BÖLÜM 6 SONUÇ VE ÖNERİLER
6.1. Araştırma Bulgularına Göre Öneriler
O Programa Mediação de Conflitos começa a ser executado pela Secretaria de Estado de Defesa Social/MG em 2005, ainda nos moldes dos Núcleos de Mediação e Cidadania do Programa Pólos 38. Contudo, tal experiência passou por reformulações em função das diretrizes da política de prevenção à criminalidade do Governo do Estado de Minas Gerais 39.
38 Em virtude da opção teórico-metodológica adotada, não trabalharemos com os modelos de análises de
políticas públicas, mesmo sabendo da importância dos mesmos para o tema em tela. Salientamos que tal perspectiva analítica poderá certamente ser objeto de uma pesquisa/trabalho futuro. Destacaremos somente o quão importante e influente foram dois atores no processo de absorção do Núcleo de Mediação e Cidadania pela Secretaria de Estado de Defesa Social – com o nome de Programa Mediação de Conflitos. Vinda da universidade, destacamos especialmente uma das idealizadoras do Programa Pólos de Cidadania, já citada ao longo do texto, a entrevistada Miracy Gustin. Quando pensamos em quadros político-partidários e técnicos, destaca-se a atuação de um dos principais gestores do governo do estado de Minas Gerais, o hoje Governador, Antônio Anastasia, que à época liderou a campanha e o modelo de gestão do ex-governador Aécio Neves. Além disso, Anastasia durante o período de 2005 ocupava o cargo de Secretário de Estado de Defesa Social (SEDS), acumulando a função de Secretário de Planejamento e Gestão (SEPLAG).
39 A política de prevenção à criminalidade em Minas Gerais começa a ser desenvolvida pela antiga
Superintendência de Prevenção à Criminalidade (SPEC) que, atualmente, é denominada Coordenadoria Especial de Prevenção à Criminalidade (CPEC). Tal órgão teve sua criação determinada pela Lei Delegada 56 – Resolução 5210 de 12 de Dezembro de 2002, tendo sido instituído no organograma da Secretaria de Estado de Defesa Social/SEDS do Governo do Estado de Minas Gerais, com o propósito de “trabalhar com a devida importância as propostas de prevenção social à violência urbana e implantar no campo das políticas públicas este novo paradigma, de pensar a segurança pública como política social que garanta em primeiro lugar a qualidade de vida de todos” (LEITE, 2007: 10).
Tal política, naquele contexto, estava sendo pensada como uma das principais linhas de intervenção do governo Aécio Neves 40 em virtude do elevado índice de homicídios no Estado de Minas Gerais. O governo entendia que os homicídios não poderiam ser tratados somente pelo aparato das instituições policiais e do sistema de justiça tradicional, sendo necessária a criação pelo Poder Executivo, na área de segurança pública, de programas de prevenção social e situacional à criminalidade. A estratégia era fazer com que tais medidas prevenissem o fenômeno da violência, a partir da priorização da cidadania e da participação da população na solução de seus problemas (Plano Estadual de Segurança Pública, 2003) 41.
Segundo Santos (2007), no primeiro ano de gestão do Programa Mediação de Conflitos, de 2005 a 2006, a sua execução foi realizada de modo compartilhado entre o Programa Pólos de Cidadania e a Secretaria de Estado de Defesa Social; sendo que a coordenação gerencial-técnico-administrativa competia ao Estado, e a coordenação metodológico-formativa à Universidade.
A partir do ano de 2006, segundo Leandro e Cruz (2007), o programa passou a ser coordenado integralmente pelo Estado – gerenciamento administrativo, técnico, teórico, metodológico, metas, resultados, entre outros. Para as autoras, ao ser gerenciado pela Secretaria de Estado de Defesa Social, o programa deixou de ter vínculos metodológico- formativo e de coordenação com o Programa Pólos de Cidadania. Houve, então, uma “separação” do programa estatal com os Núcleos de Mediação do Programa Pólos de Cidadania. Este último passou a gerenciar somente dois Núcleos, passando os demais a serem denominados Programa Mediação de Conflitos.
