Participaram deste estudo 70 sujeitos de ambos os sexos, em sua maioria oriundos de classes populares que estavam em processo de alfabetização em turmas da Educação de Jovens e Adultos. Dentre os participantes selecionados para a pesquisa, 40 eram mulheres e 30 homens, com idades que variavam de 15 a 70 anos, aproximadamente. As experiências escolares dos participantes variavam muito, alguns nunca haviam frequentado a escola, outros já haviam frequentado por um curto tempo ainda crianças e outros tinham experiências anteriores com a escola já na fase adulta.
Tabela 1: Distribuição de participantes por instituição
Instituições Turmas Nº de alunos
PROEF 1 04 22
ALFASOL 03 29
PBH 02 19
TOTAL 09 70
Na tabela X, observa-se que os 70 participantes estavam distribuídos por 09 turmas de alfabetização pertencentes a diferentes instituições, a saber: Projeto de Ensino Fundamental de Jovens e Adultos - 1º segmento (PROEF-1) da Universidade Federal de Minas Gerais, do qual participaram 04 turmas – totalizando 22 sujeitos –; Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), em que foram pesquisadas 03 turmas – com um total de 29 alunos – e o projeto da ONG Alfabetização Solidária ou Alfasol, da qual participaram 02 turmas – com a soma de 19 alfabetizandos – oriundas do município mineiro de Padre Paraíso.
Para maior contextualização, é importante explicitar informações a respeito das instituições acima mencionadas. A primeira instituição, a Universidade Federal de Minas Gerais, em específico, o Projeto de Ensino Fundamental de Jovens e Adultos, criado na década 1980, é dividido em dois níveis: o PROEF-1, voltado para quem vai começar a ser alfabetizado, e o PROEF-2, destinado aos alunos que pretendem concluir o Ensino Fundamental. O primeiro segmento tem à frente da sua coordenação pesquisadores integrantes do Ceale, que também são responsáveis pela capacitação dos professores-monitores responsáveis pelas turmas. O projeto oferece curso presencial com carga horária de 10 horas semanais e tem duração de dois anos, em média, dependendo do desenvolvimento de cada pessoa. Inicialmente o referente projeto foi criado para alfabetizar servidores da UFMG, mas, hoje, já atende também aos funcionários terceirizados e a interessados da comunidade em geral.
O primeiro segmento do PROEF equivale ao ensino de 1ª a 4ª série e é ministrado por alunos de graduação (em geral, oriundos dos cursos de licenciatura, como Pedagogia, Letras, História, Matemática, Geografia, entre outros), supervisionados por professores da Faculdade de Educação da UFMG, contando, também, com o apoio pedagógico do Ceale. O PROEF-1 capacita estudantes e professores da universidade para a área de educação de jovens e adultos. Apesar de existir desde 1985, o PROEF-1 passou por períodos de interrupção entre 1987 e 1990. Hoje, o projeto possui cinco turmas funcionando em horários diferentes, em salas de aula da Faculdade de Educação da UFMG.
É importante salientar que no PROEF não há sistema de seriação, ou seja, os alunos não são divididos por séries como nas escolas convencionais. Isso faz com que as turmas sejam muito heterogêneas. Assim, os estudantes são distribuídos nas classes de acordo com seu grau de habilidade em relação à escrita e leitura.
Além de proporcionar uma oportunidade de escolarização e contribuir para a formação de professores, o PROEF-1 é também uma referência na área. A partir do trabalho que realiza, suas experiências são divulgadas, pesquisas são produzidas e materiais didáticos específicos para o público jovem e adulto são elaborados.
Após a conclusão do curso, o aluno pode continuar seus estudos no PROEF-2 (5ª a 8ª série) e no Projeto de Ensino Médio de Jovens e Adultos (PEMJA), coordenados pelo Centro
Pedagógico e pelo Colégio Técnico (COLTEC) da UFMG. Os três projetos compõem o Programa de Educação Básica de Jovens e Adultos, vinculado ao Núcleo de Educação de Jovens e Adultos (NEJA) da UFMG56.
A escolha pela instituição acima mencionada se deu, pois realizávamos um trabalho de coordenação e assistência pedagógica desde o início do ano de 2007. Atuávamos na formação inicial e continuada dos monitores, prestando orientações aos planejamentos, participando das reuniões semanais, entrando em sala de aula para observação e orientação da prática dos monitores, além de atuarmos nas orientações de relatórios e realização de provas. Todo esse trabalho prestado a esta instituição nos permitiu uma maior proximidade com o corpus que iríamos pesquisar posteriormente.
