5. ARAÇ ROTALAMA PROBLEMİ
5.1 Araç Rotalama Problemi ile İlgili Literatür Araştırması
Existe uma contradição que a leitura conjunta dos romances-testemunhos de Herbert Daniel expõe: se por um lado o autor rejeita a identidade nuclear, indivisa, o método escolhido para demonstrar foi o autobiográfico. A narrativa de Passagem... não é a mais ostensiva desse fato, pois o romance seguinte é praticamente uma versão ampliada do livro anterior. A autobiografia como retrato do eu é uma noção bastante problemática por si mesma, principalmente porque o acesso a esse eu é mediado pela linguagem. O recurso do autor pode ser considerado como uso estratégico das identidades em alguns sentidos.
O primeiro sentido, e o mais evidente, é que se posicionar como “o homossexual” para poder falar sobre o assunto às vezes é a melhor maneira de se atingir um propósito mais vasto, como iniciar uma discussão séria sobre o tema. “Mobilizar o erro necessário da identidade”, afirma Judith Butler, “sempre estará em tensão no debate democrático, que trabalha contra sua implantação em regimes racistas e misóginos.72” No contexto dos romances, a experiência de um opositor à ditadura que também “era” homossexual foi uma forma de conscientizar parte da esquerda mal resolvida com as questões sexuais, de apontar as várias facetas de repressão da época e mesmo de criticar o papel aceito pelas pessoas homossexuais diante do discurso do poder. Assim, de forma estratégica, era preciso falar como homossexual, na falta de terminologia mais exata, para não compactuar com o silêncio e para promover transformações. A atuação de Daniel na luta contra o preconceito aos portadores de AIDS também se dá por esses mesmos motivos. Numa época em que a doença era vista como a vingança da natureza (...ou Deus) contra os “excessos” da liberdade sexual, afirmar-se soropositivo era, antes de tudo, um gesto político coerente com os posicionamentos do autor.
O segundo uso estratégico diz respeito a um mecanismo ficcional que dialoga de frente com o gênero autobiográfico. Daniel não apresenta, nesses livros, nenhuma narrativa comprometida em expor a verdade do indivíduo e sua identidade, isto está afirmado textualmente nos livros, e não só recusa explicitamente a autobiografia como inclui no texto passagens ficcionais, nomes trocados, contos, poemas, mas também exclui do texto, ou minimiza, fatos do conhecimento comum. A passagem do autor e seu papel nos grupos revolucionários como a VPR são narrados sem que o leitor tenha ideia, por exemplo, que Daniel era um de seus líderes; e nos sequestros dos quais fez parte, evita recriar as cenas em
72 BUTLER, Judith. Bodies that mater: on the discursive limits of “sex”. New York: Routledge, 2011. p. 174.
No original: “But the necessity to mobilize the necessary error of identity (in Spivak’s terms) will always be in tension with the democratic contestation of the term which works against its deployments in racist and misogynistic regimes.”
detalhes realistas para causar impacto, prefere narrar de modo elíptico e irônico. A verdade da autobiografia é, assim, comprometida por um narrador que é ele mesmo um nome entre outros nomes, uma personagem de romance que narra sua história de vida. Esse borrão na fronteira entre fato e ficção equivale a fazer do narrador não o transmissor de experiência, mas também ele um efeito da experiência. A identidade do eu é precária, portanto, porque ela é consequência da ficção. O homossexual, o guerrilheiro, o último exilado são tão nomes de guerra quanto “Herbert Daniel” o é. Seus romances-testemunhos não reforçam a ideia de uma consciência completa nem de um saber revelados pelo texto: o segredo da ficção continua se produzindo73, conforme expressão de Derrida para definir a literatura.
Seus artigos sobre a AIDS possuem um propósito bastante diverso do ficcional e iniciam uma nova etapa na carreira do escritor, na qual abandona a ficção. A experiência da doença surge numa perspectiva militante, do mesmo molde que o ensaio incluído em Jacarés
& lobisomens. Apesar de determinado por uma motivação biográfica (a homossexualidade no
último exemplo, e a AIDS no primeiro), o tratamento textual é informativo e especulativo, como o ensaio, ao invés de ficcional74.
