Começou-se por recorrer à análise da consistência interna do QCE nas duas amostras e amostra total, sendo possível encontrar na Tabela 8, discriminados os valores de alfa para cada dimensão do QCE.
Verificamos, desta forma, que estes são mais elevados na amostra clínica em detrimento da normativa, sendo que no total se encontram próximos da unidade para todas as dimensões, o que traduz uma óptima consistência interna no geral.
As escalas Expressão Emocional e Perceção Emocional são aquelas que registam valores mais elevados nas duas amostras (α = .96 e α = 0.93, na clínica e α = .82 e α = .89 na normativa, respetivamente), sendo que a dimensão Capacidade para Lidar com a Emoção é aquela que apresenta uma consistência interna mais baixa, ainda que aceitável na amostra normativa (α = .67), à semelhança dos valores de referência (α
= .64 e α = .67 em Faria & Lima Santos, 2011), mas uma boa consistência interna na amostra clínica (α = .910).
Tabela 8
Valores de alfa do QCE para a amostra clínica e amostra normativa. Amostra Clínica (n=55) Amostra Normativa (n=55) Amostra Total (n=110) Subescalas Nº de
itens n alfa n alfa n alfa
PE 15 50 .93 54 .89 104 .92
EE 14 54 .96 52 .82 106 .94
CL 16 51 .91 54 .67 105 .89
Total da
Escala 45 49 .97 51 .91 100 .97
Apesar das dimensões das amostras, tentamos recorrer à análise fatorial confirmatória para verificar se o constructo teórico se adaptava às amostras recolhidas.
O valor de KMO (medida de adequação da amostra de Kaiser-Meyer-Olkin) obtido para a amostra clínica apresentou-se razoável (0.62) o que permitiu a realização da análise fatorial, ao contrário do obtido para a segunda amostra que se provou inaceitável (0.41).
Pela análise da Tabela 9, é possível conferir que se extraem três fatores que explicam 61.4% da variância total dos resultados e que os valores de comunalidade na sua maioria são bons, e apenas se apresentam baixos (< 0.40) para dois itens da dimensão Capacidade para Lidar com a Emoção (13 e 45) e um item da dimensão Perceção Emocional (24) e elevados (> 70) para um item da Capacidade para Lidar
com a Emoção (25), para três itens da Perceção Emocional (42, 21 e 30) e para oito itens da dimensão Expressão Emocional (11, 20, 32, 41, 38, 2, 17 e 14).
Quanto à estrutura fatorial (cf. Tabela 9), o Fator 1 reúne 22 itens - 12 da dimensão Expressão Emocional, 6 da dimensão Capacidade para Lidar com a Emoção, 4 da dimensão Perceção Emocional –, o Fator 2 reúne 14 itens – 7 da dimensão Perceção Emocional, 6 da dimensão Capacidade para Lidar com a Emoção e 1 da dimensão Expressão Emocional – e o Fator 3 reúne 9 itens – 4 da dimensão Capacidade para Lidar com a Emoção, 4 da dimensão Perceção Emocional e 1 da dimensão Expressão Emocional –, verificando-se que sobretudo os dois últimos fatores apresentam muitas misturas.
Deste modo, as participantes da amostra clínica parecem associar mais os aspetos ligados à expressão e à capacidade para lidar com as suas próprias emoções, pois atribuem-lhe maior importância, destacando-os no primeiro fator. Por outro lado, associam, num segundo fator, os aspetos relacionados com a perceção das emoções dos outros e a capacidade de lidar com as próprias emoções, evidenciando uma diferenciação entre estas competências e as do primeiro fator. O Fator 3, reúne também aqueles itens que apontam para uma expressão e capacidade de lidar com os próprios sentimentos num sentido mais “positivo” e “racional”, associando-os com a perceção das emoções no “outro”.
Tabela 9
Análise fatorial em componentes principais após rotação varimax para a amostra clínica.
