos” declarando sobre a participação do médico intercambista.
Além disso, o Ministério da Saúde emitirá número de registro único para cada médico intercambista participante do Projeto “Mais Médicos para o Brasil” e a respectiva carteira de identificação, que o habilitará para o exercício da medicina. Caberá também a coordenação do Projeto comunicar ao Conselho Regional de Medicina (CRM) competente sobre a relação de médicos intercambistas participantes do projeto “Mais Médicos para o Brasil” e os respectivos números de registro único, ficando claro que o referido médico poderá fiscalizá-lo.
Essa previsão tem levantado as mais diversas críticas. O Conselho Federal de Medicina, em nota oficial afirmou que “[...] a ausência de validação de diplomas dos intercambistas pelo Revalida e de comprovação da formação dos participantes [...] coloca a população [...] vulneráveis à ação de indivíduos sem o devido preparo e qualificação; [...]” 527.
Com a mesma força, são as críticas realizadas por Fábio Martins Di Jorge (2013), para quem o afastamento da necessidade da revalidação pelos médicos intercambistas importaria em violação ao princípio da igualdade e seria também uma contradição, pois se estaria enviando profissionais, em tese, menos qualificados para regiões com pior infraestrutura de saúde, isto é, que demandariam profissionais mais gabaritados.528
Outra questão é que a dispensa de revalidação importaria em violação ao parágrafo 2º do artigo 48 da Lei nº 9.394 de 1996, que define esta obrigação para os diplomas de graduação expedidos por universidades estrangeiras pelas universidades públicas brasileiras que tenham curso do mesmo nível ou em área equivalente. Assim, segundo o referido autor, a educação de qualidade seria fundamental para a construção profissional e social de um povo e, de resto, protegeria a livre iniciativa e o crescimento econômico. 529
Contudo, no parecer apresentado nos autos da Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 5.035, a Procuradoria-Geral da República refuta completamente tais argumentos. Em primeiro lugar, ela sustenta que a revalidação não possui comando constitucional, tendo sido instituída por regra contida no parágrafo 2º do artigo 48 da Lei nº.
527 CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Para CFM, críticas ao Mais Médicos continuam. Disponível:
<http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=25016:nota-mais- medicos&catid=3>. Acesso em: 21 nov. 2015.
528 DI JORGE, Fábio Martins. Estudo jurídico do Programa Mais Médicos. Acta JUS, Maringá, v. 1, n. 1, set./
nov. 2013. Disponível em: <http://www.mastereditora.com.br/periodico/20140216_201830.pdf>. Acesso em: 15 nov. 2015.
9.394 de 1996. Ou seja, esta regra que foi criada por lei que poderia ser excepcionada por norma de mesma hierarquia530.
Outro argumento utilizado pela Procuradoria-Geral da República é o de que a revalidação do diploma estrangeiro prevista na Lei nº. 9.394 tem por objetivo autorizar o médico para o exercício da profissão em todo o território nacional.531 Contudo, o artigo 16 da
Lei nº. 12.871 não permite esta possibilidade ao afirmar que “[...] o médico intercambista exercerá a Medicina exclusivamente no âmbito das atividades de ensino, pesquisa e extensão do Projeto “Mais Médicos para o Brasil” [...]”.
Em outras palavras, a situação jurídica a que estão submetidos os médicos estrangeiros ou brasileiros aprovados no exame de revalidação e aqueles que atuam no programa “Mais Médicos”, ainda não aprovados, é completamente distinta, não se podendo falar em violação ao princípio da igualdade ou até mesmo ao parágrafo 2º do artigo 48 da Lei nº 9.394 de 1996. Assim, os médicos aprovados no revalida podem exercer plenamente as atividades da medicina, o que não ocorre com os demais médicos.
Assim, concorda-se com os argumentos exarados pela Procuradoria-Geral da República. Mas além desses pontos, é preciso repetir ainda que mais do que o acompanhamento realizado pelo médico supervisor e pelo médico tutor, o médico participante estará sujeito também à fiscalização pelo Conselho Regional de Medicina (CRM) que poderá averiguar eventuais irregularidades, caso necessário.
