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ANLAŞMANIN ŞAHSÎ OLDUĞUNU İSPAT YÜKÜ

GENEL İŞLEM ŞARTLARINDA ŞAHSÎ (BİREYSEL) ANLAŞMANIN MEVCUDİYETİNİ İSPAT YÜKÜ

4. GENEL İŞLEM ŞARTLARINDA ŞAHSÎ (BİREYSEL) ANLAŞMA VE İSPATI

4.3. ANLAŞMANIN ŞAHSÎ OLDUĞUNU İSPAT YÜKÜ

O sentido alegórico admite que aquilo que está escrito não é o que o autor pretende significar. Há um sentido além daquele que as palavras ou expressões a priori significam. Pode ser entendido simplesmente como uma metáfora, uma figura de linguagem que explica algo comparando com outro. A metáfora é um recurso próprio da língua e pode ser identificada no texto. No exemplo de Spinoza citado acima, “Deus é fogo” se tornou uma metáfora de “Deus é ciumento”, contudo o sentido literal foi mantido por Spinoza por não contradizer a história da Escritura. E assim, conforme explica Spinoza todas as expressões do tipo devem ser interpretadas. Na alegoria o próprio significado explícito ou literal é um símbolo daquilo que o autor quer significar. O texto se torna símbolo de símbolos.

Spinoza admite que esse sentido seja utilizado quando apesar de concordes com a razão, o sentido do texto sacro seja contrário aos princípios extraídos da Escritura. Nas palavras dele, caso ocorresse o contrário daquilo que se deu na citação anterior, a alternativa era a interpretação metafórica: "se, pelo contrário, víssemos que essas frases, interpretadas literalmente, repugnam aos princípios tirados da Escritura, ainda que elas concordassem totalmente com a razão, teríamos de admitir uma outra interpretação (isto é, um interpretação metafórica)" (TTP VII, 100, p. 118)

Assim, lei e palavra de Deus são expressões usadas “[...] metaforicamente para a própria ordem da natureza, o destino (na medida em que ele depende e decorre, na realidade, do eterno decreto da natureza divina), e em particular daquilo que dessa ordem os profetas previram [...]” (TTP XII 162, p. 201)

Para Spinoza, como vimos, a Escritura foi escrita conforme a capacidade do vulgo para torná-lo obediente e não sábio, assim nem todas as expressões que falam inadequadamente dos atributos de Deus devem ser interpretadas metaforicamente (apenas os especialistas conseguiriam fazê-lo) e também os autores sacros teriam evitado escrever de

uma maneira que dificultasse o entendimento do vulgo sobre os atributos de Deus (cf. TTP XII 172, p. 213).

Esse nível de interpretação pode dar margem à interpretação esotérica como a cabalística, a religiosa ou a filosófica. Spinoza não aceita qualquer interpretação esotérica da Escritura, nem a dos cabalistas nem a de Maimônides e tampouco a de Alpakhar38, que embora não seja explicitamente esotérica, também permite um tipo de intepretação metafórica. Os primeiros garantem encontrar nas letras da Escritura os mais secretos arcanos divinos, que apenas eles, os iniciados na divina ciência, conseguem decifrar. Maimônides (TTP VII 113-116, p. 133-136; TTP XV 181, p. 224) defende que as passagens mais obscuras da Escritura na verdade devem ser interpretadas segundo a filosofia, ou seja, que a Escritura deve submeter-se à razão. Alpakhar (TTP XV 181-185, p. 224-229), por outro lado, afirma que a Escritura deve ser interpretada apenas por ela própria e a razão deve se submeter aos ensinamentos da Escritura.

Aos cabalistas chama de brincalhões [nugatores] quando fala de que eles acreditam que a providência divina conservou intacta a Escritura e que até mesmo os seus acentos gráficos conteriam altos arcanos divinos e mistérios profundos nas variantes dos textos; que os cabalistas faziam contagens nos parágrafos e que se arrogavam únicos decifradores desses mistérios que para Spinoza seriam apenas delírios e especulações infantis (cf. TTP IX 135- 136, p. 164).

O autor do TTP diz que aqueles comentadores, ao tentar conciliar as contradições manifestas, expõem seus autores ao ridículo, como se eles não soubessem falar e nem expor em ordem aquilo que diziam. Tanto assim, que chegam a confundir e obscurecer até mesmo aquilo que é transparente na Escritura; negam os seus significados mais claros e evidentes, prostituindo os autores sagrados (cf. TTP X 147-148, p. 181).

Maimônides também defende que alguns poucos poderiam ter ciência dos conhecimentos mais profundos da Escritura, como já foi explicado em nota. Spinoza afirma que para Maimônides:

cada passagem da Escritura admite vários sentidos e até opostos, sendo impossível saber ao certo qual o verdadeiro se não estivermos seguros de que essa passagem, tal como a interpretamos, não contém nada que não esteja de acordo com a razão, ou seja, que lhe repugne (TTP VII 113, p. 133).