Item Subescala 1 2 3 h2
14 - Exprimo bem as minhas emoções EE .88 .87
17 - Consigo exprimir a forma como me sinto EE .81 .79 02 - Consigo exprimir os meus sentimentos e emoções em
palavras EE .76 .78
08 - Consigo facilmente arranjar maneira de me aproximar das
pessoas de quem gosto EE .75 .67
35 - Considero fácil manifestar carinho a pessoas do sexo oposto EE .74 .58 20 - Consigo descrever o meu estado emocional atual EE .74 .76
43 - Tento manter o bom humor CL .73 .70
05 - Quando alguma coisa me desagrada, demonstro-o logo EE .72 .57 11 - Consigo facilmente descrever as emoções que estou a sentir EE .70 .74 26 - O meu comportamento reflete os meus sentimentos mais
profundos EE .67 .54
38 - Consigo nomear e descrever a maioria dos meus sentimentos EE .67 .78 40 - Cumpro os meus deveres e obrigações com prontidão, em
vez de estar a pensar neles CL .64 .56
44 - Sei como surpreender de forma agradável cada um dos meus
amigos PE .64 .66
15 - Consigo facilmente fazer feliz um amigo no dia do seu
aniversário PE .64 .53
41 - Consigo reconhecer a maioria dos meus sentimentos EE .63 .77 10 - Quando alguem me elogia trabalho com maior entusiasmo CL .62 .66 34 - Procuro moderar as emoções desagradáveis e reforçar as
positivas CL .60 .66
12 - Consigo facilmente notar as mudanças de humor nos meus
amigos PE .59 .63
07 - As experiências desagradáveis ensinam-me o que não devo
fazer CL .55 .50
23 - Posso afirmar que conheço bem o meu estado emocional EE .53 .59
39 - Percebo quando alguém está em baixo PE .52 .63
13 - Quando não gosto de uma pessoa, arranjo maneira de lho
mostrar CL .45 .21
27 - Consigo detetar a inveja disfarçada nos outros PE .77 .65 30 - Percebo quando alguém tenta esconder o seu mau humor PE .70 .75 16 - Quando estou de bom humor, é difícil ficar mal-disposto(a) CL .70 .65 03 - Quando encontro alguém conhecido, apercebo-me logo da
sua disposição PE .68 .65
06 - Quando vejo como alguém se sente, geralmente sei o que lhe
aconteceu PE .67 .49
36 - Percebo quando alguém tenta esconder os seus verdadeiros
sentimentos PE .67 .61
01 - Consigo manter-me de bom humor, mesmo que alguma
coisa má aconteça CL .65 .47
42 - Percebo quando o comportamento de alguém varia em
função do seu humor PE .57 .70
29 - As pessoas são sempre capazes de descrever o meu estado
de humor EE .56 .60
33 - Percebo quando alguém se sente culpado PE .56 .51 37 - Não há nada de mal com o modo como habitualmente me
sinto CL .50 .44
45 - No que me diz respeito, é normal sentir o que sinto agora CL .42 .32 32 - Normalmente sei as razões porque me sinto mal EE .78 .76 21 - Consigo perceber quando alguém se sente desanimado PE .75 .74 19 - Quando estou de bom humor, todos os problemas parecem
ter solução CL .70 .63
25 - Quando estou feliz e bem humorado(a), estudo e trabalho
melhor CL .68 .72
22 - Quando estou com alguém que me admira, tenho cuidado
com a forma como me comporto CL .61 .43
18 - Ao observar uma pessoa junto de outras, sou capaz de
descrever bem as suas emoções PE .60 .57
31 - Consigo facilmente persuadir um amigo de que não há
razões para se preocupar CL .53 .63
09 - Consigo perceber a diferença, se os meus amigos estão
tristes ou dececionados PE .49 .54
24 - Consigo descrever os sentimentos de uma pessoa a partir da
expressão da sua cara PE .42 .34
Valores próprios 22.00 3.44 2.16
% Total de variância explicada após rotação varimax 26.79 17.35 17.22 61.35
Para a análise das correlações entre as escalas utilizou-se o Coeficiente de Correlação de Pearson para a amostra clínica, e o de Spearman para a amostra normativa (devido à não normalidade das distribuições das dimensões Capacidade para Lidar com a Emoção, Expressão Emocional e Total da Escala: cf. Tabela 14).
