Tom Sorell Descartes costumava ser o reverenciado pai da i losoi a moderna. Agora, ele é o seu grande anti-herói. Ele é considerado desta forma não apenas por devotos do pós-modernismo, mas por muitos i lósofos mais tradicionais em ambos os lados do conl ito entre as tradições continentais e analíticas. Para essas pessoas, as doutrinas de Descartes não estão lá para serem aprovadas e elabo- radas, mas refutadas e evitadas. Por isso as conotações negativas familiares do termo “Cartesiano”έ A privacidade cartesiana, assim como o dualismo, ceticismo ou fundacionalismo Cartesianos ou, ainda, a insistência Cartesiana em excluir o sujeito da natureza, é algo que somos convidados ou presumidos a adotar uma posição contrária. A doutrina Cartesiana não é necessariamente conside- rada tola, mas é quase sempre tida como equivocada, geralmente profundamente equivocada. Às vezes, uma doutrina Cartesiana revela-se falsa. Ao argumentar contra ela, no entanto, muitas ve- zes o argumento é ignorado: o que ocorre é que o leitor ou ouvinte está imerso em dúvidas ou práticas que fazem com que as práticas e perguntas Cartesianas pareçam artii ciais ou ultrapassadas — interessantes talvez, como exemplares de uma patologia i losói ca especíi ca, mas não a ponto de uma discussão compassivaέ Além disso, geralmente não é difícil de fazer com que uma doutrina seja tida como Cartesiana por um público i losói co do século XXέ Não é, geralmente, mais difícil do que, na verdade, descrevê-la em termos que trazem à mente trechos parcialmente decorados da obra “Meditações Metafísicas”έ
Tal tratamento casual de Descartes não pode, sensatamen- te, ser chamado de “negligência”, como se ele fosse uma i gura que ninguém leu ou levou a sério. Aproxima-se mais da realidade dizer que Descartes é tão i rmemente aceito como um dos tradiά cionais, sendo inquestionavelmente aceito como foi representado nos grandes debates, ainda que no lado errado, quanto uma i gura
cujos textos são indispensáveis para uma educação i losói ca baά silar que, qualquer pessoa que tenha estudado o assunto, mesmo que por pouco tempo, possa dizer com convicção o que admira neleέ A i losoi a difamada de Descartes do século XX não é a mesma que a do Descartes canônico e tampouco a mesma que a do Descartes histórico — aquele descrito pela maioria dos espeά cialistas mais bem informados a respeito dele. Mas uma certa di- i culdade em dizer qual é o real Descartes, como se os outros fosά sem tão impostores que tiveram de ser expulsos da i losoi aέ Sem dúvida, o Descartes histórico é o que mais se aproxima de ser o realν ainda assim, as outras facetas têm, por vezes, i ns i losói cos legítimos, assim como a idéia do Cartesianismo quando estendida além das idéias de seguidores declarados de Descartes. Ver isso é reconhecer algumas das limitações da história da i losoi aέ σa medida em que a história da i losoi a é um empreendimento hisά tórico, ela inclina o praticante a tentar entrar nas preocupações de Descartes como um cientista/metafísico Europeu do século XVII. σa medida em que a história da i losoi a é um empreendimento i losói co, ele inclina o praticante a remodelar as idéias cartesiaά nas, de modo a darάlhes uma posição clara em debates i losói cosέ A segunda inclinação tende a ser mais provável de produzir uma caricatura do que a primeira, mas a primeira pode e, frequente- mente, tem o inconveniente de ser i losoi camente monótonaέ Como alguém que aborda a história da i losoi a com um interesse em uma agenda i losói ca do século XX, bem como com interesά se no início do período moderno, não considero o problema da monotonia como insignii cante e, então, acredito que, dentro de certos limites, a representação caricata seja tolerável para o bem da relevância. Neste capítulo, tento, de forma preliminar, indicar dentro de quais limites tal ato pode ser aceitável, no caso do de- masiadamente caricaturado Descartes.
1.
