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Belgede ÖRGÜTSEL DAVRANIŞ (sayfa 38-41)

Com a criação do governo-geral do Estado do Brasil, o cargo de provedor-mor da fazenda representava o braço direito do governador-geral em matérias fiscais. No regimento de 1548, argumentava-se que as rendas e direitos régios no Brasil não eram “arrecadad[os] como cumpriam, por não haver quem comprovesse nel[es]”. O cuidado e diligência do cargo foram entregues a Antonio Cardoso de Barros, cavalheiro fidalgo da Casa Real. As mostras de zelo tentavam minorar a ignorância do próprio soberano, que ordenara ao provedor-mor um relato das rendas e direitos existentes em cada capitania, bem como a forma como eram arrecadados. Livros para receitas e despesas, registros de arrendamentos dos contratos, forais e regimentos dos funcionários davam algum arranjo ao conjunto administrativo, ao menos para a alfândega em Salvador. Apelações e agravos referentes à Real Fazenda no valor acima de dez mil réis estavam sob a alçada jurisdicional do provedor-mor, mas também questões referentes a sesmarias e datas de terras.

Com o regimento, a capital do governo-geral tentaria exercer uma pulsão extrativa, quanto ao controle das informações fazendárias, sobre as capitanias. Todos os anos, os provedores nelas existentes deveriam remeter uma certidão das receitas e despesas e apontar as dívidas existentes. As contas coligidas pelo provedor seriam enviadas à Casa dos Contos no reino. Cabia também ao provedor-mor ordenar o levantamento de alfândegas e “Contos” nas capitanias, prover livros para registros e proceder à arrematação das rendas e direitos de cada capitania por ramos ou em conjunto. O regimento previa que, a cada cinco anos, os almoxarifes prestassem contas pessoalmente na Casa dos Contos na Bahia. Também se entendia que o provedor-mor deveria realizar visitas às capitanias para tirar inquirições e devassas sobre os oficiais da fazenda. O funcionamento efetivo das relações fiscais entre Salvador e as capitanias donatárias nos séculos XVI e XVII ainda carece de estudos, sendo precipitado indicar qualquer direção apenas pela análise do regimento do provedor-mor.150

Ao longo do tempo, com a sobreposição de jurisdições, houve uma tendência ao acúmulo de funções exercidas pelo provedor para além do disposto no regimento original. Em 1768, o provedor da fazenda aparecia como contador da Fazenda Real, juiz

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da alfândega de Santos, juiz privativo dos reais contratos, vedor-geral das gentes de guerra e conservador dos contratos do sal e da pesca de baleias. Embora possivelmente à custa da eficiência do seu trabalho, este acúmulo trazia status ainda mais elevado ao ofício de provedor.151

Deve-se atentar para as diferenças do cargo de provedor, no reino, e de provedor da fazenda, nos domínios. Na península, o cargo de provedor, sistematizado nas Ordenações Filipinas, estava vinculado à fiscalização de disposições testamentárias, à administração dos bens dos órfãos e ausentes e à administração, gestão financeira e obras pias de capelas, hospitais, albergues e confrarias. O escopo de atuação do provedor era a comarca, geralmente agregando diversas vilas e cidades. No tocante às finanças dos concelhos, os provedores deveriam supervisionar a arrecadação da terça régia, sisas e bens concelhios, bem como a aplicação correta dos outros dois terços de rendimentos. As atas de adjudicação de rendas e apresentação de fiadores, por exemplo, eram conferidas pelos provedores. Outra parte da supervisão era realizada pelos corregedores. Com a lei de criação do Erário Régio, em 1761, a supervisão da cobrança das sisas foi transferida dos provedores para os corregedores, mas ainda manteriam a responsabilidade sobre a terça régia, o subsídio literário (criado somente na década de 1770) e o imposto do real d’água. Assim, enquanto no reino, o cargo de provedor esteve vinculado à administração real periférica das comarcas, nos domínios americanos os provedores da fazenda atuavam em extensões mais amplas das capitanias, que podiam ser compostas por diversas comarcas.152

Antes da criação da capitania-geral de São Paulo e Minas em 1709 já existia uma provedoria da fazenda, cujas atividades são pouco conhecidas. No período da capitania donatária de Santos e São Vicente, houve 30 ocupantes titulares ou substitutos do cargo de provedor da Fazenda Real e de juiz da alfândega de Santos entre 1532 e 1690. Muitos deles eram membros das elites locais da capitania, como Brás Cubas (que exerceu o cargo entre 1552 e 1592), Amador Bueno da Ribeira (1633-1636), André de Góis de Siqueira (1666-1670) e Pedro Taques de Almeida (1670-1672). Já no século XVIII, com a criação da capitania-geral a permanência nos cargos foi maior: Timóteo Correia de Góis ocupou o cargo entre 1690 e 1732 e José de Godói Moreira entre 1734 e 1765. O último

