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O Tratado de Versalhes encerrou em 1919 a Primeira Guerra Mundial e criou a Liga ou Sociedade das Nações, que tinha como um dos seus objetivos promover a cooperação internacional com vistas à paz229. Como se sabe, esse desiderato não foi alcançado, e o mundo assistiu poucas décadas depois a um novo conflito global.

Os horrores perpetrados durante a Segunda Grande Guerra Mundial produziram uma série de conseqüências jurídicas e políticas no plano internacional, e reacenderam a busca de mecanismos que garantissem a paz mundial. Nesse contexto, extinta a Liga das Nações, os esforços e as esperanças se concentraram em uma nova instituição internacional, a Organização das Nações Unidas – ONU230.

Os problemas relacionados ao crescimento econômico e ao desenvolvimento têm sido objeto de preocupação da ONU desde o seu nascedouro231. Como já referido, após a Segunda Guerra Mundial houve um maior debate sobre as questões do desenvolvimento, por razões de natureza política e econômica, tendo como pano de fundo o movimento de descolonização, a necessidade de conscientização sobre a franca desigualdade entre as nações pobres e ricas, o chamado desequilíbrio econômico Norte-Sul, e o fato de que a maior parte da população do planeta estava entre os desfavorecidos. A Carta de criação da ONU, assinada em São Francisco em 26 de junho de 1945, após a Conferência das Nações Unidas sobre Organização Internacional, e que entrou em vigor em 24 de outubro do mesmo ano, já registrou essa preocupação232. No seu preâmbulo, a Carta menciona que os povos das nações unidas, dentre outras determinações, resolvem promover o progresso

développement au plan international. Colloque Workshop, 16-18 octobre 1979. Haia: Académie de Droit International de la Haye, 1979, pp. 117-118.

229 Diz o preâmbulo do Tratado de Versalhes: “THE HIGH CONTRACTING PARTIES, In order to promote

international cooperation and to achieve international peace and security by the acceptance of obligations not to resort to war by the prescription of open, just and honourable relations between nations by the firm establishment of the understandings of international law as the actual rule of conduct among Governments, and by the maintenance of justice and a scrupulous respect for all treaty obligations in the dealings of organized peoples with one another Agree to this Covenant of the League of Nations”.

230 A Assembléia Geral reuniu-se pela primeira vez em 10 de janeiro de 1946, em Londres. Atualmente,

como se sabe, a sede das Nações Unidas é na cidade de Nova Iorque.

231 PERRONE-MOISÉS, Cláudia. Direitos Humanos e Desenvolvimento: a contribuição das Nações Unidas.

In AMARAL JÚNIOR, Alberto do, PERRONE-MOISÉS, Cláudia (orgs.). O Cinqüentenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999, p. 179.

232 O texto da Carta está disponível em português no site das Nações Unidas: http://www.onu-

social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade ampla, empregando, para tais

fins, um mecanismo internacional para promover o progresso econômico e social de todos

os povos. O artigo 1° aponta os propósitos das Nações Unidas, dentre os quais

encontramos, ao lado de prescrições voltadas à manutenção da paz e da segurança internacionais, Conseguir uma cooperação internacional para resolver os problemas

internacionais de caráter econômico, social, cultural ou humanitário, e para promover e estimular o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião. A necessidade de cooperação internacional no

campo econômico e social é enfatizada em capítulo próprio233, que tem como cerne o artigo 55, que prevê: Com o fim de criar condições de estabilidade e bem estar,

necessárias às relações pacíficas e amistosas entre as Nações, baseadas no respeito ao princípio da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos, as Nações Unidas favorecerão: a) níveis mais altos de vida, trabalho efetivo e condições de progresso e desenvolvimento econômico e social; b) a solução dos problemas internacionais econômicos, sociais, sanitários e conexos; a cooperação internacional, de caráter cultural e educacional; e c) o respeito universal e efetivo dos direitos humanos e das liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião. Para a realização

de tais propósitos, o artigo 56 estabelece que todos os países membros da organização se comprometem a agir em cooperação com a mesma, em conjunto ou separadamente. Foi previsto, ainda, o Conselho Econômico e Social, em cujas atribuições se inclui a elaboração de estudos e relatórios a respeito de assuntos internacionais de caráter econômico, social, cultural, educacional, sanitário e assuntos conexos, bem como a expedição de recomendações a respeito desses temas junto à Assembléia Geral, aos Membros das Nações Unidas e às entidades especializadas interessadas. O Conselho tem poderes, ainda, para fazer recomendações destinadas a promover o respeito e a observância dos direitos humanos e das liberdades fundamentais para todos; preparar projetos de convenções a serem submetidos à Assembléia Geral, sobre assuntos de sua competência; convocar, de acordo com as regras estipuladas pelas Nações Unidas, conferências internacionais sobre assuntos de sua atribuição234.