Salientamos que os dados da pesquisa são insuficientes para compreender as motivações dessa “separação”, não sendo possível tornar evidente o que levou o Programa Pólos a gerenciar somente dois Núcleos e os demais terem ficado a cargo do governo do
40 Governador do Estado de Minas Gerais/PSDB durante dois mandatos: 2003-2006 e 2007-2010.
41 Nesta pesquisa não nos ateremos aos demais programas que compõem a política de prevenção à criminalidade,
Estado. Observamos, contudo, que tal separação foi brusca e confusa. A fala da entrevistada demonstra que, mesmo com a ruptura, os programas se mantiveram em funcionamento, mas tornaram-se também visíveis as suas diferenças em termos de proposta formal e ideológica.
(...) então houve essa ideia, de ter Núcleos de Mediação [do Programa Mediação de Conflitos] 42, aquele gérmen acho que permaneceu, e começou essa coisa de formar
Núcleos próprios dentro da SEDS (...) quando se transformou na Secretaria de Defesa Social, eu achei que o Pólos não deveria continuar lá, pois o Núcleo de Direitos Humanos estava na SEDESE43, então não dava para continuarmos na nova secretaria, pois não tinha Núcleo de Direitos Humanos por lá, então a relação ficou com a SEDESE, ficou uma coisa meio confusa (...) os Núcleos da SEDS tem esse recurso permanente, o Pólos como programa tem uma proposta em termos teóricos e ideológico mais segura, mais ampla, e eu acho que os Núcleos da secretaria nessa coisa da teoria da emancipação eles de certa forma perdem com isso, por serem formalizados, estarem numa estrutura formal, ao mesmo tempo em que tem um financiamento assegurado, e o Pólos não, essa estrutura teórico-ideológica emancipatória ela é mais estrutural do Pólos, mas ao mesmo tempo ela caminha com muita dificuldade, todos os dias a gente leva um baque (...) (Miracy Gustin).
Outro aspecto destacado pela entrevistada tem relação com a alteração da vinculação do Programa Pólos de Cidadania com o Poder Executivo Estadual. Como vimos, o Pólos iniciou sua parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte por meio da Coordenadoria de Direitos Humanos, depois com a proposta dos CRCs se vinculou a antiga Secretaria de Justiça de Direitos Humanos e quando a proposta de um programa “de mediação” tomou grande amplitude – se tornando Programa Mediação de Conflitos – ficou evidente a mudança para a área da segurança pública, perdendo os vínculos com a política do Estado de Direitos Humanos. Este nos pareceu ser um dos possíveis motivos/elementos que justificaria a desvinculação da universidade com o Estado, mas, não podemos com os dados que possuímos afirmar que esta “separação” foi em decorrência desta situação apresentada.
42 Acrescentado por mim para tornar a citação mais clara ao leitor.
43 Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, responsável pela política de direitos humanos do Governo do
A partir de 2007 o Programa Mediação de Conflitos expandiu-se progressivamente no âmbito do Estado de Minas Gerais, mantendo sua coordenação pela Secretaria de Estado de Defesa Social. Entre 2007 e 2011, o programa passou a atuar em 24 (vinte e quatro) localidades 44. Tal expansão pode ser visualizada no Gráfico 1.
Gráfico 1 – Expansão dos Centros de Prevenção à Criminalidade Programa Mediação de Conflitos
(2005-2011)
Fonte: Relatórios do Programa Mediação de Conflitos. Diretoria do Núcleo de Resolução Pacífica de Conflitos – CPEC/SEDS.
Segundo Leandro e Cruz (2007), o programa tem o objetivo de empreender ações de mediação de conflitos, orientações sociojurídicas, articulação e fomento à organização comunitária, valorizando o capital social. Constituindo-se como um equipamento público de construção da cidadania, considerado uma forma de acesso à Justiça e de resolução pacífica de conflitos. O que se confunde, em certa medida, com as perspectivas dos idealizadores da proposta de origem.