A verdade é que, passados quase 2 (dois) anos da Medida Provisória nº 621 que instituiu o programa “Mais Médicos” pouco se tem visto em relação a graves prejuízos contra os pacientes. Pesquisando sobre o assunto, o que pode ser encontrando, são erros de português em prescrições médicas532, falhas de diagnóstico e prescrição denunciadas pelos próprios
médicos brasileiros na rede mundial de computadores. 533 Mas não há nada que demonstre o
efetivo dano causado aos pacientes que foram vítimas de tais equívocos. Portanto, ao menos até o presente momento, não há nada que demonstre o efetivo prejuízo com a dispensa do revalida.
Outra questão levantada é o risco ao mercado interno, cuja proteção é prevista no artigo 219 da Constituição. Esse argumento foi levantado pela Associação Médica
530 BRASIL. Ministério Público Federal. Parecer. Ação Direta de Inconstitucionalidade nº. 5035 de 2014. O
Programa “Mais Médicos” é constitucional. Disponível em: <www.stf.jus.br>. Acesso em: 15 out. 2014.
531 Ibidem.
532 MAIS Médicos? Disponível em: <http://maismedicos.tumblr.com/>. Acesso em: 21 nov. 2015.
533 PINHORI, Marina. Médicos brasileiros reúnem erros em site. Exame.com. Disponível em:
<http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/site-denuncia-supostos-erros-de-estrangeiros-do-mais-medicos>. Acesso em: 21 nov. 2015.
Brasileira na petição inicial da Ação Direta de Inconstitucionalidade nº. 5.035, onde ela afirma que o programa “Mais Médicos” importaria em risco ao mercado externo, considerado como patrimônio nacional, sobretudo em virtude da contratação de médicos sem o devido processo licitatório534.
Superadas as questões relativas à necessidade de concurso público, já enfrentadas acima, a Procuradoria-Geral da República, no parecer apresentado perante a Ação Direta de Inconstitucionalidade nº. 5.035, deixa claro que não há qualquer proibição para que estrangeiros participem da vida política, econômica e social do Brasil. Inclusive, os estrangeiros no Brasil possuem uma série de direitos, inserindo-se, neste contexto, os fundamentais com acesso a cargos, empregos e funções públicas, aquisição e arrendamento de propriedade rural. Outro argumento utilizado pelo Ministério Público Federal é o de que o intercâmbio profissional é admitido pelos próprios artigos 37, inciso I e 207, parágrafo 1º, da Constituição535.
Não há como discordar desses argumentos e ainda acrescentar mais um: o de que não há ameaça ao mercado se a atuação do agente é restrita. Ora, se o médico intercambista só pode atuar dentro do programa, isto é, se ele não pode concorrer com outros profissionais que atuam no mercado, não há como se falar em afronta à proteção ao mercado interno.
Aqui vale lembrar o que versa Eros Grau (2010), no sentido de que a expressão contida no artigo 219 da Constituição, qual seja, a de que o “[...] mercado interno integra o patrimônio nacional [...]” não deve ser lida de forma isolada, como se o mercado interno fosse integrado ao domínio público ou que constituísse em de uso comum do povo. Muito pelo contrário, deve-se atentar que o artigo 219 afirma que o mercado interno “[...] será incentivado de modo a viabilizar o desenvolvimento cultural e sócio-econômico, o bem-estar da população e a autonomia tecnológica do País, nos termos de lei federal. [...]” 536.
