BÖLÜM VI. SONUÇ VE ÖNERİLER
6.2. Öneriler
6.2.3. Araştırmacılara Yönelik Öneriler
“Pelas in´umeras leituras que eu fiz sobre a hist´oria da grande travessia da Igreja de Cristo atrav´es dos milˆenios, eu tentei desenhar o encapelado e tempestuoso trajeto nesta canc¸˜ao onde o cavaleiro seria a Igreja e a senhora da mans˜ao, o mundo.” (Elomar Figueira Mello)
— Quem ´e quem chega a estas horas Que insiste e demora
Na porta a bater?
Bandidos vagam `as escuras Da noite `a procura
De quem mal fazer
— Abri-me a porta ´o senhora Um instante ´e a demora S´o enquanto sossega O corcel que transporta-me Atrav´es de tempos espac¸os e eras Sem poder negar a animal condic¸˜ao Medo ao fulgir do raio
E o rugir feroz do trov˜ao N˜ao temais pela donzela
Da alcova as janelas travadas est˜ao O perigo ´e a descrenc¸a
E o inimigo avanc¸a Num mundo em falˆencia Abri-me senhora Porta ou consciˆencia N˜ao ouves c´a fora O rugir do trov˜ao?
— Buscam na noite os morcegos Sem tr´egua e sossego
O sangue a volar
Em forma de anjo os demˆonios Com ardis mais medonhos Nos tentam enganar
— Sa´ı de vossos cuidados Por armas n˜ao porto
Nem punhais nem dardos letais S´o a espada de luz
A palavra do Sagrado Mestre Que vos acalenta
Em vossas aflic¸˜oes Que bane a inseguranc¸a Repondo a paz nos corac¸˜oes — Mesmo em face `a tempestade
´
E uma temeridade Vos a porta abrir
Vejo a tormenta j´a ´e finda
No vadis ainda mais eu quero ouvir — Eis que ´e cessada a procela Vou indo senhora
Ao lume da estrela Meu nome? Se importa Assenteis nos livros De anais desta Casa Que em noite varrida Pela tempestade Negastes guarida Aos guardi˜oes da vida A F´e e a Esperanc¸a E a pr´opria Caridade
7.2.1
Coment´arios iniciais
Um cavaleiro pede abrigo numa mans˜ao, `a noite, durante uma tempestade. Temerosa, a senhora da mans˜ao receia abrir as portas ao desconhecido. Esse ´e o assunto da canc¸˜ao Um
cavaleiro na tempestade.3 O texto possui linguagem rebuscada e com arca´ısmos, sugerindo ambiente medieval.
A linha mel´odica da senhora ´e, comparada `a do cavaleiro, suave, escalar e diatˆonica, mesmo contendo alguns sons alterados. Em contraste, o cavaleiro se expressa em melodias mais exten- sas, crom´aticas e tortuosas, que fazem jus ao “encapelado e tortuoso trajeto” do cavaleiro.
Tamb´em a introduc¸˜ao, indecisa, hesitante, sugere um cavalgar manco do corcel assustado pelos raios e trov˜oes.
