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Pode-se observar nos textos científicos das teses e dissertações acadêmicas que o discurso relatado traz marcas que dizem respeito às escolhas operadas pelos produtores desse tipo de estruturação sobre o material linguístico que possuem, com o objetivo de orientar o leitor/interlocutor na construção do sentido. Assim, temos a presença do outro – a alteridade, a polifonia, a interdiscursividade ou intertextualidade – na escrita. Para mostrar a presença do outro naquilo que escrevemos, Koch (2004, p. 146) menciona a intertextualidade explícita quando, no próprio texto, menciona-se a fonte do intertexto, como ocorre nas referências mencionadas nos textos científicos das teses e dissertações acadêmicas, isto é, nessa argumentação por recurso à autoridade polifônica. Podem-se perceber pontos de vista de autores diferentes – (daí a metáfora do “coro de vozes”, ligada, de certa forma, ao sentido primeiro que a forma tem na música, de onde se origina). Assim, Koch (1993, p. 147-149) considera a estrutura de argumentação e destaca a noção de polifonia que pode apresentar a autoridade polifônica, diretamente inscrita na língua, e o raciocínio por autoridade que constitui um tipo de demonstração como a indução. Isto quer dizer que este último constitui uma espécie de raciocínio experimental em que se parte do fato de que X disse para P e, supondo-se que X, devido à sua competência, não deve estar enganado, conclui-se quanto à verdade ou à verossimilhança de P. O fundamento desse raciocínio é, portanto, como uma implicação, isto é, a hipótese de um raciocínio por autoridade deve ser a asserção de uma asserção, tal a afirmação da frase abaixo:

(10) Pedro disse que Carlos viria. Penso, pois, que ele virá (KOCH, 1993, p. 148).

Um raciocínio como este pode ser facilmente contestado: ou se considera que as afirmações de alguém não provam nada, ou se sustenta que x pode ter-se enganado sobre tal fato. Trata-se do argumento de autoridade que utiliza os julgamentos de uma pessoa ou de um grupo de pessoas como meio de prova em favor de uma tese.

Já o argumento introduzido por autoridade polifônica não se apresenta como autoritário e não pode ser contestado, por ser introduzido ao nível do mostrar, da representação, não podendo, portanto, ser julgado em termos de verdade ou falsidade: ele é representado como sendo produzido por outro autor diferente do narrador, de modo que este, ao aceitar suas afirmações ou reconhecer-lhe legitimidade, não assume a responsabilidade direta de tê-lo dito, usando-o, inclusive, para refutá-lo.

A própria elaboração do discurso relatado institui-se em mecanismos que desempenham funções cognitivo-interativas, e, de acordo com Koch (2004, p. 104), pode-se considerar que são também estratégias formulativas – pois podem atuar na organização do discurso relatado, a fim de facilitar a compreensão do leitor/interlocutor e/ou provocar a sua adesão àquilo que está sendo afirmado, visando atingir o sucesso da interação.

Segundo as afirmações de Fiorin e Savioli (1997, p. 44-45), o discurso relatado pode ser considerado como mecanismo linguístico para mostrar diferentes vozes bem demarcadas no texto.

De acordo com Marcuschi (1995, p. 191), observando-se os dois tipos de discurso, o que analisa a expressão e o que analisa o conteúdo, pode-se dizer que esse último é equivalente ao discurso relatado e produz um efeito de sentido de objetividade analítica. Nele é revelado somente o conteúdo do discurso de outro e, com isso, se estabelece uma distância entre a posição do autor e a de outra pessoa referida – criando a via para a discussão e o comentário. Esse tipo de discurso despersonaliza o discurso direto ou citado em nome da objetividade, criando a impressão de que o autor analisa o discurso citado de maneira racional e isenta de envolvimento. O discurso relatado, nesse caso, não se interessa pela individualidade do falante revelada no modo como ele diz as coisas. Por isso é a forma preferida nos textos de natureza científica com a finalidade de criticar, rejeitar ou acolher as posições expressas pelos outros.

