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As soluções apresentadas pelos alunos se deram, de uma maneira geral, assumindo que as situações-problemas observadas eram de fato conflitos. Da mesma forma, foi assumido que as soluções propostas certamente resolveriam os problemas e, embora contemplassem algumas questões levantadas por alguns moradores, mostraram-se limitadas em decisões assertivas e pouco abertas a considerar o usuário como indivíduo capaz de decidir, ou pelo menos tomar parte na decisão, sobre questões relacionadas ao seu espaço.

Algumas soluções apontadas nos trabalhos, ao contrário do que se poderia pretender, poderiam gerar ainda mais conflitos espaciais, como se pode prever nos

113 casos das propostas para resolver a questão da segurança. O uso de dispositivos tecnológicos que controlam o acesso, poderia gerar um conflito social na região, pois, ao fazer isso corre-se o risco de segregar ainda mais o conjunto do seu entorno imediato e de proibir que moradores vizinhos ao conjunto utilizem um espaço que, dado o ritmo atual que o mesmo se conforma, também é deles, já que eles se apropriaram desse lugar.

Ao voltarem a atenção para a questão da segurança no IAPI e ao tentarem solucionar isoladamente esse ‘conflito’, os alunos deixaram de observar que os próprios habitantes se quer tentaram ‘resolver’ essa questão, não pelo fato de não a terem percebido, mas sim, por não encará-la como um conflito espacial. A forma como negociam e se apropriam do espaço demonstra que os usuários administram suas relações de vizinhança e produção do espaço através do que Thomas (1976) chama de tratamento de conflito por “colaboração”, buscando esforços cooperativos das partes envolvidas na questão (como visto no item 2.3)

Ao proporem o uso de câmeras de segurança para vigiar a vizinhança e controlar o acesso ao conjunto, os alunos apenas mudaram o tipo de muro que pretendiam ‘subir’ para delimitar os espaços e nisso não diferenciaram-se do modelo tradicional de produção do espaço que impõe a vontade de um grupo dominante intelectualmente (no caso os arquitetos) sobre um grupo social dominado (os usuários). Apesar da proposta de uso de um dispositivo tecnológico como a câmera de vigilância, as relações de vizinhança que permeiam esse espaço ‘devassado’ continuam sendo negligenciadas assim como seu potencial interativo.

Sobre esse aspecto, quando contrapõe a proposta social e a propaganda ideológica referente à construção do IAPI, Nery (2005) critica as práticas arquitetônicas como instrumentos de ordem social dominante e coloca:

A arquitetura, portanto, sempre foi instrumento do poder, imprimindo no espaço urbano os ideais, os valores e símbolos daqueles que detêm o domínio social. Sendo assim, ela serve como forma de imposição da vontade do poder, e como maneira de persuadir as massas dominadas de que aquela vontade, aqueles valores e aquelas condutas são o “melhor” para a sociedade como um todo, o que, raramente, corresponde à realidade. (Nery, 2005, [p.2])

114 Como visto no item 2.3, a investigação dos problemas passa por níveis de complexidade que ultrapassam os limites da percepção dos arquitetos e por isso a problematização dos conflitos talvez se mostre mais apropriada ao contexto da presente pesquisa, uma vez que busca lidar com o problema e não ‘resolvê-lo’ de forma incompleta ou ineficiente.

Nesse aspecto o aluno 4 destaca-se dos demais por voltar o foco para a comunicação, numa estratégia de projeto aberto. Como dito antes, tal aluno evidenciou uma tradição projetual diferenciada que visava problematizar o conflito, criando alternativas para que os próprios habitantes lidem com os problemas vivenciados ao invés de apenas tentar resolvê-los.

