• Sonuç bulunamadı

Compreender que há outros pontos de vista é o início da sabedoria. Campbell

Tal como o conceito de nação e nacionalidade, o conceito de racismo também se apresenta como um construto social. Está, portanto, sujeito às influências de época, lugar e critérios políticos. Na cultura ocidental, o tema da alteridade associa-se frequentemente ao tema do racismo, e é no discurso que se evidenciam as explicações e justificativas para a prática racista. Diferenças culturais e sócio- econômicas são usadas como critérios indicadores de etnias “inferiores”, como se de algo inerente a determinado povo se tratasse, como se não fossem passíveis de mudança.

Fundamentado nessas concepções estereotipadas, o discurso racista legitima e legaliza a dominação, a exploração e a exclusão, estabelecendo fronteiras bem demarcadas entre o “nós” e os “outros”, como se a cultura fosse algo imanente, estático e imutável. Goytisolo entende que a força do mito também está presente nesse discurso que, por sua vez, remete ao poder da palavra. No ensaio “La Europa del miedo”, a declaração de Goytisolo ilustra esse processo de exclusão pela linguagem:

Leer la prensa europea de las pasadas semanas es internarse en un mundo anacrónico en la medida en que el lector asiste [...] al retorno de una barbarie que creía [...] barrida: mientras Le Pen, agitando y barajando con habilidad los espectros del sida y la inmigración moteja de sidaicos a los afectados por el síndrome (todo parecido con hebraico es pura coincidencia), propone su envío a sidatorios (la inmediata asociación de ideias con crematorios, ¿sería perversa?), reclama la expulsión de todos los inmigrados de origen no europeo (eso sí, ‘con elegancia’ y ‘a la francesa” [...] (GOYTISOLO, 1995, p.290 - 291).

Nesse sentido, as teorias de Foucault e de Edward Said se colocam como base para se compreender o pensamento de Goytisolo sobre a exclusão exercida a partir do discurso. Foucault (2008), em sua obra A ordem do discurso fala sobre o lugar do discurso e do poder que lhe é conferido. Esse poder, exercido segundo uma intencionalidade em determinadas circunstâncias históricas, define toda uma forma de pensar uma determinada questão, podendo tornar-se um mecanismo de exclusão, por meio da interdição, da rejeição e da vontade de verdade. Nesse aspecto, poder-se-ia considerar o perigo que ela representa já que: “[...] o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta; o poder do qual nos queremos apoderar” (FOUCAULT, 2008, p.10).

Foucault (2008, p.39) cita as “sociedades de discurso” que os produzem e preservam, fazendo com que eles sejam veiculados em espaços específicos e

percam sua posse. O discurso ocidental, legitimado pelas instâncias produtoras (Igreja, Estado e, atualmente, a própria mídia), é considerado por Goytisolo estratégia de dominação e de exclusão que divide o mundo segundo um critério maniqueísta de Bem e Mal. Assim, caberia ao mundo oriental, – bárbaro, atrasado, inferior e sanguinário - a responsabilidade pelas tragédias e o dever de aprender com o Ocidente – superior, desenvolvido, democrático e justo.

Nesse contexto, é oportuno lembrar que Edward W. Said se projeta no mundo acadêmico quando, em consonância com as ideias de Foucault, mostra a possibilidade de compreender a história como uma luta pela linguagem, e não apenas como a luta de classes proposta na teoria marxista que prevaleceu por tanto tempo. É interessante observar que Goytisolo, assim como Edward Said, defende a mesma interpretação da cultura, como se comprova na citação daquele na página 47 da obra Tradición y disidencia: “Como no me canso de repetir, una cultura es, a fin de cuentas, la suma total de las influencias que ha recibido a lo largo de los siglos” (GOYTISOLO, 2001, p.38). Na conceituação de Said: “todas as culturas estão mutuamente imbricadas; nenhuma é pura e única, todas são híbridas, heterogêneas, extremamente diferenciadas, sem qualquer monolitismo [...]” (SAID, 1995, p.28).

Edward Said argumenta que a imagem do Oriente conhecida pela cultura ocidental foi intencionalmente construída pelos produtores do discurso oficial veiculado no mundo inteiro. Ela tem como fundamentação não a exclusão mas a manutenção da condição de inferior para os povos orientais, sem o que a cultura ocidental perderia sua referência de superioridade e a legitimação de seus interesses de dominação.

