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O procedimento de mediação adotado pelo Programa Mediação de Conflitos se organiza com base nas etapas demonstradas pelo organograma abaixo. Depois que a primeira parte faz a escolha do tratamento de sua questão pelo procedimento de mediação é iniciado as etapas apresentadas. Salientamos, que a grande maioria da população que acessa o programa não obtém conhecimento prévio sobre o que é o método de mediação, a maioria nunca havia tido relação com propostas similares, a não ser aquelas pessoas que o procuraram pela segunda vez.

Segundo informações coletadas entre a maioria dos entrevistados que atuam como mediadores, as pessoas buscam o programa para obter auxilio de um advogado ou de um psicólogo; porque tomaram conhecimento de que naquele espaço existem alguns profissionais que ajudam pessoas da “comunidade com problemas”, normalmente, portanto, não chegam procurando por mediação. A apresentação sobre como funciona o procedimento de mediação de conflitos é realizada no momento em que a primeira parte acesso o programa, e depois, no momento que a segunda parte é convidada a participar da mediação.

Depois que a primeira parte faz a escolha pelo procedimento de mediação de conflitos e autoriza realizar o convite à segunda parte, o organograma sugere três possibilidades de encaminhamentos: (i) a segunda parte aceita participar do procedimento, e marca-se a data para o inicio da pré-mediação; (ii) a segunda parte não comparece ao Centro de Prevenção à Criminalidade depois de duas tentativas; (iii) a segunda parte não aceita participar do procedimento.

Organograma 2 – Etapas adotada pelo método de mediação de conflitos do Programa Mediação de Conflitos

Convite a 2ª parte

2ª parte aceita participar do processo Marca-se a data da Pré-mediação

Discussão do caso em equipe Pré-mediação

Abertura

Investigação

2ª parte não aceita participar do processo

Agenda

Criação de opções

Avaliação das opções

Escolha das opções Mediação Formal / Escrita

Monitoramento do caso após 2 meses a partir do último

atendimento Equipe acolhe a primeira

parte e faz as orientações e encaminhamentos

necessários

Monitoramento do caso dentro do prazo de 1 (um) mês, após o último atendimento

1ª parte aceita participar do processo de mediação

2ª parte não comparece após 2 tentativas Orientação Mediação Verbal/Periférica Desistência do procedimento de mediação Soluções Discussão do caso em equipe

Fonte: Relatórios do Programa Mediação de Conflitos. Diretoria do Núcleo de Resolução Pacífica de Conflitos – CPEC/SEDS.

Cada uma das perspectivas destacadas acima (i, ii e iii) apresentam desdobramentos distintos da intervenção do programa; em resumo, para que haja mediação de conflitos é necessária à participação tanto da primeira quanto da segunda parte, portanto, não basta que uma parte queira, é necessário que ambas se disponibilizem, pois seu caráter é voluntário. Quando a segunda parte aceita o procedimento, o programa estabelece oito etapas que contemplam o método de mediação de conflitos, compreendidas como: pré-mediação, abertura, investigação, agenda, criação de opções, avaliação de opções, escolha das opções e soluções.

Por fim, o organograma apresenta a existência de uma lógica sequencial e hierárquica destas etapas, mas ao analisar a dinâmica dos atendimentos e em conversas informais 93 com

93 Chamamos de “conversas informais”, as perguntas que eram direcionadas aos mediadores sobre o dia-a-dia

os mediadores 94, percebemos que, na verdade, esse modelo tem auxiliado-os na orientação sobre quais etapas devem ser desenvolvidas, pois na prática seu “uso” demonstra maior flexibilidade na aplicação do método do que por meio deste organograma; este último parece expressar mais a tentativa de ritualizar ou procedimentalizar uma rotina do que propriamente podemos perceber na prática dos mediadores, onde percebemos acontecer de maneira mais dinâmica e fluida.