As próprias intervenções propostas pelos habitantes como estratégias de negociação de uso e apropriação das áreas coletivas do IAPI apontam a deficiência das análises dos estudantes, que poderiam ter sido mais direcionadas para atender as alternativas encontradas pelos próprios moradores e não para levantar conflitos aparentes. Assim como a personalização dos halls e o rodízio de uso das vagas de garagem demonstram uma capacidade de administração desses esquemas de usos limitados do espaço, também a própria criação de um blog especifico sobre o IAPI88 e administrado por uma moradora, aponta para a iniciativa e a necessidade de interação com o público externo e com os próprios habitantes.

Dessa forma, algumas situações problemas, ou conflitos espaciais apontados pelos alunos poderiam ter sido pensadas de outras formas que não apenas com soluções projetuais ou mesmo só com o uso de TIs. Inclusive a especificação de se trabalhar com TIs e não TICs também restringiu as opções de abordagem dos conflitos e também as propostas de soluções, pois em não se considerando o elemento da comunicação presente nas TICs, limitou-se a possibilidade de engajamento, diálogo e interação. No entanto vale lembrar que mesmo o uso de TIs ou TICs por si só não basta, pois não se trata de colocar nos espaços dispositivos tecnológicos com poderes milagrosos de interação, como mencionado no capítulo 3, mas sim de conscientizar usuários quanto à sua capacidade de gerenciar seus próprios processos de produção do espaço, inclusive de gerenciar alguns conflitos por eles mesmos vivenciados.

88 O http://iapibh.blogspot.com/ foi criado pela moradora Kátia Santos em 2011 e é administrado por ela juntamente com alguns moradores.

115 Vale considerar que parte das soluções apontadas pelos alunos foi induzida pela própria metodologia utilizada nas disciplinas, tanto por focar apenas em opções de TI, e não discutir a possibilidade das TICs para abordagem de conflitos espaciais, como por requisitar não apenas a identificação dos conflitos, mas também a sugestão de soluções para resolvê-los como se fossem problemas delimitáveis a partir de um único ponto de vista. Assim, mesmo que os alunos tivessem algum tipo de intenção em não resolver tais conflitos como se fossem problemas, acabavam por fazê-lo por ser requisito do trabalho final da disciplina. Do mesmo modo, ao deixar os alunos livres para escolher se deveriam ou não fazer entrevistas com os habitantes, não ficou claro até que ponto tal participação seria importante ou não para o exercício.

Quase todos os alunos se preocuparam em encontrar soluções ‘ideais’, à luz das tecnologias de informação, à exceção do aluno 4. Ele tentou apontar algumas saídas que poderiam ser consideradas, mas não tentou direcioná-las para uma resolução específica dos conflitos. De um modo geral ele problematizou as situações levantadas e apontou proposições para os próprios habitantes lidarem com os conflitos identificados.

Apesar de as disciplinas terem apresentado algumas possibilidades do uso da tecnologia enquanto elemento potencial para lidar com alguns conflitos arquitetônicos e encorajar os alunos a pensar estratégias contemplando TI, nas mesmas não fica claro de que forma a participação dos usuários envolvidos nesses conflitos deve ser considerada. Isso pode ser evidenciado pelo fato de não ser colocado como requisito necessário para a realização do exercício o engajamento dos usuários na definição dos conflitos.

As disciplinas se ocuparam apenas da introdução das TIs no processo de projeto convencional, sem partir para a discussão sobre a possibilidade de mudança do processo de projeto (e do processo de produção do espaço) permitindo maior engajamento e decisão dos usuários. A falha na metodologia aplicada e o fato dos alunos não terem domínio, e muitas vezes nem conhecimento, dos muitos dispositivos tecnológicos, gerou um certo grau de dificuldade para os próprios alunos.

116 Assim, ficou claro que a metodologia aplicada nas disciplinas foi pouco válida, tanto para a identificação de conflitos espaciais, já que aconteceu superficialmente em sua maioria, como para a sistematização de suas análises. Portanto o exercício propositivo, mediante utilização de tecnologias sem mudar de fato o processo de projeto convencional deve ser questionado.

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5 APONTAMENTOS ACERCA DA PRODUÇÃO DO ESPAÇO NAS