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Avusturya

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4 ORGANİK TARIMIN TARİHÇESİ VE GELİŞİMİ

4.4 Organik Tarıma Verilen Destekler

4.4.1 Avusturya

Se as genealogias nos servem para explorar muitos dos significados do parentesco entre os Xipaya e Kuruaya de Altamira, dando acesso ao emaranhado de nomes e conexões

entre as famílias moradoras da cidade, e assim permitindo explorar como os interlocutores compreendem e expressam suas relações entre si, essas, por outro lado, só mantém um valor decisivo porque estão lastreadas a práticas de parentesco, capazes de fazer e reiterar os laços necessários à consistência das relações entre parentes. Assim, as genealogias, e os respectivos valores nativos aos quais elas correspondem, falam de princípios de coesão e pertencimento que também precisam ser elaborados e consubstanciados, completando a memória afetiva que conecta os sujeitos atuais com os antepassados, ao reforçar as ligações hodiernas.

Os afetos, correspondentes à constituição das preferências culinárias entre os interlocutores da pesquisa, preservam um espaço onde as famílias Xipaya e Kuruaya da cidade podem desfrutar da comida que gostam. Essa comida é antes de tudo uma ligação com os antepassados, traz as lembranças das avós e principalmente das mães que conseguiram transmitir suas receitas e técnicas culinárias como o principal legado da tradição Xipaya e Kuruaya que foi obrigada a adaptar-se às adversidades conforme caminhava ao encontro da civilização não indígena, perdendo outros costumes:

“Quando nós morávamos lá no alto, a gente sempre vinha passear aqui, meu padrasto era branco né. Daí ele vinha aqui, deixava a gente em Altamira, e ia pra Belém de barco. Aí nós ficamos aqui, na casa da minha madrinha, Miloca o nome dela. A mamãe ia pra lá né (para o Muquiço, onde os índios moravam) eu queria ir, mas minha madrinha não deixava, dizia: ‘Não vai não! Você vai querer falar só na língua dos índios, e eu não quero que você fale!’ (risos). Meu padrasto também não queria que eu falasse não, mas eu falava! Aí eu não ia, outras vezes eu fugia e ia. Eu gostava porque lá fazia mingau com peixe, também tinha macaco assado, porcão, a cabeça da anta, pra gente comer assada, eu gostava de ir... gostava não, gosto! Eu não como hoje porque não tem mesmo. Daí naquele tempo era bom, na casa da tia Akarirá, da tia Payá, tinha o Pombo, com o pessoal dele... O Tobias, o Taripü... Todo mundo falava na língua (...). Era dessa maneira aí... Aí foi indo, foi indo... quando eu vim pra cá mesmo (Altamira), já não era mais menina, já era mãe de dois filhos. Foi em 1954, eu acho que foi. Bem antes da Transamazônica. Ficamos numa casa de um homem que tinha por nome Chico Milhão. Meu marido foi trabalhar na Ilha da Fazenda. Eu estava gestante da menina, daí, quando foi pra eu ganhar, ele mandou eu vim embora pra cá, pra Altamira”.

O trecho do relato de Xipainha, sobre suas lembranças de Altamira quando ainda era menina e nem morava na cidade, é expressivo de como a “mistura com os brancos” implicava a dificuldade em manter o idioma nativo, conforme foi discutido anteriormente, mas traz também a memória de como nesses encontros com os antigos Xipaya e Kuruaya da cidade a comensalidade era um momento fundamental de confraternização que se mantém vivo nas preferências alimentares da interlocutora. Diferente da língua, da qual se tem hoje um grande desafio de preservação e revitalização, os hábitos alimentares persistem na forma dessas asserções sobre o desejo da comida boa. O lugar dos “cabocos” na cidade é antes de tudo um espaço de reunião, sugerindo a ideia de um local cerimonial, em que a conversa e a comensalidade desfrutavam de valor ritual provavelmente rememorado das antigas aldeias perdidas do alto. Xipainha ressalta o prazer de, mesmo ainda sendo criança, frequentar esses encontros com sua mãe, onde podia comer a comida de sua preferência, localizando nesse passado recente a forma encontrada pelos Xipaya e Kuruaya de reiterar na cidade, os laços criados pelo encontro entre os povos ainda nos rios Iriri e Curuá, e seus afluentes. Essa localização pretérita, assim como vista em outros discursos sobre as tradições e os bons hábitos, também alerta sobre as perdas inevitáveis, mas diverge desse quadro de exclusiva lamentação para a exclamação que exalta a manutenção da preferência alimentar, pois, se o costume pode se perder, a vontade e o desejo são o espírito categórico que não cessa de animar o gosto pela comida boa. Compreender os sentidos da perda expressada é fundamental como forma experimentar a culinária nos termos propostos pelos interlocutores, como podemos observar no relato de Tereza Xipaya:

