O ponto de virada da opinião pública em relação às operações norte- americanas no Iraque e no Afeganistão também foi influenciado pela mídia290. Destacaremos, primeiramente, dois grandes documentários que criticaram as operações. Em 2004, os filmes Fahrenheit 9/11, produzido por Michael Moore, e The Power of Nightmares, produzido por Adam Curtis, da BBC, exploraram fatos que colocaram em dúvida a guerra contra o terror.
Fahrenheit 9/11, distribuído em 39 países e com arrecadação de aproximadamente 222 milhões de dólares291, certamente impactou a opinião pública dos Estados Unidos. Mas não foi o suficiente para impedir a reeleição de George W. Bush, em 2004. O documentário foca a administração Bush desde sua eleição até sua decisão de guerra contra o terror.
O documentário, também lançado no Brasil, foi citado no Caderno 2, editoria de cultura do OESP. A matéria relata o crescimento de bilheteria do documentário e a intenção de pelo menos 48% dos norte-americanos de assistirem a Fahrenheit 9/11 em 2004. Com o título Sucesso de Fahrenheit 9/11 preocupa republicanos, a matéria não indica que o documentário impactaria fortemente as eleições norte-
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Também devemos destacar que os custos da guerra e a crise econômica norte-americana favoreceram esse ponto de virada na opinião pública. Vários fatores que fogem do nosso escopo de trabalho contribuíram para a retirada gradual das tropas norte-americanas no Iraque e no Afeganistão.
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americanas, o que realmente se comprovou. A impressão negativa causada à imagem de George W. Bush não foi suficiente para impedir sua reeleição. E a guerra no Iraque prosseguiu.
Para nosso estudo, atentamos ao fato de que o documentário e suas informações não foram debatidas profundamente em outros cadernos. Na verdade, os documentários produzidos por Michael Moore parecem não ter grande credibilidade para o jornal OESP. Em uma busca no histórico de matérias do veículo encontramos os seguintes títulos de matérias que retratam o documentário Fahrenheit e seu diretor, Michael Moore:
Sob vaias, Michael Moore cobre a festa de Bush (publicado em 31/08/2004). Um idealista e um sonho morreram no Iraque (publicado em 03/05/2010).
Moore oferece US$ 20 mil para criador do WikiLeaks (publicado em 16/12/2010)
Filmes interessantes, mas nenhuma obra-prima sobre o 11 de setembro (publicado em 03/09/2011).
Em 2004 também foi lançado outro documentário que retrata as intervenções norte-americanas. No entanto, este documentário tem um grande enfoque na linha de pensamento neoconservadora. Enquanto Fahrenheit 9/11 aborda um aspecto econômico da guerra demonstrando as ligações entre a guerra contra ao terror e os lobbies norte-americanos nas indústrias de armamento e petróleo, o documentário “O poder dos Pesadelos” (The Power of Nightmares) relata a ideologia por trás das ações da administração Bush.
O documentário descreve a origem do movimento neoconservador, com uma tentativa de vincular o neoconservadorismo aos pensamentos do filósofo político Leo Strauss. Mesmo que esta ligação não entre no debate acadêmico, o documentário
coleta entrevistas com pensadores neoconservadores. É possível observar claramente citações ao pensamento de Strauss.
Documentários como estes que estudamos possuem grande conteúdo crítico à política externa norte-americana, revelando uma face da guerra que por muitas vezes passou despercebido. No entanto, percebemos que estas obras não ganham grande destaque na mídia, com exceção do documentário Fahrenheit 9/11, que teve maior repercussão internacional.
No Brasil, encontramos no Caderno 2 do jornal OESP uma matéria que cita o Festival de Cinema de Tribeca. No final do texto estão registrados alguns destaques que concorriam ao prêmio. Interessante observar que o documentário The Power of Nightmares foi retratado como um documentário sobre o fundamentalismo islâmico. Na verdade, a maior parte do conteúdo do documentário é uma crítica ao neoconservadorismo.