7.2.2
Estrutura musical
O di´alogo entre o cavaleiro e a senhora se d´a em estrofes que comec¸am de maneira similar, mas continuam diferentemente. As estrofes da senhora s˜ao trˆes (S1, S2 e S3), sempre equiva-
lentes mel´odica e harmonicamente. As estrofes do cavaleiro s˜ao quatro: a primeira (Ca1) e a
terceira (Ca2) s˜ao equivalentes, enquanto que a segunda (Cb1) e quarta (Cb2) s˜ao similares, mas
a quarta (e ´ultima) ´e mais extensa. As estrofes do cavaleiro s˜ao sempre mais longas que as da senhora. A forma da pec¸a pode ser esquematizada assim:
Introduc¸˜ao: c. 1–8
S1: De “Quem ´e que chega a estas horas” at´e “De quem mal fazer” (c. 9–24)
Ca1: De “Abri-me a porta ´o senhora” at´e “E o rugir feroz do trov˜ao” (c. 25–41)
Cb1: De “N˜ao temais pela donzela” at´e “O rugir do trov˜ao?” (c. 42–62)
S2: De “Buscam na noite os morcegos” at´e “Nos tentam enganar” (c. 9–24, 2.a vez)
Ca2: De “Sa´ı de vossos cuidados” at´e “Repondo a paz nos corac¸˜oes” (c. 25–41, 2.avez)
S3: De “Mesmo em face `a tempestade” at´e “No vadis ainda mais eu quero ouvir” (c. 63–78)
Cb2: De “Eis que ´e cessada a procela” at´e “E a pr´opria Caridade” (c. 78–100)
Codeta: c. 101–103
7.2.3
An´alise harmˆonica
Do ponto de vista harmˆonico, a introduc¸˜ao de Um cavaleiro na tempestade consiste na repetic¸˜ao (trˆes vezes ao todo) da progress˜ao C G D/F# Am G Dm/F, finalizada (por cromatismo do baixo) em D/F#. Essa progress˜ao pode ser dividida em duas partes: C G D/F# (R´e mixol´ıdio) e Am G Dm/F (R´e d´orico), cuja alternˆancia sugere uma hesitac¸˜ao entre um modo maior e um menor.4 A maioria dos movimentos de fundamentais ´e de quarta descendente.
Violão 2 4 3
,
4 6 8,
Figura 7.6: Um cavaleiro na tempestade, introduc¸˜ao
Harmonia dos compassos 1–8 (introduc¸˜ao)
(3x) |: C G D/F# Am G Dm/F :| D/F#
r´e mixol´ıdio VII IV I V IV I! I
r´e d´orico VII IV I! V IV I I!
4↓ 4↓ 4↓ 4↓
Ap´os a introduc¸˜ao, inicia-se a sec¸˜ao S1 (senhora), com duas frases: a primeira abarca
os compassos 9–16, e a segunda vai dos compassos 17–24. Ambas terminam em uma semi- cadˆencia com a dominante alcanc¸ada via acorde de 6.aaumentada italiana. O acorde do IV grau ocorre sem terc¸a nas semicadˆencias.
Compassos 9–16
compasso: 9 10 11 12 13 14 15-16
D G/D Bm C G A Dm/F G(s/3.a
) Bb(6aum) A
r´e mixol´ıdio I IV VI VII IV V! V!
r´e menor [IV(3#) V(3#) I] IV* II(6It.) V
A segunda frase da sec¸˜ao S1 ´e uma repetic¸˜ao modificada da frase anterior e possui um
acorde alterado (Bb, c. 21) que antecipa a sonoridade de modo menor.
Compassos 17–24
compasso: 17 18 19 20 21 22 23-24
D G/D Bm C Bb A7 Dm/F G(s/3.a) Bb(6aum) A
r´e mixol´ıdio I IV VI VII VI! V! V!
r´e menor [VII VI V7(3#) I] IV* II(6It.) V
A sec¸˜ao seguinte (Ca1), correspondente ao cavaleiro, apresenta harmonia mais crom´atica e
complexa. Tamb´em ´e marcante o movimento mel´odico com que o cavaleiro abre seu canto.
Violão Canto
26 28 30
A bri -me a por ta ó se nho raum ins tan te é a de mo ra só en quan to sos se ga
Cavaleiro
4 3
4 3
Figura 7.7: Um cavaleiro na tempestade, c. 25–31
Essa passagem inicia-se com alus˜ao a regi˜oes e modos que acrescentam sustenidos `a escala (e.g. R´e l´ıdio), mas desvia-se surpreendentemente para a regi˜ao dos bem´ois (e.g. em Sol e´olio).
