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II. BÖLÜM: AYETLERĠN TEFSĠRĠ VE KARġILAġTIRILMASI

2.3. AYETTE VERĠLEN ÖZELLĠKLERĠN KARġILAġTIRILMASI

Classificada pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ na categoria “Livro Brinquedo” e ganhadora do selo de obra “Altamente Recomendável” em 2008, A verdadeira história de Chapeuzinho Vermelho é mais que uma obra literária divertida e colorida: é uma caixinha de surpresas que contagia o leitor desde a primeira página. Cartinhas que saem do livro, trocadas entre a Chapeuzinho e o lobo, ilustrações que se movimentam, detalhes em tecido e um rostinho enfurecido que muda de cor são alguns dos detalhes que o leitor encontrará. Dessa forma, a obra rompe com a perspectiva em dois planos características do suporte livro.

A narrativa se inicia com uma cartinha escrita pelo lobo para a Chapeuzinho Vermelho com um pedido de ajuda. O animal deseja se tornar mais gentil e mudar a opinião que as pessoas têm a seu respeito. A exploração desse gênero textual integra a trama da história de forma bastante interessante: o leitor pode abrir o envelope afixado na página da direita (página de destaque do olhar), retirar e manusear a carta, o que também pode ser entendido como uma estratégia a mais de aproximação entre o leitor e a ficção, como se ele, de fato, “entrasse” na história e passasse a integrá-la. Essa carta dirigida à Chapeuzinho pelo lobo, pode ser vista em detalhe na figura 69.

Importante também é notar a forma como os nomes dos autores aparecem na cena: pendurados na parede dentro de um quadro atrás do lobo, a leitura dessa informação, que vai além da narrativa, acontece de forma natural e espontânea, da mesma forma que o título da história, também suspenso na parede (figura 68).

Balões de diálogo, típicos das histórias em quadrinhos, são utilizados na cena que mostra a conversa entre a menina e o lobo (figura 70). Além dos balões, o próprio cenário é repartido através da utilização de duas cores de fundo – verde e amarelo, cortado em diagonal.

A morada da garota é sinalizada por uma placa indicativa afixada na porta com os dizeres: “Casa da Chapeuzinho Vermelho”. Essa porta pode ser aberta pelo leitor, que encontrará Chapeuzinho saltando do cenário e esticando o braço para receber a visita do lobo (figuras 70 e 71). Como na cena as imagens sobressaem ao texto escrito, optou-se por posicionar a narrativa escrita atrás da portinha que é aberta pelo leitor, de forma a harmoniza imagens e palavras, sem concorrência e sobrecarga de informações visuais (ver figura 71).

De acordo com o enredo, para Chapeuzinho, o primeiro passo para se tornar um “lobo bonzinho” era fazê-lo tomar um bom banho. A sugestão de Chapeuzinho é registrada em balão, ao lado do pensamento do lobo, que é apresentado em uma espécie de “nuvem”, estratégia recorrente nas histórias em quadrinhos (figura 72/lateral esquerda). Partes do lobo e da banheira são cobertas por um tecido transparente e, ao redor do lobo, bolhas e respingos furta-cor cintilantes completam o cenário do banho de espuma. Na página da direita, Chapeuzinho explora o gênero textual “livro de receitas”, indicado para carnívoros recuperados (figura 72). A exemplo da porta (figuras. 70 e 71), o leitor pode abrir e virar a página desse “livro dentro do livro”, explorando as possibilidades que o suporte interno oferece. A figura 72 mostra esses detalhes desse recurso:

Figura 71 - Detalhe da porta aberta

O trabalho com tecidos continua na página seguinte, desta vez utilizado como avental do lobo, uma chita estampada pode ser manuseada e suspensa. Chapeuzinho supervisiona o trabalho do lobo por uma janela emoldurada na parede, de onde também partem os textos verbais que complementam a cena (figura 73/ lateral esquerda). Na página ao lado, o lobo dirige um ônibus escolar – devidamente identificado por um letreiro – cujo farol traz a instrução “Puxe” (indicado pela seta vermelha na figura 73). Ao ser puxado, o farol desloca o ônibus para a direita da página e movimenta a Chapeuzinho e os porquinhos que estão em seu interior (figura 74).

Figura 73 - Atividades do lobo. Figura 72 - Banho e cardápio do lobo.

Figura 74 - Detalhe do movimento do ônibus.

Rompimento do enquadramento padrão da página.

Falas expostas no corpo do texto dialogam com as “nuvens” de pensamentos do lobo, criando um jogo bem sucedido de utilização dos espaços e recursos gráficos. Podemos notar também que a mudança de ambientes é sempre acompanhada da mudança da cor de fundo do cenário, o que auxilia e aguça a percepção do leitor (figura 75). Além disso, a utilização de papel laminado vermelho nas bolinhas do bolo (figura 75/lateral esquerda), muda a textura padrão das páginas, ajudando a despertar o interesse e a atenção do leitor para a imagem proposta na cena.

Uma nova proposta de utilização de gêneros textuais acontece na sequência narrativa apresentada pela figura 76. À esquerda, o lobo aparece dando uma entrevista para a TV, cujo comentário da jornalista, específico do gênero, é trabalhado em balão posicionado abaixo da imagem da televisão: Aqui é Cristina Andersen para o Jornal Florestal. Estou aqui com o Lobo, o famoso mocinho que finalmente topou dar uma entrevista para seus fãs. A cena da direita é composta pelo Jornal da Floresta em suporte impresso, em que também é possível ao leitor o manuseio e passagens das páginas que apresentam diversos gêneros textuais característicos do discurso jornalístico, tais como: manchete, fotografias, anúncios publicitários e enquetes.

