• Sonuç bulunamadı

Arabağlantı Fiyatlandırması

É em Além do princípio do prazer (1920) que a teoria das pulsões chega a um novo patamar: anuncia-se o segundo dualismo pulsional que se sobrepõe ao então problemático primeiro dualismo, e a um só tempo o desvencilha do impasse e o infirma, lançando-o para segundo plano. No primeiro dualismo pulsional se estabelecia primeiramente a dicotomia entre pulsões sexuais (pulsões objetais) e pulsão do Eu (ou pulsões de auto-conservação), quando então sofrera profundas alterações em 1914 e se assemelharia, em última análise, a um monismo pulsional. A nova teoria dualista das pulsões, por sua vez, se baseia basicamente na oposição entre pulsões de vida (LebenTriebe) e pulsão de morte (Todestrieb). Na categoria de pulsões de vida comporta a antiga teoria pulsional (em sua versão reformada a partir de 1914) e atende pelo nome de Eros.

Entrementes, por Eros entendemos a classe pulsional das pulsões de vida, que abarca o sexual – onde estão também inclusas as pulsões do Eu, as narcísicas –, por conseguinte, compreende toda energia libidinal e psíquica que tende a conjuntividade112 ou que, no psiquismo, está ligada a representações

109 Nesta ocasião cabe ainda lançarmos a questão, existe possibilidade de qualquer satisfação que não

seja parcial? Tudo nos leva a crer que não. Satisfazer-se plenamente equivale a consumir-se em prazer e redundaria em aniquilamento, em morte. Mais a frente abordarei a questão do limite para o prazer.

110 GARCIA-ROZA, 1995, p. 133. 111 Ibidem, p. 138.

112

Termo cunhado por Luiz Alfredo Garcia-Roza em O mal radical em Freud, também utilizado ao longo de seus três volumes da Introdução à metapsicologia.

ideativas (significantes) e deste modo funcionando sob o domínio do principio do prazer; Eros é a força que constitui o psiquismo, denomina a tendência geral à conjuntividade, e possibilita a formação do sujeito que vem a se organizar eroticamente em duas vias de existência: sexual (em vários níveis) e sublimatória. É de crucial importância que doravante tenhamos em mente que a meta de Eros é sempre, e reiteradamente, a produção de unidades cada vez maiores, ligá-las, e assim mantê-las, conservá-las, lhe é a característica essencial. “Dessa maneira, a libido de nossos instintos sexuais coincidiria com o Eros dos poetas e dos filósofos, o qual mantém unidas todas as coisas vivas”.113 A pulsão de vida tem de operar em direção à união daquilo que fora

desarticulado. A sublimação, por meio das propriedades de Eros, promove a ligação psíquica, e através de um construto simbólico, abre caminhos para a alteridade e maiores possibilidades de fruição.

Em lado diametralmente oposto a Eros temos a pulsão de morte (denominação concernente à sua finalidade, mas também conhecida por

pulsão de destruição, denominação mais concernente à ação, e por Tânatos,

denominação emblemática e menos técnica), cujo objetivo é desmanchar as ligações, conexões, e destruir os objetos – desarticular a pulsão da representação ideativa –, sendo a meta dessa pulsão de destruição conduzir a vida ao estado inanimado, inorgânico114. Visa, portanto, a segregação de tudo o

que é vivo. É, para o psiquismo, o potencial de desentrincação e desligamento, e é tanto anterior quanto se projeta para além do principio do prazer. Logo, neste contexto da nova teoria pulsional a sexualidade é, em linhas gerais, o que se opõe à morte.

Num texto escrito dois anos depois (e publicado no seguinte), Dois

verbetes de enciclopédia, seção (B) A teoria da libido, diz Freud:

Os instintos eróticos e os instintos de morte estariam presentes nos seres vivos em misturas ou fusões regulares, mas ‘desfusões‘ também estariam sujeitas a ocorrer. A vida consistiria nas manifestações do conflito ou na interação entre as duas classes de instintos; a morte significaria para o indivíduo a vitória dos instintos

113

FREUD, 1920, p. 61.

114

O ser vivo surgira como um acidente ao estado primeiro das coisas, o inanimado, sendo oriundo dele. A pulsão de morte, atávica, coincide então com a fórmula de que uma pulsão empreende um esforço para voltar a um estado anterior.

destrutivos, mas a reprodução representaria para ele a vitória de Eros. (FREUD, 1923, p. 274)

É, de todo modo, uma atitude prudente termos sempre em mente que na maior parte das situações da vida, encontramos quase sempre, a coexistência mútua, embora em porções e combinações variáveis, de pulsões de vida e pulsão de morte, como se na vida, efetivamente, não fosse possível qualquer pureza substancial.

A novidade delineada pela nova oposição pulsional, entre pulsões de vida e pulsão de morte, é que tanto a erotização quanto a sublimação se inscreveriam no registro da primeira, contrapondo-se ao registro da segunda. Erotizar e sublimar visariam dominar e intrincar a pulsão de morte nas pulsões de vida, ou seja, tornar a vida possível para o sujeito pela superação do trabalho silencioso da pulsão de morte. Com efeito, enquanto a pulsão de morte tem como meta anular as excitações no psiquismo em busca de uma inércia da natureza inorgânica, as pulsões de vida visam à manutenção da excitação pela ligação aos objetos da força da pulsão. (BIRMAN, 2008, p. 23)

Desde 1908, com o ensaio da Moral sexual ‘civilizada’, o processo de

sublimação implicava na manutenção de um mesmo objeto de investimento, conquanto a meta sofresse alteração. A partir dos postulados de 1920, além de aduzir que do processo sublimatório não decorria a dessexualização da pulsão (assim desde 1914), Freud pôde logo mais assegurar fazer parte desse processo a constituição deum novo objeto para aonde se destina o investimento pulsional.

Mais uma vez, no verbete a teoria da libido, encontramos uma passagem que resume muito bem o desfecho da teoria das pulsões: “[...] torna- se provável que devamos reconhecer a existência de duas classes de instintos, correspondentes aos processos contrários de construção e dissolução no organismo”.115