Em Fortaleza, há apenas duas escolas públicas bilíngues (que ensinam em Libras e português) oferecidas pelo governo, uma municipal, a Escola Municipal de Educação Bilíngue Francisco Sunderland Bastos Mota; e uma estadual, o Instituto Cearense de Educação de Surdos, que faz parte desta pesquisa. De fato, uma conquista, mesmo que tardia, fundamental para o desenvolvimento e propagação da Língua Brasileira de Sinais. Acontece que não há uma preparação ou conscientização com relação à presença de alunos surdos em outras instituições de ensino – sejam elas públicas ou particulares – e em órgãos públicos e privados, apesar de ser uma exigência estabelecida por lei, como veremos mais à frente.
O papel do intérprete é de fundamental importância dentro do processo de inclusão, pois ele é visto como um profissional paciente. A sua atuação, em alguns casos, tem a real pretensão de transmitir ao surdo, no nosso caso aos alunos, todas as informações dos acontecimentos em sala de aula. Há, de fato, no discurso dos professores do Ices uma preocupação com a verdadeira inclusão desses estudantes com a sociedade em geral. Existe uma demanda que deve ser foco para encontrar uma resolução através das Universidades – cabe aqui as pesquisas de programas de graduação e pós-graduação, entre outras atividades e aparelhamentos desses órgãos – e de medidas políticas.
Como já foi explicitado, os alunos, diante das situações vivenciadas nos filmes que foram transmitidos durante a oficina, relataram que uma das grandes dificuldades estava relacionada às pessoas que não sabem agir diante de um surdo: se devem tratar da mesma forma que os outros e se isso não é uma forma de discriminação, já que não lidam e evitam esse tipo de situação, até mesmo por não saberem como fazer. Durante minha permanência no Ices, escutei ouvintes afirmarem que tem aluno surdo que demonstra não se esforçar para compreender o que se passa, isso por não estar feliz naquele local ou por pensar que o ouvinte não se esforça para se fazer entender. Eu, como pesquisadora participante, tenho dificuldade em compreender o que acontece com o surdo, pela falta de informação.
Percebe-se aqui a necessidade de um contato maior entre intérpretes e professores, para que ambos possam trocar informações e talvez, pensar em estratégias conjuntas que poderiam favorecer o aprendizado do aluno Surdo. Desde que o aluno Surdo não conta com a presença do intérprete fora de sala de aula alguns professores relatam problemas de comunicação com os alunos Surdos fora de sala de aula para orientar trabalhos e atividades. Talvez devêssemos contar com o intérprete para esses momentos também, apesar dos intérpretes perceberem que os professores não
procuram os alunos. A partir desses dados, tentamos orientar os alunos no sentido deles procurarem os professores, pois consideramos que um movimento desse tipo por parte dos alunos Surdos poderia começar a modificar o quadro geral da inclusão dos Surdos na Universidade. Os professores se mostram desorientados quanto à efetividade da didática utilizada em sala de aula para a aprendizagem do aluno Surdo, bem como em relação aos critérios de avaliação. O uso de filmes não legendados isola o aluno e o professor, a princípio, não percebe a inadequação do material, por não ter sido alertado quanto a esse fato. Isso leva, na palavra dos professores, a uma situação de extremo desconforto e percepção de inadequação que é muito constrangedora para ele (MOURA & HARRISON, 2010, p. 341 e 342).
É perceptível o que Moura & Harrison (2010) contam com o que aconteceu durante a oficina de cinema – a mesma que foi realizada no dia quatro de maio de 2016. Vídeos em que o áudio era em português, ou não havia legenda e, quando tinha, algumas não estavam da maneira adequada, prejudicou o trabalho do tradutor e a compreensão do aluno. De fato, foi um evento isolado, pois aconteceu durante uma atividade extracurricular, no entanto, mostra o quanto alguns recursos não são apropriados à inclusão da comunicação. Eu, como pesquisadora, assim como o intérprete presente, percebemos as situações inadequadas e isso poderia ser evitado por meio de um trabalho de conscientização.
Durante a participação dos estudantes, estava nítida a dificuldade de alguns deles interagirem comigo. Essa situação pode ser comparada ao rendimento acadêmico e isso por questões pouco discutidas, relacionadas à escrita dos surdos, a conviver para conhecer de perto a população surda e suas características, seja na forma escrita ou de pensar sobre algo. Sobre esses obstáculos impostos pelo ouvintismo, Moura & Harrison (2010) afirmam:
(…) a realidade é que a leitura e a escrita dessa população, muitas vezes, não seguem as regras do português. Isso gera enormes controvérsias, sendo que parte da liderança Surda pede que a sua forma de escrita, conhecida como “português Surdo” seja reconhecida e aceita. Por conta disso, soa “politicamente incorreto” não aceitar a forma que eles têm de se expressar por escrito em português. O que acontece de forma prática é que os professores não sabem o que fazer com esse português que não segue as regras estabelecidas (MOURA & HARRISON, 2010, p. 343).
É fundamental, ter uma boa convivência com o intérprete, que, por vezes, parece querer resolver os problemas vividos pelos alunos surdos. No meu caso, foi de suma importância, pois ele foi o elo entre eu e a comunidade Surda. Há situações em que o contato se resume àquele momento de tradução de línguas, mas, logo após a aula, termina. Esses encontros, promovidos no Ices, tiveram também o objetivo de evidenciar atividades a serem desenvolvidas extra-classe. Seria proveitoso se houvesse mais tempo para que esse tipo de
atividade fosse mais aproveitada. Demonstrar interesse em aprender a Libras pode modificar as relações entre surdo e ouvinte, além de enriquecer a si mesmo.
Podemos sugerir aqui uma orientação sobre como lidar com o aluno surdo. Há pedagogos que recomendam a elaboração de material que propicie a compreensão em relação ao surdo incluído, assim como existe a demanda de explicações aprofundadas sobre o papel do intérprete, a relação deste com o surdo e ouvinte. Pude observar, no Instituto Cearense de Educação de Surdos, que, para alguns profissionais da Escola, tratar o surdo de forma diferenciada, pode atrapalhar o processo educacional. Seria importante a organização de questões de abordassem assuntos específicos da comunidade Surda. Entram aqui o trabalho das organizações políticas e as conquistas já sancionadas no papel.