Sendo assim, participaram da pesquisa 04 turmas de alfabetização do PROEF-1, sendo 22 sujeitos (09 mulheres e 13 homens). Duas turmas eram constituídas de alunos em níveis mais iniciais da alfabetização (pré-silábicos e silábicos, em sua maioria) e outras duas turmas compreendiam alunos em níveis finais de alfabetização (silábico-alfabéticos e alfabéticos não ortográficos).
A segunda instituição mencionada refere-se a uma escola pública da Prefeitura de Belo Horizonte. Antes de caracterizarmos a escola, em específico, envolvida em nossa pesquisa, faz-se necessário situar como se organiza a Educação Municipal de Belo Horizonte. De acordo com o portal da Prefeitura de Belo Horizonte57, a educação do município possui cinco etapas de formação escolar: o ciclo básico (Educação Infantil), o 1º, 2º e 3º ciclos (Ensino Fundamental) e 4º ciclo (Ensino Médio), sendo flexível o tempo escolar para melhor respeitar os ritmos diferenciados de aprendizagem dos alunos.
Além disso, a Educação Municipal de Belo Horizonte trabalha com a proporção de 1,5 professor por turma, permitindo, dessa forma, que haja sempre professores fora da sala de aula, realizando planos e reuniões pedagógicas em sua jornada normal de trabalho.
56 Mais informações, consultar o portal do Ceale:
http://www.ceale.fae.ufmg.br/acao_educacional.php?catId=75&txtId=70
57Disponível em
http://portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/comunidade.do?evento=portlet&pIdPlc=ecpTaxonomiaMenuPortal&app=ed ucacao&tax=7444&lang=pt_BR&pg=5564&taxp=0& Acesso em 20 de junho de 2009.
A Proposição Curricular para o 1º ciclo da Educação Municipal da Prefeitura de Belo Horizonte58 toma como referência para os processos de alfabetização e letramento no 1º e 2º ciclo, os cadernos do Ceale (BATISTA et al, 2005) e opta pela organização em capacidades / habilidades. Ainda considerando a proposição do Ceale (BATISTA et al, 2005), a Proposição Curricular instituída pela Educação Municipal da Prefeitura de Belo Horizonte pressupõe que o desenvolvimento das capacidades /habilidades deve ser previsto dentro de uma lógica de organização que introduz, retoma, trabalha e consolida os conhecimentos escolares, visando favorecer o desenvolvimento das capacidades/habilidades.
A escolha por uma escola da Prefeitura de Belo Horizonte se deu, portanto, por dois motivos. O primeiro refere-se à adesão da Proposição Curricular da Educação Municipal de Belo Horizonte às concepções do Ceale, concepções estas que norteiam a Matriz de Referência do Teste Cognitivo de Leitura e Escrita. O segundo motivo se deu pela oportunidade de realizar, no segundo semestre de 2008, um serviço de assessoria para a melhoria da qualidade de ensino, com atuação específica na formação das docentes que estavam à frente das turmas do 1º ciclo da EJA de uma escola da Prefeitura de Belo Horizonte. Atuávamos, portanto, nos períodos da tarde e da noite, com três docentes. Havia, então, duas turmas de alfabetização no turno da tarde e uma turma de alfabetização no turno da noite, cada uma com suas respectivas professoras.
Realizamos nosso trabalho de assessoria, durante três meses, utilizando como principais materiais a Coleção Orientações para a Organização do Ciclo Inicial de Alfabetização, em específico, o Caderno 2: Alfabetizando59. A Coleção publicada pelo Centro de Alfabetização Leitura e Escrita (CEALE), em parceria com a Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais, no ano de 2003, foi elaborada para auxiliar as escolas das redes públicas do Estado de Minas Gerais, na Organização do Ciclo Inicial de Alfabetização.
Sendo assim, como estávamos trabalhando com as capacidades da alfabetização que fundamentam as matrizes do Teste Cognitivo do Programa Brasil Alfabetizado, achamos que
58 Disponível em
http://portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/comunidade.do?evento=portlet&pIdPlc=ecpTaxonomiaMenuPortal&app=ed ucacao&tax=8489&lang=pt_BR&pg=5564&taxp=0& Acesso em 20 de junho de 2009.
59 A coleção ainda apresenta mais 3 cadernos: Caderno 1 – Ciclo Inicial de Alfabetização; Caderno 3 – Preparando a escola e a sala de aula e o Caderno 4 – Acompanhando e avaliando.
seria interessante tanto para o nosso trabalho de assessoria na referida escola, quanto para a constituição de um novo corpus desta pesquisa.
A escola em que atuamos está localizada no centro da cidade e funcionava nos três turnos, comportando o Ensino Regular e a Educação de Jovens e Adultos. A escola oferecia o 1º ciclo de ensino para a modalidade de jovens e adultos. Nela realizamos a aplicação dos testes em três turmas, num total de 29 sujeitos, sendo 18 mulheres e 11 homens. Em uma das turmas, os alunos apresentavam níveis mais iniciais da alfabetização (pré-silábico e silábico-alfabético) e nas outras duas turmas verificamos que os alunos estavam em estágios mais avançados (alfabético não-ortográfico).