Sintonizado com tais questões, Goytisolo propõe uma revisão da História da Espanha, não somente pelo questionamento dos mitos do passado, mas, talvez mais ainda, pelo conhecimento do poder da linguagem e de seu uso como estratégia de alienação, dominação e exclusão. Afinal, como ele afirma:

[...] mi labor ha consistido en desdibujar lo que aparece como fijo; mi labor de escritor ha sido cuestionar estas imágenes icónicas de la cultura española incapaces de abarcar la riqueza de su propio contenido. Creo que la labor del intelectual consiste en deshacer estos íconos y mostrar que la realidad es mucho más rica… (GOYTISOLO, 2001, p.49).

O autor questiona o discurso estabelecido, o canônico e defende que o aprofundamento dessas questões revela mais a fragilidade do discurso que a compreensão do real. Goytisolo mostra que, no uso da linguagem, a seleção de vocábulos utilizados para referir-se ao que não é espanhol tem intenção de denegrir, inferiorizar, tornar ilegal, suspeito, etc. Ou seja, há uma manipulação linguística com vistas a reafirmar a superioridade ocidental sob a perspectiva de se tomar como valores o que é apenas diferença. Obviamente, não se aplica a mesma lógica quando se trata das diferenças da cultura oriental e, mais especificamente, da cultura islâmica, como destaca Goytisolo.

O aspecto de uma exclusão construída pelo poder do discurso, como afirma Goytisolo, é analisado na tese de doutoramento de Fawzi Shafik El Sharkawy (2000), que inclui uma entrevista com o autor. Essa tese destaca alguns exemplos de determinados autores cujos discursos são claramente discriminatórios: “[...] Montesquieu: [...] ésta inundación de mahometanos ha traído consigo el despotismo’, Menéndez Pidal: ‘[...]: gran diluvio sarraceno’ y Ortega: ‘[...] los árabes no forman un ingrediente esencial en la génesis de nuestra nacionalidad’ (apud

la doble obsesión racista y patológica – presente en personajes tan dispares como Quevedo y Hitler – se remonta en verdad hasta las primeras décadas del pasado siglo, y quienes ahora especulan con ella con fines electorales no hacen sino seguir la pauta de los antisemitas europeos de la época del proceso Dreyfus y de la redacción fraudulenta por la policía zarista del protocolo de los sabios de Sión (GOYTISOLO, 1995,p.291-292).

Outro autor, cuja teoria corresponde ao posicionamento crítico de Goytisolo, que analisa o tema da exclusão na atualidade é Teun A. van Dijk. Também para esse teórico a prática do racismo na España deve ser estudada em sua dimensão histórica, pois sua origem remonta ao século XV, quando a intolerância do catolicismo, as conquistas coloniais e a Reconquista se influenciaram reciprocamente, fortalecendo a até então insignificante dominação sobre os árabes, judeus, ciganos e todos os demais povos conquistados: “Con lo cual 1492 marca el final y el principio de una era de encuentros étnicos o ‘raciales’ con los ‘otros’, cuyos efectos duraderos han influido notablemente sobre la conciencia colectiva española” (VAN DIJK, 2003, p.21-22).

Van Dijk considera que, na atualidade, o discurso foi suprimido pela prática racista, pois na proporção em que os termos que depreciam os imigrantes diminuem no discurso político, tanto dos partidos de esquerda quanto de direita, aumentam as medidas coercitivas e punitivas para impedir a entrada e permanência dessas pessoas nos países europeus. O léxico adotado com referência ao “outro”, o que não é espanhol, procura manter-se dentro do que se considera como discurso politicamente correto, com o uso de palavras como imigrante, estrangeiro, pessoas, cidadãos, geralmente com a menção ao país de origem.

Uma análise da linguagem empregada no texto da Ley Orgánica Reguladora de los Derechos y Libertades de los extrangeros “Boletín Oficial del Estado (12 Janeiro 2000 núm. 10), realizada por van Dijk comprova as estratégias de legitimação da violência e da exclusão por meio do discurso. Observa-se a preocupação em justificarem-se as medidas adotadas contra os imigrantes, assim como a intenção em caracterizá-los negativamente. Segundo suas palavras, “[e] sta representación negativa de los “otros” está fuertemente vinculada a representaciones positivas similares de ‘nosotros’, nuestra tolerancia y solidaridad, nuestros principios legales, y así sucesivamente” (VAN DIJK, 2003, p.42). Assim, o discurso que constroi a figura do “outro”, apresentando-o como diferente, violento, ilegal e inferior, reforça, ao mesmo tempo, a representação positiva do “nós”- os espanhois solidários, tolerantes, legais e superiores. Em Coto vedado Goytisolo analisa o poder do discurso construído para difundir uma ideologia e no contexto pós Guerra Civil, para escamotear a verdade e ocultar a verdadeira história. A exclusão se configura pelo discurso oficializado:

[…] por otro, aceptabais sin ninguna clase de reservas la versión oficial de la contienda expuesta por la radio, periódicos, profesores, familia y cuantas personas os rodeaban : una Cruzada emprendida contra una República manchada con toda clase de abominaciones y crímenes.[...]. Sólo en la universidad, al relacionarte con un compañero de ideas hostiles al Régimen y conocer gracias a él los libros que exponían la guerra civil desde un punto de vista opuesto, la venda cayó de tus ojos (GOYTISOLO, 1985, p.65).

