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Como se sabe, as descobertas clínicas de Freud tem sua origem no tratamento psicoterápico de pacientes neuróticos histéricos. As concepções de tratamento e de método então utilizadas por Freud partiam das pesquisas clínicas de Charcot, sobre as paralisias histéricas traumáticas, e de Breuer, sobre o método catártico111. De acordo com o primeiro, a etiologia dos sintomas nas histerias traumáticas poderia ser encontrada a partir da constatação de que se consegue o mesmo resultado, um sintoma histérico, através de um acontecimento traumático real ou da sugestão sob hipnose. O raciocínio seria que “se o trauma num deles pode ser substituído, no outro, por uma sugestão verbal, é plausível supor que uma idéia [Vorstellung] dessa natureza seja responsável pelo desenvolvimento da paralisia também no outro caso de paralisia traumática espontânea” (Freud 1893b, p. 185). De onde se obtém a tese de que a causa dos sintomas histéricos112 deveria ser uma auto- sugestão em um estado afetivo semelhante ao estado de hipnose. Mas segundo o ponto de vista de Charcot, esse trauma ou auto-sugestão agiria apenas como elemento desencadeador de uma predisposição hereditária, não sendo, pois, determinante113.

As primeiras contribuições de Freud (e Breuer) em relação às idéias de Charcot podem ser reconstruídas da seguinte maneira. Em primeiro lugar, ele rejeitou a sobrevalorização do elemento constitucional. Sobre esse ponto, veja-se, por exemplo, o seguinte trecho onde Freud critica a posição teórica do médico francês.

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Certamente existiram outras fontes diretas de Freud, por exemplo, Bernheim e Meynert, mas que não poderão ser expostas aqui, uma vez que, como indicamos no início do presente capítulo, não se trata de uma análise histórica da origem das principais idéias freudianas, mas tão somente de uma tal análise na medida em que nos permite identificar as principais descobertas clínicas de Freud.

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Esta hipótese sobre a causa da histeria não abarca toda a teoria de Charcot sobre esta patologia. Ao lado desta, ainda havia, embora fosse rejeitada por Freud já em 1888, uma hipótese de lesão funcional e possibilidade de, no futuro, com outros métodos, encontrar-se localizações anatômicas para aquelas. Para um exame mais detalhado das influências diretas de Freud, veja-se Andersson 2000, p. 98 e ss.

Charcot formulou uma fórmula simples para esses (casos): a única causa da histeria seria a hereditariedade e, por isso, a histeria é uma forma de degeneração orgânica fazendo parte da famille névropathique, todos os outros fatores etiológicos tendo só o papel de causas ocasionais [Gelegenheitsursachen], de agents provocateurs (...), Charcot supervalorizou de tal modo a hereditariedade como fator etiológico, que não restou qualquer espaço para as neuropatias adquiridas (...) e ele não distinguiu, nem etiologicamente nem de outro modo, as doenças nervosas orgânicas das neuroses. (Freud 1893c, p. 33)

Em segundo lugar, Freud rejeitou, da mesma forma, a hipótese de uma possível localização anatômica de uma lesão funcional, transitória. Sobre este ponto, veja-se:

Ao contrário, eu afirmo que a lesão das paralisias histéricas deve ser totalmente independente da anatomia do sistema nervoso, já que a histeria, em suas paralisias e em outras manifestações, se comporta como se a anatomia simplesmente não existisse, ou então como se dela não tivesse qualquer conhecimento. (Freud 1893a, p. 50)

Em terceiro lugar, Freud expandiu a explicação das paralisias histéricas (como causadas pela atuação de traumas psíquicos) para todos os outros sintomas histéricos. Isso pode ser verificado quando ele diz:

Na totalidade dos casos [de histeria], trata-se da a atuação de traumas psíquicos, que determinam a natureza dos sintomas correspondentes de maneira unívoca. (Freud 1893b, p. 187)

E, finalmente, ele tomou a histeria traumática como paradigma de neurose histérica, com a tese de que todo quadro de histeria é, em última instância, uma neurose traumática114. Com relação a isso, Freud diz:

Com esses exemplos (...) estaria provado que os fenômenos da histeria comum podem ser apreendidos seguramente com o mesmo esquema empregado na histeria traumática, e que,

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Cf. Freud 1896a, p. 407.

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Posteriormente, a partir do final de 1895, Freud volta a falar da importância da constituição hereditária, nas chamadas séries complementares: quanto maior for a disposição hereditária menor precisará ser a causa precipitante, e quanto menor aquela, maior, mais grave deverá ser esta. Cf. Freud 1896a, p. 412.

portanto, toda histeria pode ser apreendida como traumática, no sentido de que implica em um trauma psíquico e de que todo fenômeno histérico é determinado pelo modo do trauma. (Freud 1893b, p. 190)

Assim, a causa determinante do sintoma histérico, de acordo com o ponto de vista inicial de Freud, era o trauma psíquico, que deve ser entendido como a experiência afetiva de medo (Schreckaffekt) e não o próprio acontecimento objetivo. Ou dito de outro modo, o que é traumático é a experiência115 (afetiva aflitiva) e não o fato real por si mesmo.