Pode-se pensar a que única forma de caricatura aceitável em um trabalho intelectual sério de qualquer espécie, quer histó- rico ou i losói co, seja a caricatura inevitávelέ Pois uma caricatura
é, de certa forma, uma imagem distorcida, a qual, geralmente, exagera as características do original. É verdade que o ato de ca- ricaturar falha ao tornar o original irreconhecível, no entanto, o efeito de uma caricatura e, geralmente, o seu ponto é fazer com que o original seja reconhecido a partir de uma nova imagem, a qual enfatiza coisas que, talvez, de outra forma, não chamariam a atenção do observador. Ela não precisa ser desagradável, tampou- co reproduzir o original de forma cômica, no entanto, a mesma não será uma caricatura se não criar uma imagem que apresente o original de uma forma nova e vívida, com certa ênfase ou sim- plii cação intencional, com a intenção de colocar determinados aspectos, e não outros, em destaque. Salvo nos casos onde a sim- plii cação ou a ênfase não sejam intencionais, se faz difícil não concebê-la como uma mudança consciente da ideia de dar uma impressão equilibrada e imparcial a respeito do sujeito. Assim, talvez por esta razão, se nenhuma outra, isso deve ser evitado.
Esta abordagem para a caricatura me parece ser demasia- damente apropriadaέ Ai nal de contas, uma caricatura pode ser utilizada onde o original seja bem conhecido e facilmente distin- guido de um personagem de desenho animado. Uma vez mais, uma caricatura pode ser admitida. O público para a caricatura pode ser informado de que a representação de tal sujeito não é totalmente i el ao originalέ E pode, até mesmo, ser uma indicação dos aspectos com os quais as liberdades foram tomadas. Alterna- tivamente, uma caricatura pode ser veiculada em um ambiente em que haja uma prática da crítica e debate e, também, conhecimento sui ciente sobre o indivíduo retratado para que, mesmo que a cariά catura não seja assim admitida, ele possa ser exposta como tal. De outro modo, com foco para os usos mais positivos da caricatura, esta pode ser defendida, por um especialista a respeito do origi- nal, como sendo muito mais verossímil em relação ao assunto do que outros especialistas já tenham concebido. Ou, ainda, uma caricatura pode ser apresentada ao público em um dado momento, na certeza de que logo após, o mesmo terá perícia sui ciente para ver, por si, onde a caricatura diverge signii cativamente do origiά
nal. Neste caso, a caricatura será uma escada que eventualmente será lançada fora. As caricaturas são utilizadas desta forma mui- tas vezes no ensino, não necessariamente com maus resultados.
Então, o ato de caricaturar pode, às vezes, ser inofensivo e, até mesmo, fazer algum bem. Quando se trata de Descartes, na i losoi a do século XX, a caricatura é com frequência inconscienά te e consequentemente inadmitida, sendo transmitida ao público que não tem uma visão consistente e independente a respeito dos escritos de Descartes e, com isso, nenhum interesse em contestá- -la. Assim, o ceticismo Cartesiano que Heidegger reage contra no desenvolvimento da teoria da existência humana em “Ser e Tempo” e o ceticismo Cartesiano que muitas vezes é dito ser alvo de Wittgenstein em “Da Certeza” e em outros lugares são apenas vagamente relacionadas com o ceticismo que Descartes tenta tra- balhar em “Meditações Metafísicas”, mas o público de ώeidegger e Wittgenstein não se volta para tais autores em busca de comen- tários a respeito de Descartes. Tal público é atraído pela palavra de um estilo e agenda i losói cos distintos, os quais podem ser introduzidos em oposição a Descartes e, o que ele quer é aprender a respeito e talvez aplicar para si o estilo e agenda — independenά temente de Descartes. Por isso, a ocasião para detectar a caricatu- ra pode nunca surgir.