151 DI, v. 19, p. 78. 29 mar. 1768. Atestação do provedor José Honório de Valadares e Aboim.

152 FONSECA, Teresa. Absolutismo e municipalismo. Évora 1750-1820. Lisboa: Colibri, 2002. p. 484, 487, 493.

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provedor, José Honório de Valadares e Aboim, permaneceu entre 1765 e 1775. Desta forma, comparando-se o período da capitania donatária com a capitania-geral, percebe- se uma maior estabilidade e permanência dos ocupantes no cargo de provedor da fazenda no século XVIII.153

Como em outras partes da América portuguesa, o cargo de provedor da fazenda era tido como uma conquista importante para as famílias da terra, sendo ofício de valor na concessão de mercês pelo soberano. Até mesmo em períodos mais tardios, observa- se, de forma paradoxal, a ideia de que o ofício de provedor era tanto uma remuneração de serviços prestados à Coroa quanto um serviço importante realizado à mesma. Em 1751, um contratador dos dízimos da capitania de Minas Gerais, Manuel Ribeiro dos Santos, também envolvido nas remessas de ouro para a Casa de Moeda lisboeta, pedia uma mercê do hábito de Cristo, um foro de moço fidalgo da Casa Real e uma mercê de propriedade do ofício de provedor da Fazenda em Minas ou de escrivão na sua provedoria. Por outro lado, os extensos serviços do bacharel Domingos Pinheiro na administração fiscal mineira entre 1738 e 1757, que incluía ser provedor da fazenda em Minas Gerais, permitiram-lhe angariar dois hábitos de Cristo para seus sobrinhos em 1766.154

Na capitania de São Paulo, teve menor adesão a ideia de serviço prestado à Coroa, sendo mais comum a patrimonialização do ofício, enquanto mercê recebida e transmitida aos herdeiros. Neste aspecto, São Paulo não parecia destoar do observado em outras capitanias. Na capitania da Paraíba, o ofício de provedor da fazenda foi ocupado pela família Dourado entre 1682 e 1733. No caso, o ofício foi pedido como mercê pelos serviços de Luís Quaresma na guerra contra os holandeses, falecendo aquele, o ofício foi herdado por seu filho primogênito Salvador Quaresma Dourado.155

153 BRASIL. Ministério da Fazenda. “Alfândega – Santos”. Disponível em: http://www.receita.fazenda.gov.

br/Historico/SRF/historia/catalogo/letraA/alfandegas/alf_s.htm. Acesso em: 27 fev. 2010. A listagem não inclui os provedores e tesoureiros dos quintos do ouro em São Paulo, entre os quais constava Sebastião Fernandes do Rego, célebre pelo cunho falso e pelo roubo dos quintos, protegido de Rodrigo César de Menezes e acusado no governo seguinte. Sobre o envolvimento deste provedor e de Rodrigo César de Meneses em fraudes na arrecadação dos quintos do ouro de Cuiabá ver JESUS, Nauk Maria de. As versões do ouro em chumbo: a elite imperial e o descaminho do ouro na fronteira oeste da América portuguesa (1722-1728). In: FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima (Orgs.). Na trama das redes: política e negócios no império português, séculos XVI-XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. p. 525-548.

154 STUMPF, Roberta Giannubilo. Cavaleiros do ouro e outras trajetórias nobilitantes: as solicitações de hábitos das ordens militares nas Minas setecentistas. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Brasília, Brasília, 2009. p. 159-160, 198.

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No Rio de Janeiro, a despeito de inúmeras denúncias sobre cobranças extorsivas e arrematações ilícitas, o ofício de provedor ficou nas mãos da família Frazão de Souza entre 1639 e 1687.156 Nota-se, assim, como o caráter patrimonial do ofício estava

entrelaçado à lógica de concessão de mercês angariadas por famílias importantes das capitanias.

