A vida de Lincoln era envolvida pela experiência do viver, ou seja, suas palavras deixavam transparecer uma sensação de viver intensamente cada período desde a infância. Ele recordou lembranças, imagens, gestos, dificuldades e superação. Contou sobre cada momento vivido, deixando uma sensação de que era algo mais recente, que
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Apresento aqui uma síntese do „Wikipédia‟ sobre a história do ex presidente dos EUA para situar o leitor sobre a história de vida que Lincoln se inspirava.
“Nasceu numa família de condição humilde, no Condado de Hardin (Kentucky) agora parte do Condado de LaRue, próximo à cidade de Hodgenville, Kentucky, e exerceu diversos ofícios manuais até que pôde estudar Direito, abrindo seguidamente cartório em Springfield. Em 1816, sua família mudou-se para o estado de Indiana, onde Lincoln viveu dos sete aos 21 anos. Seus estudos, segundo suas próprias palavras, resumiam-se, nessa época, a saber ler, escrever e fazer as quatro operações. No estado havia escassez de livros e papel, e a Bíblia era provavelmente o único livro existente em casa de seus pais. Lincoln estudou- a a fundo, vindo mais tarde a enriquecer seus discursos e trabalhos escritos com citações bíblicas. Em 1831, Lincoln mudou-se sozinho para a aldeia de New Salem, no estado de Illinois, empregando-se como balconista numa loja. Em New Salem, onde viveu quase seis anos, tornou-se agente postal e mais tarde foi eleito deputado por Illinois (1834-1840) e membro do Senado (1844-1848). Durante seu segundo mandato na Assembléia, Lincoln começou a estudar Direito e completou sua formação, tomou livros emprestados, estudou-os e, em 1836, obteve licença para exercer a advocacia. No ano seguinte mudou-se para a nova capital do Estado, Springfield, onde, juntamente a outros, constituiu um escritório de advocacia. Em 1842, casou-se com Mary Todd e, dois anos depois, montou um novo escritório em sociedade com William Herndon. Essa sociedade jamais foi desfeita. A prática da advocacia em Illinois não era especializada no tempo de Lincoln. Durante seis meses em cada ano, Lincoln integrava os tribunais itinerantes do estado percorrendo vários municípios e aceitando os casos que lhe eram apresentados. Sua atuação como advogado tornou-o conhecido em todo o Illinois. Em 1846, foi eleito para a Câmara de Representantes federal. De 1847 a 1849, Lincoln atuou no Congresso, onde se tornou impopular por causa da oposição que fez ao presidente James K. Polk, culpando-o pela guerra com o México. Desistiu de tentar a reeleição e voltou a exercer a advocacia. Uma súbita mudança na política nacional em relação à escravidão trouxe Lincoln de volta à política. O Acordo do Missouri proibira, em 1820, a escravidão nos novos territórios situados ao norte da fronteira sul do Missouri. Em 1854, o senador Stephen A. Douglas apresentou uma lei para organizar os territórios de Kansas e Nebraska que repelia o Acordo do Missouri, estabelecendo que os colonos deveriam decidir se desejavam ou não a escravidão. Lincoln era contrário a essa lei. Em 1858, disputando uma vaga ao Senado com Douglas, Lincoln desafiou-o para uma série de debates em torno da extensão da escravidão nos territórios livres. Lincoln perdeu as eleições, mas transformou-se numa figura de destaque nacional, possibilitando assim sua candidatura à Presidência em 1860, tendo estado essa atuação relacionada, também, com a fundação do Partido Republicano dos Estados Unidos da América em 1854. Em 1860, a assembleia nacional republicana apresentou-o como candidato à presidência da nação. (...) Mandato 4 de março de 1861 até 15 de abril de 1865”. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Abraham_Lincoln Acesso em 21 out. 2009.
136 os acontecimentos tinham se dado há pouco tempo, fazendo com que me sentisse parte de sua história.
Isso confirma o que as palavras de Bolívar (2002) em relação ao fato de a investigação narrativa possibilitar que os „informantes‟ falem de si mesmos, sem silenciar sua subjetividade.
Quanto à sua vida escolar e aos desejos relacionados ao estudo, Lincoln esclareceu que, para ele e a maioria de seus colegas, a conquista maior era chegar até a oitava série do Ensino Fundamental. O que fosse, além disso, era mazela da vida, segundo suas palavras.
Eu vim de uma família, é... pobre... pobre... pobre... eu gosto de dizer isso, pobre pobre pobre de marré marré de si, sabe? É assim, e onde fazer oitava série é o grande avanço, é a grande sacada. Ahn... eu só fiz o segundo grau por uma sorte, por causa do meu nome, Habraão Lincoln.
(Excerto de 1ª. Etapa da entrevista- 15/08/08)
A dificuldade financeira era algo presente em sua família que morava no interior de M.G. Eram pessoas pobres e com muitos filhos. Essa é uma característica de boa parte das famílias brasileiras e que acaba por refletir também nas oportunidades de estudo. A maioria dos adolescentes, desde muito novos, precisam trabalhar para ajudar nas despesas da casa.
Mas, mesmo diante desse cenário, Lincoln se encantava com os livros e com o mundo da descoberta, como ele destacava. Gostava muito de ler, mas não tinha condições de comparar livros. Até que, nas primeiras séries do Ensino Fundamental, encontrou-se com a professora Benedita, da qual se lembra como a grande incentivadora, que o ajudou a se tornar o leitor que considera que é hoje.