Isto significa, à toda evidência, que a proteção ao mercado interno, na verdade, visa tutelar não apenas o mercado em si, mas outros objetivos mais importantes, como o bem- estar da população por meio do caminho da soberania econômica nacional. Como já exposto em capítulos anteriores, esta interpretação é a que mais se coaduna com a ordem econômica,
534 ASSOCIAÇÃO MÉDICA BRASILEIRA. Petição Inicial. Ação Direta de Inconstitucionalidade nº. 5035 de
2014. O Programa “Mais Médicos” é constitucional. Disponível em: <www.stf.jus.br>. Acesso em: 15 out. 2014.
535 BRASIL. Ministério Público Federal. Parecer. Ação Direta de Inconstitucionalidade nº. 5035 de 2014. O
Programa “Mais Médicos” é constitucional. Disponível em: <www.stf.jus.br>. Acesso em: 15 out. 2014.
cujo objetivo principal é alcançar a dignidade da pessoa humana. Por esta razão, não há como se sustentar uma argumentação que visa proteger apenas o mercado.
Pois bem, superadas essas questões, como adiantado acima, o médico intercambista estrangeiro inscrito no “Mais Médicos para o Brasil” terá direito a um visto temporário de aperfeiçoamento médico pelo prazo de 3 (três) anos, ou seja, mesmo prazo do período de aperfeiçoamento, prorrogável por igual período, após declaração da coordenação do projeto. Este mesmo visto poderá ser estendido aos dependentes legais do médico intercambista estrangeiro, incluindo companheiro ou companheira, pelo prazo de validade do visto do titular. Contudo, é vedada a transformação deste visto temporário em permanente.
Outro ponto importante é o de que a Lei nº. 12.871 afirma que se aplicam aos médicos intercambistas o disposto nos artigos 30, 31 e 33 da Lei nº 6.815 de 1980. Esses artigos tratam da necessidade de registro do estrangeiro no Ministério da Justiça, com identificação pelo sistema datiloscópico, de modo que as informações de tal registro serão as mesmas do documento de viagem. Tratam ainda do fornecimento de documento de identidade específico para estrangeiro e do pagamento de taxa para tal finalidade.
É preciso ressaltar ainda que esses dependentes legais poderão exercer atividades remuneradas, com emissão de Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Contudo, no caso de médico intercambista, o desligamento do Programa implicará o cancelamento do registro único no Ministério da Saúde e do registro de estrangeiro.
Outrossim, aos médicos participantes que descumprirem a Lei nº 12.871 poderão ser aplicadas as penalidades de advertência, suspensão; e desligamento das ações de aperfeiçoamento, sendo assegurados, é claro, o contraditório e a ampla defesa. Sendo aplicada a penalidade mais grave, poderá ser exigida, inclusive, a restituição dos valores recebidos a título de bolsa, ajuda de custo e aquisição de passagens, acrescidos de atualização monetária, conforme definido em ato conjunto dos Ministros de Estado da Educação e da Saúde.
Feito o desligamento, este será comunicado ao Conselho Regional de Medicina competente e também ao Ministério da Justiça para as providências cabíveis.
A Lei nº. 12.871 aduz ainda que os Ministério da Saúde e da Educação serão responsáveis pelo desenvolvimento das demais ações de aperfeiçoamento na área de Atenção Básica em saúde em regiões prioritárias para o SUS, voltadas especificamente para os médicos formados em instituições de educação superior brasileiras ou com diploma revalidado. E essas ações de aperfeiçoamento serão realizadas por meio de instrumentos de incentivo e mecanismos de integração ensino-serviço e deverão observar as mesmas
características do projeto “Mais Médicos para o Brasil” quanto à bolsa, quanto à ausência de vínculo de emprego, quanto ao Regime-Geral de Previdência Social (RGPS), e quanto às penalidades aplicáveis.
Como se vê, a adesão dos médicos brasileiros tem sido cada vez maior ao programa, sendo que, no último edital, os brasileiros preencheram 100% (cem por cento) do número de vagas537. Esse dado se contrasta com o início do programa, quando o número de
desistências foi relativamente alto538.
Desta feita, aparentemente, esses dados demonstram a queda da resistência dos profissionais brasileiros em participar do programa.
7.5.3 O “Neoescravagismo cubano”
Ives Gandra da Silva Martins (2014), em artigo publicado no jornal Folha de S.