94 Estes aspectos relacionados à dinâmica dos atendimentos e as formas encontradas pelos mediadores na

Capítulo 3. Ver e ouvir: conflitos e direitos a partir da perspectiva dos atendidos pelo Programa Mediação de Conflitos

No capítulo 2 discutimos o funcionamento do Programa Mediação de Conflitos, destacando suas principais características: (i) como são estabelecidos os critérios para implantação e os dados gerais sobre suas localizações; (ii) a organização institucional dos serviços prestados pelo programa à população, os eixos de atuação e os métodos de intervenção do procedimento da orientação sociojurídica e da mediação de conflitos. Introduzimos alguns elementos histórico-culturais para destacar os dilemas nos padrões de desigualdades (isonomia jurídica e desigualdade de tratamento) vividos pela população de baixa de renda ao acessar as instituições do sistema de justiça.

Pudemos perceber, a partir dos dados coletados, que por meio da orientação sociojurídica e pelo acesso contínuo das pessoas ao espaço institucional proporcionado pelo programa, essa experiência tem favorecido a busca da população por seus direitos. Contudo, os dados também indicam uma diminuição na busca da população pelo procedimento de mediação de conflitos. Importa lembrar, no entanto, que o Programa Mediação de Conflitos está baseado na noção de pluralismo jurídico e, conforme Sinhoretto (2006), práticas como esta, em geral, apresentam limites em sua execução. A autora menciona que o campo do pluralismo jurídico promove a concorrência de várias instâncias de resolução de conflitos, com lógicas de negociações e de interesses distintos, produzindo resultados de justiça diversos. Para ela, os indivíduos que têm mais conhecimento e recursos em relação à apropriação de poder serão os que mais usufruirão das possibilidades oferecidas pelos espaços plurais de negociação. Já o oposto, ou seja, os indivíduos que contam com conhecimentos e recursos reduzidos têm, consequentemente, chances limitadas de usufruir das possibilidades oferecidas por estes espaços conciliatórios. Ressaltamos também, como demonstrado ao longo

do texto, que em diversos estudos sobre o acesso à Justiça (Sinhoretto, 2006; Amorim, 2008; D’Aráujo, 1996; Pandolfi, Carvalho, Carneiro, Grynszpan, 1999), os autores entendem que, ainda hoje, uma considerável parcela da população está distante das instituições do sistema de justiça. E nas situações em que é estimulada alguma aproximação, como no caso dos Juizados Especiais, por exemplo, percebemos o quanto essa distância ainda permanece em seu plano material e simbólico. O desafio do acesso à Justiça não está relacionado somente à garantia dos direitos, mas, sobretudo, ao reconhecimento dos direitos.

No caso do Programa Mediação de Conflitos, portanto, os dados demonstram um tipo de busca/acesso específico da população pelos serviços prestados e também um nível razoavelmente alto de satisfação entre as pessoas (usuárias) entrevistadas – conforme veremos – tanto aquelas que resolveram seus problemas pelo mecanismo/procedimento de mediação de conflitos, quanto as que optaram ou buscaram a orientação sociojurídica. Importa destacar que, grande parte das falas demonstram que os entrevistados se percebem reconhecidos em seus direitos e que escolheriam novamente este tipo de serviço prestado pelo programa para tratamento de outros conflitos. Um aspecto contrastante do bom nível de satisfação expresso pelos entrevistados é o descrédito de uma das entrevistadas – liderança da região da Pedreira Prado Lopes – em relação ao programa. Ao ser atendida pelo programa, ela se viu mais uma vez como parte de um conflito em que a outra parte é hierarquicamente distinta (superior). Para a entrevistada, o programa funciona somente para questões “corriqueiras” e não para temas que envolvem “grandes estruturas”, em suas palavras: “que envolvem gente grande”. Ao longo desse capítulo abordaremos tais aspectos de forma mais aprofundada. Porém, iniciamos com a apresentação do perfil dos usuários em geral – gênero, cor, escolaridade, renda e classificação das demandas (tipificação dos conflitos). Em seguida, tratamos do contexto da Pedreira Prado Lopes, região escolhida para a realização das entrevistas com os atendidos pelo programa. Posteriormente, trazemos a caracterização dos usuários

entrevistados e suas respectivas percepções dos conflitos, das violências e dos direitos, abordando a visão dos mesmos sobre as formas de solução de conflitos e de busca por direitos, buscando identificar quais foram os limites e as possibilidades apresentados.

Benzer Belgeler