O Guia da Folha, guia cultural da FSP, de março de 2006, também comenta o terrorismo representado em obras cinematográficas. Segundo Sandro Macedo, que escreveu para a publicação, os documentários estariam em sintonia com os
noticiários internacionais. De fato, desde as intervenções militares de 2004, conforme abordamos no capítulo II, os atentados terroristas aumentaram consideravelmente. Em 2006, o festival de documentários “É Tudo Verdade” também foi um indicativo deste aumento do tema terror e seu reflexo no cinema.
Ao final do caderno encontramos um breve resumo sobre o documentário “The Power of Nightmares”. Não é mencionado, porém, qualquer vínculo entre o documentário e os fundamentalistas muçulmanos (diferentemente do OESP) e nem a crítica ao neoconservadorismo presente no mesmo.
Analisando este conteúdo sobre a repercussão e sobre as percepções destes dois documentários segundo os jornais FSP e OESP, encontramos novamente uma
incompreensão sobre as forças profundas292 que motivaram a guerra e os atentados.
Os fatos políticos na relação Ocidente e Oriente são confundidos com o entretenimento. Por muitas vezes, o real se torna fictício e o fictício se torna real nesta falta de compreensão. No Brasil, isso se comprova através das formas que estes documentários de cunho político e crítico foram analisados como entretenimento pelo OESP e a FSP. Uma análise mais aprofundada e até mesmo crítica ao próprio documentário ficam restritas aos círculos acadêmicos e intelectuais.
Interessante destacar que o documentário Obsession radical islam's war against the West não foi citado em nenhum dos dois jornais ou na revista Veja. O documentário, que descreve o perigo do movimento radical, não teve grande repercussão internacional. Em um trecho do filme é realizada uma crítica a Michael Moore. Enquanto em suas palestras o diretor defende não haver um perigo terrorista, o documentário Obsession enfatiza o medo e o terror invisível presente no próprio Estados Unidos.
Além dos documentários, algumas obras cinematográficas com certa crítica à guerra contra o terror foram rodadas. A FSP citou o filme “Sob o Domínio do Mal” como um filme que contradiz a opinião pública sobre o neoconservadorismo no primeiro mandato de George W. Bush.
Figura 15 Ilustrada FSP 11/11/2004.
Além do filme Sob o Domínio do Mal. também foi lançado Guerra ao Terror (The Hurt Locker), em 2008. O filme foi vencedor de seis categorias do Oscar em
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Termo utilizado nas relações internacionais para designar uma motivação multifacetada. As relações culturais, as percepções de mundo e de razão de Estado podem ser consideradas como forças profundas nas relações internacionais.
2010. A película retrata a operação de uma equipe antibombas que atua no Iraque. A operação de desarmamento de IED (improvised explosive device), presente constantemente no filme, descreve a realidade enfrentada por soldados norte- americanos. Vale destacar, conforme abordamos no capítulo II, que a morte de soldados pela ativação de IED ou na tentativa de desarmamento corresponde a 37% do total dos mortos. Em 2010, o filme Zona Verde (Green Zone) demonstra o fracasso norte-americano na busca de armas de destruição em massa e as divisões de interesse dentro do próprio exército. O filme termina com um soldado divulgando a história para uma jornalista. A obra é inspirada no livro “Vida imperial na cidade esmeralda”.
Como descrevemos anteriormente estes filmes possuem também um conteúdo crítico. No entanto, por muitas vezes, são encarados como puro entretenimento. No caso dos documentários um problema é que eles não são amplamente consumidos pela população. As informações que os meios de comunicação fornecem são simplificadas e relativamente pequenas, o que facilita a compreensão do leitor e espectador. No caso dos documentários existe a necessidade de uma pré- disposição do espectador em selecionar o mesmo. Além disso, documentários são mais complexos e com duração bem maior se comparado aos noticiários. Compreendê-los exige tempo. Exibí-los nos canais de televisão é praticamente inviável.