Um dos testemunhos mais intensos e assombrosos surgidos na época em questão é o narrado por Luiz Roberto Salinas Fortes em Retrato calado, publicado em 1988. O conteúdo do livro é o período em que o autor esteve preso e foi torturado na década de 70. É tropeçando que se deve afirmar a qualidade dessa narrativa, pois como não julgar aquele que julga o relato inominável da tortura com critérios estéticos? O livro apresenta, assim, um saber sobre o qual era preferível se manter ignorante, mas que, diante da existência e da prevalência das atrocidades perpetradas pelo Estado, se apresentam como um saber necessário. O posfácio de Antonio Candido é muito lúcido e bem realizado, na medida em que ele não se esquiva de fazer uma leitura também do material textual75. A diferença muito evidente com os relatos de Herbert Daniel é que estes se dedicam a acompanhar a vida do autor como personagem, e não os momentos isolados e excepcionais, mesmo que o interesse por trás da divulgação dos seus livros tenha sido causado pelos aspectos notáveis de sua biografia. O testemunho de Fortes, por outro lado, causa um golpe mais contundente na perspectiva da crítica porque o extraliterário é tão excessivo que pode controlar a avaliação literária do texto. Não se pode
73 DERRIDA, Jacques. Paixões. Tradução Lóris Z. Machado. Campinas: Papirus, 1995, p. 46-51 e 61-62. 74 Não é tão simples definir limites entre gêneros textuais. Cf., a título de exemplo, SCHNAIDERMAN (2009), a
respeito desses limites no texto de um dos nossos mais importantes ensaístas, Antonio Candido. O caso dos textos de Daniel escritos depois da descoberta de sua condição sorológica têm os objetivos patentes de esclarecer sobre a doença, discutir seu significado social e as descobertas científicas, que, em certo sentido, atenuam os dados autobiográficos presentes nesses ensaios.
negar a obscenidade que é avaliar um relato pessoal de tortura, mas para a crítica literária interessada no testemunho ou nos registros biográficos que exprimem situações extremas, o material extraliterário que suporta o texto, com sua carga de demasiada realidade, apresenta um problema a ser respeitado. O relato de Daniel facilita enxergar esse problema porque ele subverte tanto o gênero do relato negando a si mesmo estatuto de verdade, quanto apresenta a homossexualidade como dado inerente à sua história. Chama seu testemunho de romance e seu romance, de autobiográfico, e inclui no seio da luta armada, cujo imaginário se nutre de um ideal masculino e masculinizante, um homem gay.
Recuperar o passado através da memória, se ainda existe dúvida quanto a esse projeto, se torna uma atividade incessante e repetitiva, não mais intocável, e isto se reflete na prática teórica que usa esses textos como objetos. Green e Quintalha, escrevendo para a Comissão Nacional da Verdade, afirmam que a Anistia Internacional “demorou para entender que a defesa da comunidade LGBT, vitimizada pela repressão do Estado, fazia parte de sua missão76”, e apresentam uma série de recomendações, entre elas a “construção de lugares de memória dos segmentos LGBT ligados à repressão e à resistência durante a ditadura” e reparar “[as] pessoas LGBT perseguidas e prejudicadas pelas violências do Estado.77” Estas observações são possíveis por causa de um levantamento histórico, mas, podemos perguntar, em que medida a ficção brasileira durante e após a ditadura é importante para a causa defendida por esses pesquisadores? Também pode-se perguntar, de modo menos abrangente e mais programático, sobre como a literatura brasileira trabalha o luto dos anos de repressão. A referência imediata ao livro de Idelber Avelar (2003) se estende a estudos como os de Regina Dalcastagnè (1996) e Jaime Ginzburg (2012), sobre a ficção no período ditatorial, mas ela também diz respeito à produção literária a partir dos anos 90 até o presente século. Enfim, o que nos resta de memória da ditadura, hoje?