A terceira instituição citada é a Alfabetização Solidária (AlfaSol), que se caracteriza como sendo uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos e de utilidade pública. Esta afirma adotar um modelo simples de alfabetização inicial e de baixo custo, baseado no sistema de parcerias com os diversos setores da sociedade. Lançada em 1997, a organização ressalta seu esforço para redução dos altos índices de analfabetismo no país e pelo fortalecimento da oferta pública de Educação de Jovens e Adultos no Brasil.
A Alfabetização Solidária atua com base nos índices de analfabetismo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em novembro de 1998, foi criada a Associação Alfabetização Solidária. Com estatuto próprio, a Associação passou a ser responsável pelo gerenciamento da AlfaSol. A constituição da entidade proporcionou maior autonomia para a captação de recursos e agilidade no gerenciamento das atividades. Todo o trabalho é desenvolvido com base em parcerias mantidas com o Ministério da Educação, empresas, pessoas físicas, organizações, governos municipais e estaduais, instituições de ensino superior e outras.
De acordo com o portal da AlfaSol60, foram atendidos, no final do ano de 2008, 5,4 milhões de alunos em 2.116 municípios brasileiros e capacitados 249 mil alfabetizadores. O referente trabalho realizado no ano de 2008 contou com a parceria de 150 empresas e instituições governamentais e 76 Instituições de Ensino Superior (IES) parceiras, entre elas, a Universidade Federal de Minas Gerais.
Apesar da reconhecida importância da AlfaSol para a redução do analfabetismo, em nossa opinião, a concepção pedagógica, o “modelo simples de alfabetização inicial, inovador e de baixo custo, baseado no sistema de parcerias com os diversos setores da sociedade” (AlfaSsol, 2009, não paginado), adotados pela organização, não nos parece tão eficaz quanto promete. Conhecida pelo baixo índice de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), a cidade de Padre Paraíso, situada no norte do Estado de Minas Gerais, foi contemplada com o programa. Nele atuamos em algumas ocasiões como formadoras, realizando cursos de formação em temas como alfabetização e letramento, gêneros textuais, produção de texto, entre outros. Os poucos dias de curso foram o suficiente para nos darmos conta da transparente dificuldade da maioria dos alfabetizadores, no tocante à língua portuguesa, podendo-se por assim dizer que muitos ainda estavam em processo de alfabetização.
Tal afirmativa pode ser justificada pelo fato de que muitos dos que estavam nos cursos de formação (quando se faziam presentes) tinham baixos níveis de escolaridade (muitos não tinham terminado nem o 4º ano do Ensino Fundamental), além disso, nas atividades realizadas durante o curso, os alfabetizadores externavam a imensa dificuldade de ler, interpretar e produzir textos.
Apesar de críticas e até de sugestões dadas à AlfaSol pelos formadores, da necessidade de critérios mais rígidos para a seleção dos alfabetizadores, ainda permanecia a premissa de que qualquer pessoa poderia alfabetizar, assim como acontecia no MOBRAL. Mesmo que tais critérios de seleção mudassem, esbarramos em um outro fator muito relevante: o valor das bolsas dos alfabetizadores, o que representava um desrespeito para com aqueles que se esforçavam na desafiadora tarefa de alfabetizar. Sendo assim, pouco evoluímos no quesito investimento em políticas públicas para a Educação de Jovens e Adultos, sobretudo a alfabetização.
Realizamos a coleta de nossa pesquisa em duas turmas da Alfasol, no município de Padre Paraíso – MG. Nesse caso, as turmas eram notavelmente heterogêneas, já que no referente projeto é o próprio alfabetizador constituía suas próprias turmas, sendo assim, verificamos níveis psicogenéticos que compreendiam do pré-silábico ao alfabético ortográfico em uma mesma turma.
Com isso, está descrito o cenário no qual atuamos. Os sujeitos envolvidos em nossa pesquisa compreendiam desde níveis mais iniciais da compreensão do sistema de escrita alfabético a estágios avançados. Além disso, acreditávamos que a composição do corpus nos ajudaria a compreender nosso problema de pesquisa, pois os participantes estavam expostos a diferentes metodologias, em diferentes instituições e em diversas localizações geográficas. A escolha desse corpus se deu, também, para melhor responder a nossas perguntas: como seriam os resultados de alunos que não estivessem submetidos a metodologias que priorizam o trabalho com a reflexão fonológica? Os resultados demonstrariam, ainda assim, a relação da consciência fonológica com a apropriação do sistema de escrita e a aquisição da leitura?