5. BULGULAR
5.3. ÖRGÜTSEL SAĞLIK ALGISINA İLİŞKİN BULGULARIN SOSYO-
5.3.2. Araştırma Kapsamında İncelenen Eğitim ve Sağlık Çalışanlarının Örgütsel
A cartografia, termo oriundo da geografia, faz-nos lembrar de imediato a ideia do traçado de territórios, da construção de uma topologia quantitativa e estática de uma determinada paisagem. Todavia, este conceito ao ser apropriado e recriado por Deleuze e Guattari (1995) ganha novos contornos e nuanças, indicando outro sentido. Sentido este que remete a uma topologia intensiva, dinâmica, que não tenciona ser a representação de um dado, mas produzi-lo. Deste modo, podemos compreender que
“paisagens psicossociais também são cartografáveis” (Rolnik, 1989, p.15).
O exercício da cartografia não define em si uma metodologia nos moldes do método científico da modernidade, mas evoca uma problematização do fazer pesquisa, inspirando-nos a outra forma de conceber os encontros entre o pesquisador e o seu campo e os efeitos que daí decorre. Todavia, conforme Kastrup (2003), a cartografia é o primeiro princípio metodológico da filosofia de Deleuze e Guattari e diz respeito a uma
das “características aproximativas” (Deleuze & Guattari, 1995, p. 15) do conceito de
rizoma. Este conceito mostra-se fundamental para entendermos a proposta da cartografia e interessa-nos ainda mais neste trabalho por proporcionar-nos uma reflexão mais demorada a respeito da noção de rede, conforme discutiremos adiante.
Para Deleuze e Guattari (1995), a figura ontológica do rizoma indica uma nova imagem do pensamento, como um sistema aberto e múltiplo que se distingue do sistema arborescente, com sua lógica binária e sobredeterminada. Além da cartografia, os autores explicitam outros cinco princípios que caracterizam o rizoma, a saber, 1) o de conexão; 2) o de heterogeneidade; 3) o de multiplicidade; 4) o de ruptura a-significante; e 5) o de decalcomania.
O rizoma, portanto, é pautado numa lógica de conexões de traços de diferentes naturezas (linguísticas, políticas, materiais, biológicas, etc.) e de linhas várias (de segmentaridade, de desterritorialização, de fuga). Por constituir-se tão somente por linhas, o rizoma diferencia-se de uma estrutura, haja vista não se definir por conjunto de pontos e posições e suas relações binárias. É a-centrado, não sendo determinado por filiações ou hierarquias, mas por alianças, contatos e contágios. Não segue um princípio de causalidade, nem é identificado como uma totalidade unificada, mas se metamorfoseia através de seu próprio princípio de autocriação. É composto de direções e constitui um plano de multiplicidades que existem num constante movimento de invenção e desmanchamento de formas.
Em relação aos princípios de cartografia e de decalcomania, Deleuze e Guattari (1995) afirmam que o decalque compõe a lógica da árvore, tendo como finalidade a descrição e reprodução de um estado já dado; o mapa, por sua vez, remete à lógica rizomática, voltando-se para a experimentação, para o inventivo, para o movimento. O mapa capta as modificações, as linhas de fuga; e o decalque reproduz os estrangulamentos, as sedimentarizações No entanto, segundo os próprios autores, insistir nesta oposição seria tão somente reeditar um simples dualismo, perdendo a complexidade desta relação, no qual um pode vir a se transformar no outro.
É próprio do rizoma possuir sempre entradas múltiplas, que indica que uma dessas vias pode ser pelo decalque; entretanto, é necessário tomar precauções para não se arborizar o rizoma, impedindo o movimento do desejo, os devires. Os autores alertam
que “é uma questão de método: é preciso sempre projetar o decalque sobre o mapa”
(Deleuze & Guattari, 1995, p. 23), assim não se perde o fluxo criador do rizoma. Ao propor uma nova imagem do pensamento, que difere do nosso modo habitual de pensar, pautado pela representação e recognição, o rizoma aparece como o “método
do antimétodo” (Zourabichvili, 2004, p.53), remetendo tanto à experimentação, como
também à prudência em relação ao pensamento arborescente. Zourabichvili comenta que essa outra imagem do pensamento afirma que pensar não é representar; não há um ponto de origem determinado, parte-se sempre do meio; e, não obstante todo encontro ser possível a priori, nem todos os encontros são selecionados pela experiência (no sentido de produzirem transformações).