Um levantamento válido digno de nota foi o realizado pela própria Dalcastagnè dos romances publicados pelas maiores editoras brasileiras entre 1990 e 2004. Nele a autora aponta, dos 258 romances avaliados, alguns dados (dos quais destaco três): a maioria das personagens desses romances é homem (62,1%), branco (79,8%) e heterossexual (81%)78.
76
GREEN, James N.; QUINALHA, Renan (Org.). Ditadura e homossexualidades: repressão, resistência e a busca da verdade. São Carlos: EdUFSCAR, 2014, p. 303.
77 Ibid., p. 318-319.
78 DALCASTAGNÈ, Regina. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. Vinhedo: Editora
Horizonte/ Rio de Janeiro: Editora da Uerj, 2012, p. 147-196. O levantamento é abrangente, inclui desde dados sobre os escritores até profissão das personagens, religião, faixa etária etc. Contudo, é circunscrito a três editoras econômica e prestigiosamente relevantes do período. Por esse motivo, o resultado diz respeito apenas à parcela hegemônica do mercado editorial.
Uma das conclusões da autora, depois de estudar esses números, é que “nossa literatura apresenta uma perspectiva social enviesada, tanto mais grave pelo fato de que os grupos que estão excluídos da voz literária são os mesmos que são silenciados nos outros espaços de produção do discurso79”.
Os dados coligidos e analisados por Dalcastagnè confirmam, entre tantas outras, a suspeita de que o trabalho de recuperar o passado pela memória, em toda sua nobreza, é um trabalho de Sísifo. Terá poucas chances de corresponder às suas intenções sem ouvir as vozes das minorias políticas e sociais que também foram reprimidas pela ditadura e se não explorar as consequências e o significado desse estado de exceção para a sociedade atual. Se o romance contemporâneo, a partir da última década do século XX, ainda toma o lugar de fala hegemônico, a reparação pela memória é infelizmente um projeto cuja falência começa no recorte privilegiado assumido pelos autores80. Nesse sentido, estas palavras de Herbert Daniel, dirigidas aos leitores de seu livro há mais de três décadas, são mais pertinentes do que nunca: “A hora ainda não chegou de autobiografias; preparemos hipóteses para autocríticas81.”
79 DALCASTAGNÈ, op. cit., p. 193.
80 Cf. LÍSIAS, Ricardo. Dez fragmentos sobre a literatura contemporânea no Brasil e na Argentina ou de como
os patetas sempre adoram o discurso do poder. In: TELES, Edson; SAFATLE, Vladimir (Org.). O que resta da
ditadura: a exceção brasileira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 319-28.
81 DANIEL, Herbert. Passagem para o próximo sonho: um possível romance autocrítico. Rio de Janeiro:
CAPÍTULO CINCO
5.1. Introdução
Com Caio Fernando Abreu entramos numa seara muito mais densa, porque autor bastante lido, consequentemente muito estudado, e alçado à fama dúbia de ser citado com frequência, nem sempre da maneira literal, em páginas pessoais internet a fora. A entrada de Abreu no cânone é resultado dos anos de 1990. Como afirma Italo Moriconi1, as pesquisas realizadas por brasilianistas no exterior logo foram percebidas por nossa academia e uma série de trabalhos sobre o autor, notadamente discutindo homossexualidade, entrou em cena. A popularidade atual dos livros de Abreu também é um fator importante, pois nem todo autor bem avaliado pela crítica universitária pode se gabar de ser bem aceito por leitores em geral. A excelente recepção acadêmica de Caio F., na perspectiva dos estudos gays, lésbicos e queer, se dá sob o índice da falta. A ideia é que existiria pouca literatura digna do nome produzida sobre homossexualidade no Brasil, e o surgimento da obra de Caio Fernando Abreu supre essa falta por oferecer uma literatura da homossexualidade de “alto nível”. Sem dúvida, essa ocorrência demonstra a relativa novidade dos estudos literários dedicados à homossexualidade em nossa academia, mais do que verdadeira falta de bons escritores e escritoras sobre o assunto ou, São Foucault nos ajude, pura preguiça dos acadêmicos. Se estudos feministas ainda são questionados sobre sua validade epistemológica, assim como os estudos culturais ainda precisam se defender de críticas estereotipadas, as pesquisas sobre homossexualidades e literatura não poderiam deixar de enfrentar resistências. Ao oferecer uma obra literária plenamente consciente, exponencial diante da tradição e sintonizada com a contemporaneidade, Caio F. haveria de possuir um lugar privilegiado em nossa mitologia da literatura da homossexualidade.