A preocupação com a questão do desenvolvimento se fez presente também na Declaração Universal dos Direitos do Homem, proclamada pela Assembléia Geral da ONU em 10 de

233 Capítulo IX.

dezembro de 1948235, havendo uma citação expressa no seu artigo XXII: “Todo ser humano, como membro da sociedade, tem direito à segurança social, à realização pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade”.

Importante relembrar que na época em que foram redigidos os documentos acima ainda tinha primazia a noção que identificava desenvolvimento e crescimento econômico, situação que perdurou até os anos 60236. Porém, não será despiciendo anotar que a redação adotada, tratando conjuntamente os temas econômicos, sociais e culturais, foi até certo ponto visionária quanto ao sentido amplo de desenvolvimento que seria cunhado depois e que abarca todos os direitos fundamentais.

Poucos meses antes da Declaração Universal, em 25 de fevereiro de 1948, o Conselho Econômico e Social das Nações Unidas criou a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe – CEPAL, que é uma das cinco comissões econômicas regionais, com o objetivo de monitorar as políticas voltadas à promoção do desenvolvimento econômico da América Latina, prestar assessoria às ações dirigidas à sua promoção e contribuir para reforçar as relações econômicas dos países da região, não só entre si, mas, também, com os demais. A promoção do desenvolvimento social e sustentável foi incorporada posteriormente aos objetivos da CEPAL, que teve ainda as suas atribuições estendidas aos países do Caribe. A CEPAL teve papel central na formulação das políticas públicas brasileiras de desenvolvimento237.

235 O texto da Declaração está disponível em português no site das Nações Unidas: http://www.onu-

brasil.org.br/documentos_direitoshumanos.php, acesso em 05/06/2008.

236 PERRONE-MOISÉS, Cláudia. Direitos Humanos e Desenvolvimento: a contribuição das Nações Unidas.

In AMARAL JÚNIOR, Alberto do, PERRONE-MOISÉS, Cláudia (orgs.). O Cinqüentenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999, p. 180.

237 Gilberto Bercovici anota que apesar das influências de Perroux, Myrdal e Hirschman, a política brasileira

de desenvolvimento foi fundamentada efetivamente pela teoria do subdesenvolvimento da CEPAL, que o autor descreve detalhadamente (BERCOVICI, Gilberto. Constituição Econômica e Desenvolvimento: uma leitura a partir da Constituição de 1988. São Paulo: Malheiros Editores, 2005, pp. 45-52). Sobre a influência da CEPAL no Brasil vide, do mesmo autor, Desigualdades Regionais, Estado e Constituição. 1. ed. São Paulo: Max Limonad, 2003, especialmente pp. 54-62. Vale anotar, ao menos, a posição da CEPAL no sentido da necessidade dos países latino-americanos não apenas acelerarem o ritmo do desenvolvimento econômico mas também, ao mesmo tempo, realizarem a redistribuição de renda: “Ambas as tarefas deveriam ser executadas conjuntamente, ou seja, o desenvolvimento econômico não viria antes do desenvolvimento social, mas seriam interdependentes. As transformações na estrutura social, particularmente a reforma agrária, eram necessárias para o desenvolvimento” (BERCOVICI, Gilberto. Constituição Econômica e Desenvolvimento: uma leitura a partir da Constituição de 1988. São Paulo: Malheiros Editores, 2005, p. 27).

Através das Resoluções 1710 (XVI) e 1715 (XV) da ONU, ambas de 1961, foi instituído o 1° Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, abrangendo aquela década238, que tinha como objetivo acelerar o progresso e o crescimento auto-sustentado das nações, e que se tornou depois um programa permanente. Uma importante contribuição do programa foi constatar o caráter global do subdesenvolvimento e a necessidade de soluções que envolvessem a solidariedade internacional239.