Na capitania de São Vicente, além de ser capitão-mor governador, alcaide-mor e cavaleiro fidalgo, o célebre Brás Cubas foi o primeiro a receber a mercê do cargo de provedor da fazenda, embora outros houvessem ocupado o cargo anteriormente desde 1532. Por volta de 1540, Pedro Henriques, escrivão particular do rei d. João III, recebeu o ofício de provedor da capitania, mas nunca chegou a ocupá-lo. O ofício havia sido concedido em mercê pelo donatário Martim Afonso de Sousa. O cargo foi ocupado por Brás Cubas entre 1552 e 1592, sendo depois transmitido para seu filho, Pedro Cubas, que nele permaneceu como titular até 1615. Não obstante, o ofício foi exercido por terceiros durante certos períodos.157

Para se ter acesso ao cargo de provedor e contador da Fazenda Real era preciso ser membro das famílias proeminentes da capitania, não ter servido em ofícios mecânicos e ter limpeza de sangue, ou seja, não ter antepassados mouros e judeus. Uma vez que a posse do cargo fosse adquirida, poderia ser passado de pai para filho, caso este tivesse condições de se habilitar para o ofício. Em alguns períodos, especialmente quando o ocupante era ainda menor de idade, o cargo podia ser exercido por serventuários nomeados por seu representante e aprovados pelo capitão-mor e governador da capitania. Em 1644, a mercê do ofício foi concedida a Sebastião Fernandes Correia, casado com Ângela de Siqueira. Ambos eram naturais de São Paulo e moradores em Santos. A concessão realizada em 1644 apenas parecia corroborar o exercício do cargo, pois Correia já havia permanecido no cargo entre 1636 e 1639, retomando-o depois em 1640 e conservando-o em seu poder até 1657. A morte de Correia permitiu a transmissão do cargo para seu filho, Timóteo Correia de Góis. Timóteo casou-se com Maria Leme das Neves, da família dos Godói Moreira e dos Leme. O filho mais velho do casal seria justamente José de Godói Moreira, provedor por longo

156 FRAGOSO, A nobreza da República, op. cit., p. 79.

157 LEME, Pedro Taques de Almeida Pais. História da capitania de São Vicente. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2004. (Edições do Senado Federal, v. 25). p. 124. BRASIL. Ministério da Fazenda. “Provedorias da Fazenda Real”. Disponível em: http://www.receita.fazenda.gov.br/Memoria/ administracao/reparticoes/colonia/provedfazreal.asp. Acesso em: 3 abr. 2012.

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tempo da fazenda paulista (1734-1765). Assim, entre 1644 e 1765, com pequenas exceções, a posse do ofício de provedor da fazenda ficou nas mãos de uma única família paulista.158

Ocupar o cargo de provedor da fazenda era envolver-se em uma trama de vínculos dos potentados locais da capitania. Ângela de Siqueira havia se casado em segundas núpcias com Pedro Taques de Almeida, permitindo o acesso do jovem Timóteo Correia de Góis a toda às famílias Taques e Almeida. Ademais seus tios maternos eram pertencentes à família dos Barros, incluindo o sertanista Fernão Pais de Barros. A força destas relações mostra-se por ocasião da tomada dos direitos pertencentes a Timóteo sobre mercadorias desembarcadas em Santos pelo comerciante José Pinheiro, protegido de Diogo Pinto do Rego, capitão-mor da vila de Santos. As disputas desembocaram em conflito armado na vila de Santos, para os quais concorreram cerca de mil pessoas do lado do provedor da fazenda e apenas cem para a defesa de Diogo Pinto do Rego.159

Além dos vínculos com outras famílias, os Godói Moreira, descendentes de Baltazar de Godói e Paula Moreira, detiveram cargos importantes em toda a capitania ao longo do século XVII e nas primeiras décadas do seguinte, especialmente em Atibaia, Jacareí, Mogi das Cruzes, Nazaré, Parnaíba e São Paulo. O capitão de Mogi das Cruzes, Manuel Pimenta de Abreu, casado com Maria de Godói de Almeida, ajudara na defesa da praça de Santos, sustentando com recursos próprios seus soldados, durante a ocupação do Rio de Janeiro pelos franceses. Também teve importância nesta defesa, Tomé Moreira Velho, no cargo de sargento-mor dos auxiliares. O coronel Jorge Moreira de Godói foi coronel de ordenanças em São Paulo, ocupando altos cargos no governo da cidade. Seu irmão, Gaspar Gonçalves Moreira fez grande fortuna.160

Falecendo Timóteo Correia de Góis ao final de 1732, o governador da capitania, o conde de Sarzedas, nomeou Antonio Francisco Lustosa para provedor interino da fazenda, enquanto o rei não nomeasse outro para o cargo. Os critérios do governador baseavam-se na “idoneidade, cabedais e capacidade”, entendendo-se esta última como o

158 RICHA, Lênio Luiz. Estado de São Paulo: os títulos perdidos. Disponível em:

http://www.genealogiabrasileira.com/titulos_perdidos/cantagalo_ptfreitas.htm. Aces-so em: 3 abr. 2012. DI, v. 13, p. 208-214. Anexo D. AHU-SP, Mendes Gouvêa, cx. 12, doc. 1148. São Paulo, 16 ago. 1736. Carta do ouvidor-geral da comarca de São Paulo, João Rodrigues Campelo, para d. João V. Gen. Paul., v. 6, p. 111. RGCMSP, v. 3, p. 487-489. Santos, 14 ago. 1685. Registro da provisão de provedor da fazenda real passada a Gaspar Gonçalves.