Não tinha dinheiro para comparar, não tinha condições para comparar, então passava uma ideia: (baixinho) – D. Benedita, você podia me emprestar o livro? - Te empresto o livro. (...) Eu adorei o livro, toda a coleção, toda a coleção, ela me emprestava os livros que eu pudesse ler. (...)
A partir daí eu me tornei um leitor... ahn... absurdo assim, louco. Eu tenho a minha biblioteca lá em casa com mais de 600 livros. Você pode
137 brincar, mas tenho uma biblioteca em casa com mais de 600 livros, mas assim apaixonado.
(Excerto de 1ª. Etapa da entrevista - 15/08/08)
Lincoln lembrava que a Matemática sempre era uma “nebulosa” em sua vida, mas fazia o suficiente diante das exigências da escola. O que tinha a ser aprendido para fazer as provas era seu foco, mesmo que não entendesse muito a matéria e que logo depois dos exames acabava por esquecer. Não tinha recordações específicas de professores de Matemática até então. Só algumas „vozes‟ que ecoavam em sua mente sobre a necessidade de aprender Matemática para um dia ter um futuro melhor. No caso de Lincoln, aquela visão de que professores de Matemática, geralmente, foram bons alunos de Matemática não parecia se confirmar.
Não achava que seria necessário ficar preso em aprender Matemática para fazer um vestibular mais à frente, para enfim, „galgar‟ a vida nesse sentido, pois achava pouco provável que a oportunidade de um curso superior viesse acontecer em sua vida.
Até que ele teve um encontro com uma professora especial de Matemática, a Lourdinha. A Matemática ainda era algo complexo para ele, mas ela deu-lhe uma nova visão e acreditou que ele poderia aprender. Foi um período que ele se lembrava com emoção, quando também viveu o „segundo grau‟ na Escola Tiradentes. Eram imagens e lembranças que o faziam voltar ao passado. Alguém o incentivou, trabalhou com sua auto-estima e ele começou a acreditar que tinha potencial para aprender o que quisesse. Talvez tenha sido nesse período que Lincoln começou a desenvolver o que ele chamou de „autodidatismo‟.
Ter a oportunidade de cursar uma „faculdade‟ era inusitado e pouco provável em sua vida; mas buscar a oportunidade de um emprego fixo, de ser concursado, era mais próximo da realidade. Escutava que precisava ser „alguém na vida‟, como dizia sua mãe, incentivando-o sempre a se superar e ir além. Mas precisava trabalhar e se sustentar, e isso não tinha a ver com sonhos naquele momento de sua vida.
A premência do trabalho esteve diante de Lincoln, e ele precisava garantir seu sustento. Saiu de sua casa, buscou trabalho em outra cidade e foi se envolvendo mais com a Matemática sem perceber. Ao contar sua história e relembrar fatos passados sobre como a Matemática fez parte de sua vida, Lincoln se deu conta de que isso aconteceu mais
138 diretamente, quando trabalhou com orçamento em uma empresa na cidade de Ipatinga/MG, já com 18 ou 19 anos de idade.
Ele comentou que era só cálculo; e com isso aprendeu metragem cúbica, cálculo de área e outros cálculos e via que os encarregados da empresa, que tinham no máximo a quarta série „primária‟ concluída, calculavam metragem cúbica de um caminhão “brincando”. Ou seja, não sentiam dificuldades em lidar com os cálculos de volumes e áreas.
A vida deu muitas voltas, e Lincoln precisou sair definitivamente da empresa em que trabalhava em Ipatinga/MG e „voltar para realidade‟. Deparou com a angústia de „não saber fazer nada‟ e alguém disse: Você sabe dar aula! Ele pensou muito sobre o assunto e lembrou-se do incentivo da professora do „segundo grau‟ que fala da sua capacidade de aprender, e mais ainda, de poder acreditar nele mesmo.
Foi quando começou a dar aulas particulares mais como “bico”, para ganhar algum dinheiro até que pudesse aparecer algo melhor. A Matemática era uma das áreas mais demandadas, tanto por alunos com dificuldades em lidar com os exercícios que a escola exigia, quanto pela falta de professores de Matemática nas escolas. Começou a se dedicar mais às aulas particulares, conseguindo mais alunos, substituindo nas escolas e se dedicando à docência como função principal. Estudava em livros emprestados pelos próprios alunos e conseguia alguns que as pessoas descartavam.
Suas análises sobre os conteúdos „cobrados‟ nas matrizes de disciplinas e o que acontecia na escola era algo a respeito de que se questionava:
(...) na verdade, (baixo) os professores não lêem... eu nunca fiz exercícios de números complexos com alunos. Alunos particulares. Na escola você tem que pegar. E eu, eu sempre gostei de matemática II, que é a parte de geometria espacial... cálculos de... volume, de sólidos, enfim.
E eu descubro, um dos diretores da escola fala assim: Cara, pega essa área bicho, tá tendo escassez demais de professores nessa área... ninguém sabe geometria II, ninguém sabe matemática II. Você dá aula? Você dá aula disso? Dou, uê, dou sim, tem problema não... não cara, então você vai pegar...
(...)então assim, a sensação que eu tenho é que se ninguém sabe, mas vão ter no segundo grau, bom, isso não é visto, isso não é visto. Isso não é visto... ou porque falta tempo, ou isso não é visto por algum motivo que eu não(...) temo dizer.