A Nova Lei de Drogas deu prosseguimento às políticas de integração dos três Poderes e a população em todos os âmbitos. Baseando-se nos pilares prevenção ao uso,
atenção e reinserção de dependentes, e repressão ao tráfico, o legislador buscou somar esforços para um combate mais efetivo e que focasse nas causas do problema.
Em apresentação à novatio legis, o presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, declara que:
A Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006, institui o Sisnad (Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas), órgão encarregado de articular, integrar, organizar e coordenar as atividades relacionadas com a prevenção do uso indevido, a atenção e a reinserção social de usuários e dependentes de drogas e, também, com a repressão da produção não autorizada e do tráfico ilícito de drogas.
Essa norma é, seguramente, o início efetivo de uma nova agenda para a redução da demanda de drogas no Brasil, pois inclui perspectiva inovadora, ao reconhecer a imprescindibilidade da prevenção do uso de drogas, por meio da educação e do tratamento dos usuários e dependentes, além de representar um refinamento no que concerne à repressão, com aumento de penas e tipificação de novos crimes.
Com essa lei, o Congresso Nacional dá clara e inconteste demonstração de responsabilidade para com as demandas e as necessidades do Povo brasileiro; e a Câmara dos Deputados, ao publicar a presente edição, pretende contribuir de forma ainda mais efetiva para que não cessem o debate e a busca de soluções para o grave problema de consumo de drogas no país. (BRASIL, 2006, online).
Para que a legislação fosse aplicada e os programas possuíssem certa uniformização e controle, o art. 1o da Lei 11.343/06 instituiu o Sistema Nacional de Políticas Públicas Antidrogas (SISNAD). A finalidade do órgão é articular, integrar, organizar e coordenar as atividades que mantiverem relação com a prevenção do uso indevido de drogas, a atenção e a reinserção social de usuários e dependentes de drogas, e a repressão da produção não autorizada e do tráfico ilícito de drogas, conforme disposto no art. 3o da Lei.
Através do Decreto n. 7.426 de janeiro de 2011, foram transferidos a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, o Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD) e a gestão do Fundo Nacional Antidrogas (FUNAD) do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República para o Ministério da Justiça.
2.3.1 Princípios e objetivos
Os princípios basilares do SISNAD relacionam-se, principalmente, ao respeito à dignidade da pessoa humana. Assim, logo no primeiro inciso do no art. 4o, determina-se o respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana, especialmente quanto à sua autonomia e à sua liberdade. Os incisos seguintes prezam pela autonomia e pela discricionariedade das
políticas de cada ente federativo, mantendo-se de acordo com a máxima de que cada nicho social necessitará de medidas diferentes, adequadas à sua cultura e outras particularidades. Ao mesmo tempo que estabelece certa independência entre os entes, o mesmo art. 4o preconiza a colaboração entre eles e a integração, principalmente no que diz respeito ao planejamento e à responsabilização. Estabelece-se mesmo a articulação com o Ministério Público e os Poderes Legislativo e Judiciário. Por fim, os últimos incisos dão conta de que os trabalhos idealizados e coordenados pelo SISNAD atenderão à ligação entre as diversas formas de se combater as drogas: tanto a prevenção, quanto a atenção e a reinserção social de usuários e dependentes de drogas e de repressão à sua produção não autorizada e ao seu tráfico ilícito, visando a garantir a estabilidade e o bem-estar social.
Evidente está o intuito do SISNAD de reunir Estados, Distrito Federal e Municípios para que sejam discutidas e implementadas ações de enfrentamento às drogas, tanto o uso quanto o tráfico delas. Não há que se olvidar também da clareza dos dispositivos quanto à autonomia que se dá aos entes federativos para que concretizem as medidas que julgarem necessárias, obedecendo à Carta Magna e aos princípios humanitários internacionais, como os direitos humanos e a dignidade da pessoa humana.
O SISNAD procura estabelecer normas gerais quanto à temática das drogas, tratando-as como um problema que deve ser combatido por todas as esferas federativas, mas resguardando a ações regionais que tenham como escopo atender às demandas específicas das localidades a que se referem.
Importante ponto que o dispositivo levanta é a da integração entre os órgãos do Judiciário, do Legislativo e do Ministério Público se articularem junto ao Poder Executivo na execução dos planos a serem implementados. Os órgãos governamentais podem despender recursos e incentivar projetos de controle à disseminação das substâncias entorpecentes, entretanto, tais medidas serão infrutíferas se não houver o apoio do Legislativo, na construção de leis que sejam adequadas às necessidades sociais, temporais e espaciais, e do Judiciário, efetivando os direitos e penalidades que o Estado se obriga a fazer cumprir.
Os objetivos do Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas são designados nos incisos do art. 5o, no qual se lê:
Art. 5º. O Sisnad tem os seguintes objetivos:
I - contribuir para a inclusão social do cidadão, visando a torná-lo menos vulnerável a assumir comportamentos de risco para o uso indevido de drogas, seu tráfico ilícito e outros comportamentos correlacionados;
II - promover a construção e a socialização do conhecimento sobre drogas no país; III - promover a integração entre as políticas de prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas e de repressão à sua
produção não autorizada e ao tráfico ilícito e as políticas públicas setoriais dos órgãos do Poder Executivo da União, Distrito Federal, Estados e Municípios; IV - assegurar as condições para a coordenação, a integração e a articulação das atividades de que trata o art. 3º desta Lei.