Compassos 25–37
compasso: 25 26 27 28 29 30-31 32-33 35 36 37
D E7 (Em7) Bm C Eb Bb F Gm C Gm
r´e mixol´ıdio I II! (II) VI VII
r´e l´ıdio I II VI
si d´orico III [IV I]
si fr´ıgio III IV! (IV) I II
r´e fr´ıgio I! II VI III IV
si b j^onio II! IV I V VI II! VI
sol e´olio IV! VI III VII I
sol d´orico IV VI! III VII I [IV I]
r´e e´olio I! VII II! VI III IV VII IV
Ap´os breve polarizac¸˜ao em Sol d´orico (c. 35–37, I–IV–I), restaura-se o centro original R´e na semicadˆencia fr´ıgia dos compassos 40–41. ´E bem interessante esse retorno, que usa novamente o acorde de 6.aaumentada italiana, resolvido n˜ao na dominante, mas no V menor (Am) (c. 39), que ´e seguido pelo IV com terc¸a maior (G, do modo d´orico) e pelo VI do e´olio (Bb), que —
finalmente — leva `a dominante (A, c. 41), na citada semicadˆencia fr´ıgia.
Violão Canto
36
e ras Sem po der ne gar a a ni mal con di
4 3 4 3
,
,
38 40ção me do ao ful gir do ra io e o ru gir fe roz do tro vão
,
,
,
Figura 7.8: Um cavaleiro na tempestade, c. 35–41
Compassos 37–41
compasso: 37 38 39 40 41
Gm Gm/F# Edim Dm G(s/3.a) Bb(6aum) Am G Bb A
sol d´orico I--- VI V I*
r´e e´olio IV--- II I IV* II! V VI V(3#)
r´e d´orico I IV* II! V IV VI! V(3#)
r´e mixol´ıdio IV* II! V IV VI! V
Na seq¨uˆencia (Fig. 7.9), continua o cavaleiro sua argumentac¸˜ao `a senhora, em sec¸˜ao (Cb1)
que se inicia como a anterior (Ca1), mas amplia sua excurs˜ao por regi˜oes com bem´ois. Tal como
ocorre em muitos outros casos na obra de Elomar, eixos mel´odicos sustentam as mudanc¸as de direc¸˜ao harmˆonica: Mi♭ nos compassos 46–51 e R´e nos compassos 52–62.
O cavaleiro termina sua parte com uma cadˆencia imperfeita: IV3♮–V3♯–I6(R´e d´orico, com
dominante). No compasso 60, o acorde de sexta aumentada (cf. c. 22, 38) ´e preenchido com sua fundamental (Mi) no baixo, constituindo o acorde alterado mi–sol♯–si♭–r´e, com idˆentica func¸˜ao de conduzir ao V grau.
Destaca-se tamb´em o encadeamento crom´atico Bb–Bm (c. 55–56), que, n˜ao sem surpresa e forc¸a, ajuda a restabelecer o centro original, at´e ent˜ao desestabilizado pela influˆencia dos bem´ois.
Violão Canto
42 44 46
Não te mais pe la don ze la da al co va as ja ne las tra
Cavaleiro Eixo: Mi♭ 4 3 4 3 48 50
va das es tão o pe ri go é a des cren ça e o i ni mi go a
52
54 56
van ça num mun do em fa lên cia a bri -me se nho ra por ta
Eixo: Ré
⬃
,
58 60 62
ou cons ci ên cia não ou ves cá fo ra o ru gir do tro vão?
,
Compassos 42–62
compassos: 42 43 44 45 46 47 48 49 50-51 52-53 54
D E7 (Em7) Bm C Eb Eb(5aum) Cm Ab Cm Gm Dm
r´e mixol´ıdio I II! (II) VI VII
r´e l´ıdio I II (II!) VI
si d´orico III [IV I]
si fr´ıgio III IV! (IV) I II
sib j^onio II! IV
sol e´olio IV! VI VI! IV II! IV I V
sol fr´ıgio VI VI! IV II IV I
d´o e´olio I! III III! I VI I V II
r´e fr´ıgio II II! VII V VII IV I
r´e e´olio IV I
compassos: 54 55 56 57 58 59 60 61 62
Dm Bb(4aum) Bm G D/F# Dm/F E7(5dim) Am G A Dm/F
r´e e´olio I VI
r´e mixol´ıdio VI IV I V IV V(3#) I!
