Vincula-se esta pesquisa à perspectiva de análise funcionalista, para tratar da investigação do discurso relatado produzido em situações reais de uso, porque se considera que os fatos linguísticos devem ser explicados em referência à função que cumprem no dinamismo do processo da interlocução.
O fundamento teórico para esse estudo é extraído da linguística sistêmico-funcional, que é a abordagem funcional particular para a linguagem e que, segundo Halliday (1985) e Halliday e Matthiessen (1999, 2004), oferece uma interpretação para tratar a experiência não como conhecimento, mas como um significado e, portanto, como algo que é construído na linguagem. Para melhor explicar esta abordagem, pode-se dizer que ela se relaciona com a construção da experiência humana como um sistema semântico e a linguagem representa o papel central não somente em estocagem e troca de experiência, mas também na sua formação, e, desse modo, toma-se a linguagem como uma base interpretativa.
Segundo Halliday e Matthiessen (1999, p. 1), essa abordagem trata a “informação” como significado mais que como conhecimento e interpreta-se a linguagem como um sistema semiótico social, mais que como um sistema da mente humana: o significado é um processo social, intersubjetivo. Assim, como a experiência é interpretada como significado, sua construção torna-se um ato de colaboração, algumas vezes de conflito e sempre de negociação.
Esta análise caracteriza-se como sistêmica, por levar em consideração que o ambiente da gramática consiste de três partes: (i) uma base de conhecimento, representando os domínios experienciais dentro dos quais a gramática é exigida a operar, juntamente com (ii) um planejamento de texto, que atribui estrutura retórica apropriada ao discurso, em termos de alguma teoria de registro ou variação funcional em linguagem, e também (iii) um terceiro componente que especifica traços do relacionamento escritor/audiência. Esses três
componentes correspondem a três metafunções da teoria sistêmica: (i) ideacional, (ii) textual e (iii) interpessoal.
Assim, segundo Halliday e Matthiessen (1999, p. 3), para a construção de uma “base de significado”, tem-se a gramática sistêmica e isto significa que ela é semanticamente motivada ou natural. Em contradição à gramática formal, que é autônoma e semanticamente arbitrária, em uma gramática sistêmica cada categoria (e categoria é usada no sentido geral de um conceito teórico de organização, não no sentido mais restrito de “classe” como na gramática formal) é fundamentada no significado: tem uma formulação semântica e também formal. A gramática e a semântica são dois estratos ou níveis de conteúdo na teoria sistêmica da linguagem e eles são relacionados em um modo natural e não arbitrário; e o terceiro nível é o de expressão, isto é, a fonologia.
A linguagem é, portanto, um recurso organizado em três estratos que são relacionados por meio de realização: a semântica ou o sistema de significado, que é realizada pela lexicogramática ou o sistema de palavras (isto é, estruturas gramaticais e itens lexicais); e a lexicogramática é realizada pela fonologia ou o sistema de som (isto é, mais propriamente, a semântica é realizada por meio da lexicogramática na fonologia).
A análise é funcional, de acordo com Halliday e Matthiessen (1999, p. 7-8), porque trata a linguagem em sua manifestação em uso e envolve as situações reais de comunicação em funções altamente generalizadas do sistema lingüístico, referidas como metafunções. A metafunção ideacional, compreendendo um componente lógico e um componente experiencial, é relacionada com construir a experiência – é a linguagem como uma teoria da experiência humana, da realidade, é a interpretação de tudo que está ao redor de nós e dentro de nós mesmos – como um recurso para refletir sobre o mundo. A metafunção interpessoal é relacionada com as relações interpessoais de agir por meio da linguagem com adoção e designação de papéis no discurso, com a negociação de atitudes etc. Trata-se da linguagem na prática da intersubjetividade, como um recurso para a interação com outros. Dessa maneira, a função interpessoal da linguagem ultrapassa as simples funções retóricas e, atuando em um contexto mais amplo, estabelece e mantém funções sociais inerentes à linguagem. Constitui-se em interacional e interpessoal, sendo um componente da linguagem que serve para organizar e expressar os mundos interno e externo do indivíduo.
A metafunção textual permite habilitar, capacitar; é relacionada com organizar o significado ideacional e interpessoal como discurso – como significado que é contextualizado e partilhado. É a criação contínua de um domínio semiótico da realidade. Por meio dela, a linguagem contextualiza as unidades lingüísticas, permitindo-as operar no contexto de cultura
e no contexto de situação (que serão explicados posteriormente, na seção 3.1). A função textual é, portanto, interna à linguagem e faz gerar o texto/discurso, porque o emissor pode produzir um texto, permitindo ao leitor reconhecê-lo. Assim, a oração7 constitui-se em uma unidade sintática e o texto, em uma unidade operacional; e a função textual não se restringe, simplesmente, ao estabelecimento de relações entre as frases, mas refere-se à organização interna da frase, ao seu significado como mensagem, tanto em consideração a si mesma como em relação ao contexto. Assim, entende-se a gramática como acessível às pressões do uso, abrangendo a competência comunicativa, considerando a capacidade com que os indivíduos não apenas codificam e decodificam expressões lingüísticas, mas são capazes de usar e interpretar as expressões lingüísticas em uma maneira interacionalmente satisfatória.
Segundo Halliday e Matthiessen (1999, p. 9), a oração integra essas três perspectivas metafuncionais. A estrutura da linguagem especifica restrições sobre as unidades que servem dentro da oração – as unidades na posição abaixo da oração sobre a escala de posição gramatical (ou hierarquia posicional). A escala de posição determina o completo potencial de constituência na gramática: as orações consistem de grupos (nominais, preposicionais etc.), os grupos consistem de palavras e as palavras consistem de morfemas. As unidades abaixo da oração na escala posicional são todas consideradas grupos (nominal, verbal, adverbial etc.) ou ainda orações que são mudadas ou trocadas de posição, isto é, rebaixadas na escala de posição para servir como se elas fossem grupos, funcionar como eles, em outra função, por exemplo, exercendo a função de complemento, como os grupos nominais. Esse rebaixamento é conhecido como rankshift, que pode ser traduzido como encaixamento, e tem o efeito de expandir os recursos da gramática, pois permite que o significado potencial de uma unidade de posição mais alta possa enriquecer, valorizar aquele de uma unidade mais baixa. Assim, tais orações rebaixadas constroem o que é denominado macrofenômeno.
Cabe ressaltar que essas noções de análise permitem a compreensão de aspectos que são relevantes para este estudo do discurso relatado de teses e dissertações acadêmicas. Assim, a noção de constituência é importante, porque é em ambiente de constituência de encaixamento em que as orações do discurso relatado – um macrofenômeno – se conectam ou se articulam.
7
A oração, na gramática, representa não apenas alguns processos – fazer ou acontecer, dizer ou sentir, ser ou ter – com os participantes que tomam parte nesses processos e circunstâncias associadas; é também uma proposição ou uma proposta (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004, p. 29). Há muitos tipos de processos, como esses, construídos semioticamente: processos – são grupos verbais; participantes são grupos nominais e circunstâncias são grupos adverbiais ou preposicionais (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 1999, p. 54-55). (Tradução nossa)