“Das outras comidas eu não alembro mais não... Quando eu fiquei grande, que comecei a me entender, nunca falaram nesse negócio não (comida tradicional). Lá era muito índio, mas tinha muito branco né. Aquilo você sabe, o branco vai conversando aqui e ali e a gente vai perdendo até o jeito da gente falar. Isso que nós perdemos muita coisas assim... Tem muita mulher índia que sabe, mas nós... tinha muita gente branco, e naquilo ali esquece (...) Mamãe cansou de falar: ‘aprende a fazer essas coisas’; ‘Ah mãe deixa isso pra lá, depois eu vou’ (risos) Nunca mais... é por isso aí que eu não sei né. A perdição foi minha mesmo”.

Os lamentos mais uma vez falam das perdas oriundas do contato com os não indígenas e são expressivos de como a adaptação foi um processo turbulento e que impingiu aos Xipaya e Kuruaya uma série de mudanças, acima de tudo rompendo com a transmissão de modos de

fazer (costumes e hábitos repassados), como as receitas da mãe, que Tereza queixa-se de não ter aprendido. Esses esquecimentos da interlocutora - de como a comida era feita e novamente lembrando a perda do idioma - denotam a intensidade afetiva dessas privações, em que as perdas materiais traduzem o quadro emotivo da desolação que aflige os filhos e netos que não se importavam com as tradições dos pais e avós. Embora esse quadro corresponda, em determinado grau, com perdas objetivas, como a língua em desuso que hoje se torna moribunda de falantes fluentes, os hábitos alimentares revelam sua distinção, pois fazem parte de uma memória reconstituível e que por isso é viva:

“Mamãe fazia tudo: fazia beiju, fazia massa de bolo... Alembro demais, vixi! Ela gostava de fazer um peixe, uma carne de anta, ou então veado, ou então mutum, tudo isso ela fazia e era gostoso. Botava leite de castanha também, aquilo era gostoso. Tinha o ralinho de ralar castanha, aí pegava, quebrava a castanha e ia ralar. Aí aquilo tirava, coava o leite da castanha na peneira. Papai fazia a peneira, sabia fazer a peneirinha, desse tamanhinho assim, pra coar o leite da castanha (...). Na cidade ela fazia o peixe, às vezes ela assava que tinha o forno, botava pra assar. Quando não... Era carne, ela botava pra assar, que o índio gosta mais de seco que de panela, de caldo né. Então tudo ela fazia na cidade, tinha um fogãozinho”.

As recordações das comidas preparadas pela mãe de Tereza são mais um índice de como a mistura é pensada entre os Xipaya e Kuruaya de Altamira. Se a mistura trouxe o problema dos esquecimentos, por outro lado ela não pôde destituir as pessoas da memória visual, olfativa e gustativa que informam o paladar Xipaya e Kuruaya. Nesse sentido, as alusões não se dispõem apenas como lembranças, são também reminiscências, valores obstinados pelas cozinheiras das casas de Altamira. Se cada receita vai falar do encontro com os não indígenas, que também implicaram novos ingredientes como os temperos inseridos no cardápio diário, a diversidade prevalente é aquela da cozinha indígena. A despeito dessa incorporação, é saliente como persistem as iguarias servidas pelas matriarcas, do simples beiju até os requintados caldo de cari ou jabuti no leite de castanha, apreciados principalmente aos finais de semana nos lares da cidade. Perseguindo essas produções no universo gastronômico da cidade encontramos os maridos seringueiros absorvendo boa parte das sugestões de suas mulheres cozinheiras, que sabiamente faziam as pequenas concessões, construindo sutilmente os desejos de filhos e netos:

“Naquele tempo o pessoal não plantava o arroz. Era muito difícil a gente ver o arroz, mas aí

era mais a farinha, comia todo tempo na farinha. Demorou muito pra acostumar a comer com arroz (...). Agora que eu acostumei com o velho, que ele gosta mais de caldinho, larguei mais de comer esse negócio de assado, é muito difícil eu comer (...). Agora eu como com o arroz: boto o arroz, depois boto a farinha, boto um pouquinho de caldo, mas não muito, pra molhar o arroz, pronto”.