Os anos 60 impulsionaram as discussões sobre desenvolvimento no foro internacional, especialmente como decorrência da aceleração do processo de descolonização ocorrido no pós-guerra, através do qual várias colônias tornaram-se independentes, como conseqüência de diversos fatores, como, por exemplo, o nacionalismo na África e na Ásia240 e a guerra fria241. Esses novos Estados, subdesenvolvidos e ainda fortemente dependentes de grandes centros como os Estados Unidos e a antiga União Soviética – que estimularam a descolonização objetivando estender sua influência política –, ingressaram na ONU e integraram o bloco dos países do chamado Terceiro Mundo. Tais países, entretanto, por sua fragilidade política, econômica e social, necessitavam de auxílio242, dando ensejo ao que pode ser visto, com algum romantismo, como solidariedade internacional.

Nesse contexto, devido ao esforço desses países subdesenvolvidos, foi criada em 1964243, no âmbito da ONU, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento,

238 Foram estabelecidas outras décadas para o desenvolvimento, pelas Resoluções 2626 (XXV), de 1970; e

35/36, de 1980.

239 PERRONE-MOISÉS, Cláudia. Direitos Humanos e Desenvolvimento: a contribuição das Nações Unidas.

In AMARAL JÚNIOR, Alberto do, PERRONE-MOISÉS, Cláudia (orgs.). O Cinqüentenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999, p. 180. O programa publica desde 1990 um relatório anual sobre desenvolvimento humano, com o escopo de promover o debate de temas ligados ao desenvolvimento. O programa desenvolveu o Índice de Desenvolvimento Humano, anteriormente examinado, com base no qual é feito, para o relatório anual, um ranking de desenvolvimento, no qual são listados 144 países e territórios classificados em grupos de alto, médio e baixo desenvolvimento humano. Os relatórios e outras informações estão disponíveis nos sites do programa: http://www.pnud.org.br/home/ e http://www.undp.org/, acesso em 05/06/2008.

240 “Os movimentos nacionalistas amadureceram na Ásia depois da Primeira Guerra Mundial. Após a

Segunda Guerra fizeram rápidos progressos até mesmo na África, onde os movimentos organizados nasceram tardiamente” (CANÊDO, Letícia Bicalho. A descolonização da Ásia e da África. 14ª edição, revista e atualizada. São Paulo: Atual, 2005, p. 43).

241 Acerca do tema vide, dentre outros: CANEDO. Letícia Bicalho. A descolonização da Ásia a da África.

São Paulo: Atual, 2005.

242 “A Declaração da Concessão de Independência a Países Coloniais e Povos (1960), ao salientar que a falta

de preparo político, econômico, social ou educacional nunca deve servir para postergar a independência, abriu as portas das Nações Unidas para novos membros que não poderiam sobreviver sem o auxílio, principalmente econômico, da comunidade internacional” (NASCIMENTO E SILVA, G. E. do, ACCIOLY, Hildebrando. Manual de Direito Internacional Público. 15ª edição, revista e atualizada por Paulo Borba Casella e colaboradores. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 124).

243 O primeiro Secretário-Geral da Conferência foi também um dos seus inspiradores, o economista argentino

mais conhecida pela sua sigla em inglês UNCTAD, cujo primeiro secretário-geral foi Raúl Prebisch. A Conferência se tornou progressivamente um importante órgão voltado à integração dos países mais pobres no campo do comércio e do desenvovimento mundial, com atuação nos setores de tecnologia, investimento, desenvolvimento sustentável e finanças244. Uma das principais reivindicações era no sentido de que o comércio de produtos primários, principal objeto de exportação dos países subdesenvolvidos, não deveria ser incluído nos negócios disciplinados pelo Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio – GATT – 245, especialmente no que diz respeito à cláusula da nação mais favorecida. Essa cláusula era um obstáculo à concessão, pelos países desenvolvidos, de incentivos à importação de produtos oriundos dos países subdesenvolvidos, já que os benefícios teriam que ser extendidos às demais nações signatárias do GATT.