Paulo, e intitulado “O neoescravagismo cubano” teceu duras críticas ao regime diferenciado a
que estão submetidos os médicos cubanos.539 E essas críticas foram bem fundamentadas.
O primeiro ponto a ser notado é a forma de contratação dos médicos cubanos. Enquanto os médicos brasileiros e de demais nacionalidade se inscrevem diretamente no programa, os médicos cubanos são contratados por meio do Terceiro Termo de Ajuste ao 80º Termo de Cooperação Técnica para o Desenvolvimento de Ações Vinculadas ao Projeto “Ampliação do Acesso da População Brasileira à Atenção Básica em Saúde”, o qual será melhor tratado a seguir, além de instrumento jurídico celebrado entre Cuba e o Brasil, com a mediação da referida organização.540
Como se vê, o artigo trata do contrato celebrado entre o Estado brasileiro e a pessoa jurídica denominada “Mercantil Cubana Comercializadora de Serviços Médicos
537 LABOISSIÉRE, Paula. Mais Médicos: brasileiros preencheram 100% das vagas do último edital. Agência
Brasil, 14 maio 2015. Disponível em: <http://www.ebc.com.br/noticias/2015/05/mais-medicos-brasileiros-
preencheram-100-das-vagas-do-ultimo-edital>. Acesso em: 2 dez. 2015.
538 Primeira chamada do Mais Médicos tem baixa adesão. Folhapress, 6 de agosto de 2013. Disponível em:
<http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/primeira-chamada-do-mais-medicos-tem-baixa-adesao- c8pjd9cksabydr5w8ypoej972>. Acesso em: 2 dez. 2015.
539 MARTINS, Ives Gandra da Silva. O neoescravagismo cubano. Folha de S. Paulo, São Paulo, 17 fev. 2014.
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/02/1413133-ives-gandra-da-silva-martins-o- neoescravagismo-cubano.shtml>. Acesso em: 21 nov. 2015.
540 COLUCCI, Cláudia. Pressionada, cubana abandona Mais Médicos e foge para os EUA. Folha de S. Paulo,
São Paulo, 31 mar. 2015. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/03/1610549- pressionada-cubana-abandona-mais-medicos-e-foge-para-os-eua.shtml>. Acesso em: 21 nov. 2015.
Cubanos S/A”. Por meio do referido contrato, como consta neste artigo, cada profissional médico de cuba, no Brasil, receberia apenas 400 dólares por mês, sendo depositados para Cuba outros 600 dólares.541 O mesmo instrumento tem sido firmado e criticado em outros
países, tais como Portugal542.
Em primeiro lugar, chama atenção a clara violação ao princípio da igualdade, tal como previsto no artigo 5º, inciso I da Constituição, o qual afirma que todos são iguais perante a lei, afirmando ainda que não haverá “[...] distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes [...]”. Celso Antônio Bandeira de Mello, a esse respeito, identifica que, tecnicamente, para se constatar a transgressão ao princípio da isonomia, é preciso verificar: a) o que é utilizado como critério discriminatório; b) se há justificativa racional para esta utilização e; c) o fundamento lógico que, diante do traço desigualador adotado, pode ser atribuído o tratamento jurídico diferenciado543.
E aqui a transgressão ao princípio da isonomia é clara, pois, afinal de contas, não há qualquer justificativa racional para se diferenciar, no campo da forma de remuneração os médicos cubanos, dos demais médicos estrangeiros, que realizam o mesmo trabalho e para os quais se exige a mesma qualificação.
Poderia ser argumentado que a diferenciação se embasaria no regime de governo de Cuba e se justificaria diante das normas que são impostas por aquele país. Ora, mas o trabalho e o aperfeiçoamento a ser desempenhado pelos médicos cubanos serão realizados dentro do território brasileiro. Nesse sentido, relembrando as considerações já feitas sobre a soberania, pode-se dizer que esta linha de pensamento importa na violação ao artigo 1º, inciso I da Constituição, uma vez que constitui em afronta ao poder político, supremo e independente, além do texto constitucional que o cristaliza.