r´e d´orico I VI! VI! IV I! I II!(6aum) V [IV V(3#) I]
As sec¸˜oes seguintes da canc¸˜ao essencialmente n˜ao apresentam material musical novo, re- petindo as mesmas sec¸˜oes (na ordem j´a descrita) com outras estrofes de texto. Contudo, h´a algumas diferenc¸as comentadas a seguir.
O final da sec¸˜ao Cb2difere da sec¸˜ao Cb1por interpolar dois compassos entre os acordes Bb
e Bm, conforme pode-se comparar confrontando os compassos 55–56 (Fig. 7.9, trecho apontado pela seta) e 92–95 (Fig. 7.10).
Em lugar do cromatismo Bb–Bm, o compositor utiliza uma intensa dissonˆancia (seta na Fig. 7.10) para expressar musicalmente o verso “Que em noite varrida pela tempestade”. Essa dissonˆancia (semitom entre o canto e o viol˜ao) pode ser analisada como uma apogiatura no baixo, que se resolve ascendentemente no compasso seguinte, j´a sob outra harmonia. Reforc¸a o efeito de estranheza a estrutura do acorde do compasso 93 (d´o♯–r´e–l´a–r´e), que n˜ao se deixa classificar facilmente. Possivelmente se trata do acorde do I grau de R´e (ou talvez III de Si d´orico), sem terc¸a e com uma s´etima maior como apogiatura no baixo — por´em dificilmente seu efeito se compara ao de uma tˆonica.
G/D (segunda invers˜ao do IV de r´e d´orico ou mixol´ıdio), ent˜ao sucedido, via cromatismo, pela segunda invers˜ao de uma tr´ıade diminuta (G#dim/D), que se resolve em Bm. O encadeamento G#dim/D–Bm pode ser entendido como uma variante da cadˆencia plagal d´orica IV7–I, tal como o encadeamento E7–Bm encontrado no in´ıcio de cada estrofe do cavaleiro (e.g. c. 26–27).
Violão Canto
92 94
Ca sa Que em noi te var ri da Pe la tem pes ta de
⬀
4 3
4 3
Figura 7.10: Um cavaleiro na tempestade, c. 91–95
Compassos 91–95 compasso: 91 92 93 94 95 Dm Bb(4aum) ?? G/D G#dim/D Bm r´e e´olio I VI ?? r´e d´orico I VI! ?? IV r´e j^on./mix. I! ?? IV VI
si d´orico ?? IV! [IV7 I]
A canc¸˜ao termina com o canto do cavaleiro descendo ao grave (c. 100), com um contorno mel´odico similar ao da introduc¸˜ao, e uma cadˆencia plagal e´olia (IV–II–I). Segue-se finalizac¸˜ao instrumental (c. 101–103).
Violão Canto
a Fé e a Es pe ran ça e a pró pria Ca ri da de.
Compasso 100
C G D7/F# Gm Edim Dm/F
r´e mixol´ıdio VII IV I
r´e d´orico VII IV I! IV! II! I
r´e e´olio VII IV! I! [IV II I]
7.2.4
Coment´arios adicionais
Para fechar esta an´alise de Um cavaleiro na tempestade, mencionam-se alguns movimentos mel´odicos de aparˆencia crom´atica que ocorrem em v´arios momentos ao longa da canc¸˜ao.
• r´e d´o♮ si d´o♯ r´e (c. 12–14)
• mi♯ f´a♯ sol♯ sol♮ (c. 25–26, 42–43)
• sol f´a♯ mi f´a♮ (c. 37, baixo do viol˜ao)
• d´o♮ si r´e d´o♯ (c. 39–41)
• d´o♮ si d´o♯ r´e (c. 61–62)