38 Rabino Judas Alpakhar (?-1235) era médico e escreveu algumas cartas que criticavam Maimônides. A ele louva Spinoza pelo mérito de querer explicar a Escritura pela Escritura, embora o critique por submeter a razão inteiramente à Escritura (cf. TTP XV 181, p. 225).

Segundo essa perspectiva, tudo que a razão conseguisse demonstrar, ainda que isso não estivesse escrito ou sinalizado na Escritura, deveria estar nela de alguma maneira, nem que para isso se forçasse a Escritura a afirmá-lo por uma interpretação metafórica.

Nessa afirmativa residem dois problemas: primeiro, que enquanto o intérprete se preocupa com a verdade das coisas, pode se afastar do verdadeiro sentido do texto; e segundo, que o vulgo, que ignora a ciência e as demonstrações, só poderia conhecer da Escritura aquilo que os sábios como autoridade infalível lhes permitisse saber (cf. TTP VII 114, p. 134-135). A verdade das coisas, segundo Spinoza, é exterior ao texto da Escritura. E, como já foi dito, o texto foi escrito para que todos o pudessem ler.

Spinoza demonstra ao longo do TTP que os pressupostos do método de Maimônides não são válidos, são eles: que os profetas são grandes teólogos e filósofos, cujas conclusões partiam da verdade das coisas (os profetas percebiam pela imaginação e escreviam conforme a capacidade e a mentalidade do vulgo); que não se pode determinar o verdadeiro sentido da Escritura por ela mesma, já que ela determina a verdade das coisas por definições e demonstrações (o verdadeiro sentido dos textos sagrados é determinado pela norma da língua hebraica e pela história deles); e que se pode substituir qualquer sentido literal por explicações segundo nossas opiniões preconcebidas (as opiniões preconcebidas não determinam o sentido dos textos da Bíblia, apenas interpretam uma opinião por outra) (cf. TTP VII 115-116, p. 135- 136).

Alpakhar, segundo Spinoza, julga que nenhuma passagem da Escritura deve ser interpretada metaforicamente porque o seu sentido literal repugna à razão, mas apenas quando repugnar claramente os dogmas que a própria Escritura ensina. Isso porque ele considera absolutamente verdadeiro tudo que a Escritura ensina por autoridade dela mesma. Spinoza concorda que para investigar o verdadeiro sentido das frases e do pensamento dos profetas é preciso explicar a Escritura pela Escritura, porém concordar com eles é um outro passo. Ou seja, depois de encontrado o verdadeiro significado das frases, para que uma pessoa possa concordar ou não com esse sentido é preciso recorrer ao juízo e à razão. Submeter a razão às Escrituras é um absurdo, é violentar o maior dom de Deus: a luz natural (cf. TTP XV 181- 182, p. 224-225).

Spinoza afirma que a regra universal de interpretação de Alpakhar contém duas afirmações temerárias: a primeira que tudo que a Escritura afirma é verdadeiro; e a segunda que ela nunca se contradizia. Spinoza abranda as afirmações de Alpakhar para que ele tivesse falado que as passagens que se contradizem implicitamente na Escritura podiam muito bem ser explicadas metaforicamente a partir da natureza da língua e do contexto no qual se

encontram (cf. TTP XV 183, p. 226). Spinoza refuta esses dois pressupostos de Alpakhar citando exemplos da própria Escritura.

Como já vimos no capítulo anterior (2.2.2), Spinoza afirma que a Escritura foi escrita para todos e não apenas para poucos especialistas e eruditos, portanto, essa hipótese de esoterismo na interpretação alegórica não é admitida por ele. A interpretação alegórica é muito usada para os textos sacros, geralmente remete a mensagens espirituais, doutrinárias ou morais contidas nesses textos. Se a alegoria precisa de um auxílio externo, esse auxílio pode partir de outras fontes, inclusive fora da religião ou da história. A alegoria pode estar de acordo com a razão ou a ciência; com a doutrina religiosa ou a mística; com a política e a sociedade.

Os adeptos da alegoria religiosa ou mística podem ser considerados os cabalistas, os comentadores e até o próprio Alpakhar. Quanto à alegoria conforme a razão, são adeptos Maimônides e Meyer. Spinoza também toma a Escritura como um exemplo de estrutura política, o que pode tornar seus textos e suas histórias como alegorias da política, ou seja, um testamento político do povo hebreu.

Além do sentido literal e do sentido alegórico, pode ser que o autor queira comunicar uma norma social ou um valor moral através do seu texto. O texto sai da esfera puramente significativa para constituir uma base comportamental, eminentemente prática, a saber, uma regra de conduta. É uma regra que se pode depreender do sentido do texto. Esse nível de interpretação se explorará em seguida.