Os maridos vão aos poucos adquirindo também as habilidades como caçadores nessa nova configuração da família Xipaya e Kuruaya, embora muitas idosas descrevam as caçadas que empreendiam quando eram jovens. A vida nos seringais era também a vida na mata, como muitas vezes rememoram as interlocutoras, e ainda que a maloca antiga seja apenas uma referência dos mais velhos que já foram, os núcleos nos seringais são lembrados como aldeias, pela quantidade de indígenas que viviam com os recém-migrantes. Por isso a caça persistiu durante muito tempo como base da alimentação e hoje é motivo para reunião da família e celebração entre os interlocutores da pesquisa. Algumas delas se tornaram mais raras no contexto citadino, como a anta, o macaco, o veado; e outras são tão disseminadas que já se torna difícil inclusive perseguir sua indiscutível origem indígena na cidade, como o jabuti, o tracajá, o porcão, entre outras. Todas as matriarcas cozinheiras ainda se referem às receitas de caça propondo que as preferências se mantém atentas à lembrança cerimonial do gosto pela cabeça e pelo cérebro, como destaca Raimunda Kuruaya:

“Nós comíamos também muito macaco com leite de castanha. Come toda a carne, mas a

cabeça que é mais gostosa, o miolinho dele! O macaco você pega, limpa e corta ele todinho. Tem que tirar o couro, nós tiramos o couro primeiro, na faca. Pendura ele e depois puxa o couro dele que ele sai todo. Aí você corta ele todinho e você vai escaldar ele, bem escaldadinho; com limão, vai temperar ele, e deixa ele refogar bem; põe na água e deixa ele cozinhar. Quando ele está bem querendo amolecer, você deixa secar um pouco da água, aí você coloca o leite de castanha e vai mexendo pro leite não coalhar. Aí até quando ele cozinhar, aquela calda fica bem grossa. Faz um pirãozinho escaldado de farinha... aí ó! (risos) (...). Quebra a cabecinha dele, o miolo é bem gostoso! Tira os olhos dela, os dentes, a língua, deixa bem limpinho... Nós fazemos assim né, mas os outros índios não, eles comem até com o couro. Eles dizem que não tiram o couro, os Kayapó, porque dizem que onde está a gordura do macaco é no couro dele, aí faz só rapar. A mãozinha dele é gordinha... (risos).

Sempre os Kuruaya tinham, tipo assim, mais cuidado com as comidas deles, eram mais civilizado né. Desde quando eles moravam junto, a farinha deles era bem feita, tudo deles era organizado, faziam roupa... tudo era organizado.”

A influência não indígena na culinária não é negada pelos interlocutores mesmo que a relação desigual pareça se inverter nesse caso. Portanto se hoje o arroz com feijão está amplamente integrado ao dia-a-dia das famílias indígenas da cidade essa absorção está mais alinhada com a capacidade desses grupos de se relacionarem com os “cristãos”, como sendo povos que sempre mantiveram seus próprios costumes “civilizados” como ressalta Raimunda, do que ao sentido da resignação como uma leitura apressada dos lamentos pode levar a entender. Os novos ingredientes apenas aprimoram as receitas, mais servindo à boa comida do que a transformando, como reitera Ana Kurica:

“No tempo a gente assava bem aí, no quintal, fazia um moquém, bota um tijolo e põe pra

assar. Tira o coro põe sal assa e come. Agora na mata não, na mata é outra coisa né Xipaia? (...) Aqui na cidade é difícil a gente fazer, porque não tem o que tinha no mato né? A gente come carne de gado, a galinha, o peixe... Quando os índios podiam trazer carne de caça a gente tinha como fazer nosso tipo de comida. Agora não traz mais nada que o IBAMA proibiu tudo! Quando chega um pedacinho de porcão, os brancos caem em cima, quando eu sei, já era. Bem aqui nessa rua tinha um homem que quando trazia era muito, trazia uma caixa de isopor cheinha de queixada, mas não chegava... Quando eu sabia, mais ela aqui, né Xipaya? Já tinham comprado tudo, nem sobrava (...). Porco de casa? Deus que me livre! Não dá pra fazer não! Se tivesse porcão aqui, a gente podia assar uma parte, o resto a gente cozinhava no leite da castanha, como era de costume. Aí ficava gostoso né? Com todo tempero do branco já, é bem gostoso. Muita pimenta do reino, alho... Aqui no meio do branco tudo é temperado, lá na aldeia não, só era sal”.

A comida boa pode ser preparada na cidade mas outras dificuldades são impostas pelas novas adversidades como as proibições da caça e sua comercialização. Contudo esse mercado ainda é bastante difundido na cidade, mantido tanto pelos indígenas aldeados como pelos habitantes da área rural que trazem as carnes para venda. Nesse cenário as estratégias se renovam sendo preciso ceder o espaço da comida diária aos produtos de fora, como carne de

gado e frango, e industrializadas como macarrão, embutidos, entro outros, mas também se destaca a posição do peixe nesses cardápios, por sua facilidade de comercialização na cidade. Mesmo assim o costume de consumo de caça é mantido, exprimindo a forte simbologia da comensalidade para os indígenas da cidade, que por outro lado exige a elaboração de determinados alimentos que preenchem vínculos de afinidades e pertencimentos:

“Eu sempre... assim, quando eu morava ali né, eu encomendava e as pessoas traziam, mas agora não, está mais difícil por causa da proibição sabe? (...) Aqui é assim: eu comprei um pedaço de porco do mato, foi oito reais o quilo. Chega lá na vizinha detrás e eu compro. Agora o jabuti eles querem vinte, vinte cinco. A paca é cinquenta reais, daquela pequena, da maior é cem reais (...). Porque o branco é assim, ‘hoje é sábado vamos almoçar numa churrascaria’. E a gente se for comer uma comida cozida, assada, uma paca, é a mesma coisa que dissesse que o cara foi pra churrascaria. Você está comendo aquilo que você tinha, dos seus antepassados. É muito mais gostoso do que comer numa churrascaria!”.

As “reconstituições” observadas nos relatos também dão grande destaque às receitas que usam os pescados, valor que, por sua vez, está intimamente ligado ao modos de ocupação que os Xipaya e Kuruaya mantiveram desde quando vieram do alto e foram morar nas beiras do rio Xingu e igarapés da cidade. Essa combinação entre a memória afetiva dos parentes que já foram, a manutenção das preferências alimentares, e a opção pela moradia nas áreas próximas ao rio, constituem num complexo que cria sentidos bastante próprios das experiências indígenas em Altamira. Toda essa mistura acompanha as trajetórias que envolvem deslocamentos físicos e simbólicos, ao tratarem também de transformações dos modos de organização das famílias. Esse, é claro, refere-se a incorporação dos entes não indígenas, que por sua vez serão transformados, basta lembrar que a maioria dos migrantes de origem nordestina casados com mulheres indígenas também teve que se adaptar a um ambiente e modo de vida bastante diferente do experimentado em seus locais de origem, seja no tempo da borracha ou durante a implantação da rodovia Transamazônica. Muitos deles então se tornaram pescadores, seja para completar o sustento da família, ou mesmo como atividade comercial principal, embora seja comum ouvir a preferência desses migrantes pela atividade agropecuária. Isso posto, as mulheres indígenas estenderam sua importância desde o preparo até mesmo a coleta do peixe, como exemplifica Miriã Xipaya, irmã de Tereza Xipaya, sobre o aprendizado com o pai, Aricafu Kuruaya:

“Eu cansei de acompanhar ele na canoinha né, com o arco e eu atrás. Ele fazia um cigarrinho de folha, aí jogava debaixo do pé da planta. Aí o peixe vinha pra pegar a folha e ele ‘tan’, flechava. Ele flechava mais é o tucunaré, o trairão, o pacu branco, o pacu que come sarão... que são duas qualidades de pacu. Fora o de seringa, o de seringa é do fundo, só pega ele com anzol, com uma chumbada muito grande, só aí que ele agarra. Porque ele come muita seringa, no tempo da seringa, é ele que está de baixo, pegando as frutas. Pra lá (Cachoeira do Jericoá, na Volta Grande do Xingu) eu pesco muito”.

