Embora exista a expectativa de que um aumento na importância relativa de medidas não- financeiras de desempenho afete positivamente OTG, estudos contábeis têm demonstrado que esse efeito não é tão geral quanto parece. O efeito do uso da medida de desempenho sobre OTG parece depender da percepção cognitiva dos gestores quanto aos impactos de longo- prazo de seus esforços (DIKOLLI, 2001; DUTTA; REICHELSTEIN, 2003; HOSKISSON et al, 1993).
Percebe-se o período de avaliação de desempenho como um dos mecanismos cognitivos que podem afetar as preferências temporais dos indivíduos. Pressões externas e internas exercidas por meio de um período muito curto de avaliação de desempenho são indicadas como as causadoras de uma orientação temporal de curto-prazo (DEMIRAG 1995a; 1995b; DRUCKER, 1986; LAVERTY, 1996; JOHNSON; KAPLAN, 1987).
Portanto, a literatura contábil tem sugerido que um período de avaliação mais de curto-prazo induz os gestores a uma orientação temporal mais de curto-prazo. Por sua vez, um período de
avaliação mais de longo-prazo tem sido sugerido como capaz de direcionar a atenção dos gestores para um futuro distante (VAN RINSUM, 2006; BHOJRAJ; LIBBY, 2005). Espera-se assim que um período de avaliação mais de longo-prazo possa incentivar os gestores a considerarem os efeitos de longo-prazo de seus esforços.
Tal expectativa está de acordo com aversão míope à perda em que se prediz que, indivíduos adversos à perda, serão mais propensos a assumir riscos se tiverem o desempenho avaliado menos frequentemente, representando um período de avaliação mais de longo-prazo; por sua vez, existe a expectativa de as pessoas serem menos propensas a assumir riscos, se tiverem o desempenho avaliado com mais frequência, implicando o uso de períodos de curto-prazo para o fornecimento de informações de desempenho (BERNARTZI; THALER, 1995). Portanto, se indivíduos tomarem decisões com base em frequentes relatórios de desempenho, nos quais não é possível a avaliação dos resultados de longo-prazo de seus esforços, eles, provavelmente, serão orientados para o curto-prazo, na medida em que o risco associado é relativamente menor (PRELEC; LOEWENSTEIN, 1991); enquanto que se eles forem avaliados em bases menos frequentes em que se torna possível a percepção da sequência de resultados ao longo do tempo, eles provavelmente pensarão sobre as consequências de longo- prazo de seus esforços, resultando em orientação temporal mais de longo-prazo (LOEWENSTEIN; PRELEC, 1993).
Em termos de decisões de investimento, evidências baseadas nos pressupostos de aversão míope à perda têm demonstrado que um período de avaliação de curto-prazo induz os indivíduos a reduzir o nível de investimento, conduzindo-os a uma orientação temporal de curto-prazo; o que não ocorre diante de uma baixa frequência de avaliação, na qual os gestores são incentivados a aumentarem o nível de investimento e, assim, a terem orientação temporal de longo-prazo (GNEEZY; POTTERS, 1997; THALER et al, 1997; BERNARTZI; THALER, 1999; GNEEZY et al, 2003; BELLEMARE et al, 2005; SUTTER, 2007).
Teorias de motivação no trabalho também predizem o efeito da frequência de avaliação de desempenho sobre o comportamento dos gestores. A expectativa é de que mais frequentes informações de desempenho afetem positivamente a motivação dos indivíduos (BANDURA, 1991; LOCKE et al, 1981; LATHAM; LOCKE, 1991; WOOD; BANDURA, 1989; BANDURA; CERVONE, 1983; SCHMIDT; DESHON, 2007). Apesar dessa expectativa de que, em um sentido absoluto, informações de desempenho mais frequentes provoquem um
efeito positivo sobre os indivíduos e de que informações menos frequentes resultem em um efeito motivacional negativo, estudos têm demonstrado resultados divergentes (CHHOKAR; WALLIN, 1984; LURIE; SWAMINATHAN, 2009).
Uma das possíveis razões para que informações de desempenho mais frequentes não provoquem sempre um efeito motivacional positivo sobre os indivíduos decorre do tipo de tarefa que estiver sendo desempenhada (LUCKETT; EGGLETON, 1991). Portanto, é possível esperar que, em um sentido relativo, o efeito da frequência de informações de desempenho sobre o comportamento dos gestores seja diferente em função do tipo de tarefa que estiver sendo desempenhada e, mais precisamente, em função de que momento, no tempo, ocorrerá o impacto financeiro dessas tarefas.
Espera-se então que um período de avaliação mais de curto-prazo afete negativamente OTG, induzindo os gestores a preferirem alocar mais esforços a tarefas, cujos efeitos financeiros são de curto-prazo; período de avaliação mais de longo-prazo, por sua vez, provocaria um impacto positivo sobre OTG, encorajando os gestores a destinarem mais esforços em tarefas com efeitos financeiros de longo-prazo. Estudos em contabilidade têm confirmado essas expectativas, seja enfatizando o efeito indireto decorrente de tipos de incentivo com diferentes períodos de avaliação (p. ex. LEWELLEN et al, 1987; LARCKER, 1983; BUSHMAN et al, 1996), seja considerando o efeito direto do período de avaliação (p. ex. MERCHANT, 1990; HOSKISSON et al, 1993; BHOJRAJ; LIBBY, 2005; VAN RINSUM, 2006).
Tendo por base essas expectativas e evidências empíricas, a seguinte hipótese é elaborada predizendo o efeito direto do período de avaliação sobre OTG (Figura 11):
H2a: um período de avaliação mais de longo-prazo (curto-prazo), usado para os propósitos de incentivo, afeta positivamente (negativamente) OTG.