Constatámos, através da análise à Tabela 10 e 11, que todas as dimensões do QCE estão correlacionadas, positiva e significativamente entre si nas duas amostras estudadas.
No entanto, e à semelhança do que encontramos previamente quanto aos valores de alfa (cf. Tabela 7), as correlações encontradas na amostra clínica são mais elevadas do que as da normativa, sendo que na primeira os valores de correlação estão mais próximos entre si (mínimo = .81, máximo = .98), e na segunda a dimensão Capacidade para Lidar com a Emoção demonstra valores mais baixos de correlação com as duas outras dimensões e escala total (Perceção Emocional = .49, Expressão Emocional = .38
e Total da Escala = .67), aproximando-se dos resultados de referência (cf. Lima Santos & Faria, 2005).
Tabela 10
Correlações entre escalas do QCE para a amostra clínica.
Amostra Clínica
Perceção Emocional Emocional Expressão Competência Emocional (Total da Escala) Capacidade para
Lidar com a Emoção .92** .88** .98**
Perceção Emocional .81** .94*
Expressão Emocional .95**
* p < .05 ** p < .001
Tabela 11
Correlações entre escalas do QCE para a amostra normativa.
Amostra Normativa Perceção
Emocional Emocional Expressão Competência Emocional (Total da Escala) Capacidade para
Lidar com a Emoção .49** .38* .67**
Perceção Emocional .76** .93**
Expressão Emocional .84**
* p < .01 ** p < .001
Os resultados apresentados na Tabela 12, evidenciam que os valores mínimo e máximo se encontram afastados nas duas amostras, sobretudo na clínica.
Verifica-se ainda, que os desvios padrão se apresentam menos acentuados na amostra normativa nas três subescalas de Capacidade para Lidar com a Emoção, Perceção Emocional e Expressão Emocional (6.16, 8.67 e 7.05, respetivamente) e na
Relativamente às médias, estas apresentam valores inferiores na amostra clínica em todas as dimensões e na escala total (Capacidade para Lidar com a Emoção = 63.8, Perceção Emocional = 59.5, Expressão Emocional = 56.6 e Total da Escala = 178.9) comparados com os valores das médias da população normativa (73.9, 66, 66.4 e 206.2, respetivamente); o que evidencia que as vítimas de violência apresentam pontuações mais baixas do que as não-vítimas, sobretudo ao nível da Expressão Emocional.
Quanto aos valores de assimetria e curtose, constata-se que se encontram entre - 1 e 1 em todas as escalas e no total da escala, mas na amostra normativa a escala Perceção Emocional e o total da escala evidenciam valores de curtose não característicos de uma distribuição aproximadamente normal (2.84 e 1.40).
Tabela 12
Medidas de tendência central, de dispersão e de distribuição para as duas amostras.
n M DP Min. Máx. Assimetria Curtose
A m ost ra Cl íni ca (n= 55) CL 51 63.8 13.95 35 92 -.11 -.98 PE 50 59.5 12.82 35 86 -.04 -.93 EE 54 56.6 16.35 20 82 -.30 -.92 Total da Escala 49 178.9 40.71 90 257 -.21 -.95 A m ost ra N orm at iva (n= 55 ) CL 54 73.9 6.16 59 86 -.55 -.26 PE 54 66 8.67 34 80 -1.28 2.84 EE 52 66.4 7.05 49 80 -.55 .12 Total da Escala 51 206.2 18.81 147 231 -1.17 1.40
Foi-nos ainda possível verificar que as categorias de resposta mais frequentes na amostra clínica foram: “algumas vezes” (24,1%), “frequentemente” (23.4%) e “poucas vezes” (19.2%), evidenciando um bom poder discriminativo, sendo que nenhuma
categoria apontou valores iguais ou superiores a 35%, ao contrário do que se observou na amostra normativa em que as categorias mais respondidas foram “frequentemente” (40.7%), “algumas vezes” (31%) e “sempre” (17.2%) (cf. Tabela 13).