Contudo, Marcuschi (1999, p. 140) afirma que é fundamental considerar que, quando se escreve, escreve-se para alguém e este alguém (que é o outro, o interlocutor) está presente na mente do autor. Isto equivale ao princípio do dialogismo como um fenômeno universal em todos os usos da língua, seja na fala ou na escrita. Este aspecto diz respeito ao princípio da interlocução, presente também na escrita. Dessa maneira, a propriedade de interatividade é um aspecto inerente à própria língua, e comprova a concepção geral do dialogismo, sendo a propriedade geral de todo e qualquer uso da língua. Essa consideração justifica-se porque ninguém escreve/fala sem ter um leitor/ouvinte, o que se expressa como propriedade dialógica da linguagem. Assim, o interdiscurso sugere uma articulação acentuada entre os interactantes em uma relação do sujeito com o seu discurso e com o provável (às vezes sugerido) discurso do outro; e tem-se o texto como evidência da organização social realizada pela prática do uso da língua. Conforme Marcuschi (1999, p. 153), é comum, nos textos científicos, apresentar-se a opinião de alguém e então concordar com ela ou criticá-la; o interlocutor não está ali apenas como uma informação a mais, mas como um parceiro do debate em andamento e essas são as formas que sugerem a emergência de outro (não o autor) como o enunciador do texto.

Veja-se o exemplo de discurso relatado a seguir:

(11) Paiva (1996), citando estudos já realizados, demonstra que a variável gênero tem sido considerada relevante nos estudos de fenômenos linguísticos variáveis. (409, DM, UNESP, 2005 - 72)

Pode-se dizer que, nesse exemplo, apresenta-se o argumento introduzido por autoridade polifônica, pois não se apresenta como autoritário; não pode ser contestado, introduzido ao nível do mostrar, da representação, não pode, pois, ser julgado em termos de verdade ou falsidade. O argumento é representado como sendo produzido por outro enunciador diferente do autor, de modo que este, embora o mantenha, manifestando-lhe certo grau de aceitação e adesão ou reconhecendo-lhe certa legitimidade, não assume a responsabilidade direta pelo que foi afirmado.

Isso pode significar que o autor dispõe de estratégias para não se expor completamente, evitando julgamentos do leitor, mas pode não ser apenas essa interpretação. O autor não se ostenta no mundo discursivo criado pela linguagem, isso não quer dizer não estar presente no texto que constrói. Essas estratégias demonstram habilidades do autor visando a que o leitor se envolva e acompanhe integralmente os sentidos do texto, pois o que se deseja com a atividade linguística é produzir sentidos.

Dessa maneira, pode-se dizer que o discurso relatado realizado nas teses e dissertações acadêmicas traduz o uso da língua que se efetua em forma de enunciados, concretos em sua interrelação no sistema de linguagem, compondo esse tipo de construção no conjunto de tipos de interrelação do autor com outros participantes da ação discursiva ou ação de linguagem, em sua complexa dinâmica histórica de interação. O discurso relatado integra essa unidade de gênero textual – a tese e a dissertação acadêmicas – como elemento de multiplicidade de relações, daí a dialogização, conforme Bakhtin (2003, p. 268), em que se constitui e se molda em sua essência, gerando o enriquecimento de sua composição aparentemente monológica e a sensação dessa elaboração do leitor como possível parceiro/interlocutor. O discurso relatado significa a própria escolha de uma determinada forma gramatical pelo autor, constituindo-se em um ato estilístico, uma nova forma de criar um todo indispensável para uma elaboração do elo entre a história social e a história da linguagem.

Cabe ressaltar que essas formulações de Bakhtin (2003), em vários aspectos estão relacionadas às de Halliday e Hasan (1989), principalmente na perspectiva sócio-histórica, pois ambas apresentam os textos compreendidos como produtos da atividade de linguagem

em funcionamento nas formações sociais e também na dimensão complexa dos mecanismos enunciativos que fazem a coerência pragmática do texto, apresentando a interação na atividade discursiva. Assim, Bakhtin (2003) apresenta os textos como formações sócio- cognitivas que permitem organizar o conhecimento em mundos discursivos e possibilitam considerar os mecanismos linguísticos – por exemplo, o discurso relatado – como estratégia cognitiva para produzir a polifonia / dialogismo nas teses e dissertações acadêmicas.

Benzer Belgeler