É provável que a importância relativa de uma medida de desempenho, se financeira ou não- financeira, e o período de avaliação de desempenho, se de curto ou de longo-prazo, interajam para afetar OTG (HOSKISSON et al, 1993; FREDERICKSON et al, 1999; BHOJRAJ; LIBBY, 2005; VAN RINSUM, 2006). O efeito de um período de avaliação sobre o comportamento gerencial dependerá do tipo de indicador de desempenho que for mais importante durante a análise do relatório de desempenho; do mesmo modo que o efeito do tipo de indicador de desempenho vai depender do período de avaliação que for considerado.
Desse modo, o efeito de medidas financeiras de desempenho poderia ser decorrente de um período de avaliação de curto-prazo normalmente utilizado para avaliação de desempenho dos gestores, sendo que, quando esses indicadores financeiros estão associados com um período de avaliação mais de longo-prazo, orientação temporal de curto-prazo é reduzida (HOSKISSON et al, 1993). Significa dizer que indicadores financeiros são capazes de capturar esforços de longo-prazo com alguma defasagem temporal (DIKOLLI; VAYSMAN, 2006), o que pode ser refletido em relatórios de desempenho que consideram um período de avaliação mais de longo-prazo.
Portanto, o efeito sobre OTG não seria decorrente apenas do uso de um indicador financeiro, mas também da tentativa de mensurar o desempenho gerencial dentro de um período de tempo tão curto que não se permite que as consequências de longo-prazo, decorrentes de decisões de curto-prazo, possam ser avaliadas (JOHNSON; KAPLAN, 1987). Espera-se, assim, que o efeito de uma menor importância relativa de indicadores não-financeiros de desempenho sobre OTG seja intensificado, quando um período de avaliação mais de curto- prazo for considerando; por sua vez, esse efeito seria reduzido pelo uso de um período de avaliação mais de longo-prazo.
Situação inversa seria encontrada, quando medidas não-financeiras de desempenho forem relativamente mais importantes para os propósitos de incentivo. Medidas não-financeiras são indicadas como capazes de encorajar uma orientação temporal mais de longo-prazo e, consequentemente, induzir os gestores a também alocarem tempo e esforço em tarefas que afetam resultados de longo-prazo (KAPLAN; NORTON, 1996; ITTNER; LARCKER, 1998; SLIWKA, 2002). Entretanto, esse efeito positivo, provocado por medidas não-financeiras de desempenho sobre OTG, poderia ser reduzido pela presença de um período de avaliação de curto-prazo, enquanto poderia ser intensificado com o uso de um período de avaliação de
longo-prazo (VAN RINSUM, 2006). É possível então dizer que o efeito da importância relativa de um indicador não-financeiro de desempenho sobre OTG é reduzido, quando um período de avaliação de curto-prazo é considerado; enquanto que esse efeito seria intensificado pela presença de um período de avaliação de longo-prazo.
Em resumo, espera-se que um período de avaliação de mais curto-prazo intensifique o efeito que uma menor importância relativa atribuída a medidas não-financeiras de desempenho provoca sobre OTG, ao mesmo tempo em que reduza o impacto de uma maior importância relativa dessas medidas sobre OTG. Por sua vez, um período de avaliação mais de longo- prazo reduziria o efeito relativo provocado por uma menor importância de medidas não- financeiras de desempenho sobre OTG e intensificaria o impacto relativo de uma maior importância dessas medidas sobre OTG.
Estudos contábeis têm confirmado tal expectativa. Hoskinsson et al (1993), por exemplo, indicam que quando medidas financeiras de retorno são mais relevantes no plano de remuneração gerencial e estão associadas com um período de avaliação mais de curto-prazo, os gestores tendem a não realizar investimentos com efeitos de longo-prazo, enquanto que esse efeito é reduzido pelo uso de períodos de avaliação de mais longo-prazo. Em um experimento, Bhojraj e Libby (2005) apontam que a escolha entre projetos com diferentes perfis de retorno financeiro dependerá também do período de avaliação que estiver sendo considerado, sendo que evidenciação menos frequente reduz orientação temporal de curto- prazo.
Van Rinsum (2006) investiga o efeito direto e interativo de medidas de tendência e período de avaliação e indica que o efeito positivo do uso de uma medida de desempenho com alto nível de tendência é maior quando um período de avaliação de longo-prazo é utilizado. Diferentemente de Van Rinsum (2006), este estudo não investiga o efeito interativo entre o período de avaliação e uma propriedade das medidas de desempenho, nível de tendência, mas a interação inclui a importância relativa atribuída aos tipos de medidas de desempenho, financeiras ou não-financeiras, com a expectativa de que um período de avaliação mais de longo-prazo intensifique o efeito positivo que uma maior importância relativa de medidas não-financeiras de desempenho provoca sobre OTG.
Tendo por base essas expectativas e evidências empíricas e experimentais quanto ao efeito interativo do tipo de medida de desempenho e do período de avaliação sobre OTG, a seguinte hipótese é elaborada (Figura 12):
H2b: o efeito positivo (negativo) de uma maior (menor) importância relativa de medidas não-financeiras, usadas para os propósitos de incentivo, sobre OTG, é maior no caso de um período de avaliação mais de longo-prazo (curto-prazo) do que de um mais de curto- prazo (longo-prazo).
Figura 12 – Efeito interativo entre a importância relativa da medida não-financeira de desempenho e o período de avaliação sobre OTG
3.3 Momento de Recebimento da Remuneração, Período de Avaliação e Tipo de