O conceito de rizoma faz-nos refletir, então, acerca do exercício de pensamento que nos propomos a fazer. No âmbito da produção acadêmica, inspira-nos a buscar outro modo de conceber a produção de conhecimento, entendendo que tal produção não se encontra desconectada da própria invenção de outros modos de existência. A cartografia apresenta-se como uma forma distinta de se posicionar em relação ao campo, à fabricação de problemas e de sentidos possíveis, contingentes e provisórios, sem, no entanto, perder “(...) a coerência conceitual, a força argumentativa, o sentido de
utilidade dentro da comunidade científica e a produção de diferença” (Kirst, Giacomel,
Ribeiro, Costa & Andreoli, 2003).
Além disso, produzir uma cartografia dos encontros com determinado campo, aponta-nos para a contiguidade da constituição dos processos macro e micropolíticos. O olhar cartográfico possibilita reflexão daquilo que se está engendrado intensiva e extensivamente, do mapa e do decalque. No plano da pesquisa acadêmica, auxilia na produção de um olhar que distingue formas já postas e forças/fluxos de ruptura e criação.
Entender o rizoma como um antimétodo e a cartografia como uma perspectiva não significa, no entanto, prescindir de prudência nas experimentações. Ao contrário. Trata-se de buscar uma avaliação imanente, discernindo os encontros estéreis dos fecundos e estando atento aos signos que nos coagem a pensar aquilo que ainda não
pensamos (Zourabichvili, 2004). Para tanto, parte-se de um paradigma ético-estético- político em contraposição a um paradigma cientificista.
As questões que se delineiam, neste caso, são distintas daquelas baseadas na concepção clássica de ciência. Não nos perguntamos sobre “A Verdade”, nem sobre regras universais e abstratas, tampouco interessa-nos defender uma postura de neutralidade em relação ao objeto pesquisado. Adotamos um posicionamento que afirma o movimento de expansão da vida e da produção de outros mundos possíveis a partir da potencialização de processos de subjetivação singulares.
Intentar criar uma pesquisa-rizoma e cartografar seus encontros e efeitos exige de nós uma postura de abertura em relação aos afectos e perceptos17 que, concomitantemente à produção do objeto, produzem também a figura do cartógrafo. Além desse estado de abertura, que nos remete a criação de um corpo sensível e poroso às intensidades, captando as forças do mundo e recusando totalidades perceptivas (Amador & Fonseca, 2009), a prática cartográfica necessita também de um exercício de atenção e cognição singulares.
Virgínia Kastrup (2007b) lembra que, por ser uma perspectiva que não tem como objetivo a representação de um objeto, mas o acompanhamento de trajetórias e processos, o funcionamento da atenção ocorre mediante a detecção de signos e forças circulantes e através de operações de rastreio, toque, pouso e reconhecimento atento.
Essas “quatro variedades do funcionamento atencional” (Kastrup, 2007b, p.18)
dão-nos pistas acerca do trabalho da cartografia. Em um primeiro momento, no rastreio, a atenção é aberta e sem foco, buscando um rastreamento e exploração assistemática de todo o campo, seus movimentos e variações. Em seguida, há a irrupção de algo que se
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Importante ressaltar, contudo, que ao falarmos de afectos e perceptos não estamos nos referindo a sentimentos privados e subjetivos, mas a blocos de sensações pré-individuais, que se põem de pé por si mesmos (Deleuze & Guattari, 1992).
diferencia (um elemento-força heterogêneo) e dispara um processo de seleção pela atenção. Seleção esta que acontece de modo involuntário e não por deliberação do cartógrafo. Pensando a partir de uma metáfora topológica, é como se nos deparássemos com um profundo abismo ou ainda um pequeno riacho, que não sabíamos que ali estava e que nos mobiliza a conhecer melhor.