Os saberes Xipaya e Kuruaya que envolvem os costumes culinários ainda mantêm determinados tabus alimentares que são localmente interpretados pelo sistema de “reima”. A expressão caracteriza os alimentos que podem ser prejudiciais à saúde sob determinadas condições de quem os ingere. Trata-se se de um sistema de classificação dos alimentos que denota a profunda intersecção entre as influências indígenas e migrantes nessa região, como o uso da categoria “reimoso” pelos interlocutores aventada:

“Mulher parida não pode comer curimatá, surubim, peixe de couro, o que for peixe de couro mulher não pode comer. Agora o pacu, a pescada, o tucunaré, esses peixes a mulher pode comer, quando está de resguardo. Quando a mulher está naqueles dias, com sangue, ela não pode comer... Nesses dias ela não pode fazer nada, nem lavar roupa não pode, não pode nem suspender uma roupa um peso qualquer. Ela fica sentada, ou vai se deitar. Passa o dia só dentro de casa mesmo, sem fazer nada. Faz de conta que está de resguardo (...). Reimoso de caça é caititu, paca, tatu, jabuti, a anta... só o que pode a mulher comer é o veado de chifre liso, de chifre encourado não come. O que não é reimoso é o jabuti branco, agora jabuti vermelho, vixi Maria, Deus me livre! Uma vez eu estava de resguardo, estava com bem era uns quatro dias. Esse velho (marido) matou um jabuti pra eles comerem né. E esse jabuti estava cheirando, eu disse: ‘O meu Deus, não posso comer um jabuti desse’. Fui e trisquei, um pedacinho, desse tamanhinho, foi nada. Mas passei mal, quase morri, andei perto! Ele perguntando o que era, não quis dizer pra ele né. Até quando foi e eu disse, ‘comi um pedacinho de jabuti...’ ‘Mas mulher o que é isso? Isso é venenoso!’ Aí fui obrigada a tomar purgante pra fazer aquele arrasto todinho. Hoje não, hoje em dia está diferente né? A mulher bebe, faz bagunça, quando vê, está doente! Não sabe de que, mas foi extravagância que fez”.

O sistema de classificação baseado na reima expresso por Tereza Xipaya é, contudo, bastante variável conforme seu enunciador, sendo que parece ser uma combinação não apenas das influências não indígenas e indígenas, mas expõem as contribuições particulares de cada grupo, que nos casos alentados referem-se a composição Kuruaya e Xipaya, característica de Altamira. Sobre essas sutis distinções, também se enquadram no horizonte dos conhecimentos e práticas resguardados por cada família indígena da cidade, compondo também o cenário das manifestações simbólicas que refletem a organização indígena urbana. Significa dizer que cada diferença veiculada pelos interlocutores, que apresentam tais sistemas de técnicas e conhecimentos, se inscrevem também, tal como é com as versões sobre as histórias, nas novas cisões e dissidências que marcam as diferenças atuais entre os Xipaya e Kuruaya:

“Peixe de couro o Kuruaya não gosta muito não, pirarara, surubim, Kuruaya não gosta não. Nós gostamos de escama, nós temos cisma com esses outros. Piranha come, mas não é tanto assim, porque é reimoso. O peixe que é bom de assar, na palha da banana é pescada, curimatá, ariduia, a matrinchã (...). Não come capivara também, de jeito nenhum, tem cisma. Usa reimoso para falar só no português né, Kuruaya não fala assim (...)”.

Essas ligeiras diferenças nos modos de conceber os tabus alimentares também se estendem às distinções que serão encontradas nas receitas apresentadas pelos interlocutores da pesquisa. Um caso emblemático é o mingau de banana comprida verde com peixe. Dividida entre os Kuruaya, que preferem o pacu branco, e os Xipaya que dizem que o melhor peixe para o prato é o trairão, essa receita parece transbordar os limites do circuito das famílias

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