5.2. Öneriler
5.2.2. Araştırmacılar için öneriler
Como eu afirmei, o gravador foi um instrumento que carreguei comigo durante todos os dias em campo. Utilizá-lo, no entanto, era a maneira mais eficaz de silenciar uma conversa ou tornar aquelas narrativas muito diferentes do havia escutado antes. Todas as pessoas ficaram constrangidas ao se colocarem diante daquele negócio. Com exceção das crianças! Os
pequenos de Mato do Tição, apesar de estarem acostumados com a presença de pesquisadores, sempre ficaram muito curiosos com aquele aparelhinho e sempre atrapalhavam meus planos de tentar ser discreta com ele. Emily, por exemplo, em uma de suas interações com o gravador, trouxe-me uma série de entendimentos sobre Mato do Tição. Por exemplo, o fato de que aprender a falar, ali, é também aprender os recursos narrativos que dão encadeamento às ideias. Mas também é aprender a manejar e agenciar a língua de acordo com as vivências, as memórias e os interesses. Quando Emily me viu com o gravador, logo percebeu que aquele aparelho era para gravar as histórias das mulheres de sua comunidade. Para me convencer a deixá-la escutar, ela começou a me contar a própria história:
Emily: Você vai deixar eu escutar?
Eu: Não, depois eu posso deixar. Agora não...estou ocupada, vim conversar com Tia Divina.
Emily: Deixa eu falar: Cê falou como era meu nome...aí eu te vi na feirinha
comendo pastel, aí depois você saiu e me levou pra comer picolé, assim. Aí depois quando Miquim <um cachorrinho> morreu você já me conhecia?
Eu: Não
Emily: Aí eu te vi quando você era pequena. Agora acabou. Deixa eu
escutar?
Eu: Não, Emily. Estou ocupada!
Emily: Aí eu nasci de setembro...aí... cê foi no meu aniversário? Eu: Não, infelizmente não...
Emily: Aí na minha coroação... você tava na minha coroação! Aí Joquinha
cantou primeiro que eu, aí eu cantei depois de Bruna, aí eu pus a coroa na santinha.
Eu: Foi lindo, eu quase chorei essa hora, sabia? Emily: Zazara chorou. Agora deixa eu escutar. Eu: Não...
Emily: Eu gostava de fazer brincar na areia, brincar no berço, brincar na
cama, brincar com a mãe, brincar com o pai, brincar com a irmã. Aí eu deitei no berço lá e dormi. Aí depois Joquinha me acordou no berço e eu chorei, chorei, aí foi e depois eu dormi de novo. Aí foi, quando eu acordei, mamãe fez mamadeira para mim dormir de novo. Aí depois que eu mamei mamadeira eu chupei bico, ai eu fiquei com o bico, aí eu brinquei e troquei de roupa , tomei banho, e dormi. Agora acabou. Aí eu passeei. Acabei. E agora, como é que escuta?(Caderno de Campo, maio de 2015).
Emily nos mostra como um pesquisador é visto e entendido naquela comunidade. Ela, com apenas quatro anos, já sabe o que as pessoas da universidade vão fazer na sua terra. Como já foi dito, Matição é assediada por pesquisadores, estudantes, membros de ONGs, pessoas envolvidas em projetos. Com apenas quatro anos, ela já viu inúmeras coletas de dados. Nesse diálogo, novamente a menina me mostrou como ela e, quem sabe, as outras crianças da comunidade, também compreendem o que nós, pesquisadores, vamos buscar ali.
Os adultos de Matição, principalmente as mulheres, sempre incentivam as crianças a falarem, a contarem causos e a se manifestarem. É comum ouvir das mães, tias e avós frases como: conta pra ela como foi à quadrilha da sua escola! Ou, você contou pra ela como foi a viagem? Assim, desde cedo, com o incentivo dos adultos e com a observação e escuta atenta, os pequenos vão desenvolvendo as habilidades narrativas. As aprendizagens de questões relevantes daquele mundo ― que é a Comunidade Quilombola do Mato do Tição ― vão sendo trazidas nas narrativas juntamente com as aprendizagens do próprio narrar. Apesar de não ser o objetivo desta pesquisa estudar as crianças, não vou me furtar de trazer, ainda que brevemente, essa reflexão, para reafirmar a importância que a oralidade com transmissão de conhecimento.