É indiscutível o tratamento da temática homossexual em seus livros, embora com igual frequência o autor aponte para uma rasura na concepção de identidade gay, ampliando os horizontes para algo mais precioso que a fixidez imposta pela identificação. Uma das características mais fortes da qualidade de sua prosa é fugir da descrição para atingir maior alcance. Assim, operando sob uma atmosfera intimista e subjetiva, sua prosa lança dardos muito contundentes sobre a situação política e histórica do país, sem apelar para quadros realistas e representações convencionais. A versão clariceana da literatura tem, em Caio Fernando Abreu, um mestre singular. Há o cuidado laborioso de apresentar
1 MORICONI, 2006. Disponível em: http://www.cronopios.com.br/V1/cronopios_responsive/
uma cadência de prosa calcada no coloquial, apropriando-se do repertório melodramático e afetivo da experiência comum que, ao invés de soar familiar, inquieta por sua novidade. Não é o estranhamento dos formalistas, mas uma prosa construída na sutileza para desbaratar certezas, promover novas miradas e afetar o leitor com aquele cotidiano invisível, porque tão saturado de presença, oferecendo-se novamente ao olhar. Uma prática estilística corrente em sua obra, nesse sentido, é a citação de clássicos do cancioneiro popular e de sucessos recentes da MPB ao longo dos textos, ou como epígrafes, buscando causar no leitor tanto empatia e engajamento, quanto familiarizar a leitura. Essa capacidade de convocar os leitores a participar da produção de significado com suas próprias memórias e sensações é uma das qualidades mais notáveis de sua obra.
O intimismo de muitos de seus contos e romances permite, assim, camadas de leituras diversas, que atenderão aos apelos ora afetivos, ora políticos, de seus intérpretes. Sua eleição ao cânone gay da literatura ocorre por ambos os motivos, pois, ao oferecer um substrato fértil para a interpretação de víeis homoerótico, a obra do autor responde tanto aos motivos políticos de quem estuda a homossexualidade, quanto aos critérios estéticos dos estudiosos de literatura. Isto corresponde, de fato, a qualquer autor alçado a esse cânone, mas, no caso de Caio F., agem também em seu favor a popularidade e a contemporaneidade de sua prosa, capazes de atender às nossas preocupações mais imediatas.
Não devemos nos ocupar do problema taxonômico da expressão “literatura gay”, de resto já discutido na primeira parte desta tese, mas aceitá-la na medida em que ela propõe um problema à sua compreensão. Isto é, o fato de que nem sempre é de homossexualidade que o autor fala quando põe em cena homens interagindo entre si. Antes ainda, sua prosa refutaria a identidade subjacente ao termo “literatura gay” quando a leitura oferece muito mais apoio à contestação da norma heterossexual do que afirmação e visibilidade políticas da homossexualidade. Neste capítulo, leremos os contos “Terça-feira gorda” e “Aqueles dois”, do livro Morangos mofados (2005), cuja primeira edição foi em 1982. São textos muito conhecidos e bastante analisados pela crítica, portanto, ao invés de apresentar uma leitura repetitiva de alguns de seus aspectos, procurarei problematizar as conclusões mais gerais a respeito deles. Não reclamo nenhuma originalidade, pelo contrário, mas tentarei organizar minhas observações sobre os contos de acordo com a questão levantada nesta tese sobre o ethos homossexual.