A Conferência, como foro intergovernamental de diálogo e negociação norte-sul, passou a ser importante instrumento de pressão no sentido do atendimento de reivindicações desenvolvimentistas dos países mais pobres, que formaram em 15 de junho daquele ano o chamado grupo dos setenta e sete – G77246. Dentre os objetivos da Conferência estão o incremento do comércio internacional como meio de acelaração do desenvolvimento econômico, a realização de estudos e pesquisas e a prestação de consultoria sobre questões de desenvolvimento aos países subdesenvolvidos.

Ainda em 1964, durante a Primeira Conferência sobre Comércio e Desenvolvimento das Organizações das Nações Unidas, foi feita menção ao fato de que em uma humanidade

industrialização e desenvolvimento na América Latina, especialmente acerca da adoção de modelos próprios, forjados a partir da realidade latino-americana, e não por conduto de fórmulas externas, tiveram forte influência, inclusive no Brasil. Um resumo histórico da UNCTAD pode ser encontrada na própria home page da entidade: http://www.unctad.org/Templates/Page.asp?intItemID=3358&lang=1, acesso em 06/06/2008.

244 As conferências são realizadas em períodos quadrienais. A XI Conferência foi realizada em São Paulo,

entre os dias 13 e 18 de junho de 2004, e os resultados podem ser conferidos principalmente em dois documentos: The Spirit of São Paulo (disponível em http://www.unctad.org/en/docs//tdl382_en.pdf, acesso em 06/06/2008) e São Paulo Consensus (disponível em http://www.unctad.org/en/docs//td410_en.pdf, acesso em 06/06/2008).

245 O acordo foi criado em 1948, visando a expansão do comércio internacional, que reduziu direitos

alfandegários por meio de contingenciamentos, acordos preferenciais e barreiras não tarifárias, e generalizou o princípio da cláusula de nação mais favorecida.

246 O qual conta hoje com 130 membros, segundo o site oficial: http://www.g77.org/doc/members.html,

onde se realize a solidariedade, o direito de todos os povos ao desenvolvimento deve ser reconhecido e respeitado 247.

Nesse diapasão, visando resolver o problema da cláusula de nação mais favorecida do GATT, foi desenhado a partir da II UNCTAD, realizada no ano de 1968 em Nova Deli, na Índia, um mecanismo para posibilitar preferências aduaneiras no comércio Norte-Sul com aplicação exclusiva em benefício dos países subdesenvolvidos. Assim, através do chamado Sistema Geral de Preferências – SGP – os países desenvolvidos passaram a poder conceder, unilateralmente e sem exigência de reciprocidade, isenções ou reduções de tarifas de importação incidentes sobre determinados produtos exportados pelos países subdesenvolvidos248. Os desiguais eram, enfim, tratados na medida das suas desigualdades. Conforme aponta Claudia Perrone-Moisés249, o regime de desigualdades compensadoras criado pela UNCTAD passou a ser chamado pela doutrina de Direito Internacional do

Desenvolvimento, o qual teria sido concebido pela primeira vez por Roger Granger em

estudo publicado em 1961 que o considerou uma modalidade própria do direito econômico com aplicação aos países subdesenvolvidos250. Ainda segundo a autora citada, a doutrina entende que a definição do Direito Internacional do Desenvolvimento teria sido desenvolvida por Michel Virally em 1965, em um artigo que o tratava como um novo ramo do Direito Internacional Público251.

247 Filibeck, Giorgio. The right to development. Conciliar and pontifical texts (1960-1990). Cidade do

Vaticano: Pontifical Council for Justice and Peace, 1991, p.11.

248 A Resolução 21 II), aprovada no Segundo Período de Sessões da UNCTAD em 1968, na cidade de Nova

Delhi, previa que “los objetivos del sistema generalizado de preferencias sin reciprocidad ni discriminación en favor de los países en desarrollo, con inclusión de medidas especiales en beneficio de los menos adelantados de entre ellos, deberían ser: a) aumentar los ingresos de exportación de esos países; b) promover su industrialización; y c) acelerar su ritmo de crecimiento económico” (http://www.unctad.org/Templates/Page.asp?intItemID=2309&lang=3, acesso em 06/06/2008).

249 PERRONE-MOISÉS, Cláudia. Direito ao Desenvolvimento e Investimentos Estrangeiros. São Paulo:

Editora Oliveira Mendes, 1998, p.58.