Outro aspecto importante é que o artigo 4º, inciso II da Constituição traz como princípio norteador da atuação da República Federativa do Brasil, em suas relações
541 MARTINS, Ives Gandra da Silva. O neoescravagismo cubano. Folha de S. Paulo, São Paulo, 17 fev. 2014.
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/02/1413133-ives-gandra-da-silva-martins-o- neoescravagismo-cubano.shtml>. Acesso em: 21 nov. 2015.
542 GOMES, Catarina. Cooperação entre Portugal e Cuba: regras aplicadas a médicos violam direitos
fundamentais (notícia atualizada). Jornal Médico, Lisboa, 2 set. 2014. Disponível em: <http://www.jornalmedico.pt/2014/09/04/acordo-de-cooperacao-entre-portugal-e-cuba-regras-aplicadas-a- medicos-violam-direitos-fundamentais/>. Acesso em: 21 nov. 2015.
543 MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Conteúdo jurídico do princípio da igualdade. 3. ed. São Paulo:
internacionais, a prevalência dos direitos humanos. Não há dúvidas de que os direitos humanos foram violados no pacto feito entre o Estado brasileiro e o Estado cubano.
Daí se dizer, como sustenta Ana Paula Carvalhal (2014) que, diante desse artigo, os termos do contrato deveriam ter sido afastados em prol de um tratamento igualitário e livre dos médicos cubanos pelo Estado brasileiro. Haveria ainda, diante da clara violação ao artigo 4º, inciso II da Constituição, a possibilidade de o Congresso Nacional realizar o controle político do contrato firmado com base no artigo 49, inciso X da Constituição544.
Outra questão trazida por Francisco Diego Moreira Batista (2015) é que o contrato que os médicos cubanos foram obrigados a assinar, em Cuba, mas cumprir no Brasil, consiste em clara violação de tratados em que o próprio Brasil é signatário, tais como o artigo 7º do Pacto Internacional de Direitos Econômicos Sociais e Culturais, o artigo 6º do Protocolo de San Salvador, o artigo 22 do Pacto de San José da Costa Rica e aos artigos 9º, 12º e 19º do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos.545
Essa violação decorreria do fato de que, no referido contrato, os médicos cubanos são proibidos de manterem relações amorosas com nativos se estes não estiverem de acordo com o pensamento revolucionário. Além disso, há a proibição de beber em lugares públicos e de sair de casa depois das 18 horas sem permissão de seu chefe imediato. Pode-se mencionar ainda a proibição de sair da cidade onde prestam serviços e da possibilidade de tirarem férias apenas em Cuba546.
Diante desses itens, além de muitos outros que também beiram ao absurdo, sequer é preciso invocar os tratados internacionais para demonstrar a grave transgressão cometida pelo referido instrumento. Ives Gandra (2014), nesse sentido, já havia apontado que tais disposições violam a proibição ao tratamento degradante, contida no artigo 5º, inciso III e ao tratamento discriminatório, previsto no artigo 3º, inciso IV, ambos da Constituição547. Ora,
colocam-se os médicos cubanos em situação completamente distinta dos demais médicos, em
544 CARVALHAL, Ana Paula. Trabalho de médicos cubanos e o artigo 4º da Constituição. Consultor Jurídico,
29 mar. 2014. Disponível em:
<http://www.conjur.com.br/2014mar29/observatorioconstitucionaltrabalhomedicoscubanosartigoconstituicao>. Acesso em: 2 dez. 2015.
545 BATISTA, Francisco Diego Moreira. Médicos de Cuba e a violação de direitos humanos pela República
Federativa do Brasil. Revista de Direito Constitucional e Internacional, São Paulo, v. 92, jul./set. 2015.
Disponível em:
<c311e5bbf7010000000000&spos=1&epos=1&td=3&context=15&startChunk=1&endChunk=1>. Acesso em: 21 nov. 2015.
546 Ibdem, 2015.