As conclusões de van Dijk vão ao encontro do posicionamento político e intelectual de Goytisolo. Ambos enfatizam que o abuso de poder, o uso da força, a manipulação e a desinformação passam pela construção do discurso. E, no caso da sociedade espanhola, suas análises se complementam. Partindo de uma visão histórica apresentada por Goytisolo, que chega até a contemporaneidade e cujos contornos se delimitam com os estudos de van Dijk, o discurso da exclusão se apoia na força do mito.

Em sintonia com o pensamento de Goytisolo se alinha Joan Oleza, também catalão e também escritor. Professor da Universidade de Valência, autor de vários estudos sobre o teatro espanhol dos séculos XVI e XVII, esse escritor vê, com a mesma preocupação de Goytisolo, os rumos políticos estabelecidos pelos países ocidentais para si e para os países pobres. A rejeição do outro, com prática em grande parte alimentada pelos mitos, representa seu papel de forma muito real. A globalização, contraditoriamente, reforçou as fronteiras geográficas e derrubou as barreiras da informação. Agora o mundo da opulência é exibido para os miseráveis e excluídos por meio da televisão e da internet, entre outros. A possibilidade, ainda que remota, de participar das benesses do Primeiro Mundo impulsiona o enfrentamento de um enorme contingente humano, mesmo que não seja, na atualidade, por meio de expedições militares como no passado:

Las vías serán las que utilizarán esas tropas de fugitivos en pateras, en contenedores infernales, en los trenes de rodaje de los aviones, en camiones,como falsos turistas; la reconversión de las ciudades de identidad más orgullosa en metrópolis integradas por colonias multiétnicas; la infiltración sigilosa de ejecutores dispuestos al martirio en nombre de

una venganza sagrada contra los ciudadanos más desprotegidos de esos estados que oprimen a sus pueblos (OLEZA, 2004, p.133).

Ao contrário do que demonstrava no início de sua produção literária, Goytisolo é pessimista com relação ao poder da literatura para realizar qualquer tipo de mudança. O escritor insiste na necessidade da definição de normas que possibilitem uma convivência de respeito mútuo e tolerância. Vê como irreversível o processo de imigração de que trata Oleza e acredita que o convívio entre diversas etnias dentro de um mesmo espaço pode resultar em uma grande riqueza cultural, com vantagens inestimáveis para todos, desde que as diferenças sejam entendidas como necessárias. E conclui: “ Yo estoy por la defensa de las identidades culturales, pero no a costa de repetir ese ciclo de exclusiones”(GOYTISOLO, 1999, p. 6).

Goytisolo reconhece que as histórias nacionais se fundam em elementos míticos, assim como realça a importância destes como fator de aglutinação e de identidade de um povo, mas alerta para o perigo que representam quando deixam de ser considerados como tal e se tornam argumentos incontestáveis a serviço da repressão, da violência e da exclusão. Ao encobrir ou escamotear a verdade, o mito revela toda a sua força destrutiva e justifica genocídios tais como o holocausto, a faxina étnica promovida em Sarajevo e Chechênia, e o tratamento preconceituoso e desumano aos imigrantes que chegam à Europa na atualidade.

O questionamento e a destruição dos mitos representam, para Goytisolo, mais que um compromisso humano, um desafio. A destruição criadora pode, de certa forma, colaborar para o despertar das consciências, do respeito, da observância das normas de tolerância e do convívio fecundo entre as distintas culturas. Goytisolo

reivindica, dentro da Literatura, esse espaço de diálogo, mesmo reconhecendo que há pouca liberdade de expressão e também poucos intelectuais cujas vozes se façam ouvir.

Seu compromisso em contribuir para a busca de mudanças positivas para a sociedade se reflete na busca de uma renovação literária. Como exemplo bastante ilustrativo dessa proposta, pode-se citar a forma como trabalha o gênero autobiográfico, tema que será abordado a seguir. Com vistas a um estudo mais significativo das obras elencadas, considera-se oportuna uma revisão, mesmo que breve, dos conceitos do que seja a autobiografia. Com esse objetivo, desenvolveremos o terceiro capítulo.