A concretização dos valiosos objetivos republicanos de nada valeria se para encontrar o sucesso econômico, erradicar a pobreza ou para dar formas às grandes cidades, o meio ambiente e os recursos naturais fossem absolutamente sacrificados sem controle ou metas de reestruturação.
A noção jurídica de Desenvolvimento Sustentável advém daí, e ganhou especial importância para o Direito Internacional do Meio Ambiente ao ser adotado expressamente na Declaração do Rio de Janeiro (1992) e na Agenda 21 (1992), resultado de um novo consenso mundial a que se chegou no decorrer da Conferência Internacional sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), ocorrida no Rio de Janeiro em 1992. O modelo de estudo adotado investigava cinco tendências de interesse global: a) o ritmo acelerado de industrialização; b) o rápido crescimento demográfico; c) a desnutrição generalizada; d) o esgotamento dos recursos naturais não renováveis; e, e) a deterioração ambiental26.
25 FERRARO, Suzani Andrade; PEIXINHO, Manoel Messias. Direito ao desenvolvimento como direito fundamental. p. 11. Disponível em: <http://www.conpedi.org.br/manaus/arquivos/anais/bh/manoel_messias _peixinho.pdf>. Acesso em 15.04.2013.
26ANDRADE, Roberto de Campos. Desenvolvimento sustentável e direito internacional. In: Direito internacional e desenvolvimento. Adalberto do Amaral Junior (Org.). São Paulo: Manole, 2005, p. 325-326.
Se antes as normas internacionais serviriam para proteger bens naturais com a finalidade unicamente de regulamentar a atuação econômica do homem sobre os bens ambientais, Estocolmo apresenta logo em seu princípio inaugural que o meio ambiente de qualidade é um direito do homem27. O princípio 18 da Declaração de Estocolmo traz compromissos que são tomados no interesse de toda a humanidade, em todo o território nacional e ainda sobre áreas que não estejam na competência territorial de nenhum Estado28.
O desenvolvimento sustentável tem por conteúdo manter as bases vitais da produção e reprodução do homem e de suas atividades, garantindo igualmente a relação satisfatória entre os homens e o seu ambiente, para que as futuras gerações tenham a oportunidade de desfrutar os mesmos recursos que estão hoje à nossa disposição29. A própria noção de propriedade requereu nova assimilação para abarcar, em sua definição, uma finalidade social, também identificada com o alcance do equilíbrio entre o desenvolvimento e o respeito ao meio ambiente30.
A responsabilidade dos estados signatários com essa área específica do desenvolvimento passou a assumir uma pauta prioritária de respaldo internacional, enquanto um compromisso comunitário. O desenvolvimento sustentável passou a gozar das típicas características dos demais direitos humanos na medida em que instituiu postulados suficientemente claros para orientar a atuação do Poder Público.
Apesar de ter sido promulgada antes das conferências ambientais do início da década de 1990, a Constituição de 1988 foi o primeiro documento político fundamental na história do Brasil a dispor expressamente sobre a tutela específica do meio ambiente com vistas ao resguardo do desenvolvimento sustentável. Sua inserção como direito fundamental na Ordem interna deu-se no art. 225, caput, da Constituição de 1988, portanto antes do advento de alguns compromissos internacionais sobre o tema.
27FRANCO NETO, Dimas Simões. Direito internacional do meio ambiente: reconstruindo seus fundamentos. Revista de Direito Constitucional e Internacional, ano 19, n. 76. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, p. 317.
28 FRANCO NETO, Dimas Simões. op. cit., p. 318.
29 FIORILLO, Celso Antônio Pacheco; FERREIRA, Renata Marques. Curso de direito da energia. 2. ed. São
Paulo: Saraiva, 2010, p. 14-15.
30―Tomando-se como divisor de águas a Declaração de Estocolmo sobre o Meio Ambiente Humano, de 5 a 16 de
junho de 1972, os diversos sistemas jurídicos passaram a atentar para a exigência de que a função social da propriedade deveria ir além da imposição de seu uso para interesse coletivo pelo seu titular, devendo, antes de tudo, voltar-se para o seu emprego racional, mediante o alcance do equilíbrio entre o desenvolvimento e o
respeito ao meio ambiente.‖ (NOBRE JÚNIOR, Edilson Pereira. Meio ambiente, propriedade e cobertura
Em verdade, a Política nacional do Meio Ambiente, instituída pela Lei Federal n.º 6.938, de 31 de agosto de 198131, por ser anterior à constituição trouxe uma especial conotação econômica em seu art. 2º, atrelando o progresso nesta seara a outros primados como a preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida e a proteção da dignidade da vida humana. Diversos princípios de direito ambiental decorreram na ordem interna a partir dessa assimilação, os quais serão tratados oportunamente.
O art. 170, inciso VI, da Constituição, também balizado no critério do desenvolvimento sustentável reforçou que mesmo encarado em sua concepção econômica, o desenvolvimento e até mesmo o crescimento da economia devem estar pautados na primazia do equilíbrio e da sustentabilidade.
Desta feita, vai ficando claro que as decisões tomadas pelo Estado, inclusive no campo energético, cuja influência no meio ambiente está mais presente quando são pensados os impactos de extração e utilização das fontes primárias que podem interferir no ecossistema, não podem ser levadas a efeito apenas com arrimo na premissa econômica da lucratividade. Apesar da obrigação maior com relação a esta limitação ser do Estado, a iniciativa também pode prestar a sua contribuição adotando procedimentos limpos mediante incentivos e o estabelecimento de políticas que visam minimizar os efeitos da degradação.
Dimas Simões Franco Neto32 chama a atenção ao explanar que independente da correlação formal entre os direitos humanos e o meio ambiente na hierarquia de normas, existe estreita relação de proteção material entre as duas esferas, de maneira a tornar articuladas as maneiras jurídicas de se promover a proteção nos dois campos, inclusive quanto aos fundamentos.
O desenvolvimento sustentável pode ter as suas feições aprimoradas com os avanços tecnológicos, inclusive na perspectiva da exploração energética, que tem muito a ganhar com a redução da utilização de combustíveis fósseis e consumíveis diante do aproveitamento de outros recursos cujo impacto no ambiente são significativamente menores.