De acordo com a autora, esta etapa, do toque, pode demorar a acontecer e possuir variações na intensidade, mas tem uma importância essencial no processo da pesquisa e indica que esta, em concordância com o pensamento-rizoma, tem múltiplas entradas e não segue uma linearidade teleológica. Há rigor, mas também há imprevisibilidade na produção do conhecimento.
A etapa do pouso assinala uma modificação a partir da delimitação de um novo território no qual se focará a atenção. Redimensionado e reconfigurado este campo, há, então, o reconhecimento atento. Kastrup adverte-nos que, neste momento corre-se o risco de retornar ao regime da recognição ao indagarmos: o que é isto? no anseio de capturar aquilo que aparece como novo e estranho em modelos já conhecidos. Ela diz:
A atitude investigativa do cartógrafo seria mais adequadamente formulada como um ‘vamos ver o que está acontecendo’, pois o que está em jogo é acompanhar um processo, e não representar um objeto. É preciso então calibrar novamente o funcionamento da atenção, repetindo mais uma vez o gesto de suspensão (Kastrup, 2007b, p.20).
Assim, embora apresentada em linhas gerais, a reflexão que a autora convoca-
nos a fazer aponta para o aprendizado e a ativação de uma “atenção à espreita –
flutuante, concentrada e aberta” (Kastrup, 2007b, p.21), ligada a um modo outro de desenvolver o processo de investigação. A partir de uma política cognitiva construtivista compreende-se que, desde a entrada no campo, há produção de dados no
encontro entre pesquisador e território, possibilitando a emergência e atualização daquilo que se encontrava como virtualidade e eclode como invenção.
Dentro desta perspectiva, podemos compreender melhor o processo de constituição deste trabalho, que não se construiu de modo linear, mas foi se configurando a partir do próprio movimento da pesquisa. De início, nosso foco era investigar as conexões que estavam sendo feitas entre saúde mental e arte no processo de Reforma Psiquiátrica em Fortaleza. Esta parecia-nos ser uma questão pertinente, tendo em vista a discussão que tem sido produzida nacionalmente, originando articulações entre os Ministérios da Saúde e da Cultura, além da ampla literatura que afirma a arte como vetor de subjetivação. Além disso, certas especificidades locais, tais como: a articulação recente da rede de serviços substitutivos e o fomento a ações e projetos culturais por parte da gestão municipal atual, pareciam-nos apontar para a relevância deste debate dentro do contexto da cidade.
Ao aproximarmo-nos do campo, contudo, percebemos que, para além daquilo que já sabíamos, outros processos ganhavam força e demandavam uma maior reflexão e problematização. Estes poderiam até englobar nossas primeiras inquietações, mas as ultrapassavam. Seguimos, pois, a advertência de pôr nossa atenção em suspenso e procuramos observar os jogos de força, os tensionamentos e rupturas, buscando produzir um decalque e uma cartografia possível relativa à produção da Estratégia de Atenção Psicossocial no agenciamento Reforma Psiquiátrica em Fortaleza, tomando como foco o desenvolvimento de articulações na dimensão sociocultural deste processo. A partir da noção de rede como analisador, buscamos acompanhar algumas formas e movimentos, em níveis de análise macro e micropolítico, que estão sendo produzidos neste arranjo.
Perguntamo-nos, então: que linhas estão constituindo este agenciamento? Quais os seus nós e estrangulamentos? Onde estão suas fissuras? Que fios podemos desembaraçar e ligar a outras questões na invenção de outros possíveis? Que precauções tomar para que o rizoma não vire árvore, para que a rede não perca sua potência de conexão e para que a pesquisa não vire recognição?
(...) Partir do meio, pelo meio, entrar e sair, não começar nem terminar. (...) É que o meio não é uma média; ao contrário, é o lugar onde as coisas adquirem velocidade. Entre as coisas não designa uma correlação localizável que vai de uma para outra e reciprocamente, mas uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio (Deleuze & Guattari, 1995, p.37).