Tabela 13
Frequência e percentagem das categorias de resposta do QCE
Amostra Clínica Amostra Normativa
n % n % Nunca 65 2.6 34 1.4 Raramente 326 13.2 78 3.2 Poucas vezes 476 19.2 159 6.4 Algumas vezes 596 24.1 767 31.0 Frequentemente 579 23.4 1007 40.7 Sempre 423 17.1 425 17.2 Omissões 10.0 .40 5.0 .20 Total 2475 100 2475 100
Através dos testes de normalidade Shapiro-Wilk e Kolmogorov-Smirnov (cf. Tabela 14), verificamos, quanto à amostra clínica, que os valores das escalas e o seu somatório seguem uma distribuição aproximadamente normal (mínimo=.086, máximo=.200), e constatamos que a amostra normativa não partilha da mesma característica nas dimensões Capacidade para Lidar com a Emoção, Expressão Emocional e Total da Escala (mínimo= .00, máximo = .029), o que nos leva a optar pelo teste não paramétrico de Mann-Whitney para a análise diferencial das médias destas dimensões e o teste t para a dimensão Perceção Emocional.
Tabela 14
Testes de normalidade para as duas amostras.
n Shapiro-Wilk Kolmogorov-Smirnov A m ost ra Cl íni ca CL 51 .086 PE 50 .200 EE 54 .200 Total da Escala 49 .194 A m ost ra N orm at iva CL 54 .000*** PE 54 .050 EE 52 .005** Total da Escala 51 .029* *p < .05 ** p < .01 *** p < .001
Deste modo, pela análise da Tabela 15, verifica-se que existem diferenças significativas na dimensão Perceção Emocional (p < .01), sendo que a amostra clínica conta com uma média inferior (59.52) quando comparada com a normativa (65.96).
Da mesma forma, segundo os resultados apresentados na Tabela 16, constata-se que os totais das dimensões Capacidade para Lidar com a Emoção, Expressão Emocional e o Total da Escala registam valores significativos (p < .05), o que permite afirmar que existe heterogeneidade quanto aos resultados obtidos pelas participantes das duas amostras.
Assim, é-nos possível verificar que quanto à Capacidade de Lidar com a Emoção, a amostra clínica apresenta um valor de ordem média (41.35) inferior ao do obtido na amostra normativa (64).
Relativamente à Expressão Emocional verifica-se um valor de ordem média obtido pelas participantes da amostra normativa (62.48) superior ao da amostra clínica (44.85).
Em relação à Competência Emocional geral, a amostra clínica obteve um valor de ordem média de 40.39 e a amostra normativa de 60.22, evidenciando que as vítimas de violência conjugal apresentam menos competências emocionais do que as participantes da amostra que serve de comparação.
Tabela 15
Teste t para diferenças na perceção emocional em função do tipo de amostra Amostra Clínica Amostra Normativa
n Média n Média t p
PE 50 59.52 54 65.96 -2.97 .004*
*p <.01
Tabela 16
Teste de Mann-Whitney para diferenças na capacidade para lidar com a emoção, expressão emocional e total da escala em função do tipo de amostra
Amostra Clínica Amostra Normativa
n Ordem Média n Ordem Média U p
CL 51 41.35 54 64 783 .000**
EE 54 44.85 52 62.48 937 .003*
Total da Escala 49 40.39 51 60.22 754 .001*