5. BULGULAR
5.3. ÖRGÜTSEL SAĞLIK ALGISINA İLİŞKİN BULGULARIN SOSYO-
5.4.1. Araştırma Kapsamında İncelenen Eğitim ve Sağlık Çalışanlarının Erdeml
Como já comentamos anteriormente, o conceito de rede tem sido bastante utilizado em diferentes campos e pesquisas científicas, de debates sobre tecnologias a discussões sobre o ambiente e a sociedade. No caso do presente trabalho, a noção de rede lança questionamentos e problemas de diferentes ordens ao panorama atual da Reforma Psiquiátrica, não apenas em relação ao contexto específico de Fortaleza, mas também ligado ao próprio processo de Reforma no Brasil, com seus embates políticos, técnicos, teóricos e sociais.
A rede, como conceito prenhe de multiplicidade, funciona de maneiras várias, apontando para distintas dimensões. Parece-nos, pois, importante tentar delimitar duas delas, no sentido de circunscrever perspectivas de análise para o presente trabalho. Um dos usos deste conceito no campo da saúde e, mais especificamente, na saúde mental, diz respeito ao seu sentido estrutural. Em vários momentos, usamos tal termo para definir o trânsito das pessoas entre diferentes lugares, serviços e equipamentos, como,
refere-se à organização de espaços heterogêneos que dão suporte concreto ao cuidado em saúde e nos remete a noção de uma rede institucional, formalizada. Tal dimensão aponta para um plano molar de análise, caracterizando aquilo que já está instituído no conceito de rede de saúde.
Outra compreensão de rede que identificamos diz respeito à noção desta como modelo de funcionamento. Neste sentido, temos uma aproximação com o conceito de rizoma, segundo já tínhamos apontado antes. A rede como figura topológica é composta por linhas e nós, não por figuras espaciais. Logo, não importam suas dimensões, limites ou formas externas, mas sua potência conectiva interna, seus pontos de convergência e bifurcação. Ela não é uma totalidade fechada; é aberta, com capacidade de expansão multidirecional (Kastrup, 2003).
Assim, notamos que uma rede pode funcionar para além de sua formalização estrutural, vazando e criando outras linhas e conexões com espaços que não compõe uma dada figura de rede; como também, tal estrutura pode enrijecer-se e perder sua formação intensiva, isto é, o funcionamento rizomático da rede. Neste caso, a rede como forma (ou fôrma), configurar-se-ia muito mais como um aparelho de captura do que como uma máquina de guerra (Deleuze & Guattari, 1997), que cria linhas de desterritorializações e reterritorializações.
Não se trata, então, de pensarmos apenas sobre a criação de diferentes serviços ou equipamentos como fins em si mesmos, mas problematizarmos a lógica na qual se inserem os discursos e saberes que possibilitam plasmar transformações reais e concretas no cotidiano. Devemos, pois, estar atentos tanto à produção macro, como micropolítica das redes. Ambas encontram-se implicadas mutuamente, conformando caminhos e transformações no processo de desinstitucionalização da loucura.
Passos e Barros (2004), ao trazer à discussão sobre redes para auxiliar a compreensão sobre os processos políticos, sociais e subjetivos em curso, explicam que o capitalismo contemporâneo opera por meio de modulações e variações, estendendo seus limites em um movimento de mundialização do neoliberalismo. Esta forma de conceber o capitalismo encontra suporte no pensamento de Guattari (1981) ao propor o termo Capitalismo Mundial Integrado (CMI), ressaltando a idéia de que mesmo os países que pareciam ter escapado ao capitalismo, encontram-se sob uma ordem capitalística e são capturados por ela em um sistema de produção econômico e subjetivo.
Assim, vemos que o funcionamento do próprio capitalismo também se dá numa lógica rizomática, ou melhor, apresenta-se sob a forma de uma axiomática; isto é, constitui-se a partir do movimento ilimitado de conjunções de fluxos desterritorializados (por exemplo, fluxo de trabalho e de dinheiro), integrando-os e controlando-os pulverizadamente de modo a não existir nenhuma exterioridade. Por este motivo, podemos entender o destaque que Passos e Barros (2004) dão às redes no movimento de expansão capitalístico, visto que estas se caracterizam por sua potência de conectividade e por sua capacidade infinita de articulações, ao mesmo tempo em que apresentam um caráter paradoxal, que permite riscos e esperanças.
Novamente, voltamos a uma discussão que se refere tanto ao plano molar, macropolítico, quanto ao molecular, da micropolítica. Ao refletirmos acerca da produção capitalística, observamos que ela está vinculada não apenas a economia monetária e financeira, mas está atrelada também de modo imanente aos processos de subjetivação e de produção do desejo. É, pois, neste sentido, que podemos entender o paradoxo trazido pelas redes. Que processos elas estão engendrando? Que mundos estão sendo criados a partir das mesmas?
Passos e Barros (2004) afirmam que as redes podem ter um funcionamento frio ou quente. No primeiro caso, seus efeitos são de homogeneização e serialização, de acordo com a lógica do capital, com seu centro virtualizado, seu sistema de equalização universal. Já as redes do segundo tipo produzem diferenciações e heterogeneidades. Este modo de classificar as redes faz com que nos indaguemos, a partir de uma inspiração foucaultiana e voltando-nos para o contexto da saúde mental, em que momentos estas têm operado como um mecanismo do biopoder e/ou como uma forma de resistência à biopolítica.
Foucault define como biopoder “o conjunto dos mecanismos pelos quais aquilo que, na espécie humana, constitui suas características biológicas fundamentais vai poder
entrar numa política, numa estratégia política, numa estratégia geral de poder” (2008,
p.3). Tal modalidade de exercício de poder, surgida no século XVIII, irá se interligar com o poder disciplinar do século XVII, definindo como focos de saber, controle e intervenção tanto o corpo-indivíduo, como com o corpo-população. Assim, ambas as categorias passam a ser objeto de governo, no intuito de melhor gerir a vida e regular a sociedade (Foucault, 1999).
Pensar a constituição e o funcionamento das redes a partir das noções de biopoder e biopolítica faz-nos refletir acerca dos efeitos de tais composições. Elas estão produzindo novas formas de exclusão e opressão, gerando novas misérias e desconexões ou conseguem encontrar linhas de autonomização da lógica do capital, criando novos territórios existenciais, outras formas de organização e cooperação? Peter Pelbart, indo além dessa indagação, questiona:
Como mapear o sequestro social da vitalidade na desmesurada extensão do Império e na sua penetração ilimitada, tendo em vista as modalidades de controle cada vez mais sofisticadas a que ele recorre, sobretudo quando ele se realavanca na base do terrorismo
generalizado e da militarizaçao do psiquismo mundial ? Mas como mapear igualmente as estratégias de reativação vital, de constituição de si, individual e coletiva, de cooperação e autovalorização das forças sociais à margem do circuito formal da produção? (2002, s/p).
Este parece ser um dos nossos maiores desafios na construção dessa pesquisa- cartografia: desembaraçar e acompanhar as linhas que compõem essas redes na intenção de perceber não somente onde estão suas possibilidades de desvios, de singularização, de produção de multidão18 e resistência, como de fomentar tais processos.
Neste intuito, percorremos algumas linhas do agenciamento Reforma Psiquiátrica de Fortaleza, problematizando-as e articulando-as às questões que temos apresentado até o momento. Antes de nos debruçarmos sobre elas com mais cuidado, faz-se necessário delinearmos o percurso metodológico produzido, bem como caracterizarmos nosso campo de investigação.