Será que isso importa? Suponha que o preço por se apro- fundar em Wittgenstein e Heidegger seja uma distorção desper- cebida, porém signii cativa, de Descartesέ Que mal que isso faz, contanto que a principal aplicação dos pontos de vista de Witt- genstein e Heidegger seja em relação a questões que não envol- vam Descartes? Por que o Cartesianismo caricatural que é usado para motivar Wittgenstein e Heidegger não é apenas tido como uma escada a ser descartada, tão logo se sinta confortável com Wittgenstein e Heidegger? Enquanto tal escada leva aonde se quer ir e é, em seguida, descartada, por que alguém deveria se preocupar se é, em alguns aspectos, uma escada ruim? Uma ra- zão porque é importante em relação a Heidegger é que, muito do meio de sua i losoi a, é uma espécie de história da i losoi aέ Descartes marca uma etapa decisiva nessa história. Nietzsche
marca outra. Novamente, há o repúdio de Heidegger do que ele julga ser o Cartesianismo mal revivido de seu professor, Hus- serl. A crítica do cartesianismo, então, é quase incidental ao pen- samento de Heidegger e, se a crítica erra o alvo, isso importa, mesmo na i losoi a de ώeideggerέ
Outro ponto irônico é que, em uma leitura perfeitamente natural do uso de Descartes sobre a distinção entre a certeza mo- ral e metafísica, a distância entre Descartes e Heidegger é mui- to menor do que se pensava. A busca da certeza metafísica que domina a obra “Meditações Metafísicas” sempre foi distinguida por Descartes da busca pela certeza prática, a qual ele chamou de “certeza moral”έ Alcançar a certeza metafísica era, para Desά cartes, uma questão de suspender vida prática diária com a sua certeza moral e dedicarάse a um período de profunda rel exão soά bre os temas das “Meditações sobre a όilosoi a Primeira”έ Uma vez que as rel exões fossem concluídas com êxito, o questionador estaria imune permanentemente às dúvidas que surgem quando se pergunta se alguém pode ser tal natureza a ponto de ser enganado a respeito do que parece ser mais evidente. (1) Neste ponto, de acordo com Descartes, o questionador já poderia retomar a vida do cientista não-paranóico, isto é, a vida de quem tira conclusões sobre, no máximo, algumas explicações mecanicistas moralmen- te corretas tais como a propagação da luz, fenômenos meteoroló- gicos, animais, minerais e os planetas. O cientista não-paranóico de Descartes, um cientista totalmente imune à preocupação de que sua mente possa estar defeituosa, não é igual a um dos pre- gadores de Heidegger, o qual está inteiramente absorto através de sua atividade no mundo; tampouco é um ser radicalmente apático ao qual a meditação metafísica reduz ao i nal da “Primeira Meά ditação” — desencarnado, fora do tempo, da vida e da natureά za. Segundo Descartes, esse ser metafísico e suas preocupações deveriam ser abandonados assim que a lição das “Meditações” fosse aprendida. Ele não o considerava como um ego ideal, ou as suas preocupações como as coisas certas para ocupar a mente humana. No máximo, a redução do eu e a reorientação das suas
preocupações eram uma parte necessária da terapia, se necessário fosse para atender, de forma profunda, o tipo de ceticismo sobre a ciência que era familiar em Paris nas décadas de 1620 e 1630. 2.
Bem entendido, Descartes pode ser alvo inadequado da crítica de estar desapegado da vida, do tempo e, até mesmo, de uma resposta afetiva. Pode, inclusive, ser alvo inapropriado de outros argumentos negativos. Aqui, tenho em mente a adaptação de argumentos de Wittgenstein, feita por alguns Wittgensteinia- nos – Peter Hacker, Anthony Kenny e Norman Malcolm são os mais óbvios – para a crítica de Descartesέ Pois é a i gura histórica de Descartes que, em qualquer razão, alguns Wittgensteinianos tomam para formar boa parte dos argumentos negativos. Se ele não vem a ser muito certo como um alvo, de que isso impor- taς Importa que exista algum alvo substancialέ Pois a i losoi a de Wittgenstein é, em grande parte, uma i losoi a reativa e deά l acionáriaέ Ela se prende a confusões as quais somos receptiά vos e, por ela seduzidos, enquanto oradores, e as tenta arrancá- -las. Descartes pode nem sempre ser a fonte dessas tendências à confusão: por exemplo, pode haver convites ao dualismo na própria linguagem psicológica — para além dos escritos de Desά cartesέ Mas, se Descartes é tido como a i losoi a tradicional suά cumbindo a essas confusões, é, portanto, um importante alvo de Wittgenstein, pois a crítica da i losoi a tradicional é uma de suas preocupações centrais.