Analisando os documentos referentes à metodologia do Programa Mediação de Conflitos, verificamos, contudo, algumas mudanças de conceitos e formas de intervenção em
44 As características das regiões/localidades em que o programa atua e as especificidades de
funcionamento/execução do mesmo serão abordadas no Capítulo 2.
15 17 19 22 24 24 24 0 5 10 15 20 25 30 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 Numeros de Centros de Prevenção à Criminalidade
sua estrutura 45. Verifica-se, por exemplo, o incremento de conceitos oriundos dos estudos de políticas públicas, em especial, sobre segurança pública com cidadania, mediação de conflitos, prevenção às violências, entre outros. Os conceitos do Programa Pólos, no entanto, permanecem no escopo teórico do Programa estatal. Outro ponto de continuidade visualizado, principalmente na fala dos entrevistados são aspectos relacionados a crenças e valores; e em alguns relatos se evidencia elementos “ideológicos” dos profissionais nos trabalhos/prática desenvolvida. Conforme pode ser percebido nos trechos abaixo.
(...) eu escolho um lugar profissional que condiz com valores meus (...) valorizando o outro, respeitando o outro, nas relações, respeitar as pessoas seja de onde ela vem, isso o Programa me ajuda, reforça isso nas minhas relações com meus superiores, com meus pares, com meus familiares, é claro que, nada é no nível do ideal como eu gostaria, mas eu tento transportar isso do ideal do meu trabalho como ideal de vida. (...) O ideal da proposta de trabalho foi o que me levou a querer fazer algo com relação às injustiças sociais, pelos quadros de desigualdades no país e pelas violações de direitos. Esse foco do Programa, de caráter interdisciplinar, de direitos humanos, no sentido humanitário, que considera as pessoas e as subjetividades, um trabalho humanizado, pela sua forma de intervir na realidade. É, acho que tem um pouco a ver com isso... (Supervisão do Programa Mediação de Conflitos).
(...) quando eu chego à mediação numa perspectiva de direitos, em mobilizar pessoas em prol de objetivos comuns, isso toca um lado meu... e tem a questão política, eu gosto muito de política né, não é política partidária desse jeito solto assim não... é das pessoas poderem conversar em prol dos seus direitos, para resolver as coisas em conjunto, isso é algo que mexe muito comigo. E trabalhar na minha região, isso é algo que me motiva a ficar, vê as coisas melhorando sabe, hoje eu trabalho, mas também moro na região, e quando eu vejo que faço algo pela comunidade, e que a comunidade tem livre arbítrio (...) vejo que estou contribuindo de alguma forma (Mediador L.).
45 Essas modificações podem ser vistas nos seguintes documentos: ENTREMEIOS: Mediação, prevenção e
cidadania (2007); PROGRAMA MEDIAÇÃO DE CONFLITOS (2009); MEDIAÇÃO E CIDADANIA: Programa Mediação de Conflitos (2010); PROGRAMA MEDIAÇÃO DE CONFLITOS: uma experiência de mediação comunitária no contexto das políticas públicas (2011).
Os trechos demonstram como são variadas as formas como os profissionais explicam a sua vinculação ao Programa Mediação de Conflitos; apresentando aspectos relacionados, em especial, às crenças e valores, como por exemplo: “ideal de vida”, “de respeito” e “de participação política” 46. Mesmo que o Programa Mediação de Conflitos tenha se tornado uma
ação distinta da configuração mais fortemente ideologizada do Programa Pólos de Cidadania, alguns dos pontos daquele contexto aparecem como elementos centrais na experiência do Programa na atualidade; tendo sido evidenciados com muita intensidade na fala dos profissionais entrevistados. Até aqui, vimos os principais fatores que contribuíram para a construção/percurso da experiência em análise. Em seguida, passamos à tentativa de compreender alguns elementos que influenciam o contexto brasileiro e as práticas consideradas de acesso à Justiça para a população de baixa renda, que guardam relação com a metodologia adotada pelo Programa Mediação de Conflitos.
1.2. Concepções sobre o acesso à Justiça e os mecanismos de administração de