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GENEL İŞLEM ŞARTLARINDA ŞAHSÎ (BİREYSEL) ANLAŞMANIN MEVCUDİYETİNİ İSPAT YÜKÜ

4. GENEL İŞLEM ŞARTLARINDA ŞAHSÎ (BİREYSEL) ANLAŞMA VE İSPATI

4.1. ŞAHSÎ ANLAŞMA

Essa perspectiva política da Escritura remete novamente àquilo que Spinoza aponta desde o prefácio do seu TTP: o uso da interpretação da Escritura para a manipulação política a pretexto da religião. Ele mostra como se dá essa usurpação do poder político desde a corrupção do significado das palavras numa determinada expressão, usurpando o seu uso legítimo para justificar uma apropriação indevida de um determinado poder. Mostra como a história da Escritura, tal como o requer seu método, esclarece o objetivo dela e como consoante com esse objetivo ela foi preservada. Nos capítulos do TTP que trazem histórias do Estado hebraico e principalmente no que extrai lições dessas histórias se percebe a usurpação política dos ministros de culto e o quanto essa usurpação se constituiu perigosa para a sociedade.

O método de intepretação de Spinoza visa nivelar os interesses à medida que é o mesmo método de interpretação da Natureza, não há quem tenha um saber privilegiado. Usando o mesmo método, Spinoza separa a filosofia da teologia e liberta a interpretação da Escritura da sua suposta verdade. Já que, quem domina a verdade, detém o poder. Aqui já se envereda para a interpretação em si da Escritura, assunto do próximo capítulo.

3 SOBRE A INTERPRETAÇÃO

Falar da interpretação da natureza quando se quer discutir a interpretação da Escritura e principalmente afirmando que é o mesmo método, pode parecer confuso e mesmo ousado. Como antecipamos, esse interpretar a natureza já era uma expressão baconiana, então, nada mais conveniente que citar o primeiro aforismo de Francis Bacon na primeira parte do Novum Organum: “o homem, ministro e intérprete da natureza, faz e entende tanto quanto constata, pela observação dos fatos ou pelo trabalho da mente, sobre a ordem da natureza; não sabe nem pode mais”(BACON, 1979, p. 13).

Perante a natureza o homem é tanto seu administrador quanto o seu intérprete, seu poder e seu saber se reduzem àquilo que ele faz (age) e entende (pensa) à medida que observa a ordem da natureza nas coisas e na mente. Observe-se aqui a sequência: ministro, poder, fazer e a ordem natural nas coisas; e a outra sequência: intérprete, saber, entender e a ordem natural na mente. É na dinâmica dessas relações que se mostra a própria relação do homem com a natureza, enquanto intérprete e ministro, interpretação e poder.

Segue-se no aforismo 3 que “ciência e poder do homem coincidem, uma vez que, sendo a causa ignorada, frustra-se o efeito. Pois a natureza não se vence, se não quando se lhe obedece. E o que à contemplação apresenta-se como causa é regra na prática” (BACON, 1979, p. 13). A natureza é vencida na mesma proporção em que é obedecida. Isso pode dar bem a ideia do tipo de interpretação e do tipo de poder que a natureza pode oferecer. A obediência35 é condição e a proporção da vitória. Essas citações de Bacon são para mostrar que a condição humana de intérprete se aparece desde a sua relação com a natureza (uma condição prévia), posto que o homem está na natureza, ele é o seu intérprete.

Ao discutir a interpretação, Spinoza também questiona o lugar do intérprete, ou melhor, a figura do intérprete. Ele abre seu primeiro capítulo do TTP definindo o que é a profecia e em seguida o profeta. O profeta é o intérprete. O seu amigo Meyer inicia sua discussão sobre interpretação da Escritura pelo sentido da palavra intérprete em latim. Spinoza inicia por profecia e profeta (navi que em hebraico significa orador e intérprete) que na Escritura é sempre tomado como intérprete de Deus. Como o princípio fundamental é admitir apenas a Escritura, o profeta seria o também intérprete de Deus ou natureza?

Luís Meyer (1988) no seu segundo capítulo do A filosofia intérprete da S. Escritura, fala sobre os sentidos da palavra intérprete: no primeiro sentido, ele é um mediador, um conciliador entre duas partes; no segundo sentido, ele é aquele que explica coisas obscuras; e no terceiro sentido, é aquele que traduz de uma língua para outra, um tradutor. Desses, Meyer utiliza o segundo, como aquele que busca o sentido verdadeiro das palavras e frases obscuras, que examina as palavras e as frases e descobre um sentido exatamente de acordo e conforme o pensamento do autor.

Alguns intérpretes, segundo Spinoza, visando seus interesses particulares, corromperam o sentido dos textos sacros. Muitas vezes eles perverteram de tal sorte as expressões que, sem seguir critério algum, senão somente as fantasias das suas cabeças no borbulhar de suas ambições, em vez de esclarecê-las, expunham ao ridículos os autores sagrados. Nas palavras do filósofo:

e, como esta, há muitas outras coisas que eles inventam e que, a serem verdadeiras, dir-se-ia que os antigos hebreus ignoravam por completo, quer a sua própria língua, quer a ordem a seguir numa narração, além do quê, não havendo nenhum critério ou regra a observar na interpretação das Escrituras, cada um poderia inventar tudo à sua vontade (TTP IX 134, p. 162).

Argumentando contra a autoridade de uma tradição ou um pontífice se arrogar a legitimidade de uma interpretação infalível, Spinoza afirma que não existem provas suficientes nem da continuidade da tradição e nem da infalibilidade pontifícia. Logo, segundo ele, o problema da livre interpretação se dá no que respeita às leis de um Estado, quer no caso do pontífice hebreu quer no caso do pontífice romano, visto que nos dois casos serviam de autoridade pública para manter essas leis. No entanto, no que toca à religião, ela tange mais às disposições interiores do que às ações exteriores, não precisa dessa autoridade e tampouco a virtude ou a beatitude se estabelece através de leis. Dessa forma, diz Spinoza,

se todos possuem o pleno direito de pensar livremente, mesmo em matéria religiosa, não podendo sequer conceber-se alguém que renuncie a esse direito, então todos são igualmente possuidores do pleno direito e da plena autoridade de julgar em matéria religiosa e, conseqüentemente, de a explicarem e interpretarem para si próprios (TTP VII 117, p. 137).

O método de interpretação de Spinoza dispensa mediadores e tradutores, cada um pode interpretar e explicar para si próprio a Escritura, desde que conheça a língua adequadamente. Não há mistérios insondáveis, não há eleição especial, não há autoridade instituída e infalível cujo poder foi dado diretamente por Deus, apenas o texto, a língua e o leitor. Spinoza liberta o vulgo da dependência de terceiros, como ele diz, “o nosso método não

exige, portanto, que o vulgo aceite obrigatoriamente o testemunho dos intérpretes” (TTP VII 115, p. 135).

Sem o intermédio daqueles que se denominavam seus intérpretes, a Escritura está livre para ser interpretada adequadamente, quer dizer, para que se encontre nela o seu sentido e não que faça nela encontrar a verdade. Spinoza deixa isso claro: o seu método não pretende encontrar a verdade, apenas se dispõe buscar o verdadeiro sentido à medida que seja possível.