A questão do quanto Descartes é caricaturado por Witt- genstein e ώeidegger não é, de forma alguma, insignii cante então para a i losoi a de ώeidegger ou para o uso de recursos da i losoi a de Wittgenstein, que fazem com que o Cartesianismo seja impor- tante, para que ώeidegger e Wittgenstein sigam pelo resto da i ά losoi a do século XXς σão muito, ao que parece, pois há grandes extensões de i losoi a angloάamericana que não são particularά mente reativas ou terapêuticas, menos ainda contadas em forma de histórias sobre uma tradição i losói ca à la ώeideggerέ τ que se constata, entretanto, é uma apresentação construtiva, esclarece-
dora e quaseάcientíi ca sobre o assuntoέ Isso, também, acompanha o anti-Cartesianismo. Seu anti-Cartesianismo é também cheio de caricaturas. Mas isso importa? Observe o programa de epistemo- logia naturalizada. Este programa começou há, aproximadamen- te, 30 anos, com um papel em que, com Descartes explicitamente em mente, Quine negou que houvesse qualquer posição fora da ciência que pudesse justii cáάla, e no qual ele propôs que a preoά cupação tradicional com a justii cação na teoria do conhecimento também estivesse ultrapassadaέ(β) A epistemologia, Quine ai rά mou, foi seguida mais em segundo plano, se não como parte do estudo empírico da maneira como os seres humanos transformam o bombardeio sensorial em compreensão teórica da natureza. A perspectiva natural para uma epistemologia naturalizada não seria a perspectiva de primeira pessoa, extremamente limitada, do cético radical, mas, como Quine viu no i nal da década de 1960, os espaços abertos da psicologia comportamentalista, ou, atualizando um pouco, a moderna ciência cognitiva que englo- ba descobertas na neurociência, assim como os laboratórios de inteligência artii cialέ ώá trabalhadores em epistemologia naturaά lizada que negam que o colapso da epistemologia em psicologia empírica possa ser total.(3) Mas isso não é porque eles pensam que a perspectiva de primeira pessoa possa ser indispensável, ou por seguirem Descartes ao pensar que possa haver um ponto de vista de Arquimedes, através do qual se possa apoiar a ciência. É porque dizem que há questões irredutivelmente normativas so- bre a crença e sobre o raciocínio. Até mesmo os dissidentes do estrito programa de Quine não acreditam que a teoria das nor- mas epistêmicas irá reviver o Cartesianismo — quer sob a forma de epistemologia de primeira pessoa ou como uma doutrina de regras para a busca da verdade.
Será que importa para a coerência da epistemologia na- turalizada que, ao contrário dos preconceitos do epistemólogos naturalizados, Descartes entrelaçava sua resposta ao ceticismo com uma boa dose de psicologia empírica e i siologiaς Imporά ta que, em particular, ele tenha atrelado a compreensão de um conhecimento cientíi co a posteriori a sua teoria da saúde do
corpo?(4) Em outras palavras, seria um grande embaraço para a epistemologia naturalizada o fato de que a imagem de Descar- tes, como teórico do conhecimento, seja uma caricatura? Acredito que a resposta seja “não necessariamente”έ Certamente, o fato da caricatura é muito menos constrangedor a este respeito do que seria na relação com Heidegger e Wittgenstein. A razão é que a epistemologia naturalizada não é, exceto incidentalmente, um programa i losói co reativo e negativoέ É uma iniciativa positiva e esclarecedora, a qual se propõe a contar-nos, entre outras coi- sas, o que é o conhecimento, quais são os diferentes meios de se chegar, de forma coni ável, a uma crença verdadeira e como esses meios estão ligados a uma racionalidade humana desmistii cadaέ Tem como objetivo o desenvolvimento cognitivo, as teorias da evolução cognitiva da espécie e a neurociência. Vez que estes ob- jetivos podem ser perseguidos independentemente das teses sobre Descartes, o fato de que, às vezes, sejam motivados pela crítica a seu respeito, podem ser de interesse limitado, por sua vez, tal qual a constatação de que a crítica possa estar equivocada.
