• Sonuç bulunamadı

5.3. Öneriler

5.3.3. Araştırmalara Yönelik Öneriler

Como argumentaria Raymond Williams décadas depois, ao desenvolver as linhas de ênfase do materialismo cultural, conceber a cultura em sentido romântico-idealista,

como esfera que “paira” sobre a economia e a sociedade, pode conduzir a erros políticos. O

principal deles é a própria subestimação da cultura como força material. Nesse sentido, foi a própria realidade revolucionária — na forma dos problemas concretos colocados pela construção socialista — que se encarregou de corrigir rumos e perspectivas da liderança revolucionária. A história da elaboração do conceito de revolução cultural é também a

história de uma nova percepção: a da materialidade da cultura. Ela não é mero “reflexo”;

tampouco uma dimensão secundária. É parte da produção material da sociedade. É o elemento modelador da ordem social, capaz de ditar a forma concreta, o sentido exato e a direção precisa que as forças sociais e econômicas irão assumir. A cultura é o elemento que

nos possibilita saltar dessa grande abstração chamada “modo de produção” para a

efetividade — diríamos mesmo, a palpabilidade — de uma formação histórico-social concreta.

Perceber a materialidade da cultura, seu impacto objetivo sobre as forças econômicas materiais, não implica qualquer concessão ao culturalismo. Significa, antes, avançar rumo a estágios superiores do próprio materialismo. Pois é evidente, como já dito ao longo deste trabalho, que só após a conquista do poder político e o início das

transformações econômicas o problema cultural “tende a uma solução coerente”. É o que reafirma LENIN no artigo “Sobre a nossa revolução (a propósito das notas de Sukhánov)”,

de 1923. Ali, enquanto troça do pedantismo de seu correligionário Sukhánov, o líder russo deixa claro que a revolução política e as transformações sociais são pré-requisitos indispensáveis à abordagem da revolução cultural:

“Para criar o socialismo, dizeis, é necessária civilização. Muito bem. Mas, então, por que não havíamos de criar primeiro no nosso país premissas da civilização como a expulsão dos latifundiários e a expulsão dos capitalistas russos e, depois, iniciar um movimento para o socialismo?” (1982, p. 665)

É necessário, primeiro, colocar as “premissas da civilização”, como a conquista do

poder político e a expropriação dos expropriadores. Porém, uma vez colocadas tais premissas, é necessário ir além, avançar rumo à construção do novo modo de vida. É nesse

ponto que a questão cultural “tende a uma solução coerente”. Se essa “solução coerente”

não vem, ou mesmo se demora a vir, as conquistas anteriores ficam ameaçadas, podem mesmo retroceder.

A bem da verdade, trata-se de tarefas que, embora possam se revezar, em cada momento, na condição de elo central capaz de deslindar o conjunto dos esforços, existem desde sempre inextricavelmente ligadas. É o que argumenta GRAMSCI quando, ao comentar a relação entre as reformas econômica e cultural-intelectual, afirma a inevitável indissociabilidade de ambas:

“Pode haver reforma cultural, isto é, elevação dos estratos deprimidos da sociedade, sem uma precedente reforma econômica e uma mudança na posição social e no mundo econômico? Por esse motivo uma reforma intelectual e moral não pode deixar de estar ligada a um programa de reforma econômica; ao contrário, o programa de reforma econômica é precisamente o modo concreto com que se apresenta cada reforma intelectual e moral.” (1977, p. 1561)

Para o mesmo autor, é tarefa do moderno Príncipe — o partido revolucionário — pensar, a todo momento, em como subverter o sistema de relações intelectuais e morais imperante em determinado contexto histórico:

“O moderno Príncipe, desenvolvendo-se, subverte todo o sistema de relações intelectuais e morais, à medida que seu desenvolvimento significa precisamente que todo ato vem concebido como útil ou danoso, como virtuoso ou criminoso, já que tem como ponto de referência o próprio Príncipe moderno e serve para incrementar seu poder ou para contrastá-lo. O Príncipe toma o lugar, na consciência, da divindade ou do imperativo categórico, tornando-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume.” (Id. Ibid.)

Em última instância, portanto, reformas econômicas e culturais-intelectuais, longe de constituírem dimensões apartadas, não passam de facetas de uma mesma questão: a transformação do modo de vida global, da totalidade social. Podemos identificar aqui os germes da nova concepção materialista da cultura, que seria mais tarde desenvolvida por Williams.

Nessa perspectiva, a revolução socialista, embora não seja apenas uma revolução cultural, é também, desde o início, uma revolução cultural. E a revolução pode mesmo, mais que isso, tornar-se a partir de determinado momento uma revolução

predominantemente cultural. Pois o eixo do empreendimento revolucionário não é

estanque. Ele muda a cada momento, podendo sofrer alterações rápidas e imprevistas, as quais, se não são rapidamente localizadas, podem conduzir a revezes.

Do alto de seu materialismo terrenal, Lenin, como líder arguto que era, acompanhou minuciosamente cada pequena mudança no desenrolar do processo

revolucionário. Soube, assim, “reconhecer a mudança radical de todo o nosso ponto de vista sobre o socialismo”. A mudança, como vimos, consistia no deslocamento do “centro de gravidade” da luta política. À medida que as tarefas “negativas” distanciavam-se do

eixo central dos esforços, e as positivas ou construtivas precipitavam-se na ordem do dia, a cultura ganhava mais e mais relevância.

Naquele momento, pressionado por dilemas terríveis, que ameaçavam a continuidade da experiência revolucionária, Lenin viu-se instado a enfatizar o aspecto subjetivo da revolução.

Conforme percebeu o líder russo, ao fim e ao cabo só havia uma saída para o proletariado de seu país. Se quisesse de fato vencer e falar em nome de toda a humanidade, teria de se tornar plenamente humano, cultural e civilizatoriamente humano, reativando e revivendo, no calor de suas próprias lutas, as grandes inspirações que deram o sopro da vida às conquistas anteriores — às mais altas criações da humanidade.

II

O OBJETO DO