Essas contribuições foram possíveis a partir da modificação, introduzida por Breuer no método de investigação, que consistia em investigar, junto à paciente sob hipnose, as circunstâncias em que o sintoma tinha aparecido pela primeira vez (método catártico)116. Com isso, foi possível verificar que as chamadas histerias não-traumáticas eram na realidade casos de histeria em que o trauma (único ou série de impressões traumáticas) havia sido esquecido ou que mantinham apenas uma ligação simbólica com o sintoma. Simbólica porque a relação entre o afeto e sua expressão verbal ou física havia sido substituída por uma expressão distorcida, disfarçada, desse mesmo afeto117, de modo que haveria apenas uma relação associativa distante e pouco evidente entre ambos118. Para ilustrar esse ponto pode-se evocar o seguinte comentário de Freud sobre os pacientes histéricos:

Se encontro alguém num estado tal que manifesta todos os indícios [Zeichen] de um afeto doloroso – chorando, gritando, se enfurecendo – parece provável a conclusão de que está ocorrendo nele um processo mental cuja expressão apropriada são esses fenômenos corporais. Uma pessoa saudável estaria então em condição de comunicar qual impressão [Eindruck] o aflige, porém, o histérico, responderia que ele não sabe, de modo que o problema consiste em saber como é que um paciente histérico é dominado por um afeto em relação a cuja causa afirma nada saber. Se nos ativermos a nossa conclusão de que deve existir um processo psíquico correspondente, e se, ainda assim acreditarmos no paciente

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Mais à frente, no capítulo 5.1, voltaremos a ver novamente o tema da experiência em Freud, no sentido de explicitar a maneira como Freud concebe o ter uma experiência. Esse ponto será decisivo para a contraposição entre Heidegger e Freud.

116 Cf. Freud 1893b, pp. 185-6 e 191. 117 Cf. Freud 1894a, p. 63-4. 118 Cf. Freud 1893b, p. 190.

quando ele nega; e se reunirmos as múltiplas indicações de que o paciente se comporta como se de fato nada soubesse disso; e se penetramos na história da vida do paciente e descobrimos alguma ocasião, algum trauma, que pudesse evocar de maneira adequada exatamente aquelas expressões de sentimento – então tudo apontará para uma solução: o paciente se acha num estado de ânimo especial em que todas as suas impressões, ou suas lembranças das mesmas, não mais se mantêm reunidas numa cadeia associativa, um estado de ânimo em que é possível a uma lembrança expressar seu afeto através de fenômenos somático (...). Se tivéssemos evocado a conhecida diferença psicológica entre o sono e a vigília, a estranheza de nossa hipótese talvez parecesse menor. É a teoria da divisão da consciência como solução para o enigma da histeria. (Freud 1893c, pp. 30 e 31)

Desse modo, as descobertas clínicas iniciais decisivas na compreensão das neuroses histéricas foram: a relação entre um evento (traumático) passado e o sintoma presente119; a constatação de que esse evento não estava disponível para ser livremente recordado pelo paciente; que o traumático não era tanto o evento em si, o fato passível de descrição objetiva, mas o afeto (trauma psíquico) da experiência aflitiva; e que havia apenas uma relação simbólica entre o evento traumático e o sintoma. Essas descobertas eram comprovadas ainda pelo desaparecimento dos sintomas com a ab-reação. Sobre isso Freud diz:

Verificamos, a princípio para a nossa grande surpresa, que cada sintoma histérico individual desaparecia, de forma imediata e permanente, quando conseguíamos trazer à luz com clareza a lembrança do fato que o havia provocado e despertar o afeto que o acompanhara. (Freud 1895a, p. 85)

O próximo passo foi a elaboração sistemática desses dados clínicos em uma teoria da etiologia das neuroses. De acordo com a concepção de ciência aceita por Freud, apresentada anteriormente, uma teoria não se reduz a um conjunto de observações e classificações, é essencial ainda que ela seja capaz de expor as correlações entre os diversos elementos componentes até que nenhum elemento seja contingente. Para tanto, Freud teria de mostrar como esses fenômenos observáveis interagem entre si de tal modo que

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produzem, necessariamente, sintomas neuróticos; e se não fosse possível explicar os fenômenos observados com base apenas em outros fenômenos observáveis, ele estaria disposto a aceitar certos constructos teóricos (representações auxiliares). Desse modo procuraremos identificar a seguir qual a relação que Freud estabelece entre os fenômenos por ele observados, quais são esses conceitos auxiliares (heurísticos) e quais as relações entre os diversos elementos (clínicos e especulativos), isto é, como eles se encaixam na teoria freudiana das neuroses.