A tese de doutorado de Patrícia Santana (2015) nos oferece ricas informações e análises a propósito do intenso universo das crianças de Matição. Esses dados compreendem as possibilidades de aprendizagens nas quais as crianças se encontram e as maneiras como elas se inserem nesse contexto em que os conhecimentos tradicionais e a cultura própria do Mato do Tição vão sendo aprendidos e ressignificados. Uma das possibilidades de aprendizagem apontadas pela a autora diz respeito à oralidade. Além de trazer um conjunto de histórias que correm entre os narradores de Matição, ela localiza essas narrativas no contexto histórico-cultural do quilombo. Essas histórias que lá circulam trazem conhecimentos aprendidos e ensinados. Nas palavras da autora:
Vimos que as histórias, os casos e outras narrativas se constituem como elementos presentes nos processos de aprendizagem das crianças ao longo do tempo e que as histórias e casos contados por elas expressam um modo de elaborarem suas compreensões em torno das particularidades de suas existências no quilombo. (SANTANA, 2015,p. 217).
Muitos autores que tratam da aprendizagem associadas às comunidades com herança histórico-cultural afro-brasileira trazem a oralidade como elemento fundamental. A pesquisa de Santana, nesse sentido, mostrou que, por meio das narrativas ― não só aquelas que escutam, como aquelas que formulam e contam ― as crianças vão aprendendo sobre curas, males, benzeções e também modos de ser no Mato do Tição. Além disso, aprendem a respeito da seriedade de lidar com os mortos e da importância de respeitar os antepassados e os antigos. Segundo ela, os pequenos da Comunidade Quilombola do Mato do Tição querem aprender e demonstram esse querer prestando atenção ao que dizem os mais velhos. Assim, de
acordo com Santana, as histórias e causos que circulam no quilombo não podem ser deixados de lado na construção de metodologias e políticas para a Educação Quilombola59:
Compreendemos que as histórias aqui contadas e tantas outras guardadas na memória dos adultos, jovens, crianças e idosos de Mato do Tição constituem rico material, não só de preservação do patrimônio imaterial do quilombo, como para subsidiar futuras metodologias educacionais construídas a partir dos elementos presentes nas narrativas. (SANTANA, 2015, p.180).
Para Amadou Hampaté Bâ, a tradição oral é também escola ― a principal escola da vida ―, pois, nas histórias e nas narrativas orais, estão os ensinamentos fundamentais transmitidos a cada geração. Os conteúdos são múltiplos. Para percebê-los, basta um dedo de prosa com D. Nilse, D. Bina ou D. Divina: ciência, arte, história, religião, diversão, comida, conhecimento, esquecimento, memória. São conteúdos aparentes e não aparentes que se arranjam em uma dinâmica cuja força confere identidade e pertencimento àqueles que educam ― e foram educados ― também por meio das oralidades.
As narrativas são conduzidas a partir de sentidos que vão além da escuta. As histórias vêm com sons, cheiros, sabores, arrepios, medos, dores, expectativas, alívios, emoções. Esses sentidos ligam-se à experiência do ouvinte e incrementam o potencial da oralidade de carregar ensinamentos. Normalmente, trazem conselhos, saberes ou uma moral da história. Sem as sensações provocadas, contudo, esses ensinamentos não afetam muito o ouvinte. São elas que colocam em circulação as histórias no Matição, contadas e recontadas a cada narrador, como em um encadeamento de múltiplas experiências. Para Cerqueira (2013, p.207),
a relação entre fato e narrado, o sujeito falante é inextricável ao acontecimento que narra: envolve os ouvintes em seu objeto de escuta, à medida que os instiga a experimentarem os efeitos da prosa como se fossem os efeitos do
acontecimento narrado. A “conversa” funciona, assim, como um jogo cujas
regras não se limitam a uma combinação estratégica; é antes o resultado de uma relação que só se conhece no próprio gesto da prosa, em seu porvir.
Além dessa oralidade espontânea, muitas vezes inapreensível e inócua de se analisar de uma forma menos descritiva, há, no Matição, oralidades que estruturam algumas práticas da comunidade, principalmente aquelas vinculadas à tradição. Uma oralidade sistemática e
59Esta afirmação parece estar incoerente com as falas dos velhos. Entretanto, o que os velhos sentem e percebem
são diferentes do entendimento de uma pesquisadora, que atuou com uma metodologia específica para o universo das crianças.
fundante que possibilita a socialidade, a qual chamaremos de eventos de oralidade60, como destacaremos a seguir.