Os incisos III e IV se restringem a sintetizar o que já foi dito a respeito dos princípios: a função de integrar e coordenar os entes federativos sem destituí-los de autonomia e descentralização no tratamento da questão das drogas. Os incisos I e II, no entanto, demonstram uma mudança de postura do legislador que encontra seu fundamento na própria alteração de como a sociedade encara os dependentes químicos e de como se deve atuar mais na prevenção do que na repressão. Essa mudança orienta o legislador em todas as inovações que se processam na nova Lei frente aos ordenamentos anteriores.
2.3.2 Composição
O Decreto n. 5.912 de 27 de setembro de 2006, regulamentou a Lei 11.343 de 2006, dispondo a respeito da composição do SISNAD e das atribuições pertinentes a cada órgão ou entidade.
O SISNAD é composto pelo Conselho Nacional Antidrogas (CONAD), pela Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD), por um conjunto de órgãos e entidades públicos e pelas organizações, instituições ou entidades da sociedade civil que atuam nas áreas da atenção à saúde e da assistência social e atendam usuários ou dependentes de drogas e respectivos familiares, mediante ajustes específicos. O CONAD atua como órgão normativo e de deliberação coletiva, vinculado ao Ministério da Justiça. O SISNAD deverá observar as orientações e normas emanadas do CONAD. Já a SENAD é uma secretaria-executiva do colegiado do SISNAD.
No Decreto n. 5.912/2006, contam as atribuições específicas de cada órgão e entidade que compõe o SISNAD. Dessa forma, Ministério da Saúde, Ministério da Justiça, Ministério da Educação e Organizações Não Governamentais (ONGs) têm suas funções designadas em rol exemplificativo que visa a repartir competências de modo a otimizar as ações. Nada impede, no entanto, que diferentes entidades colaborem com as demais em âmbitos que inicialmente não eram os elencados do decreto.
2.3.3 Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas
Órgão superior do Sistema Nacional de Políticas Públicas Antidrogas, o CONAD está vinculado ao Ministério da Justiça. Sua função é normativa e de deliberação coletiva, estabelecendo orientações a serem observadas pelo SISNAD. O CONAD desempenha os papéis político-estratégicos de assessorar o Presidente da República no provimento das orientações globais relativas à redução da demanda e da oferta de drogas no País e promover a articulação, a integração e a organização da ação do Estado (BRASIL, 2006, online).
As atribuições do CONAD foram instituídas pelo art. 4o do Decreto n. 5.912 de 2006. Como já foi dito, o CONAD orienta normativamente o SISNAD, mas, além disso, ainda acompanha e atualiza a política nacional sobre drogas, avalia a gestão dos recursos do FUNAD, promove a integração ao SISNAD dos órgãos e entidades congêneres dos Estados, dos Municípios e do Distrito Federal.
O CONAD tem em sua composição o Ministro de Estado da Justiça, o Secretário Nacional de Políticas sobre Drogas e representantes da área técnica da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, da Secretaria Especial dos Diretos Humanos da Presidência da República, do Ministério da Educação, do Ministério da Defesa, do Ministério das Relações Exteriores, do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, do Ministério da Saúde, do Ministério da Fazenda, do Ministério da Justiça, dos Conselhos Estaduais de Entorpecentes, de organizações, instituições ou entidades nacionais da sociedade civil, além de um jurista indicado pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, um médico indicado pelo Conselho Federal de Medicina, um psicólogo indicado pelo Conselho Federal de Psicologia, um assistente social indicado pelo Conselho Federal de Serviço Social, um enfermeiro indicado pelo Conselho Federal de Enfermagem, um educador indicado pelo Conselho Federal de Educação, um cientista indicado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, um estudante indicado pela União Nacional dos Estudantes, e, por fim, profissionais ou especialistas, de manifesta sensibilidade na questão das drogas, indicados pelo Presidente do CONAD. O Ministro da Justiça é quem preside o Conselho, sendo substituído pelo Secretário Nacional de Políticas sobre Drogas em caso de ausência ou impedimentos.
As deliberações do CONAD serão cumpridas pelos órgãos e pelas entidades integrantes do SISNAD, sob acompanhamento da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e do Departamento de Polícia Federal, em suas respectivas áreas de competência.
Além do Conselho Nacional, existem os Conselhos Estaduais e Municipais de Políticas sobre Drogas. Esses órgãos atuam no assessoramento dos governos estadual e local, respectivamente, na promoção de articulação, integração e organização do Estado para o desenvolvimento de programas de redução da demanda, dos danos e da oferta de drogas. Além disso, são eles responsáveis pelo desenvolvimento das ações referentes à redução da demanda e dos danos, assim como movimentos comunitários organizados e representações das instituições federais e estaduais existentes no município e dispostas a cooperar com o esforço municipal.