Estou dizendo que a epistemologia naturalizada tem o di- reito de utilizar uma crítica ruim de Descartes como uma escada a ser descartada, mais direito do que uma i losoi a reativa, especialά mente uma i losoi a reativa cujo meio seja históriaέ Mas, mesmo a epistemologia naturalizada, não deve ser deixada inteiramente de ladoέ Até a palavra “naturalizada” em “epistemologia naturaliά zada” realmente parece redundante na i losoi a angloάamericana, uma caricatura de Descartes pode ser necessária para deixar claro qual é o ponto em fazer a epistemologia de tal forma. À medida que a caricatura for necessária, a crueza da mesma se faz im- portante. Importa, inclusive, se a epistemologia naturalizada for o primeiro passo de um movimento da naturalização de tudo na i losoi a — da ética para a semântica e à teoria da menteέ Se o naά turalismo na i losoi a receber o impulso da epistemologia naturaά lizada, e uma má caricatura do Cartesianismo der início à episte- mologia naturalizada, então o momento da i losoi a naturalizada poderá ser um momento ruim.(5)
Muito embora as caricaturas usadas por uma i losoi a poά sitiva sejam mais perdoáveis do que as utilizadas por uma i losoά i a negativa e reativa, há um resíduo de inescusabilidade em todos os usos das caricaturas do Cartesianismo que estamos levando em consideração. Pois as caricaturas pertencem a um programa de difamação, sustentando e aumentando o desprezo e as rejeições condescendentes, até indiretas, na i losoi aέ Em um artigo famoso rel etindo sobre a inl uência de Wittgenstein, Ryle reparou como o entusiasmo do autor de “Investigações όilosói cas” resulta em certo tipo de desaprovação imitativa. Os Wittgensteinianos ado- tariam um tom característico de voz ao atacar o que Wittgenstein atacava e, como Ryle expôs, os alunos que mal conseguiam sole- trar seu nome “torceriam o nariz para as coisas que ele desapro- vasse”έ (θ) A caricatura à serviço da difamação faz esse tipo de desaprovação parecer legítima, e isso é lamentável. Eu não estou exigindo o i m à desaprovaçãoέ Concordo que algumas coisas em Descartes não cheirem bem, no entanto, não acho que esta conclu- são seja atingida ao investigar como Wittgenstein ou Heidegger torceram o nariz. É importante usar o próprio nariz. Ainda mais, o mau cheiro não deve ser detectado muito cedo. Pelo contrário, até que se tenha uma atração à primeira vista pelas alegações de Descartes e às questões a que deu a certa urgência, a educação i losói ca de uma pessoa i cará incompletaέ A detecção do mau cheiro deve vir mais tarde, depois de ter analisado as idéias de Descartes e encontrado as suas limitações. Mesmo nesta fase de desilusão, o repúdio a Descartes não deverá e, provavelmente, não poderá ser total. Há muito em Descartes que é bem absorvi- do pela posteridade, até mesmo pelas seções da posteridade que são desdenhosas de Descartes, que agora estão sem cheiro. Quero dizer, coisas como a ideia de que não devemos aceitar nada em i losoi a como a autoridade de alguém, que devemos expor nossas reivindicações a objeções, que o intelectual presente é uma oca- sião para começar a fazer algo, como admirar ou tentar recuperar as realizações do passado.
Pode-se contestar que, enquanto a rejeição e o desprezo condescendentes por Descartes, obviamente, devam ser objetos de reclamação, não há nenhuma razão para que alguém vá além de seu alcance para ser bom a Descartes, pois para que servem as i guras canônicas se não para reagir contra, emanciparάnos e detectar o mau cheiroς Concordo que as i guras canônicas devam estar comprometidas com a crítica, mas não acredito que todas elas sejam boas, pois a sua eminência é um tiro ao alvo. Uma i gura é canônica quando seu ponto de vista é usado para orientar as pessoas na i losoi a como um todoέ Mesmo que seja um ponto de vista ruim, concluindo o tanto quanto possa envolver a ten- tativa de ocupar o ponto de vista, e não apenas inferir como as coisas se parecem a partir deleέ A leitura de i lósofos canônicos é um elemento deste esforço. Ela pode produzir uma impressão distinta de um i lósofo em comparação à impressão produzida peά los mercadores de caricaturas. Pode não ser uma impressão mais