Figura 75 - Lobo com a mãe e com a avó de Chapeuzinho.

Na página seguinte, à esquerda (figura 77), a estrutura das histórias em quadrinhos é novamente explorada. No entanto, a cena mais inusitada aparece ao lado, em que, a partir de uma peça giratória de papel (detalhe em vermelho), a raiva de Chapeuzinho é externada por meio de um efeito de mudança gradativa de cores em sua face. Ainda nessa cena, um bilhete é escrito por Chapeuzinho e destinado ao lobo. Ele é guardado em um envelope que também pode ser retirado e manuseado pelo leitor (figura 77/lateral direita e figura79).

Detalhes da mudança de humor da personagem provocada pelo efeito de multicoloração da palheta giratória:

Figura 78 - Detalhes do efeito de mudança gradativa de cores. Figura 77 - Chapeuzinho enfurecida com o lobo.

Palheta giratória

Detalhe do bilhete enviado por Chapeuzinho para o lobo em efeito zoom.

O mesmo recurso de animação utilizado para provocar a mudança de cores na face de Chapeuzinho é utilizado na página subsequente (figura 79). Em formato de faixas de aclamação ao lobo, os dizeres são modificados na medida em que a palheta giratória é manuseada.

Figura 80 - Faixas de saudação ao lobo. Figura 79 - Bilhete de Chapeuzinho para o lobo.

À direita dessa mesma página (figura 81), o lobo ocupa espaço central e ampliado, além de realizar dois efeitos de movimentação consecutiva. Seguindo as instruções “sanduíche misterioso – Abra”, o leitor encontrará, dentro da ilustração do sanduiche, a imagem e a escrita de UMA SALSICHA!!! Ao mesmo tempo, acionados pelo “puxar” do pão, os olhos do lobo são mudados em espirais amarelos e azuis, evocando o descontrole por que passa o animal (carnívoro, até então, recuperado) no momento em que percebe a salsicha à sua frente.

Ao virar a página do sanduiche misterioso, o leitor encontrará o lobo saltando de trás de uma árvore à espreita de Chapeuzinho (figura 82/lateral esquerda). Antes de encerrar a história, Baruzzi e Natalini deixam um convite para que o leitor possa revisitar a história em outras versões. Na cena, uma moldura é alocada ao lado da menina e escrituras no chão, escapando aos seus passos, carregam os seguintes dizeres: Chapeuzinho Vermelho ficou muito contente de voltar a ser a pessoa mais boazinha da Floresta. Para provar, ela foi levar uma cesta de guloseimas para a vovozinha. Quanto ao que aconteceu depois... Bem, você conhece a história oficial.

A imagem, assim como o texto verbal, carregam consigo representações de uma infância marcada histórica, social e culturalmente. De acordo com Belmiro (2000, p. 13), as imagens possuem diferentes usos na vida social “como recorrência ao cotidiano, onde os objetos são reconhecidos imediatamente pelo engendramento de uma sociabilidade integradora que ressignifica o mundo (...). (...) a sociabilidade é engendrada pelas imagens produzidas no e pelo cotidiano social”.

Por instaurarem laços de sentido e representação é que se torna possível perceber imagens que revelem uma mesma personagem de maneiras diversas. A Chapeuzinho criada no século XIX por Gustave Doré é bastante diferente, por exemplo, da Chapeuzinho Amarelo de Ziraldo, produzida no final do século XX, não apenas pela utilização de cores, mas, especialmente pelos traços que acompanham o texto verbal na narrativa. A figura do lobo não é mais aquela ameaçadora, reproduzida em escala maior que a Chapeuzinho, observando a menina de cima para baixo, deixando nítida a relação de dominação e poder estabelecida pelo animal em relação à protagonista. O cenário sombrio e tenebroso da floresta, ocupado com exclusividade por Chapeuzinho e o Lobo, cede espaço para ambientes iluminados que dividem a cena com novas personagens, como os trosmons, de Chico Buarque.

Imagens e textos verbais exprimem nos livros para crianças, retratos, representações que cada sociedade tem da infância em um período histórico determinado. Experimentar um semblante doce de Lobo Mau, em A verdadeira história de Chapeuzinho Vermelho, é uma estratégia bastante diferente da utilizada por Julião Machado na

Chapeuzinho Vermelho dos Contos da Carochinha, que deixava clara sua representação de antagonista, de vilão da história.

Segundo Belmiro (2000), refletir sobre os significados das imagens permite a compreensão de padrões de visualidade que são organizados e conformados em dado contexto social e histórico. Nas palavras da autora:

Os sistemas de referência que os grupos criam e nos quais se reconhecem são constituídos também por imagens que instauram laços de comunhão entre os homens. (...). Da mesma forma, enfatiza sua natureza simbólica que possibilita construir esse conjunto de significados do todo social, e é constituída por ele, vale dizer, é uma imagem que se torna significativa por sua ancoragem nos conteúdos resultantes da criação imagética e, não, na realidade mesma. (BELMIRO, 2000, p. 14).

Dessa forma, percebemos que as representações imagéticas de Chapeuzinho Vermelho e do Lobo são traduções dos modos de olhar que cada sociedade cria, em determinado período histórico, sofrendo alterações de acordo com novas técnicas “de apropriação do visível” (BELMIRO, 2000, p. 16), e, especialmente, em função das formas diferenciadas de perceber e representar a criança de tempos em tempos.

Benzer Belgeler