159 Gen. Paul., v. 7, p. 192-199. 160 Gen. Paul., v. 6, tit. Godoys.

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conhecimento de operações contábeis. Lustosa permaneceu no cargo ao menos até 1735.161 No entanto, José de Godói Moreira acabou pleiteando o ofício de provedor

conforme petição ao Conselho Ultramarino. Os critérios de sua defesa fundavam-se na tradição, notabilidade e limpeza de sangue. Era filho legítimo e primogênito do provedor da fazenda anterior e pertencia às famílias Godói Moreira e Leme com certa nobreza na capitania.162

É interessante notar que a afirmação de limpeza de sangue baseava-se na declaração do pretendente ao cargo, porém não se tem notícia de uma correta apuração pelo Conselho Ultramarino para a nomeação de Godói Moreira. Talvez nem mesmo tenha sido realizada, uma vez que no processo de habilitação a familiar do Santo Ofício, efetuado depois da nomeação ao cargo de provedor, constassem rumores a respeito da legitimidade do seu nascimento e de não ser completamente cristão-velho por parte paterna e materna. Porém a despeito dos boatos, em seu processo constava que fosse “pessoa de bons procedimentos, vida e costumes”, vivendo “limpa e abastadamente” com uma fortuna avaliada entre 4:000$000 réis e quase 5:000$000 réis, segundo a descrição do reitor do Colégio de Santos, encarregado da diligência na vila. Portanto, para ocupar o cargo de provedor da Fazenda era necessário mais limpeza de sangue do que capacidade técnica, mesmo que a pureza dos candidatos não fosse tão evidente. Porém, um critério comum para a ocupação do ofício de forma interina ou permanente era a existência de posses, possivelmente para se evitar o risco de dilapidação das rendas da provedoria pelos oficiais.163

161 DI, v. 40, p. 36-37. São Paulo, 23 nov. 1732. DI, v. 40, p. 45-46. São Paulo, 21 set. 1733. Ofícios do governador e capitão-general da capitania de São Paulo, conde de Sarzedas, ao rei d. João V.

162 AHU-SP, cx. 2, doc. 35. Anterior a 3 jan. 1735. Requerimento de José Godói Moreira ao rei d. João V. 163 ANTT, HSO, mç. 50, dilig. 797, José Godói Moreira. fl. 3v.

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Tabela II.3. Cargos e remunerações da Provedoria da Fazenda de São Paulo (1724)

(em réis, por ano)

Ordenado Emolumentos

Vedor geral - -

Provedor e contador da Fazenda e juiz da alfândega 80$000 50$000 Escrivão da Fazenda Real e almoxarifado 6$400 32$000

Escrivão da alfândega - 48$000

Escrivão da matrícula 10$000 80$000 Escrivão dos contos (cargo anexo ao de escrivão da matrícula) - -

Meirinho da alfândega - 36$000

Almoxarife da Fazenda Real 20$000 -

Guarda-mor da alfândega - 1$600

Fonte

DI, v. 18, p. 124-126. Santos, 17 ago. 1724. “Relação dos ordenados e emolumentos dos oficiais da Fazenda Real desta praça de Santos”.

A estrutura da Real Fazenda paulista na primeira metade do século XVIII era bastante simples. Em 1724, havia apenas nove funcionários: vedor geral, provedor e contador da fazenda (que acumulava o cargo de juiz da alfândega), escrivão da Fazenda Real e almoxarifado, escrivão da matrícula, escrivão dos contos, almoxarife da Real Fazenda, escrivão da alfândega, meirinho da alfândega e guarda-mor da alfândega. A remuneração dos cargos dependia dos ordenados e de emolumentos cobrados sobre despachos de sumacas, mercadorias, escravos e arrematações dos contratos, sendo que alguns cargos não recebiam ordenados, apenas emolumentos, e outros não recebiam nenhum dos dois (ver TABELA II.3).