250 GRANGER, Roger. Pour un droit du développement dans les pays sous-developpés. In VASSEUR,

Michel (ed.). Dix ans de Conférences d’agrégation – Études de Droit Commercial offertes à Joseph Hammel, membre de l'Institut, doyen honoraire de la Faculté de droit et des sciences économiques de Paris. Paris: Dalloz, 1961.

251 VIRALLY, Michel. Vers un droit international du développement. A obra citada pela autora em relação

ao artigo de Virally é Le Droit International en Devenir, Paris, PUF, 1990 (PERRONE-MOISÉS, Cláudia. Direito ao Desenvolvimento e Investimentos Estrangeiros. São Paulo: Editora Oliveira Mendes, 1998, p. 58). O original pode ser encontrado no Annuaire français de droit international. Paris: Centre National de la Recherche Scientifique, 1966, v. XI.

Segundo Celso D. de Albuquerque Mello252, em ligeira discordância com Claudia Perrone- Moisés, a expressão Direito Internacional do Desenvolvimento foi criada por André Philip. Além disso, tem como titulares os países em desenvolvimento. Diz ainda o autor que concorda com A. Pellet quanto a considerar o Direito Internacional do Desenvolvimento como ramo do Direito Internacional Econômico, embora não haja consenso doutrinário a esse respeito, citando a posição contrária de Hugo Gross253. Em obra mais recente, o pranteado autor anota que o Direito Internacional do Desenvolvimento é uma crítica ao Direito Internacional254.

Miguel Moura e Silva anota que nas últimas décadas ocorreu uma tentativa de construir uma ordem econômica favorável aos interesses dos países em desenvolvimento, e que essa tentativa teve como base uma nova superestrutura jurídica, que é o Direito Internacional do Desenvolvimento, que seria, para muitos dos seus cultores, a antítese de um Direito Internacional Econômico de inspiração liberal. Observa, ainda, que Bélanger, embora reconheça pontos de contato, distingue entre o Direito Internacional Econômico, que possui vocação universal e tem como centro principal os interesses dos países industrializados, e o Direito Internacional do Desenvolvimento, através do qual são defendidas as exigências dos países em desenvolvimento. Pontua, também, que no entendimento de autores como Garcia-Amador o Direito Internacional do Desenvolvimento é somente uma dimensão nova do Direito Internacional Econômico255. O Direito Internacional do Desenvolvimento, por objetivar atender reivindicações dos países subdesenvolvidos, dotando-lhes de melhores condições de desenvolvimento, busca regular as relações entre Estados – sendo, portanto, interestatal – para redistribuir de forma mais equânime e justa os recursos da economia no âmbito internacional. Há um claro entendimento de que os países subdesenvolvidos têm uma espécie de hipossuficiência, e que portanto merecem tratamento diferenciado, com base em princípios de solidariedade, de maneira a reduzir as diferenças econômicas. G. E. do Nascimento e Silva e Hildebrando Accioly apontam, a esse respeito, que muitos argumentaram que o reconhecimento desse

252 MELLO, Celso D. de Albuquerque. Direito Internacional Público. 2° Volume. 6ª edição, revista,

atualizada e ampliada. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1979, p. 1109.

253 MELLO, Celso D. de Albuquerque. Direito Internacional Público. 2° Volume. 6ª edição, revista,

atualizada e ampliada. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1979, pp. 1109-1110.

254 MELLO, Celso D. de Albuquerque. Direito Internacional Econômico. Rio de Janeiro: Renovar, 1993, p.

10.

255 O desenvolvimento do conceito de Direito Internacional Econômico. Estudos jurídicos e económicos em

homenagem ao Prof. Doutor António de Sousa Franco. Vol. 3. Lisboa: Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, 2006.

direito colidia com os princípios da reciprocidade e não-discriminação, que seriam corolários da igualdade jurídica dos Estados. Acrescentam que para contornar esse óbice passou-se a falar em Estados juridicamente iguais, porém economicamente desiguais256. A idéia de solidariedade é reforçada, por exemplo, pelo fato de que a UNCTAD trabalha priorizando a busca de consenso e não de mecanismos impositivos, valendo lembrar, por exemplo, o Regime Geral de Preferências.

No âmbito do sistema regional interamericano257 cabe destacar que a cooperação com vistas a um desenvolvimento progressivo foi objeto do artigo 26 da Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969 – Pacto de San Jose da Costa Rica258, inserido no capítulo destinado aos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, segundo o qual os Estados-partes