O provedor era o funcionário que recebia maiores vencimentos: 80$000 réis de ordenado e 50$000 réis de emolumentos. Após consulta no Conselho Ultramarino, o ordenado foi elevado para 320$000 réis em 1744, uma vez que o provedor da fazenda alegasse grande trabalho devido ao crescimento da jurisdição da capitania. 164 Apesar do

acréscimo, o valor era inferior ao ordenado de juiz de fora (360$000 réis) ou dos ouvidores das comarcas (440$000-600$000 réis) presentes na folha de despesas da capitania em 1747.165 Mesmo antes, o valor pago ao provedor era um vigésimo do

164 DH, v. 1, p. 466-467. Lisboa, 15 abr. 1744. Ofício do rei d. João V ao provedor da fazenda da praça de Santos, José de Godói Moreira.

165 AHU-SP, Mendes Gouvêa, cx. 19, doc. 1831. Santos, 23 fev. 1749. Carta do provedor da Fazenda Real de Santos, José de Godói Moreira, a d. João V.

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ordenado do provedor da capitania vizinha de Minas Gerais (1:600$000 réis, entre 1722 e 1727), ainda que próximo ao ordenado pago ao provedor da Paraíba (70$000 réis., até 1733).166

Por sua vez, compensava-se o baixo ordenado de provedor da fazenda com as rendas, nem sempre lícitas, dos emolumentos. Após denúncia do governador, d. João V recriminara fortemente a cobrança ilegal e extorsiva de emolumentos pelo provedor sobre as cartas de guia daqueles que passavam com seus escravos da capitania de São Paulo ao Rio de Janeiro. Por fim, é preciso considerar ainda o valor considerável das propinas recebidas pelos contratos arrematados na Provedoria.167

Outro aspecto que trazia grande prestígio social ao provedor era a extensa malha de dependentes dos gastos da Real Fazenda. Ainda que o provedor apenas cumprisse ordens régias, obrigatoriamente entrava em contato com toda a rede da administração colonial existente na capitania: o capitão-general, o governador da praça de Santos, o oficialato superior das tropas, os soldados, os ministros da justiça, os outros oficiais da fazenda, o bispo, os vigários e os coadjutores. Em 1725, os dependentes representavam 229 pessoas e, em 1747, 353 pessoas, apresentando um crescimento de 54%. Os soldados formavam o maior contingente, com 60 e 50% do total de dependentes nos dois períodos. Em conjunto com os artilheiros e os cabos de esquadra constituíam 76%, em 1725, e 67% do total, em 1747. A quantidade de oficiais de justiça e fazenda era bastante reduzida, apenas 3% do total nos dois períodos. O número de religiosos na capitania apresentou o maior crescimento, passando de 8 para 18% do total entre 1725 e 1747, devido, sobretudo, à criação do bispado na capitania.168

As denúncias contra os abusos dos provedores são particularmente marcantes ao final do século XVII. Além do descaminho de mercadorias, o provedor do Rio de Janeiro não realizava os pagamentos integrais dos contratos, mantendo para si parte das prestações. Ademais, aponta-se que o provedor interferia na realização dos leilões, permitindo-se inclusive escolher os lançadores e impedindo, desta forma, o crescimento do preço dos contratos. Conta-se que até mesmo um criado do provedor da fazenda

166 CARRARA, Receitas e despesas da Real Fazenda no Brasil: século XVIII, op. cit., p. 42. MENEZES, Colonialismo em ação, op. cit., p. 164.

167 DI, v. 40, p. 109-110. Lisboa, 5 fev. 1734. Ofício do rei d. João V ao conde de Sarzedas, governador e capitão-general da capitania de São Paulo.

168 AHU-SP, Mendes Gouvêa, cx. 4, doc. 510. Santos, 30 jan. 1726. Carta do provedor da fazenda da vila de Santos, Timóteo Correia de Góis, a d. João V. AHU-SP, Mendes Gouvêa, cx. 19, doc. 1831. Santos, 23 fev. 1749. Carta do provedor da Fazenda Real de Santos, José de Godói Moreira a d. João V.

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Tomé de Sousa Correia, que aparece como provedor em 1680, havia arrematado o contrato da pesca das baleias no Rio de Janeiro. Por fim, não era incomum que o próprio provedor da fazenda atuasse como arrematante nos contratos, nem sempre cumprindo os pagamentos, conforme os exemplos da pesca da baleia no Rio de Janeiro no último quartel do século XVII. Quando agiam como arrematantes, seguramente os provedores limitavam o crescimento dos preços dos contratos. A Coroa protegia-se destes conluios, promovendo devassas, realizadas após denúncias das autoridades locais. Não era incomum ver um antigo provedor e contratador, mesmo que bem alicerçado na sociedade local, ser preso e degredado para a Colônia de Sacramento.169

Tendo em vista a influência dos provedores sobre as arrematações, a acumulação indevida de emolumentos e o amplo contingente de dependentes dos dispêndios da

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